Mr. & Mrs. Black escrita por pnsyparkinson


Capítulo 3
Capítulo Dois.




Sirius seguiu Marlene escadaria abaixo e pegou uma garrafa de vinho quando passaram pela cozinha. Estava até aliviado por terem uma festinha pela frente. Um pouco de conversa fiada regada a um bom vinho, talvez fosse mesmo a melhor pedida da noite.

— Então, foi tudo bem no escritório? - perguntou Black, já na varanda dos Longbottom. De longe eles realmente pareciam o perfeito casal americano.

— Tudo ótimo - ela não falava muito mais do que isso quando o assunto era trabalho, sempre mantendo as informações principais apenas para si — E as apostas, foram realmente boas?

— Não, foram horríveis - respondeu sem pensar — Os  Marauders perderam por um ponto na prorrogação.

— Os Marauders jogaram hoje? - Marlene perguntou, ajeitando os cabelos do marido como fazia de vez em quando.

— Jogaram. Ei, para com isso... - disse, voltando os cabelos para o lugar de sempre e tentando me lembrar se os Marauders tinham realmente jogado naquela noite.

Felizmente a porta se abriu, e Frank e Alice receberam os dois como se fossem seus melhores e mais antigos amigos.

— Bem-vindos, vizinhos!

— Oi! - exclamou Sirius, caprichando no sorriso para que não parecesse tão falso.

Marlene e Sirius ficaram juntos o suficiente para que drinks fossem servidos e julgamentos fossem feitos, passando a imagem do mais feliz dos casais. Depois se dispersaram, visitando cada uma das rodinhas de conversa. Ele chegou ao piano de meia cauda, onde um convidado com o cabelo emplastrado de gel tocava alguma coisa: "Stairway to Heaven", do Led Zeppelin, ou a "Mondschein", de Beethoven, não se sabia ao certo. Depois atravessou uma nuvem de fumaça de charutos produzida por um grupo de investidores que não falava de outra coisa a não ser de ações e debêntures.

— Está brincando? -  disse um deles — A Duxbury jamais chegará a esse preço! Ouvi dizer que as ações estão sendo abatidas a cutelo.

— Um banho de sangue - confirmou um outro.

— E você, Sirius, como se saiu neste trimestre? Levou uma surra? 

Black teve a impressão de que alguém estava se dirigindo a ele e precisou relembrar a pergunta.

— Na verdade - disse, apontando o polegar na direção hipotética de sua casa — Toda a minha grana está enterrada naquele jardim ali ao lado.

O que eles acharam engraçadíssimo — muitas gargalhadas e tapinhas nas costas. Por uma fração de segundo o homem ficou tentado a dizer a aquela gente o que mais estava enterrado em seu jardim, mas ainda não estava bêbado o suficiente, e eles também não.

Um problema que precisava ser remediado já.

[...]

"Acham que somos o casal perfeito", pensava a mulher enquanto sorria e retribuía os beijinhos que lhe eram dados pelas outras convidadas. As mulheres eram loucas por Sirius e tinham inveja dela, os homens piscavam os olhos e diziam que Sirius era "um cara de sorte", às vezes abordando Marlene na cozinha.

Se equivocavam, porém, já que para a morena ambos não passávamos de um par de bonecos, Barbie e Ken, e a casa dos sonhos era na verdade uma fachada de plástico.

Ou talvez ela estivesse apenas cansada. Missões como a daquela noite às vezes a deixavam deprimida, McKinnon preferia mil vezes o bom e velho tiro certo.

Não se tratava apenas de um disfarce, aquela era a vida dela, aqueles eram seus vizinhos. Pessoas legais — a maioria delas —, talvez só um tantinho monótonas. Aquele era o mundo perfeito com o qual ela sonhara desde menina. Portanto, talvez fossem os trajes de dominatrix sob o vestido que davam a sensação de não pertencer àquele lugar. Uma vida dupla para a maior parte daquelas mulheres significava abandonar as obrigações de mãe e esposa para presidir voluntariamente a Associação de Pais e Alunos. O que diriam se soubessem o que realmente Marlene fazia da vida?

Como de costume, Sirius logo a abandonou em favor da conversa mole dos outros maridos, deixando-a livre para trocar receitas de bolo, dicas de jardinagem e fofocas sobre os vizinhos com as outras mulheres.

Então ali estava ela, conversando com três mulheres cujos acessórios incluíam um bebê entre os braços. A mamãe número um exibia sua filha como se fosse a única criança existente no planeta.

