Collide escrita por Allie Próvier


Capítulo 47
[2ªT] 9. Reparação


Notas iniciais do capítulo

Ai gzuis, como essa autora demora, né? hahahaha.
Quem participa do grupo no facebook provavelmente viu o aviso que deixei lá há alguns dias. O motivo dessa minha demora foi devido o Sisu ter começado e eu fiquei naquele desespero. Acabei não conseguindo entrar de primeira, mas vida que segue, né? Tô na lista de espera e vamos ver no que dá, hahaha.
Espero muito que gostem do capítulo! ♥




[2ª TEMPORADA]

CAPÍTULO 9

 

Memórias, elas me seguem como a minha sombra.

Eu vejo você em todo lugar que eu vou.

E eles dizem que eu estarei melhor amanhã,

mas eu não posso deixar ir.

Shane Harper - See You Around

 

   POV Ally

   Podemos dizer que o novo ano começou muito bem.

   Mesmo tendo passado a primeira noite em claro, com os olhos arregalados para o teto e sem parar de pensar em tudo o que estava acontecendo - como Daniel Sullivan retornando e querendo ser meu amigo quando claramente isso não dará certo -, o segundo dia começou animado com Eve me arrancando  da cama. Caminhamos até uma padaria a duas quadras do apartamento e desfrutamos de uma bela manhã regada a waffles bem feitos, chocolate quente e alguns biscoitinhos. 

   Aparentemente Eve havia decidido ignorar tudo o que havia acontecido na virada do ano, já que não havia voltado a se manifestar sobre a minha decisão. Eu suspeitava que Jack havia conversado com ela, mas ainda assim era improvável que ela houvesse concordado com tudo por causa disso. Quando Eve cisma, não tem ninguém que a faça sossegar tão cedo. De qualquer forma, não puxei o assunto ela também não. Era melhor assim. Até porque eu não queria discutir com ela por causa de Daniel também, já bastavam as nossas discussões por causa de Cameron.

   Percebe-se que eu tenho um ótimo gosto para homens, considerando que todo cara com quem eu decido ter algo faz Eve querer jogá-lo em uma vala.

— Aliás... - comecei, enquanto terminava de mastigar um biscoitinho. - Está na hora de eu procurar um canto para mim.

   Eve levantou seus olhos para mim,  enquanto bebericava seu chocolate quente. Suas sobrancelhas caíram, desanimadas. Ela pôs a caneca sobre a mesa e me olhou desolada.

— Não, não faça essa expressão para mim. - sorri um pouco. - Não adianta. Já passou da hora.

— Você sabe que pode ficar conosco o tempo que precisar, Ally. - ela lamuriou. 

— Você e Jack são um casal, pelo amor de Deus. - suspirei, encostando-me melhor na cadeira e cruzando os braços. - Vocês tem que ficar sozinhos, tem uma vida juntos. Eu não posso ficar metida no meio de vocês dois como uma parente intrometida.

— Você não é uma parente intrometida! - Eve ralhou. - Jack também adora você. Ter você lá em casa é como ter um gatinho.

   Fiquei três segundos em silêncio olhando Eve, sem acreditar no que ela havia acabado de dizer. Senti vontade de rir, mas me segurei. Ela semicerrou os olhos, olhando para a caneca em suas mãos.

— Ok. - ela disse rapidamente. - Não foi a melhor comparação. Mas o sentimento é sincero e profundo. Amamos tê-la conosco, você não é um incômodo.

   Sorri, assentindo levemente e apoiando meus cotovelos sobre a mesa. Eve me olhava em um misto de tristeza e carinho.

— Eu sei disso, e agradeço. - falei baixinho. - Vocês foram incríveis para mim, Eve. Sempre são. Mas eu realmente preciso achar um lar para mim. Logo o Cameron virá para a cidade e...

— Tudo bem, tudo bem. - ela me interrompeu. - Mas me prometa que...

   Ela engoliu em seco, me olhando com uma expressão perdida. Arqueei uma sobrancelha, confusa. Ela suspirou e balançou levemente a cabeça.

— Esqueça, não é nada. - murmurou, bebendo mais um gole da sua bebida. - Eu quero ajudá-la a encontrar um lugar. Podemos começar hoje, o que acha?

— Acho ótimo. - sorri.

   Pagamos nossas contas e saímos de braços dados do local. Eve tagarelava sobre os locais que ela achava mais legais, mas pediu para que eu olhasse os mais próximos dela. Era o que eu também queria, afinal. Então, fomos até uma imobiliária próxima e conversamos com uma corretora. Ela nos mostrou três apartamentos nas redondezas, ainda em Greenwich Village, e um em Soho, o bairro vizinho. Eu sabia que o apartamento de Soho seria muito além do que eu poderia pagar, mas as fotos eram tão lindas que eu quis ir dar uma olhada. 

   Então Janet, a corretora, nos levou em cada um dos locais. O primeiro apartamento, ainda no nosso bairro atual, era bem próximo ao de Eve. Apenas uma quadra de distância. Eu havia gostado do prédio e do tamanho dele, mas era bem mais antigo do que os outros. Um papel de parede amarelado e florido na sala me fez querer fugir. Fomos até o segundo apartamento, próximo ao Washington Square Park, e eu fiquei mais animada. Os cômodos eram maiores e as janelas também, a iluminação era incrível. Fiquei olhando bestificada a vista que tínhamos na sala, dava para ver todo o parque bem pertinho. 

