Ametista escrita por Karina A de Souza


Capítulo 26
Finais também são começos


Notas iniciais do capítulo

Achei esse título apropriado.
Então... Aqui estamos nós, no último capítulo. Eu quero agradecer à todos que leram e interagiram aqui. Obrigada ♥



—Hey, olá. -O Doutor sussurrou, entrando no quarto hospitalar. -Então a apressadinha já nasceu.
—Já. -Respondi, ajeitando a bebê no colo. -O que você tem aí?
—Um presente pra ela. -Mostrou uma pequena TARDIS feita de pelúcia.
—Que gracinha. Ela vai adorar.
—E ela já tem um nome?-Deixou o presente no criado mudo. Olhei para Jack e sorri, voltando a encarar o Doutor.
—Idris. Nós... Lembramos da história que você contou sobre a alma da TARDIS num corpo humano... Decidimos chamar a bebê de Idris, como uma homenagem.
—É um belo nome.
—Sim, é. E nós queremos.... Queremos que seja o padrinho dela.
—Eu? Vocês me querem como padrinho?-Sorriu, com os olhos brilhando por causa de lágrimas.
—Não existe ninguém mais que a gente queira escolher. -Jack comentou. -Você será um padrinho fantástico.
—Obrigado. Eu posso... Segurá-la?
—Claro que pode. -Respondi. Ele se abaixou a pegou no colo cuidadosamente.
—Olá, pequena Idris. -Seu sorriso aumentou. -Eu sou o Doutor, seu padrinho.
E foi assim que a minha mais nova aventura começou. Eu era mãe, precisava lidar com isso.
Jack ficou em casa nas duas primeiras semanas, mas precisavam dele na Torchwood e ele teve que ir, deixando Idris apenas aos meus péssimos cuidados.
Não que eu fosse negligente ou fizesse tudo errado de propósito. Eu só era um desastre mesmo. Um total desastre.
Pra começo de conversa, nunca sabia por que Idris estava chorando. Num daqueles livros que Gwen me deu dizia que “as mães sempre sabem o que o choro do seu bebê significa”. Pura mentira! Bebês não sabem se comunicar se não for chorando. Então eles choram, só choram. Se você não sabe interpretar o que o choro quer dizer, não há comunicação entre você e o bebê.
—Vamos lá, Idris, você tem que me dizer o que há de errado. -Implorei, apoiada no berço. -Eu não sei por que você está chorando... Me ajuda a te ajudar, pestinha.
Suspirando, corri para o quarto, revirando a pilha de livros sobre maternidade até achar o que eu estava procurando. Alguma coisa tinha que me dizer o que fazer.
—Isso!-Gritei. -Eu já sei, Idris!-Voltei pro quarto dela. -Eu já sei, não se desespera. -A peguei no colo. Pelo menos isso eu sabia fazer direito.
Sempre que a pestinha chorava, eu pensava primeiro em fome ou trocar a fralda. Nunca lembrava de cólica. Nunca. Bem... Pelo menos estava me esforçando para aprender.
—Você pode não ter a melhor mãe do mundo, Idris. -Comecei, deitando-a no sofá e massageando sua barriga com cuidado. -Mas eu juro que vou melhorar. Além disso, vou proteger você com a minha vida. Não vou deixar que ninguém te machuque. Nunca. Ouviu? Eu não tive uma boa infância... Jamais deixaria que algo estragasse a sua. -Ela parou de chorar. -Se sente melhor? Espero que sim.
Era estranho saber que uma vida tão frágil dependia de mim. Sério. Bebês não fazem nada sozinhos. Precisam que outros os alimentem, os troquem, os limpem, os amem.
Eu até podia ignorar as tarefas domésticas, mas era a “mãe da Idris” o tempo todo. Só conseguia fazer outras coisas quando ela dormia, e mesmo assim ia o tempo todo ver se ela estava bem.
Jack tinha dito que eu não devia pensar em trabalho, mas não fez diferença nenhuma: eu estava totalmente sem vontade de trabalhar ou desenhar armas. Meu lado “agente da Torchwood” tinha sido colocado pra dormir pela “mãe da Idris”. Mesmo assim, eu estava surtando por ficar em casa apenas “maternando”. Sentia falta da ação. Não que ser mãe seja uma coisa muito monótona, Idris dava trabalho tanto quanto um alien qualquer, mas não era a mesma coisa nem de longe.