Marlene sufocou o riso quando o bebê regurgitou uma gosma horrível sobre as calças do terninho dela. Mas a mamãe número um apenas sorriu, resignada e depois olhou para a morena.

— Segura ela um minutinho só enquanto eu me limpo? 

E a mulher jogou a criança nos braços inexperientes da Sra. Black. Nenhuma das situações pelas quais ela havia passado naquela noite chegou a assusta-la tanto quanto aquela.

— É que... — tentou dizer, mas a mãe já havia desaparecido de suas vistas.

Prendeu a respiração e baixou os olhos para ver aquele pacotinho que não parava de se contorcer. Armas, nenhum problema. Homens se comportando como bebês? Ela tirava de letra. Mas bebezinhos de verdade... Marlene mal sabia como segurá-los.

Crianças em geral definitivamente não eram a praia da morena, uma escolha que havia feito muito tempo atrás. Como nunca teve alguém de quem pudesse depender, escolheu uma vida em que não há lugar para ninguém que dependesse dela. Coisas como amamentar às duas da madrugada ou ficar em casa por causa de um filho com febre jamais se encaixariam em sua agenda. Sem contar o fato de colocar sua própria vida em risco sempre que saía de casa para trabalhar.

Não seria capaz de fazer isso com uma criancinha.

As outras mães viam a coisa por outro ângulo. Marlene era uma mulher jovem, casada, morava nos subúrbios abastados da cidade e ainda não tinha um filho. Ela via o ponto de interrogação nos olhos delas todos os meses, sempre que me viam ainda sem barriga. Especialmente com um marido como Sirius.

— Filhos são tudo na vida, sabia? - disse a mamãe número dois.

— Também acho -  interveio a mamãe número três — É como se eles fossem capazes de enxergar até a nossa alma! 

Marlene olhou para a criança que também a olhava, como se fosse um E.T. 

"Será possível que a espiãzinha fosse mesmo capaz de ler meus pensamentos? De ver minha alma e saber o que eu fiz uma hora antes com essas mãos que agora a seguram?" pensou, estreitando o olhar.

Respondeu para as outras mulheres com um sorriso amarelo.

E, de repente... a pequena bebê sorriu para McKinnon. Por um instante ela conseguiu respirar, era como se tivesse recebido um choque elétrico direto no coração.

— Ela gosta de você! - disse Alice. Por fim, Marlene soltou o ar dos pulmões e sorriu de volta para a criaturinha. "Obrigada por não me delatar, bonitinha."

Sentiu uma espécie de alívio. Mas não foi só isso, sentiu também alguma outra coisa, muito estranha, que ela não sabia ao certo como descrever.

Ao tentar pegar o colar de pérolas que a morena usava, a bebê abriu o botão de cima de seu vestido rosa, revelando um pedacinho do couro que estava por baixo. Rapidamente ela fechou o botão, na esperança de que ninguém tivesse visto nada. Por sorte a atenção das mamães já havia se virado para alguma bugiganga nova nas prateleiras de Alice. Mas ela sentia claramente um par de olhos distantes pregados em si.

Os olhos de Sirius, observando-a com o bebê no colo.

Estranho. Marlene jamais havia visto tanto medo estampado no rosto dele.

[...]

Deixaram a festa pouco tempo depois do acontecido. Marlene disse que estava com uma dor de cabeça horrível, e Sirius desculpou-se dizendo que tinha uma reunião importante pela manhã.

Minutos mais tarde estavam de volta a casa adorável, vestindo pijamas e escovando os dentes diante das pias conjugadas. O rosto dos dois refletido nos espelhos a fez lembrar daqueles quadros de museu, muito antigos, em que as pessoas são retratadas sem nenhum brilho no olhar. Os gestos que faziam ao escovar os dentes pareciam ruidosos demais no silêncio.

Sirius cuspiu na pia e esfregou os olhos. Marlene olhou para ele — aquele homem com quem ela partilhava as atividades mais ordinárias, porém muito íntimas, do dia-a-dia — e viu um estranho.

Ela não fazia a menor ideia do que se passava na cabeça dele. Um mistério. Mas não um mistério bom.

Sirius levantou o rosto e viu os olhos claros cravados na figura dele. Sorriu com os lábios retesados e depois foram para a cama.

De repente, dois telefones tocaram. Os celulares "Dele" e "Dela", semelhantes a um par de toalhas de banho. Sirius e Marlene sentaram imediatamente e se viraram em direções opostas.