— Eu acho que é esse. - Eve sorriu, parando ao meu lado na janela e olhando a vista admirada. - Fala sério, Ally, esse lugar é lindo.

— Sim... - suspirei. - Mas será que o Cameron irá gostar?

   Eve fez uma expressão emburrada, como sempre fazia quando eu o mencionava.

— Por que ele não gostaria?

— Ele é mais urbano. - mordi o lábio inferior, pensativa. - Sempre gostou de morar mais próximo do centro, gosta do agito.

— Mas você não gosta, então o problema é dele. - Eve falou, curta e grossa. - Se ele quiser morar no meio do caos da cidade, mande-o vir até aqui escolher onde ele vai ficar. Quem está escolhendo agora é você, então é você quem decide. 

   Sorri, assentindo. Abracei Eve pelos ombros e dei um beijinho em seu rosto mais alto do que o meu.

— Minha voz da razão. - cantarolei baixinho, fazendo-a rir. - É esse! 

   A corretora me olhou sorridente e animada. Ainda havia dois apartamentos para olhar, mas eu sabia que esse era a escolha certa. Era claro, arejado, bonito e iluminado. Eu já podia imaginar minhas plantinhas na janela, um sofá fofinho e confortável e vários doces nos armários da cozinha. 

   Voltamos à imobiliária para resolver a parte burocrática e eu me via ansiosa e animada. Era mais um passo na minha vida e isso era incrível. No dia seguinte eu poderia pegar as chaves. Voltamos para casa após o almoço e encontramos Jack confuso e preocupado no sofá.

— Onde vocês estavam? Eu estava prestes a ligar para a polícia. - ele disse, deixando o livro que estava lendo de lado e vindo até nós duas na cozinha. - E que sorrisos são esses?

   Contamos tudo a ele e ele veio com o mesmo papo de "Mas Ally, você não nos incomoda, não precisa se apressar, pode ficar o quanto quiser" que Eve também usou comigo, mas no fim ele me abraçou apertado e disse que estava feliz por mim. Eu também estava. 

   Ficamos um bom tempo sentados ao redor da bancada da cozinha conversando e comendo as batatas recheadas e assadas que Jack havia preparado para o almoço. Esse era um dos meus últimos dias morando com eles e meu coração já apertava de saudades.

(...)

   Assim que eu peguei as chaves, fui ao apartamento olhar tudo com calma. Eu planejava comprar as coisas que precisaria hoje mesmo. Havia até chamado Eve e Jack para me ajudarem, mas eles tinham um compromisso. Uma festa de um dos colegas do trabalho de Jack. Os dois até me convidaram para ir, mas eu recusei. A ansiedade para começar a montar meu cantinho era tanta que eu mal aguentava em mim.

   Olhei cada cantinho do apartamento e anotei tudo o que precisaria em meu caderninho. Como os eletrodomésticos da cozinha já vinham no apartamento, eu não precisaria me preocupar com eles. Tirei foto de tudo e mandei-as para Cameron, com um sorriso de orelha a orelha.

   "Wow, o lugar é bonito! Mal vejo a hora de estar aí."— ele respondeu. "Vou transferir uma quantia de dinheiro para a sua conta hoje a tarde, para te ajudar a comprar as coisas."

   Suspirei e disse que não precisava, que eu possuía o suficiente, mas ele insistiu em enviar ainda assim. A voz de Eve logo veio à minha mente, me chamando de idiota. 

   "É óbvio que precisa, vocês irão morar juntos! Qual é o seu problema? Pare de querer fazer tudo para os outros." - ela diria.

   Abri uma das janelas da sala e sentei no batente, sentindo o ventinho frio batendo em meu rosto. Eve dizia que não suportava mais o frio que fazia na cidade, mas eu gostava profundamente dele. Depois de anos vivendo na Califórnia, sentir esse clima era incrível. Meu celular vibrou em minhas mãos e eu rapidamente desbloqueei a tela. Minha mãe havia mandado duas fotos de Gregory dormindo, com sua coleira azul e seu nariz rosado. Sorri, sentindo uma dorzinha no peito. Eu estava morrendo de saudades dele. Felizmente minha mãe viria na próxima semana para  trazê-lo, já que agora eu possuía um teto para criar meu filhote felino decentemente.

   Passei mais alguns minutos admirando a vista e logo decidi agir. Fechei tudo e dirigi até um shopping próximo. Eu daria uma olhada nos móveis de sala e quarto, que eram prioridade e depois iria para a parte que mais adorava: decoração. Como eu não tinha muita paciência para comprar cada coisa em um lugar diferente, provavelmente compraria a maior parte do que precisava em um lugar só. Consegui encontrar uma cama de casal, sofá, rack e mesa de centro na primeira loja. Mesa de jantar e cadeiras na segunda loja e, finalmente, fui para a parte decorativa. Encontrei uma loja de departamento movimentada e entrei. 

   Já estava há alguns minutos dentro da loja, na sessão de artigos de cozinha e o carrinho cheio de coisas pensando se escolhia pratos decorados ou lisos, quando uma voz surgiu atrás de mim dizendo:

— Eu acho os lisos mais bonitos. Com certeza você enjoaria dos decorados em menos de um mês.