Sinceramente? Eu estava exausta. Apenas exausta.
***
—Tis, tá tudo bem?-Jack perguntou, do outro lado da mesa.
—Claro. Tudo ótimo.
—Tem certeza?-Olhei pra ele, ainda apoiando o rosto na mão.
—Tenho. Estou perfeitamente bem.
—Eu posso ficar em casa hoje com vocês se quiser.
—Não. Vá trabalhar. Cardiff desmorona em um dia se a Torchwood não estiver com força total.
—Tem certeza de que está...
—Quer mesmo saber? Não. Estou cansada. Durmo pior que o normal há dias, não consigo me concentrar em nada, e em um mês enfiada aqui dentro não desenhei arma nenhuma. -Fiquei de pé. -Sabe o que mais? Eu não sei cuidar direito da Idris. Levo meia hora pra saber por que ela tá chorando, e aí dependendo do que for, não sei o que fazer pra ela parar. Se você ficar, eu vou me sentir mais inútil ainda com alguém me vendo ser uma mãe terrível.
—Você não é uma mãe terrível. Idris nasceu há um mês, você ainda está aprendendo a lidar com ela.
—Pelo amor de todos os deuses... Eu sou uma ex-agente do tempo, caço aliens, faço armas... E não consigo cuidar de um bebê? Isso é tão ridículo... -Comecei a rir. -Isso é a coisa mais ridícula que já aconteceu comigo...
—Tis, tá tudo bem. -Levantou e se aproximou, colocando as mãos nos meus ombros. -Não há nada de errado em não saber o que fazer. Okay?-Assenti, parando de rir. -Quer que eu fique com vocês?
—Não... Eu vou ficar bem. Tenho que aprender a fazer isso.
—Certo. Mas pode me ligar se precisar, tudo bem? Ligue quando quiser e eu venho o mais rápido possível.
—Tá. Tá legal.
Depois que Jack saiu, desfiz a mesa do café e deixei toda a louça na pia, sem vontade de lavá-la. Idris ainda dormia, bem quietinha no berço, então deitei no sofá... E apaguei de sono.
Acordei com o som de uma porta rangendo. Sentei, alerta, apurando os ouvidos. Então, a melodia, aquela melodia assoviada que eu conhecia bem. Idris começou a chorar, um choro alto demais.
Saltei do sofá, o coração martelando no peito, e agarrei uma faca grande que estava jogada na pia. Disparei para o quarto de Idris que nem um foguete...
Mas não havia nada lá... Apenas Idris, chorando. Olhei em volta, confusa. Eu tinha ouvido... Olhei rapidamente os outros cômodos e voltei para o quarto de Idris. Não havia mais ninguém na casa. Mas então...
—Tis, o que está fazendo?-Me virei. Jack estava na porta.
—Eu... Eu achei que tinha alguém... Alguém aqui. -Olhou para a faca. Eu nem lembrava mais dela. Idris ainda estava chorando. Jack tirou a faca da minha mão, a colocou na cômoda e pegou a bebê no colo.
—Shh, shh. Tudo bem, tudo bem. -Olhou pra mim. -Ametista...
Saí do quarto, indo pra sala.
Eu tinha mesmo ouvido alguma coisa, tinha mesmo achado que Idris estava em perigo. Não tinha?
Jack veio pra sala alguns minutos depois. Não havia mais som de choro.
—O que realmente aconteceu?-Perguntou, deixando a faca na mesa.
—Já disse. Achei que tinha alguém no quarto da Idris. Demoraria até pegar minha arma, então peguei uma faca e fui até lá.
—Tis...
—O que acha que eu estava fazendo, Jack? Acha que eu surtei e ia matar a Idris? É isso?
—Claro que não...
—Então o que acha que eu estava fazendo?-Gritei. -Estava tentando proteger minha filha. Isso eu sei fazer. Okay? E é isso o que vou fazer. Jamais deixaria fazerem com ela tudo o que fizeram comigo. Qualquer um que tentar machucar Idris eu mesma mato. Entendeu, Jack? Eu não ia feri-la. Eu ia protegê—la.
