Ametista escrita por Karina A de Souza


Capítulo 15
No caso de crise, não chame o Doutor


Notas iniciais do capítulo

Em vários momentos a Torchwood, ao longo da série, enfrentou problemas dignos da atenção do Doutor, mas ele nunca apareceu. A "teoria" mostrada na terceira temporada, onde milhares de crianças seriam simplesmente entregues à um alienígena exigente, era que em alguns momentos, o Doutor se escondia de vergonha... Mas não de si mesmo.



—Está atrasada. -Ianto avisou, sem tirar os olhos do livro que tinha em mãos.
—Jones, eu juro que vou cortar sua língua. -Me encarou.
—Você não pode me ameaçar, é contra as regras.
—Como se eu ligasse para as regras estúpidas do Jack.
—São regras de convivência.
—E daí?
Continuei meu caminho para a dentro da base.
Mal tinha chegado na minha mesa, quando Jack chamou meu nome, parado na porta de sua sala. Suspirei, indo até ele, prevendo o sermão.
—Eu sei, eu sei. Atrasada de novo...
—Não é isso, dessa vez. -Interrompeu. Você está bem? Ontem parecia muito chateada.
—Ah. -Okay. Essa tinha me surpreendido. -Estou bem. E queria pedir desculpas pelo surto de ontem. Às vezes... Não sei o que acontece, fico fora de mim.
—É TPM, tenho certeza.
—Você parece mais familiarizado com TPM do que um homem normal.
—Nunca fui um homem normal e você sabe disso. -Piscou. -Bom... Estou saindo com parte da equipe. Você pode ficar.
—Okay. -Começou a se afastar, mas parou quando falei de novo. -Jack.
—Sim?
—Tome cuidado. -Sorriu.
—Tis, eu sou imortal.
—Não significa que não precisa tomar cuidado. Você não sabe a angústia que é esperá-lo reviver. -Assentiu, assumindo uma expressão mais séria.
—Vou tomar cuidado.
—Ótimo.
Então ele saiu com Gwen, Owen e Ianto, deixando Tosh e eu trabalhando em nossos projetos.
—Você gosta muito dele, não é?-Perguntou, ajeitando os óculos.
—Quem? Jack?-Assentiu. Girei na direção dela, me inclinando para trás na cadeira. -É a pessoa mais próxima de mim. Somos amigos há anos. Passamos por muitas coisas juntos... E aprontamos também. -Apontei para o meu MV. -Quando se tem um desses, é difícil achar um limite.
—Você deve ter ido há muitos lugares. Conheceu pessoas históricas?
—Muitas. Você não ia acreditar. -Parou de me mexer no computador, curiosa.
—Quem você conheceu?
—Rainha Elizabeth... Na verdade, as duas. Elizabeth I e Elizabeth II. Joguei xadrez com a primeira e tomei chá com a segunda. Deixe-me ver... A Rainha Mary, da Escócia. Ela era legal, tinha um bom gosto para jogos. Eu gostava de andar com a realeza, às vezes. Mas as melhores festas acontecem longe das cortes. Ah, Emily Brontë! Antissocial, mas uma garota legal. -Tosh riu. -Não conheci apenas mulheres da história. Mas definitivamente nenhum dos homens históricos foi mais divertido que Casanova! Um bom dançarino... E tinha outras habilidades também... Extremamente inesquecíveis.
—Isso é verdade? Você conheceu todas essas pessoas?-Sorri e voltei a atenção para minha mesa, sem responder. -Ametista? Você realmente fez isso tudo? Não pode não responder. Ametista?
Eu sentia falta de correr por aí, aprontando, conhecendo coisas e pessoas novas... Será que estava deixando tudo isso para trás sem chance de retorno? Desde que aceitei o emprego na Torchwood tinha praticamente abandonado minha busca pela imortalidade.
Abri um pacote de batatas chips e tentei me concentrar no trabalho que tinha pra fazer. Às vezes eu tinha uns probleminhas para me manter concentrada. Precisava pensar na minha condição atual e no meu objetivo, mas não agora.
Já tinha passado das dez da manhã quando Ianto surgiu, pálido e ensanguentado, assustando Tosh e eu. Ambas corremos na direção dele, impedindo-o de cair.
—O que aconteceu?-Tosh perguntou. -Ianto? Nós devíamos levá-lo para um hospital...
—Perguntas demais. -Ele interrompeu.
—Vou ligar para Owen.
—Primeiro me ajude a levá-lo lá para baixo. -Pedi.
—O que?
—Posso cuidar disso enquanto Owen não aparece.
—Você tem certeza?-Assenti.