   Fechei os olhos, engolindo em seco. Meu corpo arrepiando-se inteiro. Uma leve revirada no estômago - eu me recuso a chamar isso de borboletas - e minha mente gritando para que eu fugisse dali. Naquele instante.

   Virei meu rosto em sua direção lentamente, tentando parecer o mais serena e desinteressada possível. Daniel tinha seu olhar sobre os diversos tipos de pratos enfileirados à nossa frente, com uma careta no rosto.

— A decoração daquele parece umas baratinhas. - ele murmurou mais para si mesmo. - Que nojo.

   Meu olhar percorreu seu corpo rapidamente. Vestia jeans, uma camisa social de botões azul marinho e uma bolsa carteiro de couro pendurada sobre um ombro. As mãos dentro dos bolsos. O cabelo escuro um pouco mais penteado do que o normal, mas ainda levemente bagunçado. A barba feita. Ele parecia ainda mais bonito do que nas últimas vezes que nos vimos.

   Seu olhar me flagrou avaliando-o e ele sorriu levemente, arqueando uma sobrancelha para mim.

— Fiquei sabendo que você conseguiu encontrar um lugar para morar. - ele disse. - Parabéns, garota.

— Como ficou sabendo?

— Seu amigo Benjamin não tem a boca mais controlada do mundo. - ele deu de ombros, olhando um jogo de copos de vidro ao seu lado. - Ah, recomendo que não leve esses aqui. São bem frágeis.

— E você me seguiu até aqui? - perguntei, anotando o que ele disse sobre os copos em minha mente. - Daniel, há um limite para...

— Ei, calma. - ele riu, levantando as mãos em rendição. - Como você chega à essas conclusões? Eu estou aqui a trabalho.

— Como assim trabalh...

— Ah, aí está você! - uma voz feminina exclamou.

   Nós dois olhamos para o início do corredor ao mesmo tempo, enquanto uma mulher vinha em nossa direção. Seu longo cabelo loiro e brilhoso me ofuscou por uns dois segundos. As pernas longas e magras sendo equilibradas por um par de scarpin azul royal. Meus olhos cravaram-se sobre ela quando seus lábios foram até a bochecha de Daniel, dando um beijinho rápido. Ela sorria de orelha a orelha e eu agarrei a barra do meu carrinho com força, prestando atenção em tudo.

— Nossa, foi difícil encontrar você aqui dentro. - ela riu. - Como você está?

— Estou bem. - ele sorriu todo simpático e seu olhar caiu sobre mim. - Essa é Ally, uma grande amiga minha.

   A mulher pareceu notar a minha existência pela primeira vez e me cumprimentou com um beijinho no rosto também. 

— Eu sou Ashley, é um prazer conhecê-la. 

   Apenas sorri da forma mais simpática que consegui, mas não conseguia emitir um som sequer. Meu coração estava mais acelerado que o normal e meu estômago se revirando de nervoso. Quem ela era, por que eles estavam ali? 

— Eu vim fazer uma matéria sobre a Ashley hoje. - Daniel explicou, me olhando cuidadosamente. - Sobre o enxoval do casamento dela.

   Arqueei as sobrancelhas, surpresa. Daniel não parecia tão animado com aquilo, mas Ashley parecia animada até demais. Abraçou um braço de Daniel, o cotovelo dele roçando no meio dos seios dela e sorrindo abertamente para mim como uma líder de torcida exibindo meu namorado atleta.

— Daniel está escrevendo sobre o meu casamento, isso é incrível! - ela disse, animadíssima. - Eu ainda não acredito que vou aparecer na coluna matrimonial do jornal, eu a leio há anos e sempre achei maravilhosa. É um sonho!

— Ah... - sorri, assentindo fracamente. - Eu imagino. Deve ser divertido.

— Muito! - Ashley jogou os cabelos para o lado, piscando seus cílios para Daniel. - Então, quando podemos começar?

   Daniel me observava atentamente em silêncio.

— Agora. - ele disse com o olhar fixo no meu. - Nos vemos depois, Ally.

   Assenti e sorri para Ashley, vendo os dois se afastando em direção ao outro lado da loja. Respirei fundo, só então sentindo meus dedos doloridos pela força que usei ao segurar o carrinho. Minha pele estava vermelha e a ponta dos dedos brancas pela pressão. Céus, eu tinha que me controlar. 

   Meu olhar voltou-se para a direção que eles haviam ido novamente e eu me recriminei mentalmente. Eu tinha que controlar isso, tinha que parar. Daniel era apenas alguém agora. Um conhecido. E acabou.

   Passei uma mão na nuca massageando-a suavemente e voltei minha atenção ao que era importante: pratos e copos.

   E apesar de tentar manter Daniel Sullivan longe da minha mente, acabei seguindo seus conselhos. Pratos lisos e copos resistentes. 

(...)

   Eu tentava ser rápida em lojas de decoração e coisas  do tipo, mas a tentação era muito mais forte que eu. Eu não conseguia resistir a tantos potes bonitos, jarras, tapetes, roupas de cama, poltronas e coisinhas fofas. Eu tinha que passar a mão em tudo.

