Servitutem escrita por Kaline Bogard


Capítulo 4
Duas promessas que serão quebradas


Notas iniciais do capítulo

Boa leitura!

Cenas de ação não são o meu forte :/



— Ora, ora — o desconhecido debochou, olhando pra Shino por cima da lente dos óculos de grau — Então você que me passou a perna? Depois de quinze anos atrás desse vira-latas, você se tornou o dono?

— S-Shino — Kiba também olhou para o mago, com preocupação sobrepujando o medo em sua face — Foge! Ele é o caçador!

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— Não foge não, Shino — o inimigo debochou — Me permita agradecer a sua esperteza. Ontem, quando eu senti a explosão de Chacra, sabia que tinha perdido a guerra. Vim apenas para comprovar.

Shino continuou parado no lugar, não por obediência. Ele esperava a hora certa de agir para enfrentar aquele homem. Não sabia de que espécie ele era, mas certamente algo sobrenatural, já que a energia que emanava não era humana.

— Não é bem-vindo aqui — tentou ganhar tempo.

— Não sou bem-vindo em lugar algum — o caçador riu — Quando montei a armadilha no território shifter, queria pegar um cão de caça, mas quem mordeu a isca foi esse moleque. Pensei que podia ao menos vender e recuperar parte do prejuízo. Foi divertido descobrir como ele é bom na fuga — agitou de leve a coleira, fazendo Kiba gemer — Agora não dá mais, porque a coleira não pode ser reativada caso alguém compre. Não passa de um peso morto.

A falsa expressão de tristeza não condoeu Shino. Era um excelente leitor de caráter, e aquele homem ali parado não possuía um pingo de decência. Resolveu que não precisava prolongar a interação. Seus insetos foram dizimados e isso cortou tanto o ataque quanto a defesa para metade. E mesmo essa metade não podia ser subestimada.

— Ataquem — sussurrou para o ar.

No mesmo instante Kabuto gemeu. Ele sentiu uma picada no rosto, logo seguida por outra e outra. E incontáveis picadas doloridas na nuca, cabeça e pescoço.

— O que é isso?! — arremessou Kiba para longe e começou a estapear o ar, tentando acertar algo invisível.

Kiba deslizou alguns metros na grama e saltou pronto para atacar, só não o fez por notar um gesto da mão de Shino, indicando que não interferisse.

— É uma colmeia de insetos ayakashi. Meu pai a trouxe do Makai e eu fiz um acordo mútuo com elas. Quando invoco, o enxame aparece para defender meu território.

— Maldito!

— Não se mova. Caso receba mais uma única picada será impossível reverter o veneno e você morrerá. Se partir agora ainda terá chance de encontrar o antidoto.

— Eu vou. Mas eu volto. Vocês nunca terão paz…

Shino moveu a cabeça de leve. Um comando silencioso fez com que a derradeira picada injetasse veneno no inimigo.

Era um homem justo e valoroso. Porém só oferecia sua misericórdia para quem a merecia. Se aquele caçador prometia infernizar sua vida, então daria algo para que ele se distraísse.

— Vai encontrar o antídoto somente no Makai. Seja rápido, ou não terá tempo nem de se arrepender.

O caçador blasfemou por alguns segundos. Deu a entender que revidaria o golpe, porém pensou melhor e partiu veloz, jogou um artefato ninja no chão, fumaça se espalhou e desapareceu levando-o consigo.

Shino ordenou que os insetos investigassem o resto da propriedade, para ter certeza de que não havia mais inimigos escondidos. Enviou alguns para proteger o perímetro e foi até Kiba, preocupado.

— Você está bem? — analisou o rosto que sangrava.

— To, isso não é nada — o shifter passou as costas da mão pela boca, acabando por espalhar o sangue e piorar a aparência — Ele vai morrer?

— Não — Shino meneou a cabeça — Esses insetos não são mortais. Mas ele vai ter muito trabalho para achar o antidoto. Até lá vai passar por dores nas juntas, porque o veneno seca o líquido das articulações e dificulta os movimentos. Até ele se curar, caso seja estupido de tentar voltar aqui, já terei encontrado defesas mais eficientes.

— Que bom! Não quero que suje suas mãos por causa disso — então puxou a blusa de Shino, cobrindo-se melhor — Caralho! Quando eu viro cachorro não me importo de ficar ventilado. Mas na forma humana é meio constrangedor…

O mago quase achou graça na reclamação, apesar de concordar que era justa.

— Trouxe roupas para você. Se quiser pode trocá-las, depois eu cuido dos seus machucados — inclinou-se um pouco para ver melhor o pescoço de Kiba, a pele estava tão curada quanto suas próprias mãos. O unguento sobrenatural era fantástico — Então iremos ao supermercado.

Kiba ficou olhando para Shino, um tanto surpreendido. Viveu tanto tempo como uma criatura canina que havia se esquecido de como era ser cuidado daquele jeito.

