Stay With Me escrita por Valdie Black


Capítulo 1
Noite fria




Já tinha passado da meia-noite e fazia um frio dos diabos. Era oficialmente véspera de natal, uma data horrível para John Smith por vários motivos. Ironicamente era a data pela qual ele mais ansiava antes do ocorrido.

Vestiu um casaco e foi dar uma caminhada. As ruas estavam mais movimentadas do que de costume, perguntou-se quantas daquelas pessoas sentiam-se tão solitárias quanto ele. Talvez nem se importassem com a data. Era só uma desculpa para ganhar presentes.

Subiu na ponte, se distanciando do frenesi das compras que somente o mês de dezembro conseguia provocar. Estava mais calmo ali em cima. Havia apenas outra pessoa caminhando há alguns metros de distância, tão sozinha quanto ele. John a observava para ocupar sua mente com alguma coisa que não fosse sua vida fracassada. Pensou ser uma mulher por causa da estatura e formato do corpo, devia ser jovem ou não estaria andando tão rápido. O que ele não daria para ter a mesma idade que ela novamente? Viver sem esse peso nas costas. Tudo era tão mais fácil quando ele era jovem.

A mulher então parou e segurou-se no corrimão. John também parou, sem entender por que a estava imitando. Quem era ela? O que estava fazendo ali? Tinha se perdido como ele? Então ele compreendeu. A mulher passou as pernas por cima do corrimão e jogou-se da ponte. John imediatamente correu até onde ela estava, novamente amaldiçoando-se por ser tão velho e lento.

Olhou para baixo e a viu debater-se na água e depois afundar. Apesar de toda sua razão ter sido contra, ele passou por cima do corrimão e também saltou. O impacto na água gelada quase o fez desmaiar, mas sua determinação o manteve aquecido. Viu o corpo dela afundando e nadou em sua direção. Apanhou-a pela cintura e a puxou para a superfície. O frio ficou ainda pior quando sentiu o vento no rosto. A mulher estava desacordada e ele a segurou o melhor que podia enquanto nadava até a terra firme.

Um grupo de curiosos começou a se formar assim que perceberam o que estava acontecendo. Quando saiu da água John colocou o corpo dela no chão.

— Ligue para a emergência. - disse a ninguém em especial. Sua voz saiu no sussurro e talvez não o tenham ouvido.

Sentiu seu pulso e confirmou que ela ainda estava viva, mas não iria durar muito tempo se nada fosse feito. Abriu sua boca e soprou oxigênio para os seus pulmões.

— Vamos… fique comigo. - falou enquanto tentava acordá-la.

Ela finalmente acordou cuspindo a água que tinha engolido, mas depressa voltou a desmaiar.

***

Não pretendia voltar ao hospital naquela noite, dentre todas as outras, porém era uma emergência. Sentia que aquela mulher era sua paciente mesmo que ele não praticasse medicina há anos.

— A Missy está aqui hoje? - perguntou à primeira enfermeira que encontrou no seu caminho. Ela o olhou confusa.

— Sim…

— Leve esta paciente até ela. - falou, apontando para a maca que desciam da ambulância. - Ninguém mais. Se ela estiver ocupada diga que foi um pedido do Dr. John Smith e que é importante.

A enfermeira ainda não entendia, mas concordou. Eles levaram a mulher embora e John sentiu uma apreensão enorme.

— Senhor, precisamos examiná-lo também. - disse outra enfermeira.

— Não é necessário. Eu estou bem, só preciso ir para casa trocar de roupa.

— Senhor, não podemos deixá-lo ir embora sem examiná-lo.

John sabia disso, mas temia ser reconhecido se passasse muito tempo ali. Não queria encontrar mais ninguém do seu passado. Porém, ele não podia fugir e além disso queria saber o que aconteceria com a mulher que tirou da água. Não a julgava por querer se matar. Sabia muito bem que viver era difícil. Ele próprio já pensara várias vezes em tirar sua vida, e de certa forma o alcoolismo tinha sido uma espécie de suicídio.

Talvez os jovens não fossem tão felizes assim.

Os exames demoraram horas. Substituíram suas roupas molhadas pelo avental do hospital. John sentia-se exposto e vulnerável. Gostaria muito de ir embora, mas primeiro tinha de descobrir como estava a mulher. Eis que sua antiga colega aparece para uma visita na sala de emergência.