—Eu não quis dizer que...
—Estou cansada, okay? Cansada. -Sentei no sofá, tentando espantar as lágrimas que estavam se formando. -Não sei o que tá acontecendo...
—Tudo bem, fica calma. -Sentou ao meu lado. -Você vai ficar bem. Essas coisas... Às vezes acontecem com mulheres que tem bebês.
—Eu fiquei... Maluca?
—Não, não é isso. Talvez seja depressão pós parto. Mas você vai ficar bem. Vamos... Ver o que é isso... Procurar ajuda... Vai ficar tudo bem. Vamos ficar todos bem.
***
ALGUNS MESES DEPOIS
—Você já vai?-Perguntei, terminando de amamentar Idris.
—Tenho que ir. Problemas alienígenas. A frequência de coisas caindo através da fenda aumentou.
—Então me deixa ir trabalhar. Posso ser útil.
—Idris precisa de você aqui. Sua licença maternidade acaba em poucos meses. Aguente só mais um pouco. -Revirei os olhos.
—Tá legal. Ah. Eu consegui desenhar algumas armas, queria te mostrar.
—Eu volto na hora do almoço e você me mostra, tudo bem?-Assenti.
—Ah... Eu... Também tenho outro assunto... Mais urgente. -Colocou o casaco e olhou pra mim. -Alice Carter.
—Tis...
—Ela é sua filha. Você devia tentar falar com ela.
—Alice não quer falar comigo e tem seus motivos pra isso.
—Ainda assim você devia...
—Ametista, chega!-Me calei. Jack suspirou. -Desculpa. Não... Queria ter gritado.
—Tudo bem.
—Tis, Alice é um assunto muito complicado. Ela me pediu para nunca mais procurá-la. Se eu for, vou estar quebrando minha promessa e a pressionando. Não quero ter que fazer isso.
—Tudo bem, você é quem sabe. -Beijou Idris e eu na testa.
—Vejo vocês na hora do almoço?-Assenti. -Até mais, meninas.
—Até. -Saiu e fechou a porta. Olhei para Idris. -E aí, pestinha, o que nós vamos fazer hoje? Hum... -Sorri. -Acho que sua mãe acabou de ter uma ideia.
***
—Ah, meu Deus. Ametista, o que você tá fazendo?-Ianto perguntou, quando me viu entrar com Idris no carrinho e algumas bolsas.
—Eu? Eu vim trabalhar.
—Jack vai te matar. -Sorri.
—Boa sorte pra ele. -Comecei a entrar na base, Ianto me seguiu, agitado.
—Sério, Ametista, você não pode trazer um bebê pra cá.
—Não? Eu trouxe. Diz “oi”, Idris.
—Ametista... -Revirei os olhos.
—Ianto, calado.
O resto da equipe também ficou bem chocada ao me ver com Idris na base. Eu esperava por reações como aquela, eles eram bem previsíveis.
Jack apareceu na porta da sala dele, com aquela cara de “você está encrencada”.
—Vocês quatro, banquem os tios legais e cuidem da Idris. Eu já volto. -Me aproximei de Jack, que me puxou para dentro da sala.
—Tis, isso é só uma visita?
—Não. Eu vim trabalhar e Idris veio comigo. Ela é comportada, vai ficar quietinha.
—Ametista...
—Não vou levá-la para as ruas atrás de aliens. Sério. Não sou tão irresponsável. Apenas vou sentar na minha mesa, desenhar algumas armas e montar algumas, apenas isso. Okay? Posso fazer isso. Posso se mãe e agente da Torchwood ao mesmo tempo.
—Tem certeza de que está pronta pra isso?
—Meses se passaram desde... Aquela “fase ruim”, eu me tratei e estou bem agora. A Ametista original está de volta. E talvez um pouco melhorada. -Dei de ombros.
—Tudo bem. Mas você não vai levar a Idris para o seu laboratório de armas. Não vai deixá-la perto daquelas coisas, ouviu? Falo isso como seu chefe, marido e pai da Idris.
—Sim, senhor. -Comecei a sair da sala.