   Eu já tinha tudo o que precisava dentro do carrinho - ou seja, o principal para sobreviver -, mas algumas coisas douradas e rosa quartz brilharam no outro lado da loja e eu fui até lá olhar. Analisei as coisas que havia comprado até agora e percebi que era tudo bem simples e delicado. Nada muito rosa ou coisa do tipo, mas ainda assim eu sabia que a casa ficaria bem feminina. Eu não sabia como Cameron iria reagir. Tínhamos estilos totalmente diferentes e gostos distintos. Enquanto o meu apartamento em Los Angeles era todo claro, com plantas e coisas delicadas, o dele era todo planejado em tons de branco, cinza e preto. Eu odiava aquilo. Era frio. E ele nunca escondeu o horror por ver um monte de plantinhas pela minha casa inteira. 

   E agora moraríamos juntos. Eu não fazia ideia de onde isso iria parar ou como poderia equilibrar as coisas. Talvez se eu trocasse as cores dos objetos decorativos e do edredom da cama...

— Voltei. 

— Jesus! - saltei para o lado, com uma mão sobre o peito.

   Olhei irritada para Daniel, que ria. Revirei os olhos, tentando me recompor do susto. Cruzei os braços e voltei minha atenção para meu carrinho, mas já havia perdido o fio de pensamentos e nem sabia mais sobre o que estava pensando. Bufei, nervosa. 

— Desculpe, eu não sabia que você estava tão distraída. - ele piscou um olho para mim. - Como vai as compras?

— Ótimas. - resmunguei, começando a empurrar meu carrinho pelo corredor enquanto olhava alguns jogos de roupa de cama em tons mais sóbrios. - E a Ashley, como vai?

   Eu tentei não parecer cínica ou provocadora, mas acho que foi exatamente o que eu pareci porque Daniel deu uma risadinha e balançou a cabeça como se pensasse: "Oh, que gracinha, ela está incomodada". E isso é exatamente o que eu não estou, é claro.

— Ela foi embora. Eu só tinha algumas perguntas para fazer sobre o planejamento do casamento. - ele deu de ombros, colocando as mãos nos bolsos e me acompanhando tranquilamente pelo corredor. - Você sabe, perguntas muito profundas e interessantes. Os leitores ficam muito interessados em saber o tipo de decoração que ela vai fazer para a casa dela, quais serão as flores que ela usará na cerimônia e esse tipo de coisa.

   Parei onde estava, no meio do corredor, e virei o rosto para olhá-lo. Daniel me observava sereno. Arqueei uma sobrancelha.

— Você realmente escreve para a sessão de casamentos? - perguntei e ele assentiu. - Isso é totalmente...

— Inesperado? - ele suspirou, parecendo indiferente. - Eu também acho. Mas foi a única coisa que não me faria ter uma síncope repentina. Meu chefe achou melhor deixar coisas mais "leves" nas minhas mãos. - ele sorriu, fazendo uma voz suave e quase sussurrada: - E aqui estou, escrevendo sobre cerimônias, bolos, vestidos e o incrível momento de casais que resolvem unir-se em matrimônio em belas e românticas cerimônias, em um compromisso até o fim de suas vidas.

— Poético. - resmunguei, voltando a empurrar meu carrinho.

— Sim, bastante. E eu ainda vou aos casamentos e como de graça. Não tem coisa melhor.

   Sorri, revirando os olhos. Daniel apressou os passos e avançou na minha frente. Parei novamente e fiquei observando-o pegar uma máscara para dormir de gatinho. Era toda preta e possuía duas orelhinhas sobre a área dos olhos. 

— Isso é a sua cara. - ele sorriu, vindo até mim e colocando a máscara sobre os meus olhos. 

   Perto demais. Eu conseguia sentir o cheiro do seu perfume amadeirado e sua mão quente roçou levemente nos cantos do meu rosto. 

   Ele deu um passo para trás e tudo o que eu via era a escuridão. Sorri enquanto retirava a máscara dos olhos e a analisava. Era macia e fofinha.

— Você me convenceu. - falei, olhando-o rir enquanto colocava a máscara no carrinho. - Então, o que mais você sugere que eu compre, Sullivan? Já que agora você é um frequentador assíduo dessas lojas e um expert em enxoval.

   Ele riu alto e deu dois passos para trás, me olhando com um leve brilho no olhar. Voltei a empurrar o carrinho enquanto ele me mostrava todas as coisas que julgava mais interessantes na loja. E também me ajudou a descobrir as promoções escondidas. 

— Sabe essas etiquetas com os preços mais baixos e em promoção? - ele perguntou, apontando para algumas almofadas coloridas e bonitas. - O produto ofertado nunca está aqui, certo? É porque... - ele se agachou e retirou quatro almofadas da frente da prateleira, revelando outras no fundo, escondidas. - Os funcionários daqui escondem os produtos em promoção para poderem comprar depois.

— Não brinca! - sussurrei, me agachando ao seu lado. - Meu Deus, eu não acredito.

   Peguei duas almofadas da promoção e fiquei olhando-as, embasbacada. Eram lindas e estavam pela metade do preço. 

— Eu disse que ser minha amiga era um bom negócio. - Daniel piscou um olho para mim. 

   Estávamos ajoelhados no chão da loja, no meio do corredor, lado a lado. Próximos demais. As almofadas em meus braços eram a única coisa entre nós dois e eu conseguia sentir os pelinhos do seu braço roçando levemente em mim. Engoli em seco, quebrando nosso contato visual e ficando de pé.

— É, eu tenho que te agradecer. - sorri tentando disfarçar meu desconforto. - Acho que já está bom por hoje. Comprei tudo o que precisava.

