Ametista escrita por Karina A de Souza


Capítulo 20
Ele não mentiu, às vezes eu mordo mesmo


Notas iniciais do capítulo

Segunda vez hoje tentando postar esse capítulo por causa da internet...
Viemos hoje com um título maluco, tretas e tensão.



—Você parece estar num péssimo humor. -O Doutor comentou, olhando pra mim do outro lado dos consoles. -Quer falar disso?
—Não. Tenho cara de quem quer falar sobre o que aconteceu?
—Hã... Não?-Suspirei, irritada.
—Aquele desgraçado, filho da mãe, ousou voltar e fingir que nada aconteceu...
—Eu? O que eu fiz?-Olhei pra ele.
—Não, você não. É... É sobre outro cara.
—Jack?
—Não. Não é o Jack. Já percebeu que eu sempre tenho algum problema com algum cara?
—Talvez por que... -Cruzei os braços. -Ah, eu não sei. É bem curioso. Escuta, -Se aproximou, colocando o braço em cima dos meus ombros. -seja lá qual o problema, não se abale com isso. Você é uma garota bem durona, vai ficar bem.
—Não é exatamente verdade.
—O que? Você não é uma garota?-Bati na minha própria testa.
—Deixa pra lá. -O empurrei. -Onde estamos?-Sorriu.
—Eu não faço ideia!-Bateu as mãos juntas uma vez. -Vamos descobrir!
—Já percebeu que você é trezentas milhões de vezes mais enérgico que sua regeneração anterior?
—Eu sou?
—Infelizmente, sim.
—O que quer dizer com isso?-O puxei pelo braço.
—Vamos, vamos logo.
A TARDIS tinha se materializado ao lado de uma grande e velha casa, que ficava ao frente do mar. O Doutor se apoiou na grade para olhar lá em baixo.
—O mar está bem agitado. -Comentou.
—Estamos na Terra?
—Hum... -Olhou em volta. -Com certeza não.
—Por quê?-Apontou para o céu.
—Duas luas, e o azul está diferente. Além disso, o gosto do ar é esquisito.
—Gosto do ar? Desde quando o ar tem gosto?
Saiu andando em direção à casa, scaneando em volta com a chave de fenda sônica e falando consigo mesmo.
—Por que estamos aqui?-Perguntou. -Não faz sentido. Não há nada aqui... Bom... Mas há, não é?
—Desculpa interromper, mas você pode fazer sentido?
—A TARDIS nem sempre me leva aonde eu quero, mas pra onde eu preciso ir. E dessa vez, ela acha que eu preciso estar aqui.
—Uau. Nem vou falar que isso é estranho, pode ferir seus sentimentos.
—Não é estranho. É ela. -Apontou para a caixa azul.
—Sim, como se uma nave consciente não fosse estranho.
—Eu não acho.
—Claro que não, você é estranho também. -Guardou a chave de fenda sônica.
—Acha que devíamos entrar na casa?
—Tenho certeza absoluta que se entrarmos, vamos nos meter em confusão. Então a resposta é sim. Vamos nessa.
Nos aproximamos da porta, que abriu sozinha, nos fazendo trocar olhares assombrados.
—Você sabe que isso é um mal sinal, não sabe?-Perguntei.
—Sei. -Ele mal conseguia esconder um sorriso agora.
—Você é doido.
—Você também é. -Segurou minha mão, me puxando para dentro da casa. Velas em candelabros se acenderam automaticamente e a porta se fechou sozinha com um estrondo alto.
—Também são péssimos sinais.
—Isso não te deixa curiosa?-Sorri.
—Um pouco.
Nossa única opção era subir as escadas que estavam na nossa frente, pois não havia mais portas no cômodo.
A escada nos levou até uma série de corredores, todos iluminados por velas. O Doutor e eu começamos a caminhar com cuidado, atentos a qualquer som ou sinal de que havia algo mais errado ainda com aquele lugar.
—Talvez seja só uma casa velha. -Ele sussurrou, lançando um olhar rápido pra mim.
—Sim, uma casa velha que abre e fecha portas sozinha, além de acender velas. Faz todo sentido. -Segurei o riso. -Você está com medo.
—Não estou, não.
—Então por que está sussurrando e segurando minha mão como se sua vida dependesse disso?-Franziu a testa, olhando pras nossas mãos juntas, então pra mim.
—Eu nem percebi que estava fazendo isso.
—Viu? Você está com medo.
—Não, não estou... Mas meu corpo está. É como... Como um alerta natural. Meu cérebro acha que está tudo bem, mas meu corpo está com medo.
—Isso é possível?
—Está acontecendo agora. Acho que devíamos voltar e escanear a casa com a TARDIS. -Começou a andar, então parou. -Está vendo isso também?
—Isso o qu... -Parei de falar. -O corredor... O corredor está... Diferente.