—Tis, eu falo sério. -Revirei os olhos.
—O que acha que eu vou fazer? Colocar a Idris para testar minhas armas?
Eu tinha me tornado um pouco mais responsável com essa coisa de maternidade. Até por que se eu não fosse... Bem, vocês sabem, bebês precisam de outras pessoas para sobreviver, então se eu não fizesse minha parte cuidando de Idris...
“Seja responsável ou seu bebê morre” não parece um bom título para esses livros sobre maternidade?
***
—Ei, mocinha, isso é meu. -O Doutor disse, tentando pegar de volta a gravata borboleta que Idris arrancou dele. -Então, Tis, como vão as coisas?
—Bem. -Respondi, de boca cheia. Era hora do meu almoço, e eu tinha ido até um café perto da base encontrar o Doutor.
—Jack?
—Com Gwen e Owen atrás de um Weevil. Mas ele está bem, todos estamos. Principalmente a pestinha. Ela é esperta demais pra um bebê.
—Parte Senhora do Tempo, lembra?
—Isso explica muita coisa. E você, aprontando muito por aí com sua nova amiguinha?-Olhou pra mim. Idris aproveitou para roubar a gravata dele de novo.
—Há alguma coisa nessa frase que eu não notei?-Segurei o riso.
—Não é uma crise de ciúme. Talvez seja... Sinto falta da vida na TARDIS. Mas nós sabemos que acabou. Você sabe, pois já arrumou outra companheira.
—Ametista...
—É verdade. E eu vou me acostumar com isso. As coisas mudaram. -Mostrei meu braço direito. -Não há mais um MV aqui. Acabou. É uma nova fase. -Dei de ombros. -Quando algumas coisas terminam, outras começam. É assim que funciona. -Sorriu.
—E começou uma Ametista cheia de sabedoria. -Ri.
—Não exagera. Você até tentou me ensinar essa coisa profunda e poética, mas sabe que não sou boa aluna.
—Você aprendeu algumas coisas comigo.
—Senso de moda é que não foi.
—Ei. -Idris riu. -Até você rindo disso, é? Não venha com desculpas, mocinha. -Ergui uma sobrancelha.
—Perdi alguma coisa?
—Eu falo bebê.
—Você fala... Por que eu ainda me surpreendendo com você, ein?
Deixei os dois sozinhos para ir buscar uma sobremesa e quando voltei, ambos estavam num papo em bebê, e nem me notaram.
—Sim, eu sei. Sua mãe é muito corajosa. Devia vê-la em ação. Ela coloca qualquer alienígena para correr num piscar de olhos.
—Que bom que sabe disso, gracinha. -Olhou pra mim por cima do ombro.
—Se aproximando sorrateiramente, bem a sua cara. -Ri, sentando no meu lugar.
—Posso saber qual o tema da conversa?
—Idris estava me contando como você prometeu cuidar dela e como pegou uma coisa prateada para protegê-la. Acho que isso significa faca.
—Ah. Certo.
—E eu estava contando sobre algumas das nossas aventuras. Mas ela já sabe da maioria delas.
—Jack e eu contamos histórias nossas com você. Idris adora.
—Ah, é mesmo, Idris? Ela disse que a favorita é a das sereias.
—Jura? Você realmente entende o que ela diz.
—Sim. -Assentiu, então esticou o braço e roubou um pedaço do meu bolo.
—Ei!
—Chocolate da Terra. Um dos melhores. Vence até o chocolate de Docitória, o planeta doce.
—Espera aí, existe um planeta de doce?
—Te levo lá um dia se você se comportar. -Puxou meu prato em sua direção.
—Seu ladrão de bolo, chantagista. -Peguei o prato de volta. -Compre seu próprio bolo.
—Não tenho dinheiro humano.
—Peça para Clara. -Olhou para Idris.
—Já percebeu o quanto sua mãe é ciumenta?
—Eu ouvi isso, queixudo. Agora é que eu não te compro bolo nenhum.
—Idris disse que devia comprar.
—Disse nada.
—Quem é que fala bebê aqui?-Revirei os olhos, segurando uma risada.
—Tudo bem, você venceu, ET de gravata. Vá pegar seu bolo. -Sorriu.