O abajur foi aceso antes de ambos sentarem na beirada da cama, cada um de seu lado, como imagens espelhadas e então antederam os telefones.

— Marlene Black - disse ela, com a voz rouca.

— Sirius Black - disse ele, sem entusiamo. 

Do outro lado da linha, uma voz masculina e elegante se fez presente. Marlene conhecia bastante aquela voz, já que era de seu chefe. 

Codinome: Pai.

— São três da manhã - ela disse baixinho — Tudo bem... pai?

Uma nova missão, urgente. Ela recebeu as instruções com palavras curtas e diretas, dispensando qualquer tipo de amenidades. 

— Uhum, ok. Claro - respondeu, largando o celular sobre o colchão enquanto observava Sirius ainda falar em seu telefone.

— Essa foi a segunda vez essa semana - ele sussurrou — Eu compreendo.

Ambos ficaram ali, em silêncio por algum tempo. Viraram um para o outro no mesmo instante, com olhares intrigados.

— O que foi? - perguntou Sirius casualmente.

— Meu pai não está muito bem - murmurou Marlene, exalando genuína preocupação — E mamãe está apavorada, acha que é pneumonia. Mas sabendo como ela é, provavelmente é apenas uma gripe.

Sirius pareceu refletir um pouco antes de dizer, com cautela:

— Talvez seja melhor você faltar ao trabalho amanhã... Não custa nada dar um pulinho até lá e ver como o velho está. 

"Por que tanta gentileza?", pensou, analisando o rosto do marido através da penumbra.

— Sua mãe ficaria feliz, sabe - ele continuou — Se você passasse a noite na casa deles. 

— Você é um anjo, querido.

— Só estou pensando na saúde do meu sogro - Sirius retrucou, sacudindo os ombros. 

— E a sua chamada, quem era? - disse como quem não queria nada, recostando-se sobre os travesseiros fofos.

— Escritório de Atlanta - respondeu Black, rapidamente — Mandaram um e-mail com as estatísticas de tensão-deformação da barragem - e sacudindo novamente os ombros, emendou: — De qualquer jeito eu já sabia que os próximos dois dias não seriam nada fáceis. Vou trabalhar demais, vai ser complicado.

Então balançaram a cabeça um para o outro, satisfeitos. Ela havia engolido a história dele; e ele, a dela. Como numa coreografia de bale, apagaram juntos as luzes e voltaram para debaixo das cobertas.

— Maldita barragem - sussurrou Marlene, na escuridão.

— Maldita, mesmo - ele retrucou, fechando os olhos.

Ela fechou os olhos também e ficou ali, no escuro, mãos cruzadas sobre o peito como as de um cadáver no caixão. E podia sentir que Sirius fazia a mesma coisa.

Lenta mas progressivamente, estavam se enterrando vivos.

[...]

Madrugada, a melhor parte do dia para Sirius. O mundo se equilibrando entre a noite e o dia. Escuridão e luz. Passado e futuro. Durante esse breve instante, tudo parece possível.

Com a  maleta na mão e assoviando uma melodia qualquer, o homem atravessou o gramado dos fundos em direção ao anexo que funcionava como depósito de ferramentas. Como qualquer outro marido feliz se preparando para mais um dia de trabalho.

Uma vez dentro, trancou a porta e parou de assoviar.

Aquele quartinho não passava de uma fachada para as verdadeiras ferramentas de seu negócio. Como sempre, a bancada do torno deslizou facilmente para o lado, revelando uma tampa de metal sobre o chão, ajustou os números do cadeado, soltou a lingueta de metal e abriu o alçapão.

Arrastando a maleta atrás de si, desceu uma escada, acendeu a luz e avaliou as possibilidades. As pilhas de cédulas guardadas ali estavam criteriosamente organizadas segundo o país emissor. A coleção particular de armas era quase um arsenal: morteiros, granadas, uma miríade de armas portáteis. Escolher uma delas era como fazer compras num hipermercado.

Ele precisava de algo leve e quase invisível, mas com alcance e poder de fogo razoáveis. Encontrou o que buscava, jogou na maleta e trancou outra vez.

Uma vez fora do alçapão, voltou imediatamente ao papel de marido feliz. Assoviando, caminhou até a garagem, colocou a maleta no porta-malas do carro e saiu de ré em direção à rua, já inteiramente concentrado no trabalho.

Por puro condicionamento, olhou pelo retrovisor e se lembrou de que tinha negligenciado uma de suas obrigações conjugais. Apertou o controle remoto da garagem e a porta se fechou lentamente. 

