Ametista escrita por Karina A de Souza


Capítulo 9
Não, você não pirou, isso aqui é confuso mesmo


Notas iniciais do capítulo

O título meio que diz tudo. Pode ser bem estranho, até vocês entenderem.
O capítulo em questão não é "tiro, porrada e bomba", mas eu considero um capítulo importante por algumas razões até... Pessoais.
Espero que gostem... De alguma forma.



Sentei na cama, bocejando e esticando os braços, numa tentativa inútil de espantar o sono. O relógio ao meu lado dizia que era nove da manhã.
—Já estava achando que tinha entrado em coma. -Jack zombou, entrando no quarto com uma bandeja cheia de coisas.
—Café da manhã na cama? Jack Harkness, você é um clichê adorável.
—Pode continuar os elogios, não tenho nada contra. -Deixou a bandeja no meu colo. Havia suco, café, torradas, biscoitos... Que bicho tinha mordido Jack essa manhã?
—Você fez tudo isso?
—Eu saí pra comprar... Então posso dizer que sim. -Sentou na minha frente. -Você perdeu de novo, Tis.
—Perdi o que?
—A aliança. Ela não foi nem um pouco barata, eu tomei dois tiros ao roubá-la do cofre real de Isália.
—Aliança?-Começou a mexer no meu criado mudo.
—Achei. Aqui. -Colocou a aliança no meu dedo. -Você vive perdendo por aí. Eu não tiro a minha. -Ergueu a mão, apontando para o círculo dourado em seu dedo anelar. -Viu? Eu disse que era bobagem usar alianças, que não era preciso, mas você insistiu. “Se vamos casar, então faremos direito”.
—Bem... Acho... Eu...
—Tis?
—Só estou exausta, e então não penso direito. -Peguei um dos biscoitos, mordendo um grande pedaço.
—O Doutor ligou.
—O que ele disse?
—Que talvez nos leve para aquela Colônia em Júpiter que você ficou falando semana passada. Mas ele precisa fazer umas coisas antes. Algo relacionado à... Uma garota. Não entendi bem, a ligação estava horrível por causa dos asteroides em volta da TARDIS.
—Disse pra ele não se preocupar? Nós temos tempo.
—Disse. Disse que temos todo o tempo do mundo, agora que você é imortal. Ainda não acredito que conseguimos achar aquele elixir.
—Nem eu.
—Você já desfez as malas?-Ficou de pé. Havia três malas perto da porta. -Acho que nem precisa, vamos para Mumbai semana que vem.
—Vamos?
—Você esqueceu? Combinamos que iríamos a Mumbai, depois algum lugar na Turquia.
—Eu acabei de acordar, não seja exigente. -Bocejei de novo. -Acho que vou tomar um banho. Talvez me sinta mais disposta. Leva isso pra mim?-Entreguei a bandeja.
—Você é quem manda, Senhora Harkness.
—Não me chame de senhora.
—Você pode ter esse rostinho, mas já tem noventa anos, Tis.
—Amém elixir imortal.
Fui para o banheiro, prendendo o cabelo num coque e ligando o chuveiro. Meu rosto no espelho parecia cansado, mas era o rosto cansado de uma mulher jovem. Por que eu tinha conseguido. Eu era imortal agora.
Franzi a testa, eu estava tão pálida, inclusive meus lábios.
—Jack! Jack, vem aqui!-Apareceu na porta, e virei pra ele. -Acha que posso estar doente?
—Nós não ficamos doentes.
—Eu estou pálida feito um cadáver.
—Não, não está. -Olhei para o espelho. Minha pele estava como sempre. -Se quiser, podemos mudar nosso voo para algum lugar com praia e muito sol. Que tal no Brasil? Adoro o Carnaval brasileiro. Tis?
—Achei que eu...
—Você só está cansada. Lua de mel estendida, lembra?-Sorri, olhando-o através do espelho.
—É. Certo... Melhor eu tomar banho antes que gaste mais água.
—Eu posso te dar uma ajudinha. -Me virei, tirando a camiseta.
—Acho que vou aceitar.
***
—Tem um gato em cima da mesa. -Avisei. Jack tirou os olhos da televisão, onde assistia uma série qualquer e riu.
—Eu já disse pra ensinar o Loki a não subir na mesa, mas ninguém consegue controlar o seu gato.
—Meu gato?
—Até onde eu sei. Você o adotou faz uns dois meses, ele era de rua. Acho que a idade está fazendo mal à sua memória.
—Não estou ficando gagá. Eu só...
—Anda muito esquecida. É, eu sei. Já notei. Talvez devesse fazer alguns exercícios pra memória.
—Não preciso de exercícios pra memória. Não tenho... Aquela coisa de gente velha... Seja lá qual for o nome.
—Alzheimer.
—Que seja. -Espantei o gato negro de cima da mesa e abri a geladeira, pegando uma garrafa de água, então sei ao lado de Jack no sofá.
—Tá tudo bem?
—Eu tô ótima.
—Sabe, isso de esquecer algumas coisas é normal. Acontece o tempo todo comigo. É padrão pra quem vive muito. Não me lembro de tudo. E aposto que o Doutor também não. Não se preocupe.
—Eu não estou preocupada... Só...
A garrafa escorregou da minha mão, enquanto meu braço doía como se algo tivesse sendo arrancado dele. Gritei, segurando a área dolorida. Então, assim como a dor veio, desapareceu.
—Tis? O que foi? O que está sentindo?
—Nada. Já... Já passou. -Encarei meu braço.
—O que era?
—Não sei... Só... Doeu muito, mas já passou.
—Acho que vou ligar para o Doutor...
—Não. Não faça isso. Já estou bem.
—Tem certeza?-Olhei pra ele, forçando uma expressão tranquila.
—Tenho. Estou ótima.
—Certo. -Passou alguns segundos olhando para a TV, então virou pra mim de novo. -Alice ligou. Quer almoçar com a gente fim de semana.
—Alice?
—É. A minha filha.
—Ah. Achei que vocês não estavam se falando.
—Claro que estamos nos falando. Você conversou com ela quando ficamos noivos, lembra? Alice até foi no casamento, com meu neto.
—Jura?-Apontou para um dos porta retratos na parede. Nós dois, com Alice e Steven.
—Ametista?
—Eu... Acho que vou... -Fiquei de pé. -Hum...
Alguém bateu na porta. Jack me lançou um olhar preocupado e foi atender, dando de cara com o Doutor.
—Olá. Que bom encontrá-los em casa. -Abraçou Jack, então se aproximou, me abraçando também. -Acorde.
—O que disse?