— Quando precisar de ajuda, é só me falar. - ele disse. - Vou gostar de ajudar você.

— Obrigada.

   Ficamos nos encarando por alguns segundos em silêncio, até que acordei  e olhei ao redor, procurando uma saída. Daniel deu um passo para o lado e eu passei por ele com o carrinho. Fomos até o caixa para que eu pudesse pagar pelas compras, em silêncio. E quando tudo estava resolvido, Daniel me ajudou a pegar as bolsas, deixando as mais leves para mim. Tentei dizer que não precisava, mas ele saiu andando à minha frente. A menina do caixa me olhava com um sorrisinho bobo e encantado. Sorri para ela sem graça e fui atrás de Daniel, que já estava na saída da loja.

— Seu carro está no estacionamento? - ele perguntou. 

   Eu apenas assenti e ele saiu andando. Bufei, indo atrás dele. O que ele achava que estava fazendo? Queria brincar de casinha comigo? Andar pelo shopping ao meu lado, cheio de bolsas, cheio de si... Por quê?

   Abri o carro quando chegamos no estacionamento e colocamos todas as bolsas no porta-malas. Logo voltei a trancar a porta e Daniel continuou ao meu lado.

— Você quer uma carona ou...? - perguntei confusa.

— Não, eu estou de carro. - ele deu de ombros, parecendo querer dizer algo. E logo disse: - Você não gostaria de... Almoçar... Comigo?

   Prendi uma risada ao ver a forma como ele parecia confuso e envergonhado. Quase com medo. Desviei o olhar dele, suspirando. Seria o certo? Eu não fazia ideia de como reagir a tudo isso. Todo esse tempo juntos até agora parecia ter sido no automático, eu agia conforme o momento mas, parando para analisar bem, eu não fazia ideia de como agir. Era totalmente estranho e inesperado. Eu havia desacostumado com Daniel, para falar a verdade. Éramos como dois estranhos começando a se conhecer.

   Ambos desconcertados e em dúvida sobre como agir e sobre o que falar. Mas, ainda assim, era Daniel na minha frente. Eu o reconhecia pela forma como passava a mão no cabelo, como sorria de lado, como colocava as mãos nos bolsos de forma despojada. E pela forma como mantinha seu olhar verde sobre mim, atento, esperando por uma resposta. 

— Tudo bem. - falei devagar e pude ver seus lábios se curvando nos cantos. - Mas eu preciso passar no apartamento antes para deixar essas coisas lá. 

— É claro. - ele sorria. - Você vai na frente e eu te acompanho. Chegando lá nós invertemos os papéis.

   Concordei e ele foi até o outro lado do estacionamento, onde estava seu carro. Entrei no meu e fiquei esperando ele aparecer atrás de mim. Quando seu carro parou, ele piscou os faróis e eu entrei na sua frente, dirigindo até a saída do estacionamento. A todo momento o meu olhar ia para o espelho retrovisor do carro, vendo o veículo dele logo atrás do meu. Eu estava em uma mistura de nervosismo e torpor. Anestesiada. 

   Como se eu estivesse consciente o tempo inteiro de que aquilo não devia estar acontecendo, mas o meu corpo agia no modo automático. Eu não queria, mas queria. 

   Parei no sinal vermelho e encostei a testa no volante, respirando fundo. Eu sentia vontade de afundar o pé no acelerador e fugir dele o mais rápido possível. Queria gritar. Socar o volante. Me debater inteira só para ver se aquela sensação passava. Eu me via nervosa e confusa e idiota como há seis anos, quando eu era uma adolescente boba. Mas agora eu sou uma mulher, tenho uma vida, uma carreira. Um noivo. E aqui estou eu, me reaproximando do cara que me largou feito um trapo velho na noite de formatura porque ele tem uma lábia desgraçada e me convenceu de que, ora essa, não há problema algum voltarmos a ser amigos! Qual é o problema disso? Somos adultos agora, certo? As mágoas devem ser esquecidas e devemos superar. 

   Daniel Sullivan devia ganhar um Oscar de Maior Personalidade Cretina. Era isso que ele era. E eu era a maior idiota de todas por ainda ouvi-lo e ficar toda trêmula perto dele. Era totalmente ridículo. Mas ainda assim... Aqui estou eu.

   Eu realmente não sei quem é o pior dessa história.

(...)

   Coloquei as bolsas em um canto da sala e Daniel fez o mesmo. Logo seu olhar percorreu todo o local e ele sorriu levemente, impressionado.

— Esse lugar é lindo. - ele disse. - E olha essa vista...

   Ele andou até a janela e eu o acompanhei, abrindo-a para o ar entrar. 

— Parabéns, Ally. - ele disse, sincero. - É um ótimo lugar. Você será feliz aqui, tenho certeza.

   Sorri, sentindo um calorzinho no coração por ouvir aquelas palavras. 

— Venha, vou te mostrar o restante. - falei. - Ele só está precisando de uma pintura nova, mas fora isso está bem conservado.

   O apartamento possuía mais dois quartos e um banheiro, além da cozinha e sala em conceito aberto. O chão de madeira clara dava um ar rústico ao local e eu mostrava cada cantinho a Daniel. 

— Eu posso te ajudar com a pintura, se você quiser. - ele disse quando voltamos à sala. - Anos de prática, já que Benjamin sempre suja as paredes de café.