—Eu não disse que sua mãe é fantástica, Idris?
—É melhor correr antes que eu mude ideia.
***
—Acho que devia redesenhar essa parte aqui. -Ianto sugeriu, apontando no rascunho que mostrei pra ele. -Ficaria melhor para segurar.
—Também pensei nisso. Hum... Ianto, se importa em olhar Idris só uns minutinhos? Ela está quietinha, não vai dar trabalho.
—Claro, tudo bem.
—Obrigada.
Ele pareceu surpreso com o agradecimento, mas eu já estava me afastando em direção ao banheiro e não disse nada. A verdade era que talvez um dia nós pudéssemos ser amigos da maneira que eu era amiga do resto da equipe, mesmo com nosso péssimo começo.
Quando voltei para minha mesa, Ianto estava com Idris no colo, cantarolando uma canção infantil.
—Eu tenho sobrinhos. -Contou, quando me viu.
—Ah, certo. Legal.
—Sabe... Uma garota salvou a minha vida uma vez. O nome dela era Idris. Só a vi uma vez na vida, então ela desapareceu numa caixa azul. Eu estava pensando se... -Olhou pra minha filha, então deu de ombros. -Talvez seja só coincidência.
—Será que coincidências existem mesmo?
—É uma ótima pergunta.
***
—Presente de natal adiantado. -Jack declarou, puxando a lona de cima do “objeto misterioso”.
—O que é?-Ianto perguntou.
—Uma arma. Caiu através da fenda. Achei que Tis ia querer...
—Olha só isso!-Exclamei, animada. -É enorme e... Eu não sei, parece ser alienígena. Ela é linda!
—Viu só? Eu conheço minha esposa.
—Vou começar a trabalhar nela agora mesmo.
—E a Idris?
—A pestinha dormiu, Gwen está de olho nela. -Bati as mãos juntas. -Okay... Quem não for ajudar dê o fora da minha sala.
—Vou trabalhar em alguns papéis, me chame se precisar.
—Tudo bem. -Saiu da sala.
—Eu posso ficar?-Ianto perguntou. -Talvez precise de... Ajuda.
—Pode ficar. -Prendi o cabelo. -Tá vendo o tamanho dessa coisa linda? Temos muito trabalho pela frente.
—Você realmente adora armas, não é?
—Você não faz ideia. -Peguei uma das chaves de fenda. -Não me especializei nisso só por fazer. Okay... Temos que desmontá-la... Não podemos testá-la sem saber seu poder de fogo. Uma coisinha errada e podemos explodir a base inteira.
—Está falando sério?-Me aproximei da arma.
—Mais sério impossível...
***
Abri os olhos com dificuldade. Meu peito doía muito e havia algo quente escorrendo dele e do meu rosto. Não conseguia ver ou ouvir nada. Havia muita fumaça e... O que era aquilo tudo?
Movi a cabeça cuidadosamente, tossindo. Ianto estava ao meu lado esquerdo, caído de um jeito estranho. Havia alguns materiais prateados e pontudos no pescoço dele, peito e braços...
—Ianto?-Sussurrei, tentando alcançar sua mão, que estava mais perto de mim. -Ianto?
Fechei os olhos. A arma tinha explodido. Explodido e atingido nós dois com força total.
Tentei respirar fundo e deixei a inconsciência me puxar, ouvindo um grito que parecia vir de muito longe.
***
—Tis?-Abri os olhos. Gwen estava com Idris no colo, uma expressão de preocupação pura no rosto. -Ah, graças a Deus....
—Me atualize.
—A arma em que você estava mexendo explodiu. Destruiu o laboratório de armas... Você passou por uma cirurgia horas atrás....
—Ianto?
—Ianto... O estado dele é... Grave. Há estilhaços muito perto do coração, os médicos não conseguiram remover tudo e não sabem se...
—Eu não devia ter deixado ele ficar. -Olhei em volta do quarto de hospital, agitada. -Jack?
—Conversando com os médicos sobre Ianto.
—Certo. Eu preciso de um telefone... Agora.
—Pra quem você quer...
—Telefone, Gwen, agora, por favor. -Tirou o celular do bolso e me entregou.
