O Colecionador escrita por Kaline Bogard


Capítulo 5
Olhos de Hinata


Notas iniciais do capítulo

Pontual... pontual... hohohoho



O lugar parecia imenso. A extensão do campo de flores a se perder de vista trazia a sensação de infinitude. E era engraçado quando algo entrecortava a distância, desfazendo a harmonia linear do horizonte.

Kiba comentou isso com Naruto, sobre a sensação de as coisas “surgirem” no campo de visão. Naruto explicou que provavelmente era parte da distorção espacial característico do lugar.

— Com o tempo você se acostuma.

— Me acostumo um caralho. Vou cair fora daqui antes disso.

O outro riu do jeito marrento e não insistiu.

Tal debate veio depois de um longo período de silêncio e foi interrompido pela visão de uma fileira de seis pequenas casas, todas no padrão ocidental em formato de chalés. Eram bonitas, simétricas como peças em um tabuleiro.

— Aquele da ponta surgiu ontem. Por isso a gente sabia que alguém chegaria. É sua nova casa.

— Não por muito tempo…

— Claro. Pelo tempo que ficar aqui com a gente.

Ao invés de seguir para o suposto novo lar de Kiba, Naruto desviou para a terceira casinha da direita para a esquerda. Bateu na porta e guardou.

Alguns minutos depois, um pequeno vão na porta se abriu e o rostinho miúdo de uma garota apareceu. Era uma menina de cabelos curtos tão escuros que pareciam ter reflexos azuis de acordo com a incidência da luz. O rosto redondo era bonito, principalmente com o rubor leve que incidia na pele pálida. Mas o que chamava a atenção os grandes e atípicos olhos perolados. Num instante inicial, Kiba pensou que a menina fosse cega, sensação que despareceu quando ela o encarou com certa curiosidade.

— Yo, Hinata! Esse é o Kiba. Ele chegou agora de manhã! Eu encontrei ele na entrada, dormindo entre as flores. Kiba, essa é Hinata! A comida dela é uma delícia, tem um pouco pra gente?

— C-claro, Naruto-kun — abriu a porta de vez, permitindo que eles entrassem em sua casa. Quando Kiba ia passando, sorriu de leve — P-prazer em conhecer.

— O prazer é todo meu!

— Venham comigo.

Os garotos obedeceram, Kiba mal segurando a curiosidade em observar o interior da residência. O primeiro cômodo era uma espécie de sala, com um jogo de sofás moderno, cortinas estampadas nas janelas e vasos de flores pendurados nos cantos.

O próximo ambiente era uma pequena cozinha, algo rústico, com o primordial para a sobrevivência de alguém, sem luxos. Muito limpa e agradável.

— Fiquem a vontade — indicou a mesa de quatro cadeiras — Vou esquentar a comida.

— Obrigado! — Naruto agradeceu com um sorrisão, sentando-se primeiro. Logo Kiba o imitou, feliz por Hinata tirar uma bandeja da geladeira cheia com onigiris.

— Sirvam-se, por favor.

Obedeceram sem pensar duas vezes. Kiba estava tão faminto que pegou um em cada mão e alterava mordidas entre eles.

— Gostoso! — exclamou com a boca cheia e grãs de arroz grudados na bochecha.

O jeito expansivo conquistou Hinata de imediato, que tratou de começar a esquentar as sobras do almoço. Imaginou que Naruto apareceria por ali, já que o rapaz almoçava em sua casa com uma frequência quase diária. E nos dias que não almoçava, aparecia com a cara de pau para filar comida no jantar. Então o que preparava a mais nunca era perdido.

— Seja bem vindo, Kiba-kun — ela falou baixinho — Espero que goste de conviver com a gente.

Kiba engoliu comida depressa, quase se engasgando.

— Obrigado! Mas eu falei pro Naruto que não pretendo ficar muito tempo. Vou descobrir uma passagem na casa desse “colecionador” e voltar pra Konoha! — mal terminou de falar e voltou a pegar mais bolinhos de arroz.

— Entendi — Hinata sorriu condescendente. Não era a primeira vez que ouvia alguém falar assim. Provavelmente não seria a última.

— Vou ajudar — Naruto revelou empolgado com os bolinhos — Ah, Kiba é metade shifter lobo e metade humano. Mais um mestiço pra coleção.

— E a Hinata é o que? — o garoto soou curioso.

Naruto sorriu largo e suspeito, como se esperasse aquela pergunta.

— Ela é meio humana e meio medusa.

A informação fez Kiba parar de mastigar, assumindo uma aparência pensativa. A mente trabalhando rápido para reunir o que sabia sobre tal criatura.

— Medusa…? — soou distante, olhando para o lado.

— Sim, se olhar nos olhos dela você pode virar pedra! Não irrite a Hinata!! — debochou.