—Ele mudou enquanto estávamos de costas.
—Como ele pode ter mudado? Havia uma bifurcação ali mesmo... Não é possível. -Me soltou e andou um pouco pelo corredor.
—Não é uma ilusão.
—Então a gente enlouqueceu?
—Em minutos?-Arregalou os olhos. -Espera aí... O que eu não estou vendo aqui... -Mexeu as mãos de forma agitada. -Só tenho que juntar as peças...
—Que peças?
Mas ele já não estava mais me ouvindo, falando sozinho e rápido demais para que eu entendesse.
Me encostei na parede, esperando o surto do Doutor terminar, mas a parede não era mais uma parede e sim uma porta, que abriu, me fazendo tropeçar para dentro.
—Merda. -Resmunguei, me virando para olhar onde tinha me metido, então recuei. -Doutor...
—Se eu soubesse mais...
—Doutor.
—Tudo isso parece fazer sentido se juntar as peças, mas...
—Doutor!-Olhou pra mim, assustado. -Precisa ver isso. -Se apressou para ficar ao meu lado.
—Isso definitivamente completa o quebra-cabeças.
Havia esqueletos naquele quarto, vários esqueletos, de tamanhos e estados diferentes. Ao meu lado, o Doutor engoliu seco.
—Tis, lembra que você disse que se entrássemos íamos arrumar confusão? Você tinha razão.
—A frase certa no momento errado.
—Nós temos que ir, agora.
Me puxou de volta para o corredor, mas tivemos que parar por que agora havia uma mulher lá, bem no nosso caminho de volta. Era uma mulher velha, bem velha, arcada e com unhas longas. As roupas pretas estavam sujas e com buracos.
O Doutor começou a recuar, me levando junto, só que agora estávamos cercados, pois havia outra mulher bem atrás de nós.
—Me diz que elas são apenas velhas assustadoras. -Pedi, num sussurro apressado.
—Elas são apenas velhas assustadoras.
—Você está mentindo, não é?
—É, estou.
—Se era pra me acalmar, não funcionou. -Deu de ombros.
—Pelo menos eu tentei.
—Sabe o que elas são?-Assentiu. -Então me diz.
—São a mistura entre Anciãos e Carrionites. São Waspdusts.
—Elas querem roubar nossos corpos?
—Não. -Olhou pra mim. -Querem nossos corações.
Então uma fumaça arroxeada nos cercou e nós apagamos.
***
Mesmo depois de acordar, eu demorei a ficar cem por cento. Seja lá o que as velhas assustadoras tinham usado, tinha me afetado bastante.
Quando consegui me orientar, percebi que a situação era bem feia. Eu estava com uma camisola estranha e velha, presa numa maca. O Doutor estava na mesa situação, do outro lado do quarto, mas ainda com suas roupas, apenas sem o casaco, que estava jogado ao lado dele.
—Doutor. -Chamei, ele olhou pra mim rapidamente.
—Ametista, você acordou, que bom.
—Bom? Você disse que as Waspdusts querem nossos corações!
—E é exatamente o que vamos conseguir. -Uma das velhas disse, vindo até mim, praticamente se arrastando. Parou na frente de uma mesinha, pegando uma seringa.
—O que acha que vai fazer com isso?
—Nós devoramos corações para rejuvenescer. Mas sabe o que é melhor ainda? Um coração cheio de medo. Vou injetar em você uma dose alta do soro do medo. Seu coração vai bater tão rápido que vai parar, e você morrerá. E então vamos devorar esse órgão tão importante e saboroso. Depois, veremos o que fazer com seu amigo, que tem dois corações.
Enfiou a agulha no meu braço, sem cuidado nenhum, e recuou, sorrindo satisfeita.
—Agora é só esperar. -Avisou. -Qual seu maior medo, criança? Seja o que for... Ele está vindo pra te pegar. -Saiu da sala. Meu braço começou a formigar de leve, e a sensação se espalhou rapidamente pelo meu corpo.
—Ametista, olhe pra mim. -O Doutor pediu. O encarei. -Eu não sei o que você vai ver, mas não é real. Entendeu?-Balancei a cabeça negativamente. Estava confusa, não conseguia pensar. -Preste atenção...
Uma melodia começou a ser assoviada, vindo de um corredor. Cada pelo do meu corpo se arrepiou, e meu coração acelerou.
—Ele está aqui... Doutor... Ele está aqui!
—Ametista...
—Ele está aqui!-Comecei a tentar soltar meus pulsos, desesperadamente. -Doutor!
Então ele estava na porta. Ezir. Tão grande e assustador quanto eu me lembrava. Meu coração começou a bater mais rápido.
—Não!-Gritei. Mal ouvia o Doutor me chamando. -Não! Não! Não! Me deixa em paz! Me deixa em paz!