— Ah, tudo bem. Cameron deve me ajudar com isso. - falei sem pensar e arregalei os olhos. Daniel estava estático, ainda com o olhar em uma das paredes. - Mas... Como assim Benjamin suja as paredes de café? - perguntei, forçando um sorriso.

   Daniel engoliu em seco e eu percebi que ele estava desconfortável pelo o que eu falei. Me senti mal, mas... Ele sabia desde sempre que eu tenho Cameron agora. Portanto, não tinha o direito de se sentir mal ou... Enfim.

— Ele sempre arruma um jeito de derrubar café em tudo. - ele sorriu fracamente. - Seja nas paredes, no sofá, no tapete ou na minha cama.

— Na sua cama?

— Sim, na minha. A dele sempre está impecável, mas ele misteriosamente sempre derruba café nas minhas cobertas. - ele suspirou. - Mas fora isso, conseguimos conviver razoavelmente bem. Isso quando ele não aparece com algumas chinesas aleatórias lá em casa também.

   Eu o olhei confusa e peguei minha bolsa e chaves do carro. Daniel me acompanhou rindo, explicando:

— Moramos em Chinatown. Obviamente, o que mais tem é chineses. - ele disse, enquanto andávamos até o elevador. - E toda semana aparece alguma chinesa na nossa cozinha preparando café para ele e falando coisas que eu não entendo. E então, ele sai do quarto dele, tasca um beijo nela, sorri galanteador fingindo que está entendendo tudo o que a garota fala e dá um jeito de mandá-la para casa.

— Meu Deus, Benjamin está pior do que eu pensei. - eu ri, surpresa por saber aquilo. - Eu tenho que ver isso um dia.

— E verá. - Daniel sorriu. - Então, onde você quer almoçar?

(...)

   Quando eu cheguei no apartamento de Eve, encontrei-a sentada no sofá com as pernas cruzadas e uma revista nas mãos. Assim que fechei a porta, ela levantou os olhos para mim e deu um pulo onde estava, largando a revista e sorrindo abertamente para mim.

— Cadê?! - ela perguntou, olhando para as minhas mãos vazias. - Onde estão as coisas?

— Ah, eu já deixei no apartamento. - falei enquanto sentava ao seu lado. 

   Eve desmanchou o sorriso e me olhou séria. Sorri, apertando sua bochecha. 

— Desculpe, eu quis deixar lá para não ficar andando com aquilo tudo. - expliquei. - Mas podemos ir até lá amanhã. Ainda tem algumas coisas que preciso comprar.

   Ela suspirou e assentiu, mas semicerrou os olhos para mim, parecendo desconfiada.

— Que brilho é esse? - ela perguntou. - Seus olhos parecem duas jabuticabas brilhantes.

   Eu ri, balançando a cabeça levemente e olhando minhas unhas. 

— Não é nada. - falei baixinho. - Só estou cansada.

   Eve segurou meu queixo e virou meu rosto em sua direção. Mordi o lábio inferior, desviando o olhar do dela. Só ouvi sua risada e ela soltou meu queixo, se jogando para trás e apoiando-se nas almofadas do sofá.

— Ah, meu Deus. - Eve suspirou. - Você se encontrou com Daniel hoje, né?

— Como assim?

— É impressionante o efeito que ele causa em você. - ela revirou os olhos, com um leve sorrisinho. - Sério, é increditável. Seus olhos estão brilhantes, suas bochechas estão rosadas e você está com cara de bêbada.

— Obrigada, Eve. - revirei os olhos ficando de pé e pegando minha bolsa. - E sim, eu o encontrei ao acaso hoje. E não, eu não fico dessa forma por causa dele. 

— Fica sim. - ela sorriu maliciosa. - Está do mesmo jeito que ficava há anos atrás. 

— Não, Eve. - coloquei as mãos na cintura. - Eu não fico assim por causa de pessoas insignificantes. Eu fico assim por causa do meu noivo, que eu amo e que me ama também.

   Eve arqueou as sobrancelhas, mais cínica impossível. Pegou sua revista do chão e voltou a se largar no sofá, se fazendo de desinteressada.

— Se seu noivo fosse um baita homem eu até acreditaria. - ela disse. - Mas se você está dizendo, eu finjo que acredito.

   Bufei, dando-lhe as costas e indo até o meu quarto. Deixei minhas coisas sobre a escrivaninha e tomei um banho, vestindo meu pijama. Eu voltaria ao trabalho na próxima semana e já sentia saudades, mas nada se comparava a alguns dias de folga e pijama durante a tarde.

   Eu me joguei em minha cama e suspirei profundamente, fechando os olhos. As lembranças dessa tarde vieram à minha mente, intrusas. Fomos à um restaurante tranquilo próximo ao parque, almoçamos perto da janela, conversamos sobre trabalho e sobre a cidade. A forma como ele sorria para mim, como apiava o queixo nas mãos enquanto eu falava e me olhava nos olhos, prestando atenção em cada palavra que eu dizia. O modo como batucava suavemente a mesa com a ponta dos dedos enquanto explicava coisas sobre o seu trabalho e me contava histórias engraçadas que vivenciou no pouco tempo trabalhando com casamentos. A forma como ria e seus dentes caninos afiadinhos ficavam aparentes sobre os lábios. Eu lembro que isso virou motivo de piada entre nós dois durante um tempo, anos atrás. 