—Disse que estava com saudade. -Se afastou. -Acorde, agora.
—Que?
—Acorde agora, por favor.
Abri os olhos com dificuldade. Meu corpo parecia tão pesado e tão vazio... Eu mal podia respirar. Meu braço direito doía, mas era uma dor distante, como se estivesse meio anestesiada.
—Ametista. -O Doutor se moveu para o meu campo de visão. Tentei me mexer, mas continuei apenas deitada numa superfície fria. -Ótimo. Permaneça acordada. -Abri a boca, nada saiu. -Você está muito fraca, é melhor não se esforçar. -Olhou para algo que eu não podia ver, então voltou a me encarar. -Vai ficar tudo bem, desde que você fique acordada. O processo fica mais rápido quando você fica inconsciente.
—O... Que... Está acontecendo?-Sussurrei. O Doutor hesitou.
—Você está tendo o sangue drenado.
Fechei os olhos. Eu estava morrendo... Eu ia...
—Achei que só o veríamos semana que vem. -Jack comentou, fechando a porta. O Doutor colocou as mãos nos bolsos do sobretudo.
—Eu estava na vizinhança e pensei em aparecer.
—Investigando alguma coisa?
—É. Havia boatos de uma nave que caiu na rua de trás, mas era só uns moleques fazendo graça para a internet.
—Ah, eles são terríveis. Tis quase acionou a Torchwood mês passado, quando os pestinhas fizeram uma pegadinha com ela. Ela levou cada um para casa, puxando a orelha deles. Foi hilário, não é?
—É, foi. -Murmurei.
—Você está bem?-O Doutor perguntou, virando pra mim.
—Estou.
—Acorde.
—Que?
—Eu disse “que bom”. E então... Vão me convidar para jantar aqui ou não?
***
A parede estava cheia de fotos. Na verdade, havia fotos na casa toda. Os nomes dos locais onde as fotos foram tiradas estavam escritos no canto inferior, com a minha letra.
—Planejam mais viagens?-O Doutor perguntou, sentado na minha frente.
—Vamos para Mumbai semana que vem. -Jack respondeu. -E depois, acredito, para a Turquia.
—Vocês acabaram de voltar de... Onde foram mesmo?
—Myanmar. Nós temos tempo para visitar tudo, mas há muitos lugares. Não é, Tis?
—É. -Respondi. -Claro. -O Doutor franziu a testa.
—Ela não está se sentindo bem hoje.
—Estou, sim. Só... -Meu braço direito doeu de novo, mas durou pouco tempo, e não foi tão forte quanto antes.
—Tis?
Levantei, passando por Jack e saindo de casa, me afastando o mais rápido possível.
Já tinha anoitecido, e não havia ninguém nas ruas. Era meio estranho. Era cedo demais para movimento nenhum.
—Ametista!-Jack chamou. Parei de andar, respirei fundo e me virei. -O que foi?
—Essa parece ser uma vida perfeita, mas não é real.
—É claro que é, Tis.
—Não. Não é. Eu estou morrendo. Isso aqui... Isso aqui é só uma... Sei lá, uma ilusão. E eu tenho que acordar.
—Você está feliz aqui. -Segurou minhas mãos. -Então por que não ficar? Sabe que essa é uma realidade melhor do que a sua.
—Se eu ficar aqui, vou morrer. Jack Harkness, o real Jack Harkness, jamais me diria para fazer algo que pode acabar me matando. -Recuei, me soltando.
—Se você ficar, viverá aqui para sempre. Não vai nem lembrar que existiu outra realidade.
—Não... Eu não posso ficar. Eu preciso acordar.
—Tis...
Fechei as mãos com força, as unhas se enterrando nas palmas. Eu tinha algumas cicatrizes de leve ali, cicatrizes reais, por causa desse gesto proposital. Gestos de uma garota desesperada.
—Tis... Por favor...
Abri os olhos. Estava no mundo real.
Consegui mover a cabeça lentamente. O Doutor estava abaixado, mexendo em algo que eu não podia ver, enquanto falava comigo.
—Talvez essa realidade seja boa... Talvez esteja vendo algo que sempre quis... Mas por favor... Eu não posso perder mais ninguém.
—Doutor. -Foi só um sussurro, mas ele ouviu. Se virou e ficou de pé.
—Você acordou.
—Não quero... Mais dormir.
—Eu consegui reverter o processo. Você vai ficar bem.
—Obrigada. -Sorriu. -O que... Aconteceu?
—Estávamos voltando para a TARDIS quando um dos strigoi surgiu do nada e nos atacou. Ele te trouxe pra cá como vingança. -Tentei olhar em volta. -Está tudo bem, ele se foi.
—Eu vou... Morrer?
—Não, não vai. -Olhou pra baixo, então voltou a me encarar. -Só precisa ser um pouco paciente. Perdeu uma quantia grande de sangue. Vamos ter que ficar aqui até repor tudo.
—Obrigada por... Fazer isso... Me salvar.
—Não achou que eu ia fugir e te deixar aqui, achou?
—As pessoas... Normalmente não se importam comigo. -Segurou minha mão.
—Tenho certeza que Jack se importa. E eu também. Somos um time agora, Ametista. Mesmo que você seja uma encrenqueira. -Tentei sorrir.
—Me conta alguma coisa. -Respirei fundo. -Só não... Me deixe dormir.
—Tudo bem. Hum... Ah. Uma vez eu estava no Brasil, e você não faz ideia do que aconteceu...
***
—Quer comer alguma coisa?-Jack perguntou, parando na porta do meu quarto. Me ajeitei cuidadosamente na cama.
—Não. O Doutor já me fez tomar umas sopas esquisitas no caminho pra casa. Só quero descansar um pouco.
—Okay... Se precisar de alguma coisa...
—Acho que preciso de companhia.
—Tudo bem. -Atravessou o quarto, deitando ao meu lado.
—Você podia cuidar de mim mais vezes.
—Aí você iria se machucar de propósito, só pra ficar sendo mimada e tudo mais. -Ri. -Como está se sentindo?-Encostei a cabeça no ombro dele.
—Cansada, estranha. O Doutor disse que podia acontecer.
—Ele contou que deram uma droga pra você que faz as pessoas ficarem presas numa fantasia perfeita. O que você viu?
—Eu... Não lembro.
—Não? As pessoas geralmente lembram.
—Foi um experiência traumática. Acho que eu não gostaria de lembrar.
Era mentira. Mas como eu diria para Jack que o mundo perfeito entregue à mim incluía uma vida incrível e imortal como sua esposa? Era melhor manter isso pra mim mesma. Eu tinha prática em guardar segredo. Esse seria só um de muitos outros.