— Porra, cara. Obrigado por tudo isso. Eu meio que invadi sua casa, comi seus legumes. Agora to tipo amarrado a sua vida… sem contar a surtada que eu dei quando a Coleira ativou. E… nem vou poder retribuir tudo o que está fazendo… mesmo assim você vem me tratando bem. Caralho…

Shino colocou a mão sobre os cabelos castanhos e bagunçou de leve.

— Meu pai me ensinou a ajudar quem precisa. Sem esperar retribuição em troca. Eu não sabia sobre a maldição ou nunca teria ativado.

— Mas aí eu ia viver como cachorro pra sempre — Kiba suspirou — É foda não ter mais livre arbítrio, nem liberdade de ir embora. Só que eu não sou besta, acabei com um bom dono! — riu, um tanto alegre. Até se dar conta do que tinha dito e corar violentamente — Quer dizer… quer dizer…

Shino limpou a garganta e parou o cafuné.

— Hum… Pode me esperar no banheiro? Fica no…

— Sei onde fica. Aproveitei para conhecer minha nova casa!

— Tudo bem, vou buscar as compras que fiz. Larguei na entrada.

O shifter obedeceu, ainda que não fosse uma ordem imposta pelo vínculo da maldição. Shino observou, impressionado que o outro se “apropriou” da casa com tamanha facilidade! Por fim foi atrás das coisas que comprou, para poder cuidar dos ferimentos do novo colega de lar.

Kiba contou como foi surpreendido pela chegada de Kabuto, um inimigo que só sabia usar de técnicas sujas para atacar. Deveria ter imaginado que a explosão de Chacra na tarde anterior revelaria sua posição. Mas ficou tão desnorteado pela Maldição da Escravidão que relevou os demais problemas para segundo plano.

Shino sentiu alívio em ter chegado a tempo. Se não de evitar que Kiba se ferisse, ao menos garantindo que nada pior ocorresse.

—--

Mais inacreditável ainda foi a felicidade de Kiba ao receber a escova de dentes. Um pequeno objeto, que representava seu cotidiano roubado, e agora indicava sua volta à vida em sociedade, ao convívio com outras pessoas. Fez uma festa para as barras de chocolate e devorou as duas mais rápido do que Shino seria capaz de dizer “de nada”. Como o mago previu, era um viciado em doces.

As peças simples que Shino comprou serviram bem, eram do número certo e Kiba não precisava mais ficar segurando o short pra ele não cair. Antes de trocá-las, o shifter fez um pedido inusitado. Queria poder tomar um banho! E Shino sentiu-se meio bobo por não ter previsto tal necessidade.

Obviamente permitiu que ele usasse não apenas o banheiro, mas a banheira também. O que fluiu pelo vínculo deu a certeza de que fazia o certo. Shino recebeu conforto e alegria na ligação invisível.

Enquanto esperava na cozinha imaginou que viver como um cachorro não era nada fácil. Coisas simples como banho quente, escovar os dentes, refeições com talheres… tudo isso estava fora de questão, sem perspectiva de mudança de cenário.

Foi em meio a essas reflexões empáticas que o garoto entrou na cozinha, o ar renovado de quem se limpou dignamente, os cabelos umidos ainda pingavam um pouco de água. As marcas nas bochechas permaneciam intactas, com certeza um legado sobrenatural.

— Vamos ao supermercado? — Kiba soou ansioso.

— Vamos. Preciso comprar mantimentos.

O shifter sorriu largo, exibindo as presas proeminentes. Quinze anos… fazia quinze anos que não entrava em um supermercado! Até tentou umas vezes, mas sempre era escorraçado por funcionários, porque um cachorro entrar no comércio não era bem visto.

A felicidade quase inocente fluiu pelo vinculo e Shino sentiu um tipo de encanto que nada tinha a ver com magia. A risada cristalina o divertiu, tornando-lhe o coração leve. Com menos de vinte e quatro horas de convivência já queria proteger aquele sorriso e vê-lo muitas vezes mais. Sentimento que o desnorteou!

— Está pronto pra ir?

— Claro!

Antes que deixassem a residência, Shino refez a barreira. Usou a proteção evocada sempre que viajava, magia mais pesada do que as outras. Iria investigar qual o ponto fraco e tentar anular. Além de estudar outros escudos mágicos para se prevenir.

— Que tipo de criatura é o caçador?

— Eu acho que ele é um hibrido. Consigo sentir mais de três raças, só não sei dizer se Kabuto nasceu assim ou ele foi usando magia proibida de alquimia pra ficar mais forte.

— Kabuto?

— Esse é o nome do cuzão — resmungou — Me fez correr o Japão de cabo a rabo, tanto no mundo sobrenatural quanto no Nigenkai. A única coisa boa é que eu pude conhecer você. Acho que a gente vai ser bons amigos. Meu faro é ótimo pra achar plantas. Também conheço algumas poções shifter e posso te dar a receita. Já é um jeito de agradecer e ser útil.

Kiba continuou contando sobre as coisas que podia fazer para ajudar até chegarem no supermercado. Um bem maior e mais completo do que estava acostumado, quando ia com a mãe e a irmã fazer compras quinze anos atrás. Progresso era de fundir a mente!