Digitei o número do Doutor e esperei. Me sentia exausta e queria dormir por horas, mas tinha que fazer uma coisa importante antes.
—Olá, Doutor falando, direto da TARDIS...
—Sou eu... Preciso de ajuda.
—Ametista? O que aconteceu?-Estendi o celular para Gwen.
—Diga a ele quando e onde estamos. Também diga a ele para vir imediatamente. Precisamos salvar Ianto.
Logo depois a TARDIS se materializou no corredor em frente ao meu quarto e o Doutor saiu, apressado.
—O que aconteceu com você?-Perguntou.
—Você tem que levar Ianto até um hospital futurista. Século 32 já serve. Ele tem estilhaços de arma alienígena perto do coração, e com a medicina desse século vai acabar morrendo.
—Ametista...
—Quase o matei, Doutor. A culpa foi minha. Então por favor, me ajude a salvá-lo.
—Vou levar você também, não parece bem...
—Não temos tempo pra isso. Gwen, leve o Doutor até o quarto de Ianto. Eles tem que ir agora.
—Ametista, por favor...
—É bom me obedecer, ET de gravata! Ai. -Coloquei a mão no peito. -Vai logo antes que eu abra meus pontos gritando com você. -Apontou pra mim.
—Eu vou voltar aqui depois.
—Vai logo!
Não vi quando levaram Ianto. Acabei sendo levada para alguns exames e quando voltei, Gwen contou que Jack e o Doutor tinham levado nosso colega, mesmo com os médicos sendo totalmente contra.
—Achou que ia se livrar de mim?-O Senhor do Tempo perguntou, surgindo na porta.
—O que está fazendo aqui, criatura? Eu te mandei levar Ianto...
—E eu levei. Agora vim levar você. Ianto está indo para cirurgia agora mesmo, com altas chances de sucesso. É a sua vez.
—Eu estou bem. Não preciso que...
—Você me deu ordens antes, e eu as obedeci. Agora você obedece as minhas. -Revirei os olhos.
—Me obrigue. -Sorriu.
—Vai ser mais fácil do que você pensa.
***
Quando a médica responsável pelo meu caso disse que eu estava bem, não perdi a oportunidade de esfregar na cara do Doutor. Mas já que estava naquele hospital futurístico, aproveitei para esperar notícias de Ianto.
—Eu não sei por que estão me obrigando a ficar nessa cadeira estúpida. -Resmunguei. -Eu posso andar.
—Qual parte do “Não faça esforço você não entendeu”?-O Doutor perguntou, checando relógio, de pé no outro lado do corredor.
—Fecha essa boca ou vou dizer para os seguranças que você está me assediando.
—Como fez quando nos conhecemos? -Sorri maldosamente.
—Exato, queixudo.
—Você é uma mulher muito maldosa às vezes
—Eu sei. -Jack apareceu no corredor. -E aí? Como ele está?
—Bem. -Respondeu, sentando no banco. -Acordou, e está estável. Foi uma excelente ideia trazê-lo pra cá.
—Minhas ideias sempre são excelentes.
—Eu não diria isso.
—Calado. Será que eu posso ver Ianto?-Olhou pra mim. -Eu não vou sufocá-lo com o travesseiro como numa novela mexicana.
—Se você diz...
—Jack!-Riu.
—É brincadeira, Tis. Vamos, eu te ajudo a ir até lá.
Ianto ainda estava acordado quando cheguei. Ele parecia bem, e não lembrava em nada o homem ferido que eu tinha visto horas atrás.
—Como você está?-Perguntei, quando Jack saiu.
—Bem. E você? Disseram que passou por uma cirurgia...
—Estou bem. Ianto... Eu... Eu sinto muito. Você não devia estar lá... Eu o deixei ficar e....
—A culpa não foi sua. Essas coisas, infelizmente, acontecem. Eu não culpo você, ninguém culpa. -Se ajeitou na cama cuidadosamente. -Jack disse que foi uma explosão feia.
—Eu não lembro de nada, mas pelos estragos... Foi feia mesmo.
—Bem que você disse. -Sorri.
—Talvez agora aprendam a me ouvir. -Sorriu também.
