Ametista escrita por Karina A de Souza


Capítulo 16
Nada disso teria acontecido se eu tivesse ficado dormindo


Notas iniciais do capítulo

Acho que esse título resume minha vida kkkkk
Enfim, o foco desse capítulo muda depressa, e pode dar a sensação de não ter foco nenhum.
Tis e a equipe Torchwood vão resolver algo envolvendo aliens e as coisas saem do controle.



Eu achei que dormiria o dia todo. Nunca passou pela minha cabeça que Jack ia surgir quatro e meia da manhã, me obrigando a ficar pronta em cinco minutos e me arrastando para o carro, onde estava o resto da equipe Torchwood.
A ficha do que tinha acontecido só caiu minutos depois, quando já estávamos na estrada.
—O que tá acontecendo?-Exigi, espremida entre Gwen e a porta.
—Tosh. -Jack pediu.
—Problemas. -Ela começou. -Uma nave de origem alienígena caiu próxima de um vilarejo. O que estava dentro saiu, e agora a população está fazendo sacrifícios para a suposta entidade.
—Sacrifícios?-Perguntei.
—Sacrifícios humanos.
—Nada de novo sob o sol. Apenas fanáticos fazendo coisas de fanáticos. Precisava mesmo me tirar da cama tão cedo, Harkness? O dia nem clareou ainda!
—Não sabemos o que vamos enfrentar lá. -Ele disse, sem tirar os olhos da estrada. -É melhor ir com a equipe toda.
—Eu te odeio.
—Não, não odeia.
—Um dia eu vou conseguir te odiar. -Riu.
—Não vou dar meia volta e te levar pra casa, Tis. -Suspirei.
—Saco.
***
Eu detestava viagens de carro. Sério. Preciso de espaço. E carros, principalmente com muita gente, não tem espaço.
Sair sábado cedinho com a equipe toda para viajar por horas e resolver um caso com aliens e fanáticos malucos não era a melhor programação, e era a última coisa que eu poderia querer para um fim de semana.
Foram horas irritantes num carro, ouvindo conversas e músicas ruins. Aos poucos, todo mundo foi ficando um pouco irritado. Não sei como não fizemos um motim, tirando Jack do comando e assumindo o controle.
—Você precisa parar num posto. -Repeti. -Tem gente com fome e com vontade de ir ao banheiro aqui!
—Só mais dois quilômetros...
—Para essa droga agora antes que eu atire em você, Jack Harkness!
E foi assim que nós conseguimos parar.
Foi uma pausa de meia hora, suficiente pra todo mundo ir ao banheiro, comer e esticar as pernas. Acho que essa parada teria durado mais se Jack não tivesse nos arrastado pro carro.
—Você comeu dois sanduíches e uma fatia de pizza, e ainda está comendo?-Perguntou. Afastei meu pacote de batata chips dele.
—Eu preciso comer, oras. Ou você quer que eu fique com fome durante a missão?
—Como você pode ser tão magra?
—Nós dois nos exercitamos bastante juntos. -Riu.
—Todo mundo entrando, ou não chegaremos hoje!
***
Muitas horas, cantorias e conversas sem sentido depois, nós finalmente chegamos no nosso destino.
A vila era bem afastada. O único acesso era por um estrada esburacada de chão, cercada por mato e árvores.
As casas eram todas perto umas das outras, parecidas e feitas de madeira escura. Não havia ninguém nas ruas, mas podíamos sentir que estávamos sendo observados.
—Dava pra gravar um filme de terror bem massa aqui. -Owen comentou, quando já tínhamos saído do carro.
—Cadê todo mundo?-Gwen perguntou.
—Acho que não gostam de visitantes. -Arrisquei. -Tudo bem, se vocês fossem um alien se passando por um deus ou sei lá o que... Onde morariam?
—A nave foi destruída na queda. -Tosh disse. -É possível que os moradores tenham feito algum lugar para o alienígena.
—Tipo um... Templo?
—Exato.
—Devíamos nos dividir. -Jack sugeriu. -Vai ser mais rápido e...
—Nem pensar. -Interrompi. -Nos dividir? Você perdeu o juízo? Isso sempre acaba dando merda. Não vamos nos dividir.
—Tudo bem, tudo bem... Vamos ficar todos juntos.
—Estão nos observando. -Ianto comentou. -Das casas.
Olhamos em volta. Era possível ver pessoas espiando por brechas nas cortinas e pelas janelas. Os observadores se esconderam depressa quando nos viram encarando.
—Será que estão com medo?-Gwen perguntou.
—Talvez forasteiros não sejam bem vindos. -Murmurei. -Ou...
—Ou...?