   Céus, eu não sabia o que fazer. Porque eu queria me manter longe, mas ao mesmo tempo queria a presença dele novamente. Isso soava tão patético para mim. Como uma mulher que sofre nas mãos de um cara, mas ainda assim o perdoa e quer estar com ele. 

    E, ao pensar nisso, me veio a imagem de Cameron à mente. E eu me senti uma tremenda hipócrita. Porque se tem alguém que sofre e ainda assim perdoa, essa pessoa sou eu.

   Ouvi duas batidas na porta do quarto e pisquei rapidamente, saindo dos meus devaneios. Senti os cantos dos meus olhos úmidos e falei para que entrassem. Eve apareceu com um leve sorriso. Fechou a porta atrás de si e veio até a cama, deitando-se ao meu lado. 

— Posso ficar aqui com você? - ela perguntou. - Ainda dói pensar que você vai embora.

— Para algumas ruas de distância. - sorri. - Não seja boba.

   Eve fez um bico de chateação e me abraçou, apoiando seu rosto em meu ombro. Ficamos em silêncio por um bom tempo, apenas ouvindo a respiração uma da outra. Então, ela levantou os olhos para mim e disse:

— Me desculpe.

   Eu a olhei confusa, sem saber do que ela estava falando. Eve tinha uns surtos desse tipo repentinamente e eu ficava sem entender nada. Ela suspirou, percebendo a minha confusão.

— Por tudo o que eu falo. - ela explicou. - Essa implicância, por vezes arrogância. É porque eu me preocupo demais com você, Ally. E às vezes você é muito boba e eu me irrito, porque você é tão frágil e eu quero te proteger e não consigo.

— É claro que consegue. Se não fosse por você eu já teria quebrado há muito tempo.

— E você se quebrou. - ela murmurou. - Várias e várias vezes. Tudo o que fiz foi tentar te remendar de volta, te ajudei a catar os caquinhos. Mas fica difícil te proteger de verdade quando você se entrega ao perigo.

   Sorri, ficando de lado e a abraçando de volta. Nossas cabeças encostadas uma na outra.

— Mas eu só consigo catar os caquinhos porque tenho você. - sorri. - E eu não tenho que te desculpar por ser sincera. Mesmo que eu não queira te ouvir, eu preciso. Você é a minha voz da razão, lembra?

   Eve deu uma risadinha e me abraçou apertado, praticamente esmagando a minha cabeça. Eu ri alto, retribuindo o abraço. Eu sentiria falta desses momentos, mas ainda estaríamos próximas, então eu ficava mais tranquila quanto a isso. 

— Mas me conte... - ela começou, me soltando. - Como foi?

   Arqueei uma sobrancelha, surpresa pela pergunta. Ela parecia realmente interessada em saber como havia sido a minha tarde com Daniel. 

— Quer mesmo saber? - perguntei desconfiada.

   Ela revirou os olhos e assentiu, totalmente séria. Suspirei e comecei a contar tudo, desde o nosso encontro na loja até o momento da despedida, após o almoço. Eve me ouvia com atenção. Por fim, perguntou:

— E como você se sentiu?

   Não olhei para ela. Permaneci deitada de barriga para cima, com os braços soltos ao meu lado e o olhar fixo no teto. Eu sentia seu olhar atento em meu rosto, enquanto ela deitava de lado e apoiava o rosto em uma mão. Após dez segundos de silêncio, respondi:

— Com dezessete anos novamente. - murmurei. - Como quando íamos ao Píer 39 após as aulas. Quando ficávamos sentados falando sobre qualquer coisa e eu sentia tantas coisas ao mesmo tempo que... - engoli em seco, fechando os olhos e passando as mãos no rosto. - Eu me sinto absurdamente culpada, Eve. Eu não devia estar fazendo isso.

— Por que não?

— Porque eu tenho Cameron. - olhei para ela como se aquilo fosse óbvio. - Porque eu estou em um relacionamento e Daniel voltar a fazer parte da minha vida é totalmente insano. Isso não vai dar certo.

— Você não tem o Cameron. - Eve falou, voltando a deitar-se de barriga pra cima. - Ele tem você. Ele te envolveu na teia mentirosa dele até você se ver totalmente presa. É por isso que você está se sentindo tão culpada.

— Eve, você sabe muito bem o que significa essa aproximação de Daniel.

— Sim, eu sei. - Eve deu de ombros. - Significa que vocês estão voltando a ser amigos. Saindo juntos, conversando, nada demais. Ou aconteceu algo além disso?

   Desviei o olhar do teto e olhei para Eve, estranhando totalmente aquela mudança súbita. Até alguns dias ela estava chamando o Daniel de cretino, e agora não não vê mal algum em virarmos amigos novamente? Qual é o problema dela?

— O que você está tramando, Eveline Walker?

   Eve riu, balançando a cabeça levemente. 

— Eu continuo achando o Sullivan um tremendo idiota. - respondeu. - Mas ele faz bem a você. Sempre fez. Eu não posso negar isso.

   Ficamos nos olhando em silêncio, ambas pensativas. 

— Isso é nítido. - ela continuou. - E faz muito tempo que eu não te vejo com essa expressão, Allison. Então, deixe que ele se aproxime. Não fará mal algum. Mas se ele for um imbecil novamente...

   Sorri assentindo. Eve deu um beijinho em minha testa e ficou de pé rapidamente.