—Com certeza. -Hesitei antes de continuar a falar.
—Talvez não acredite em mim, por que... Bom, você tem seus motivos, mas estou feliz que esteja bem.
—Eu acredito em você, Ametista. Também estou feliz em saber que está bem. Nós nunca fomos próximos, mas eu a considero uma amiga. De verdade.
—Eu nunca fui gentil com você, sempre o tratando mal e pegando no seu pé.
—Até onde eu sei, você faz isso com todo mundo.
—Bom... Isso é verdade. -Riu, me fazendo rir também.
—Escuta, você pode achar que... Eu sou uma ameaça para o seu relacionamento, mas não sou. Jack... Me apresentou um amigo... Ele recentemente se tornou capitão do próprio navio... Estamos saindo tudo mais...
—Jura? Isso é ótimo. Você é um cara legal, merece alguém legal também. -Sorriu.
—Uma explosão nos fez ser gentis um com o outro. Dá pra acreditar? Parece um bom começo para uma amizade.
—Parece que sim, Ianto. Parece que sim.
***
DOIS ANOS DEPOIS
—Não acredito que o tempo pode passar tão rápido. -Gwen comentou, sentada ao lado de Tosh. -Como num piscar de olhos.
—Estou tão surpresa quanto você. Parece que foi ontem que eu estava entrando na Agência do Tempo... Agora sou mãe de uma menina de dois anos e... Bem... Surpresa!
Era o aniversário de Idris. Jack e eu decidimos fazer uma comemoração pequena, chamando nossos amigos da Torchwood. O Doutor tinha sido convidado, mas não apareceu. Ele não aparecia há dois anos.
Gwen veio com o marido, Rhys; Tosh e Owen, que estavam saindo sem compromisso, vieram juntos; Ianto veio sozinho, mas com uma foto do namorado no celular que nos mostrou, todo contente.
Todos nós parecíamos um final clichê e feliz de filme, mas era melhor que um final triste e trágico, não é mesmo?
O pessoal todo foi embora quase dez da noite. Idris, ainda agitada, se recusou a dormir e ficou desenhando, enquanto Jack e eu arrumávamos tudo.
De repente o som da TARDIS soou pelo apartamento, então ela se materializou na sala, daquele jeito familiar. As portas da nave abriram e o Doutor saiu, animado, segurando algo atrás da costas.
—Olá, desculpem o atraso! Idris!-Se abaixou perto dela. -Feliz aniversário. Eu te trouxe um presente. -Mostrou o fez, pequeno, que estava escondendo, e o colocou na cabeça dela. -O que você achou? É, sim, é legal mesmo.
—Um fez, sério? -Perguntei. Ele ficou de pé.
—Ela gostou, isso é o que importa. Hey... Tem algo diferente em você de novo... Nessa região aqui...
—Eu cortei o cabelo.
—Ah, sim, é isso. Ficou muito bom. -Me abraçou. -Jack... Você continua igualzinho... Mas isso não é uma surpresa. -O abraçou também.
—Vem, maluco, tem bolo pra você.
—Bolo! Eu quero. -Peguei Idris no colo, deixando-a na cadeirinha. Jack e o Doutor vieram atrás de mim, sentando enquanto eu servia bolo. -No formato da TARDIS, gostei.
—Ideia do Jack. -Idris pegou a vela em formato de 2 e a colocou na boca. -Sua filha está comendo a vela, Jack.
—Ela disse que tem um gosto bom, até a parte que não está suja de chocolate. -Fez uma pausa, brincando com o garfo. -Desculpem mesmo o atraso. Eu estava com Clara, vendo um vulcão em outra galáxia cuja lava vira diamante quando esfria.
—Existe um vulcão que expele diamantes e você nunca me levou lá?
—Você ia ficar tentando pegar o máximo de diamantes possível.
—Lógico que eu ia. São diamantes!
—Viu? Eu te conheço. -Idris começou a se agitar na cadeirinha, mostrando que queria descer, então Jack a colocou no chão e a seguiu quando ela foi pra sala.
—Você sumiu.
—Eu não... Desculpe. -Desviou o olhar. -Você sabe que eu acabo fazendo isso. -Franziu a testa e voltou a me encarar. -Vocês me escolheram como padrinho da Idris como um modo de me manter por perto obrigatoriamente?