—Sacrifícios humanos, lembram? O que seria melhor que um bando de estranhos?-De repente todos ficaram mais alertas, prontos para sacarem as armas.
—Você tinha que falar isso. -Owen disse.
—Uma hora vocês iam acabar pensando nisso também. Tosh, população?
—Aproximadamente cento e doze pessoas. -Respondeu.
—É um número alto.
—Tis, você não está ajudando. -Jack avisou.
—Só estou usando meu cérebro, chefe.
Olhei em volta mais uma vez, então meu olhar caiu numa garotinha que estava entre duas casas. Ela parecia um fantasma, meu fantasma. Eu não tinha fotos da minha infância, mas conseguia lembrar perfeitamente de como eu era naquela época. E aquela garotinha... Era igual. Vestido branco, de aparência velha, com mangas prefeitas para esconder hematomas; cabelos negros e longos; olhos tristes; corpo magro e pequeno.
—Você está bem?-Perguntei, me afastando dos outros e me aproximando dela devagar, não queria assustá-la. -Meu nome é Ametista. Qual é o seu?
Ela virou e correu, sumindo de vista rapidamente. Comecei a ir atrás dela, mas uma voz surgiu do nada, assustando não só eu, mas o resto da equipe.
—Vocês não deviam estar aqui. -Me virei, o coração martelando no peito.
—Nós somos da Torchwood. -Jack começou. -Talvez não tenha ouvido falar, mas...
—Não me importa quem vocês são. Apenas caiam fora. -Seu olhar passou de rosto em rosto, então reconhecimento encheu sua expressão quando me encarou. -Ametista. Estou surpreso por encontrá-la viva.
—Posso dizer a mesma coisa. -Avisei, sacando a arma e mirando nele.
—Tis, o que está fazendo?-Jack perguntou.
—Como veio parar aqui? Esse não é o seu século.
—Você não é a única que pode viajar no tempo. -Ezir retrucou.
—Tis, abaixe a arma. -Jack pediu.
—Ela não é muito de obedecer. Acredite em mim, eu tentei muito fazê-la ser obediente.
—Últimas palavras?-Perguntei.
—Você vai atirar?
—Você sabe que sim.
—Ametista, abaixe a arma. -Jack mandou. -Isso é uma ordem, agente.
—Não se meta nisso.
—Ametista, eu não quero ter repetir...
Ele nunca chegou a repetir, na verdade. No segundo seguinte eu estava descarregando a arma em Ezir, pegando todo mundo de surpresa.
Ninguém disse nada por um tempo.
Abaixei a arma lentamente, soltando o ar. Não tinha percebido que tinha prendido a respiração.
—O que foi que você fez?-Jack perguntou, virando pra mim.
—Atirei nele.
—Ametista... Você perdeu o juízo? Nós não trabalhamos assim... Você não pode sair por aí atirando em civis!
—Não? Então okay... Eu me demito!
—Entregue sua arma.
—O que?-Estendeu a mão.
—Sua arma. Entregue. -Olhei para os meus ex-colegas. Nenhum deles parecia saber o que dizer. Joguei a arma no chão, aos pés de Jack, então comecei a me afastar rapidamente. -Ametista...
Ignorei e continuei andando. Eu nem sabia o que ia fazer. Andar até o asfalto e pedir carona? Não. Só queria ir pra longe e ficar sozinha. Podia ativar o MV para ir pra casa.
Alguns minutos de caminhada depois, tropecei num buraco e caí de joelhos. Estava irritada, assustada, nervosa... Era um caldeirão de sentimentos que estava transbordando.
Me sentei e abracei os joelhos, começando a chorar. Era a garotinha sensível e quebrada dentro de mim falando mais alto de novo.
Eu não me sentia desse jeito fazia anos. Tinha acontecido outro dia quando discuti com Jack, mas não tão intensamente.
Você pode tentar enterrar seu passado, mas quanto mais fundo o enterra, mais ele vai se empenhar em sair e perseguir você.
Fiquei irritada por chorar, mas não conseguia parar. Era um dos efeitos de segurar o choro por tanto tempo. Uma hora você explode e não consegue se conter.
Era um daqueles choros dolorosos. Daqueles que é melhor colocar pra fora de uma vez. E não era só meu. Era da garotinha, da garotinha que eu não conseguia matar. Era ela que eu tinha visto antes ou só uma menina muito parecida?
Algo pontudo acertou meu braço. Movi o olhar, mas minha visão estava embaçada, e de repente tudo escureceu.
***
Demorei a despertar, presa numa névoa de confusão, medo, e memórias que deviam estar enterradas.
Mesmo que estivesse deitada em uma superfície dura, sentia como se estivesse girando sem parar. Devia ser o efeito do que tinham injetado em mim.