Junto com Shino foi pegar verduras, legumes, grãos, soja, cereais, ovos. Quando compraram carne, o garoto tornou-se mais inquieto, só de pensar nos pratos que comeria sua boca chegava a salivar! Mas foi na sessão de doces que ele quase perdeu a cabeça. Era uma variedade desconhecida e quase infinita de chocolates biscoitos, balas e importados que pareciam gritar “me experimente”!

Não tinha dinheiro, nem podia pedir ainda mais para Shino, todavia não conseguiu disfarçar a vontade de comer aquelas guloseimas. Foi tão comovente que o mago acabou comprando alguns de presente e para ver a felicidade voltar ao rosto jovial que, alias, chamava atenção pelas marcas gêmeas e pelo comportamento hiperativo. Isso somado a coleira, que era uma visão incomum. Shino chegou a temer que tanta comoção fizesse Kiba se constranger, o que não aconteceu. O garoto pareceu gostar de ser o centro das atenções! Até estufou um tiquinho o peito.

E Shino nem julgaria. Seus próprios trajes e os óculos sempre atraiam olhares onde quer que fosse…

Enfim, a maioria dos mimos foi para o carrinho de compras, apenas as caixas de Pocky acabaram contra o peito de Kiba, abraçadas com muito carinho.

Já na saída do supermercado Kiba queria comer alguns doces. Shino o impediu, convidando para o almoço tardio. Com a previsão da refeição completa, Kiba desistiu de atacar os doces (Exceto por uma caixinha de Pocky que abriu e enfiou todos os palitinhos na boca, ah, não senhor, resistir àquilo era demais para ele).

Dali foram para um restaurante familiar e bem quisto no bairro, o Ichiraku. Como já passava e muito da hora do almoço, foi fácil arrumar uma mesa para sentar. A esse ponto Shino desistiu de cozinhar, faria algo para ambos na janta.

— Ah, que cheiro delicioso — Kiba suspirou tão logo a funcionária os serviu com água e uma bandeja com duas oshibori. O rapaz pegou uma das toalhas quentes e usou para limpar as mãos, gesto simples que o deixou meio emocionado. Até tentou disfarçar, mas não apenas o rosto revelou o que sentia, o vínculo não escondia nada — Pensei que nunca mais ia fazer isso, sabe? Sentar em um restaurante, conversar durante uma refeição.

Shino também pegou uma toalhinha para limpar as mãos. Não sabia bem o que dizer.

Acabaram ficando em silêncio até que a mesma moça voltasse com duas grandes tigelas com lamen quente, de cheiro estonteante.

— Puta que pariu — Kiba puxou uma delas pra perto de si — Obrigado pela comida!

E a partir daquele momento a falta de diálogo não incomodou. As frases foram substituídas por sons de mastigação, sorrisos de bochecha inflada com comida e longas piscadas de quem aprecia e muito o sabor do alimentos. Comunicação muito mais contundente do que qualquer palavra.

—--

Três tigelas de lamen, duas kobati com chá verde e uma porção de manju depois, Kiba deu-se por satisfeito. E Shino por impressionado. Aquele shifter devia queimar mais calorias do que um trem-bala queimava combustível para alcançar os 300km na arrancada. Caso contrário deveria estar pesando cinco vezes mais.

Ou… era apenas o desespero por tirar o atraso daqueles quinze anos falando mais alto. Fato que duvidava um pouco. Pelo que conhecia da natureza de Kiba, ousava dizer que ele era um glutão nato abençoado por uma constituição física esbelta.

Na volta para casa, Shino sentiu novo impacto.

Kiba ia cantarolando ao seu lado, dando tapinhas carinhosos na barriga satisfeita. O garoto-shifter que descobriu em sua casa no dia anterior, que bagunçou seus canteiros e comeu seus legumes, que causou uma invasão por um caçador e o fez usar os insetos do Makai pela primeira vez desde que eles aceitaram o pacto. Além, claro, de ter se tornado seu “escravo” após a ativação de uma das maldições mais cruéis que jamais viu na vida.

E ali estava ele, Aburame Shino, aceitando tudo com naturalidade, planejando como seria sua vida dali para frente e agindo na premissa de que o conhecia desde sempre e para sempre.

A percepção foi tão forte que o fez parar de andar.

— Shino…? — Kiba olhou para trás, também parando de avançar — Esqueceu de alguma coisa?

O mago balançou a cabeça.

— Não. Não foi nada. Estava pensando no que fazer daqui pra frente. Vou ligar para Ino, para ver um jeito de entrar em contato com sua família. Minha professora vai enviar livros sobre a maldição. Prometo que vou te libertar dela.

Kiba sorriu.

— Temos um trato! Você parece inteligente, acho que vai conseguir sim! E até lá eu prometo que não vou dar muito trabalho!

Shino assentiu, achando os termos do combinado muito justos. Nenhum dos dois tinha culpa ou pediu pela situação que os uniu. Porém, que fizessem juntos, o melhor para sair dela.

Obviamente, ambas as promessas seriam quebradas.



Notas finais do capítulo

O próximo é o último.

Me abracem... já sinto falta!



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