—Talvez. -Sorri. -Você era a nossa melhor escolha. E seria ótimo no papel de guardião caso Idris precise. Você tem essa... Coisa paterna e protetora... A escolha perfeita.
Idris voltou para a cozinha com um papel em mãos e estendeu na direção do padrinho.
—Doutor. -Disse. O Senhor do Tempo sorriu.
—Ela disse meu nome?-Suspirei.
—Passei meses tentando ensiná-la falar “mamãe” e a primeira coisa que ela disse foi “Doutor”. -Comentei. -Sério. Jack até gravou. Aposto que foi ele quem ensinou a pestinha.
—Obrigado, querida. -Pegou o desenho. Idris tinha o desenhado com a TARDIS e ela. -É muito bonito. -Dobrou a folha e guardou no bolso. -Vou colar na TARDIS. -Olhou para o relógio no pulso. -Preciso ir. Tenho umas coisas pra fazer. -Ficou de pé.
—Você sumiu por dois anos e já está indo embora?-Levantei.
—É assim que eu sou, lembra?
—Não dá pra esquecer com você fazendo isso sempre. -Fomos pra sala. O Doutor se abaixou na frente de Idris.
—Um dia, eu prometo, vou te mostrar o que tem lá fora. O Universo é enorme, Idris Harkness. E você nasceu para conhecê-lo. -Beijou a testa dela. -Até mais, baixinha. -Se levantou. -Jack...
—Pare de sumir. -Interrompeu.
—Vou tentar. -O abraçou. Jack parecia relutante em deixá-lo ir. -Agora você... -Parou na minha frente. -Ametista Harkness... Não deixe ninguém te dizer que você não é fantástica.
—Ninguém diz. -Avisei. -Eu sou fantástica mesmo. -Riu e me abraçou. Quando se afastou, olhou de rosto em rosto e foi para a TARDIS, abrindo a porta.
—Foi bom vê-los de novo, família Harkness.
Então entrou na caixa azul e desapareceu.
—Isso também pareceu uma despedida permanente pra você?-Perguntei a Jack.
—Sim, Tis. -Suspirei. -Mas ele vai voltar. -Sorriu, pegando Idris no colo. -O Doutor sempre volta.
—Eu não tenho tanta certeza. -Olhou pra mim.
—Então tenha esperança.
Repentinamente, houve algumas batidas apressadas na porta. Troquei um olhar confuso com Jack e fui atender.
Do lado de fora, com uma caixa bem embrulhada em mãos, estava River Song.
—Olá. Essa é a casa dos Harkness?-Assenti. -Que bom. Eu sou River. River Song. Vim falar sobre a filha de vocês, Idris. Será que eu posso entrar? Eu trouxe um presente.



Notas finais do capítulo

Bem, quem leu O Caçador da Tempestade já conhece a filha dos Harkness, Idris. Ela será a nova e última protagonista da série Universo, tendo uma história com seu nome. Infelizmente, nesse momento, a fanfic não está concluída, por isso eu não posso dizer quando será postada. Espero que seja em breve. Até lá, é possível que eu apareça pelo site com outras histórias malucas.
Ametista teve depressão pós parto. Isso acontece na vida real, e não deve ser ignorado de forma alguma.
Eu não disse na fanfic, mas o namorado do Ianto é um conhecido da série... ALLONS-Y ALONSOOOOOO! kkkkk Eles seriam fofinhos juntos... E a doida aqui já confundiu os atores.
River apareceu no fim. Na linha do tempo dela, é a primeira vez que conhece os Harkness. Lembram que Ametista a conheceu na TARDIS? Lá a River já era bem próxima da família.
Bem... Eu acho que isso é tudo.
Em Idris, nós vamos rever alguns personagens, conheceremos alguns novos e vamos ver mais sobre Idris Harkness crescida. O Doutor cumprirá sua promessa de lhe mostrar o Universo? Haverá pessoas interessadas numa meia humana e meia Senhora do Tempo? Arcos abertos em outras histórias irão se fechar de vez em Idris.
Até a próxima aventura, pessoal!



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