Passei alguns minutos desorientada, então comecei a tentar entender o que estava acontecendo. Meus pulsos e tornozelos estavam acorrentados. Estava ao ar livre. Havia várias pessoas sentadas em bancos de pedra, todas parecendo esperar alguma coisa.
—O que está acontecendo?-Perguntei, tentando me soltar. Um homem de cabelos brancos e roupas vermelhas se aproximou.
—Nosso deus hoje recebe mais uma oferenda. Essa jovem não será apenas o alimento dele, mas o símbolo do nosso respeito e adoração.
—Alimento? Você tá de brincadeira...
O homem se juntou aos seus colegas fanáticos, murmurando algo numa língua que eu não conhecia.
Algo grande saiu da floresta. Era a coisa que ia me devorar.
Era assustador. A cabeça parecia o crânio de uma ave, apenas o osso amarelado e sujo, com dentes finos e pontudos saindo do bico. Seu corpo era curvado, e coberto por um manto preto e rasgado, fazendo aquela coisa parecer um Dementador. As mãos eram garras longas e retorcidas. E o cheiro... O cheiro era horrível. Como aquelas pessoas podiam chamar aquilo de deus quando mais parecia a Morte em pessoa?
O alienígena se aproximou. Por um instante parei de me mover. Não tinha escapatória, tinha? Não havia nada que eu pudesse fazer...
Então ele cravou os dentes na minha coxa esquerda, me fazendo soltar o grito mais alto da minha vida. A dor era... Indescritível, mas pode pensar em mil agulhas em brasa perfurando sua carne, se quiser ter uma noção.
Ali, eu soube que tudo tinha acabado. Tudo. Eu jamais seria imortal. Jamais veria Jack de novo. Jamais veria o Doutor outra vez ou ouviria o som da TARDIS. Eu estava morrendo, e meus segredos iam para o túmulo comigo.
A dor me deixou “fora do ar”, então eu mal notei o som de tiros e gritos. Também demorei a reconhecer Jack, que estava tentando falar comigo, uma expressão de preocupação pura no rosto.
—Tis... Fala alguma coisa. Tis. Owen, cuide desse ferimento, agora! Tis?
—Você veio. -Sussurrei, tentado ficar acordada. Seria bom dormir... Apagar e não sentir aquela dor horrível.
—Quando precisar de mim, eu sempre virei. -Segurou a minha mão. -Owen?
—Temos um problema. -O médico sussurrou, achando que eu não podia ouvir. -Alguns... Dentes ficaram no ferimento.... Eu não sei se vou conseguir tratar disso aqui.
—Você vai conseguir.
—Jack... O ferimento está negro. Acho que havia veneno...
—Vou perder a perna?-Perguntei, tentando sentar.
—Segure-a. É melhor sedá-la.
—Não, não... Owen, não ouse... Jack... Por favor.
—Vai ficar tudo bem.- Sussurrou, enquanto Owen injetava o sedativo em mim. -Você vai ficar bem.
***
Fiquei apagada por uma hora, o suficiente para Owen lidar com meu ferimento. Acordei deitada no carro, enquanto o resto da equipe interrogava os moradores e apagava a mente deles.
—Você está bem?-Jack perguntou, se aproximando. Me sentei.
—Acho que sim. Não cortaram minha perna fora.
—Não. Achei que você ia querer ficar com ela. -Sentou ao meu lado.
—Aquela coisa... O alien...
—Morto. Íamos levá-lo para ser estudado, mas ele meio que derreteu.
—Ah. -Esfreguei os olhos. Ficamos um tempo em silêncio, olhando para fora.
—Tis... Por que você atirou naquele homem?-Hesitei. -Você pode me contar.
—Existe... Existe muita coisa sobre meu passado que eu jamais vou falar, Jack.
—Aquele cara faz parte disso?
—Sim. -Respirei fundo. -Ele trabalhava no orfanato.
—Tis... -Segurou minha mão. Encostei a cabeça em seu ombro, engolindo qualquer mínima vontade de chorar e me sentindo segura. -Tudo bem... Está tudo bem agora.
—Eu sei.
—Ametista... Quer trabalhar na Torchwood?-Olhei pra ele, sorrindo ao ver seu sorriso.
—Vou pensar no caso.



Notas finais do capítulo

Yep, não tivemos muitas informações por aqui. O passado da Tis nunca é explícito. Mas haverá mais informaçõezinhas pelo caminho, galera. Sério.
Bem, o próximo capítulo... É um daqueles que eu fico doida pra postar. Ele é um que gostei bastante de escrever e espero que vocês gostem.
Até mais! ♥





Nevele si gnimoc!



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