—Você achou que ia se livrar de mim?-Perguntou, se aproximando lentamente. Não tinha pressa em me pegar, pois tinha certeza de que ia... Como sempre. -Eu disse que você não ia fugir.
—Não! Vai embora! Vai embora! Me deixa em paz! Doutor! Por favor... Doutor...
—Pobre Ametista, pedra preciosa, sempre encurralada. Você já aprendeu a lição?
—Por favor... Por favor, não me machuca...
Então houve um som estranho, meu peito começou a doer, e o mundo foi apagando diante dos meus olhos.
***
A voz do Doutor parecia muito distante, e tão baixa quanto um sussurro. Me agarrei a ela como me agarraria à um bote salva vidas e lutei para a acordar.
Eu não fazia ideia do que estava acontecendo, e quando senti que havia alguém me tocando, sentei depressa, tentando empurrar e bater no dono das mãos.
—Sou eu! Sou eu, Tis, calma!-Era o Doutor. Ele segurou meus braços, me impedindo de acertá-lo. -Está tudo bem. O que você viu não está mais aqui.
—Tem certeza?-Olhei em volta, meu corpo estava tremendo.
—Não era real. Não havia nada aqui além de nós. Foi o soro do medo que a Waspdust injetou em você.
—Parecia real. Parecia... Parecia muito real. Ele... Ele estava bem aqui e... E... -Solucei.
—Tudo bem, Tis. Está tudo bem agora.
Aí eu comecei a chorar. O Doutor me abraçou, sussurrando coisas pra me acalmar.
Eu odiava chorar, odiava mesmo. Não era do tipo que chorava por qualquer coisa, e algumas pessoas me achavam insensível por isso, mas eu era assim. Tudo bem, recentemente eu andava bem sensível...
Decidi me dar um desconto, afinal, tinha acabado de passar por algo traumatizante e por uma experiência de quase morte.
—Acabou, Tis. -O Doutor sussurrou, esfregando minhas costas. -Ele não pode mais te machucar. Está tudo bem.
Acho que passei uma meia hora chorando. Quando acabei, o Doutor me entregou um lencinho para que eu secasse o rosto e me ajudou a levantar. Disse que precisávamos ir. Ele selaria a casa, prendendo as Waspdusts ali dentro. Elas estavam velhas demais, e, sem corações para devorar, iam virar pó em poucos dias. Não me importei se era cruel ou não. Depois do que elas fizeram, eu mesma teria acabado com elas.
Meu corpo parecia de isopor, como se eu fosse flutuar ou algo assim. O Doutor teve que me ajudar a andar. Ele estava sendo tão legal e atencioso que eu nem sei descrever. Depois de tudo o que tinha acontecido, ele era exatamente quem eu precisava comigo no momento.
***
—Tis, o que aconteceu?-Jack perguntou, correndo até mim enquanto eu desabava na cadeira em frente à mesa dele. -Tis?
—Quero que mande John embora, ouviu? Quero ele fora daqui.
—O que houve com você?-Me olhou de cima abaixo. O Doutor tinha acabado de me deixar em frente a base da Torchwood, exausta e com seu casaco nos ombros. -Ametista.
—Se enfrentasse seu pior pesadelo, você sobreviveria? Eu não consegui. Eu não consegui... -Cobri a boca com a mão, engolindo o choro.
—Me diz o que aconteceu. O que fizeram com você?
—Você tem que mandar John embora.
—Ametista...
—Ele me usou numa negociação de armas. -Franziu a testa.
—O que?
—Ele ia me trocar por armas que queria. Mas eu fugi e agora há cartazes em Boeshane com meu rosto, como se eu fosse uma criminosa, por que os homens pra quem John me prometeu estão me procurando.
—Eu... Eu não sabia disso, sinto muito...
—Você tem que escolher, Jack. Mas saiba que se não me escolher, dessa vez vai me perder de verdade. -Fiquei de pé, me apoiando na mesa. -Tenho que ir pra casa.
—Tis, você não está bem...
—E alguma vez eu estive?
***
Fechei a porta de casa, me apoiando nela. Queria cair na cama e dormir até esquecer minha vida toda. Além disso, sentia que se não fosse deitar logo, ia apagar exatamente onde estava.
Me virei para ir até meu quarto, então meu olhar bateu em John, sentado no meu sofá como se fosse o rei o lugar.
—Você parece péssima. -Comentou.
—O que está fazendo aqui?
—Nós temos negócios a acertar. Sabe, eu estava me perguntando quanto tempo levaria pra você abrir a boca e despejar nosso probleminha em cima do Jack. Demorou mais do que eu esperava. Mesmo assim, era melhor ter ficado de boca fechada.