Notas finais do capítulo

Jack realmente tem uma filha e um neto. Alice não se dá bem com o pai e filho dela nunca soube que Jack era seu avô. Na terceira temporada da série Torchwood, Jack fez algo tão... Bem, ele perdeu totalmente qualquer tipo de afeto vindo de Alice. Eu acredito que ela realmente passou a odiar o pai. Eu não vou dizer aqui o que Jack fez, por que é spoiler. Só vou dizer que é... Forte. A temporada toda teve elementos fortes, principalmente em torno do personagem interpretado por Peter Capaldi (yeah, nosso Doutor esteve lá, não como Doutor).
E aí, dona Gizelle, será que você viu alguma coincidência com o que houve com a Tis? Isso te lembra de algo? :3
Yep, Ametista sonhou que tinha tudo o que queria... Até Jack entrou no pacote... Será que isso significa alguma coisa? Hum...
O próximo capítulo é outra consequência da aventura de Tis e o Doutor com os strigoi. Não é um dos "tiro, porrada e bomba", mas... Tem uma dose bem leve de violência (será que a Tis atirou em alguém... De novo?).
Até mais, pessoas!

P.S.: Outro pequeno detalhe sobre a antiga vida de Ametista foi revelado hoje. Pode até ter passado despercebido. Fiquem atentos.



Hey! Que tal deixar um comentário na história?
Por não receberem novos comentários em suas histórias, muitos autores desanimam e param de postar. Não deixe a história "Ametista" morrer!
Para comentar e incentivar o autor, cadastre-se ou entre em sua conta.