Juntas conseguimos mover Ianto. Acho que o susto da situação toda estava deixando-o em choque. Eu já tinha visto isso dezenas de vezes.
O sentamos numa cadeira, então comecei a procurar o material necessário, enquanto Tosh tentava falar com Owen.
—O que aconteceu com você?-Perguntei, ajudando-o a tirar a camisa e localizando o ferimento mais grave, que ficava no braço.
—Acabei caindo de uma altura consideravelmente alta durante uma perseguição. Havia alguma coisa pontuda em baixo.
—Certo. -Comecei a limpar a área, tanto sangue não ajudava em nada.
—Sabe mesmo o que está fazendo?
—Tenho muita experiência com pessoas feridas. Posso lidar com situações assim na falta de um médico. -Parei um momento. -Você vai ter que levar pontos.
—E... Você sabe...
—Claro que sim. -Recuou enquanto eu me aproximava com o que precisava. -Qual é, Ianto? Eu sei o que estou fazendo.
—Onde aprendeu isso?
—Pela vida. E na Agência do Tempo eles queriam que a gente soubesse um pouco de tudo, principalmente na aérea da medicina.
—E você sabe?-Suspirei.
—Sei tirar sangue, aplicar injeções, primeiros socorros, fazer partos, e, com certeza, dar pontos num ferimento. Posso começar?
—Não deveria me dar algo pra dor primeiro?
—Não achei os anestésicos, sinto muito. Agora fica parado, por favor. -Ele não parecia muito propenso a me ouvir. -Confie em mim, eu sei o que estou fazendo.
Quer saber? Já lidei com pessoas piores em momentos assim. Ianto estava confuso e com medo, mas pelo menos não estava gritando ou tentando me bater.
—Como conheceu Jack?-Perguntou, olhando para o outro lado enquanto eu dava os pontos.
—Na Agência do Tempo. Ele já trabalhava lá quando cheguei. Gostamos um do outro na hora e ficamos amigos.
—Ele sempre foi tão misterioso?-Sorri.
—Um pouco. Na época ele era um cara normal... Do jeito dele, claro. Ficou bem mais misterioso depois dessa coisa toda de imortalidade.
—Jack nunca fala da vida no século 51.
—Sei pouca coisa sobre isso. Jack tem muita... Muita coisa negativa na vida dele, é normal não falar disso. E não é legal pressioná-lo para saber.
—Eu não pressiono. -Olhou pra mim. -Só queria saber.
—Então seja bem paciente. -Terminei de dar os pontos e me afastei um pouco. -É o passado dele, Jack vai contar caso queria. -Assentiu. -Bom, a pior parte já foi. Vamos cuidar dos ferimentos menores agora.
Dessa vez Ianto se manteve calado enquanto eu trabalhava. Tosh só apareceu para avisar que não tinha conseguido falar com Owen e que a conexão caiu enquanto falava com Jack, então saiu.
—O que vocês estão fazendo lá fora?-Perguntei.
—Estamos... Com uns probleminhas. Weevils.
—O que?
—As coisa nas celas. Tem centenas deles vivendo nos esgotos. Às vezes eles sobem e causam tumulto.
—Você estava perseguindo um quando caiu?-Desviou o olhar. -Ah. Você estava sendo perseguido por um.
—É. Isso aí.
—Já aconteceu comigo. Fui perseguir um alien e o jogo acabou invertendo. -Voltou a me encarar.
—E o que você fez?
—Dei dois tiros nas pernas dele. -Me afastei. -Prontinho. Quase novinho em folha. É melhor não forçar o braço esquerdo, por causa dos pontos.
—Hã... Certo. Obrigado. -Dei de ombros.
—Somos colegas agora. Achou que eu te deixaria sangrar até a morte? Achou, não é? Bom... De nada.
—Consegui falar com Jack!-Toshiko anunciou, aparecendo de repente. -A cidade está um caos por causa dos Weevils. Precisam de nós.
—Okay. No caminho... Alguém se importa em me dizer o que raios são Weevils?
***
Bom... Eu não consegui minhas respostas. Ninguém sabia o que eram aquelas criaturas horrorosas. Jack tinha a teoria de que aquilo eram humanos quando só lhes restava raiva. Certo. Essa teoria era bem maluca, mas só havia isso.
Weevils não falavam, só faziam sons estranhos e eram raiva pura. Humanoides, tinham uma cara feia e dentes prontos para rasgarem gargantas. Era provável que tinham caído através da fenda e foram se reproduzindo até atingir um número alarmante.