— Agora eu vou tentar preparar uma receita que eu vi na internet! - ela sorriu animada. - Se prepare para comer muitos legumes e verduras deliciosos!

   Oh, céus. Gemi de frustração, fazendo-a rir enquanto saía do quarto. Eve sempre reclamava de Vanessa, sua mãe, preparando receitas vegetarianas quando éramos mais novas. E agora é ela quem vive preparando esse tipo de coisa. Mas não posso reclamar, os pratos ficam sempre muito bons. 

   Decidi ir ajudá-la e me distrair com algo últil. O teto do quarto já estava cansando a minha vista. 

(...)

   POV Daniel

   Benjamin jogou a bola de basquete em minha direção com força. Dei um pulo para o lado, conseguindo desviar rapidamente. 

— Qual é, Benjamin! - ralhei, enquanto ia atrás dele. - O que custa você fazer isso por mim?

— Se você quer ir atrás dela, vá sozinho. - ele bufou, abrindo a geladeira e se agachando para olhar dentro dela. - Não vou participar disso.

— Mas eu não consigo sozinho. - gemi de frustração, sentando no banco alto da bancada e apoiando minha testa nas mãos. - Eu sou um imbecil.

— Conte-me algo que eu não sei.

— É sério, é como se... - suspirei, olhando para ele. - Eu não soubesse mais como agir perto dela. Eu tento ser eu mesmo, tento manter as coisas descontraídas como antes, mas é estranho.

— Talvez seja porque já passaram seis anos e vocês dois são adultos. - ele bateu a porta da  geladeira, com uma garrafa de cerveja na mão. - Não são mais duas criancinhas.

— Me ajuda. - repeti.

— Não.

— Só hoje.

Não.

— Eu consigo o telefone da Caroline para você.

   Sorri internamente ao vê-lo parar de tentar abrir a garrafa e me olhar com os olhos semicerrados. 

— Duvido que você consiga. - ele riu, mas eu sabia que ele estava cogitando a ideia. - Já tentei de todas as formas, ela não é fácil. 

— Mas você está falando com Daniel Sullivan. - sorri. - Eu consigo o telefone de qualquer pessoa, esqueceu? Eu tenho bons contatos.

   Benjamin revirou os olhos e finalmente abriu a garrafa. Levou-a aos lábios e bebeu um gole, enquanto mantinha seus olhos em mim. Por fim, encostou-se na bancada da cozinha e bufou.

— Beleza, eu ajudo você. - resmungou. - Mas você vai ter que conseguir o telefone dela. Quero ele na minha mesa ainda hoje.

   Sorri animado e peguei o celular dele que estava na bancada, estendendo para ele. Benjamin me olhou irritado e pegou o aparelho. Juntei minhas mãos sobre a bancada, ansioso, vendo ele discar um número. Eu conseguia ouvir o "tu, tu, tu" da chamada mesmo sem estar no viva-voz. Finalmente, ela atendeu.

— Oi, Ally! - Benjamin disse, sorridente. - Sim, eu estou bem, e você?... Que bom... Escuta, você quer sair hoje? Vai ter um show especial naquele bar... Isso, aquele onde a banda do Daniel toca... É... Sim... 

   Senti meu ânimo ir murchando aos poucos ao ver a cara azeda de Benjamin. Ótimo, ela não ia aceitar. Suspirei, passando as mãos no rosto. Benjamin me olhou e apertou os lábios.

— Vamos, por favor. Chame a Eve e o Jack também. - ele insistiu. Alguns segundos de silêncio depois ele sorriu. - Ótimo, nos encontramos lá, então. 

   Arregalei os olhos. Benjamin largou o celular sobre a bancada, bebendo um longo gole da cerveja. Levantei os braços, sem acreditar. Ele revirou os olhos e deu um tapa leve na minha cabeça ao passar por mim e ir em direção à sala.

— Eu fiz isso pela Caroline! - ele disse alto. 

   Sorri, realmente feliz. Olhei para trás e vi Benjamin largado no sofá, ligando a TV e com um sorrisinho nos lábios. Eu faria a minha parte e arrumaria o telefone da bendita Caroline. Ele merecia. 

   Mas antes, eu tinha que conseguir restaurar o que eu e Ally havíamos perdido.



Notas finais do capítulo

Ai, Daniel, corre! HAHAHAH.
O que estão achando? Eu tenho que ser sincera com vocês, ultimamente eu ando me sentindo meio esquisita e estou sentindo que a história não está tão boa. Não sei se é o enredo mesmo, ou minha escrita... Só sei que não estou ficando 100% satisfeita. :(
Gostaria muito que vocês me dissessem MESMO o que estou achando, o que acham que eu posso melhorar, de verdade. Se é coisa da minha cabeça ou se vocês também estão achando algo errado na história. Me digam, por favor!
Vou tentar trazer o próximo o mais rápido possível, hahahaha.
E quem ainda não participa do GRUPO NO FACEBOOK, corre lá: https://goo.gl/WWrTQR ♥

—-

P.S: Eu sempre faço alguns vídeos da história (como trailer, vídeo dos casais, etc.) e como já havia feito de DanAlly, resolvi fazer de BenAlly também, hahaha. Sei que agora tem muitas leitoras que amam o Benjamin, então aqui está: https://www.youtube.com/watch?v=GL8G-DUmta8 ♥



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