— Por quatro anos você não fala comigo e de repente me vêm aqui com uma garota afogada.

— Missy!

John endireitou seu avental o melhor que pôde. Não se sentia muito confortável naquela cena. Missy prosseguiu.

— Isso são modos, John? Devia ter me dado um presente, pelo menos. Flores ou chocolate. Bem, eu estou de dieta, mas…

— Como ela está? Ela está bem? Alguma coisa grave aconteceu?

— Acalme-se, homem, ela está bem. Você acha que eu ia vir aqui conversar com você se alguma coisa errada tivesse acontecido? Aliás, quem é ela? Não achamos nenhum documento dela.

John encolheu os ombros.

— Não a conheço. Apenas a vi caindo da ponte.

— Ela não se jogou?

— Não. - falou depressa, sabendo que se descobrissem a tentativa de suicídio teriam que chamar a polícia.

Missy provavelmente não tinha acreditado, mas não insistiu no assunto.

— Pensei que era alguma conhecida sua, já que você está tão preocupado com ela.

— Me preocupo com as pessoas. Não perdi esse meu lado.

— Certo… mas ainda preciso de um nome para colocar na ficha.

— Coloque o meu. Eu pago por tudo.

Missy arqueou as sobrancelhas.

— Como queira, Sr. “Me Preocupo Com As Pessoas”.

Ela virou-se para ir embora mas John a interrompeu.

— Missy. Eu… hum… é bom revê-la.

John percebeu que tinha sentido falta dela. Missy deu um leve sorriso.

— É bom revê-lo também, John.

***

Clara acordou lentamente. Sentia o rosto arder e o resto do corpo estava dolorido. Lembrava-se do que tinha feito mas apesar de estar usando branco ela não acreditava que tinha morrido e ido parar no céu. Só poderia estar num hospital.

— Olá. - disse uma voz masculina ao seu lado. - Como você está?

Ela apenas fez careta. Mas que raio de pergunta era aquela? O homem continuou a falar.

— Meu nome é John. Eu a trouxe para cá. Você sabe onde está?

— Sim. - disse, simplesmente. Irritou-se com o tom de voz do outro. Falava como se ela fosse uma criança tola.

— Estou muito contente por você ter sobrevivido. Será que posso saber seu nome?

— Como pode estar “muito contente”? Nós nem nos conhecemos.

Clara virou o rosto para vê-lo. Era um homem mais velho, parecia exausto com aquelas olheiras escuras mas o brilho em seus olhos não negava o fato de que ele estava feliz em tê-la salvo.

— Eu costumava ser médico, acho que ainda tenho esse complexo de herói… além disso você é muito jovem para… acho que tem uma vida muito bonita pela frente.

Ela desviou o olhar dele imediatamente. Detestava quando as pessoas falavam de sua juventude ou de como tudo ia ficar bem no futuro.

— Você ainda não me disse o seu nome.

— Não é da sua conta.

John não se intimidou com o seu tom rude.

— Você tem alguém que eu possa chamar para ajudá-la?

Clara pensou na sua amiga Amy que passava o natal com a família na Escócia, depois pensou na sua própria família e em quanto ela gostaria de nunca mais vê-los.

— Não.

— Você tem uma casa para ficar?

Encolheu-se. Ela tampouco queria voltar para casa. John prosseguiu quando não teve resposta.

— É só que o hospital não vai deixá-la ficar aqui por muito tempo depois que receber alta. Pode ficar na minha casa, se quiser, eu tenho um quarto de hóspedes. Sei que sou um estranho, mas a sua médica é uma antiga amiga minha e ela pode acompanhá-la.

— Por quê você não é mais um médico?

Ele hesitou.

— Perdi algumas pessoas que amava e depois disso achei impossível continuar vivendo normalmente.

Voltou a olhá-lo.

— Sinto muito.

John assentiu.

— Tudo bem. Às vezes eu sinto vontade de me juntar a elas, mas depois lembro-me que ainda tenho amigos aqui que sentiriam minha falta.

— Deve ser cansativo viver por causa dos outros.

— Muito.

Ela piscou os olhos, analisando-o.

— Clara. - disse. - Meu nome é “Clara”.





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