—Eles continuam surgindo e surgindo sem parar. -Tosh explicou, caminhando ao meu lado. Ianto não estava falando muito, e tinha insistido em nos acompanhar, mesmo devendo estar em recuperação. -São muito agressivos, então precisa ficar alerta.
—Estou alerta. Notei aquilo antes de você. -Apontei para a rua. Dezenas de Weevils corriam de um lado para o outro, perseguindo pessoas e atacando algumas. -São muitos.
—E estão pela cidade toda. –Jack disse, aparecendo com o resto da equipe. Até mesmo ele parecia cansado. -Parecem estar se multiplicando. Simplesmente não param de surgir mais e mais. Se não forem contidos logo, podem se espalhar pelo país.
—A gente devia chamar o Doutor.
—Tis, o Doutor não trabalha para a Torchwood.
—Não. Ele trabalha para a humanidade. Isso parece uma crise que ele resolveria.
—Nós podemos e vamos lidar com isso.
—Essas coisas tão na cidade toda. Você mesmo disse.
—Ametista, a Torchwood não vai chamar o Doutor toda vez que algo parece difícil.
—Isso aqui não parece difícil. É difícil. É só olhar em volta...
—Não vamos chamar o Doutor. É minha palavra final. -Passei alguns segundos sem saber como responder. -Atenção todos, há muitos Weevils, mas temos espaço para prendê-los...
—Sério mesmo que você quer pegar todos esses aliens e enfiá-los numa cela?
—O que você sugere?
—Controle de pragas. Vamos matar qualquer Weevil que tenha ousado sair de casa pra matar humanos. Quem concorda?-Aos poucos, todos, menos Ianto e Jack, ergueram as mãos. -Viva a democracia.
—A decisão final é minha.
—Então se decida, chefe. Há pessoas morrendo nas ruas de toda cidade agora mesmo.
Jack parou, encarando cada um de nós, então a confusão que os Weevils estavam causando. Diferente de mim, ele pensava bem antes de agir. Então, finalmente, pegou a arma do coldre.
—Certo. Parece que não temos escolha.
Eu sei o que algumas pessoas podem pensar sobre isso. Os Weevils não eram inteligentes ou pacíficos, mas tinham vida. E, naquele dia, houve um massacre. Não apenas pelas mãos da Torchwood. A polícia e parte do exército se envolveu. Assim, os Weevils viram que não tinham chance e recuaram de volta para seus esconderijos.
Terminei o dia como casaco rasgado na manga, sangue nas roupas e arranhões por ter caído quando um Weevil pulou em cima de mim. Além disso, estava exausta.
—Acho que vou dormir por uns três dias. -Comentei, sentada ao lado de Jack na base. Os outros já tinham ido pra casa.
—O dia foi longo mesmo. Tis... Eu não devia ter falado com você daquele jeito, hoje mais cedo.
—Você estava certo. Ser o líder dessa equipe não é fácil, mas você faz um bom trabalho. Eu chamaria o Doutor na primeira encrenca.
—Tirando algumas coisas, você seria uma boa líder. Tem um bom raciocínio. Os Weevils teriam nos massacrado se tivéssemos optado por prendê-los.
—Quando se trata de humanos e aliens do mal, Jack, eu sempre vou agir pelos humanos. É assim que eu funciono. -Assentiu, suspirando.
—Ianto me contou o que você fez por ele hoje.
—Ah. Não foi nada.
—Foi, sim. Vocês não se dão bem e...
—Nós temos nossos problemas, mas Ianto é da equipe. Estamos do mesmo lado. Eu o ajudei e faria de novo se precisasse.
—Isso é bem legal da sua parte. Bom... É tarde. Quer que eu te leve em casa?
—Nah. Eu pego um táxi. -Fiquei de pé, me esticando. -Boa noite, Jack.
—Boa noite, Tis.



Notas finais do capítulo

E aí, será que Tis conheceu mesmo toda essa galera histórica? Mistério...
Momento Ametista em Grey's Anatomy... Isso também se refere ao passado dela. Tis tem conhecimento em medicina. Mesmo que não muito extenso.
Os Weevils não são ideia minha. São criaturas características da série Torchwood, e como dito na história, sua origem é um verdadeiro mistério.
No próximo capítulo, algumas coisas sobre o passado de Ametista podem ficar bem em evidência... E talvez alguns fantasmas reapareçam.
E mais em breve do que vocês pensam... Alguém pode voltar para a vida de Ametista.
Ouviram isso? Acho que foram quatro batidas...
Até mais!



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