Pois a frase agiu como um imã que atraiu a atenção de Kiba por completo. Ele demorou meio segundo para erguer-se de um salto, quase derrubando a cadeira no ato e cobrir o rosto com os braços, protegendo-se.

— CARALHO!

A risada de Naruto soou cristalina pela cozinha, agradável e divertida. Todo mundo caia naquela pegadinha! Bem, “todo mundo” se referia aos novatos que chegavam ali.

Nem assim Kiba descobriu o rosto. Já tinha ouvido falar muito sobre as criaturas místicas, oriundas do ocidente, que em dias atuais eram raras. As lendas não davam margem a equívocos: uma vez petrificado, o individuo jamais regressava ao normal.

— Não se preocupe, Kiba-kun — Hinata falou suave — Sou metade humana, não herdei todos os poderes da raça. Meus olhos não petrificam ninguém.

— Não? — ele quis confirmar antes de se arriscar.

— Não. Naruto-kun está sendo malvado com você.

Só então o garoto abaixou os braços, mal notando as metades de onigiri que esmagou com as mãos.

— Que susto do inferno, Naruto! Não teve graça, caralho.

— Teve sim! — ele voltou a rir baixinho — Não foi tão engraçado quanto a Ino, mas valeu a pena.

Kiba fez uma careta e sentou-se, perdeu alguns segundos comendo o que sobrou dos bolinhos, tomando o cuidado de recolher grãozinhos de arroz com os dentes, limpando os dedos e não desperdiçando nada.

— Eu também sou assim — contou — Não nasci com todas as características de um shifter, tipo se transformar em lobo. Todos em Konoha podiam, eu morria de inveja.

Hinata terminou de esquentar a comida e colocou os pratos sobre a mesa, em frente a seus convidados. Então sentou-se também.

— A marca mais forte das Medusas é transformar coisas vivas em mármore. Eu nasci sem esse dom.

Mesmo entre shifters era sabido como humanos faziam preces e clamavam maldições, suplicando que tais criaturas usassem seu poder. Lendas diziam que alguns pedidos eram atendidos. Kiba nunca imaginou que seria possível nascer uma pessoa da relação entre Medusa e homem. O mundo era um lugar vasto e maravilhoso!

Mais um motivo para sair dali, realizar seu sonho de se tornar Hokage e conhecer tudo o que havia para se conhecer.

— Isso é legal — Naruto falou — Assim você não precisa ficar com os olhos vendados para evitar petrificar a gente!

— Hn — a garota concordou. Sempre considerou aquele poder como uma maldição. Sua mãe nunca pôde descobrir os olhos e admirar a própria filha, ou ao homem que amou. Tal ousadia significava a morte. Podia apenas supor que as íris fossem tão diferenciadas quanto as dela. Certeza disso? Não teria.

Principalmente agora que estava separada da família. Medusas eram longevas, podiam viver por muito, muitos anos. Mas Hinata estava naquele espaço tempo o bastante para ter desistido de reencontrá-la.

— Que gostoso! — Kiba exclamou mudando o assunto por completo. No rosto, a expressão de satisfação corroborava a frase animada — Você cozinha bem pra caralho!

— O-obrigada — Hinata corou forte.

— Ela cozinha e planta os vegetais! — Naruto revelou — Temos uma horta perto do pomar. A carne foi a gente quem caçou também. A floresta é grande, existem vários animais por lá.

— Não vi nenhum — Kiba resmungou, voltando a devorar o almoço tardio. A comida caiu bem, fortificando seu corpo e varrendo qualquer resquício da ressaca que pudesse ter ficado. Depois ia pedir um pouco de água, só para matar a sede que ainda era intensa.

— Ah, claro que não. Eles são arredios. Pra caçar tem que ter jeito!

— Eu sou um ótimo caçador! Se tiver que ficar alguns dias aqui, ajudo vocês.

—Obrigada, Kiba-kun. Toda ajuda é bem vinda — Hinata logo entendeu como a mente do garoto funcionava.

O resto da refeição aconteceu em silêncio, com os rapazes mais preocupados em comer, Hinata apenas assistindo. Por fim Kiba se ofereceu para lavar as vasilhas como forma de agradecimento (algo que aprendeu muito bem com Tsume).

— Agora que já enchemos a barriga, o que você quer fazer? Ver a sua casa ou conhecer os outros caras?

Kiba olhou pela janela. O dia estava acabando, ele realmente passou por muitas emoções e, saciada a fome, o cansaço cobrou o seu preço. Pensar na casa parecia tentador. Por outro lado, conheceu filhos de kitsune e Medusas. Era fascinante!

Que outros tipos de criatura encontraria por ali?

Deitar e descansar ou se aventurar?

Qual deveria escolher?!



Notas finais do capítulo

Lá em cima eu coloquei um link para mostrar mais ou menos como seriam as casinhas: https://i.imgur.com/9fbwFmp.jpg

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Até o próximo!



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