—Você não deveria ter vindo pra cá. Por que eu vou matar você, e sabe disso.
—Vim atrás do Jack, mas deveria ter imaginado que você estaria com ele. Sempre o seguiu por aí feito um cachorrinho desesperado por atenção
—Me deixe adivinhar... Jack chutou você.
—Não devia ficar feliz com isso. Esqueceu que nós três tínhamos uma bela amizade? Ah, certo, nós quatro: Jack, você, uma cama e eu.
—Eu vou matar você.
—As pessoas ligam pra essas suas ameaças, Tis?-Ficou de pé. -Por que eu fico entediado.
Então eu avancei nele, cega de raiva, sem nem sabe o que estava fazendo. John apenas se moveu para o lado, agarrando meu braço e puxando-o para minhas costas.
—Me solta!
—Eu disse: nós temos negócios a acertar. -Algemou meus pulsos. O calor que veio das algemas mostrava que não eram comuns.
—John, me solta!
A porta foi chutada e Jack entrou, congelando quando viu a situação. Ele abriu a boca para falar alguma coisa, mas John ativou seu Manipulador de Vórtex e nós desaparecemos.
***
—Acorda, pedra preciosa, temos coisas a serem resolvidas. -Empurrou meu corpo com o pé, me fazendo virar de barriga pra cima. -Você não costuma desmaiar quando usa o MV, não é?-Assoviou. -O que andou fazendo antes de me encontrar? E qual é a da camisola?
—Onde estamos?-Olhei em volta. Estávamos num campo. Atrás de nós havia uma floresta e à nossa frente um enorme galpão prateado.
—Vamos encontrar uns amigos. -Me puxou para que eu levantasse, então começou a andar para o galpão. Eu não tinha forças para me soltar dele ou correr.
—Jack nunca vai perdoar você.
—Com quem acha que ele se importa mais? Se fosse você, ele teria me mandado embora antes.
—Jack vai me encontrar e nós dois vamos socar a sua cara. -Riu.
—Jack não vai te encontrar. Para todos os efeitos, você estará morta.
Entramos no galpão, havia oito homens lá dentro, eu conhecia todos eles da última negociação.
—Desculpe a demora. -John pediu. -Tive um pouco de trabalho, mas está aqui sua garota.
—Suas armas. -Shondel, o líder do grupo, disse, enquanto um de seus seguranças abria a maleta.
—Ótimo. Tudo feito. Aqui está o que você pediu pelas armas. -Me empurrou para o líder e pegou a maleta. -Cuidado, ela é selvagem, imprevisível... E às vezes morde.
—Foi um prazer fazer negócio com você, Hart. Avise se quiser outro. Bom... Acho que acabamos aqui...
—Na verdade... Não. -Acertou a lateral do meu corpo com o braço, me derrubando, então ouvi sete disparos.
Ergui a cabeça, confusa. John tinha matado Shondel e seus homens.
—O que você fez?-Perguntei.
—Querida, você é uma pedrinha irritante no meu sapato, mas eu não podia entregá-la para ser escrava sexual de Shondel. Ou podia?-Me soltou. Fiquei se pé, esfregando os pulsos. -Pode me agradecer.
Então... Então eu soquei a cara dele. John caiu, o nariz sangrando. O puxei pela camisa, socando-o de novo.
—Dessa vez eu vou te poupar, por que fez o mesmo por mim. Mas se eu ver essa sua cara ridícula de novo, vou matar você. Entendeu bem? Não venha atrás de mim ou do Jack.
Pisei no Manipulador de Vórtex dele, quebrando-o. Comecei a me afastar em direção à saída, enquanto John ria.
—Você é mesmo selvagem e incontrolável, Tis... Vou sentir falta disso!
—Vai se ferrar!



Notas finais do capítulo

Esse capítulo teve umas inspirações um pouco estranhas: o filme Stardust, e um clipe do Lacuna Coil, cujas algumas cenas foram usadas no teaser desse capítulo. O clipe pode ser visto nesse link: https://youtu.be/nNRokMpmyCo
Yep. As Waspdusts foram deixadas para morrer. Mas o que se faria com seres que matam para sobreviver? Talvez haja centenas de outras opções, mas você não pode chegar numa Waspdust e falar que ela não deve mais se alimentar. Elas morreriam, de qualquer jeito. Mesma coisa se não permitissem alimentos à humanos.
Hoje o dia não foi muito fácil para Ametista. Yeah, eu sou muito má com essa garota. Não dá pra negar que Tis é uma sobrevivente.
Enquanto isso, no próximo capítulo... O Doutor tem algumas supresinhas... Enquanto Ametista fica cara a cara com uma oportunidade de conseguir spoilers.
Até maaaais, pessoas.



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