E assim Sirius Black foi embora para sua outra vida.

[...]

Marlene ainda estava na cama, mas seus olhos estavam abertos. E os ouvidos, alerta. Por fim ouviu o carro saindo para a rua.

"Não se esqueça de fechar a porta da garagem, querido."

O barulho inconfundível do portão se fechando foi ouvido e ela sorriu com certo desgosto. Seu marido havia se lembrado, pelo menos dessa vez. Saiu da cama e foi direto para o banheiro, não tinha tempo a perder.

Quatro minutos no banho, três se vestindo e depois desceu correndo para a cozinha, acionando a função "limpar" do forno.

Ela não era dessas donas-de-casa obsessivas que não conseguem sair de casa com os restos da lasanha da noite anterior grudados na grelha do forno, na realidade, outra coisa havia sido assada na cozinha.

O timer apitou e com um gesto abrupto a morena abriu a portinhola do forno, digitando vários números no painel de controle e então o bip se fez presente e a base do forno se abriu.

Marlene sorriu satisfeita.

Era ali que ela guardava seus utensílios de cozinha especiais: armas de última geração, facas reluzentes. Limpas, lubrificadas, tudo muito organizado.

Analisou as opções e depois guardou na perna direita a faca predileta, de cabo preto.

Luzes apagadas, cafeteira elétrica desligada, foi para a garagem e saiu com o carro. 

Pouco depois ela estava num dos arranha-céus da cidade, atravessando a porta giratória em direção ao átrio. Diante dos elevadores, conferiu a aparência nas portas espelhadas: blazer preto e justo, saia acima dos joelhos, salto alto, maleta executiva.

"Perfeito", constatou. Estava pronta para o trabalho.

Subiu até os andares superiores do prédio, onde ficava seu escritório e saiu do elevador, passando pela câmara de segurança, onde feixes de luz ultravioleta banharam seu corpo, procurando por armas e verificando sua identidade.

A logomarca da empresa apareceu no monitor de segurança, ao lado de uma lista de dados a seu respeito: temperatura corporal, pressão arterial, armas, jóias. 

"Marlene Black" disse uma robotizada voz feminina. "Confirmado."

A mulher tentou abrir a porta da sala, mas a mesma voz de antes disse: "Aguardar contato." Ela estranhou, já que aquilo não era normal. E aguardo, até que um rosto apareceu na tela do monitor. Um homem de aparência familiar e elegante, o Big Boss.

Papai.

— Desculpe a intromissão - ele disse com seu sofisticado sotaque britânico — Mas temos um... probleminha. E preciso que você cuide dele pessoalmente.

Marlene ficou intrigada já que aquele não era o procedimento-padrão.

— Alvo? - perguntou.

A foto do meu novo alvo surgiu na tela.

— Fenrir Greyback - informou — As especificações seguem agora mesmo. O trabalho deve ser rápido, limpo e discreto. 

— Entendido, senhor - respondeu, assentindo com a cabeça.

McKinnon tentou abrir a porta outra vez, mas a voz de seu chefe a interrompeu.

— Marlene...

Ela para o monitor. Ele hesitou um instante e depois disse apenas:

— Boa sorte.

Aquilo era muito, muito incomum. Seu chefe geralmente era sucinto e eficiente. E apesar de sua longa ligação com a empresa, ele raramente perdia tempo com amenidades sociais.

Uma vez confirmada sua identidade, a porta ao fundo do corredor se abriu, e finalmente ela entrou na sede da Triple- Click. Uma agência prestadora de serviços na área de informática, mas obviamente tudo era apenas uma fachada.

Marlene amava aquele lugar e toda a tecnologia disponível para uso, adorava ficar horas observando os sistemas e sua agilidade. Porém, o mais importante de tudo era a equipe que ela havia reunido. Em um setor prioritariamente dominado pelos homens, McKinnon fez questão de contratar as mulheres mais inteligentes e competentes que conseguiu encontrar.

Ela sorriu para Lily e arrumou a saia.

— Bom dia, meninas, o que temos pra hoje?

Lily apertou uma tecla de seu computador, e uma enorme tela de plasma se acendeu com a logomarca e os dados relativos ao novo alvo, enviados diretamente pela matriz.

— Muito bem, meninas - disse a morena com entusiasmo — Ao trabalho!

Os dados sobre o alvo estavam todos ali: foto, dados biográficos, hábitos diários, tudo, menos a última vez que ele foi ao banheiro.

— Está sendo transferido hoje à noite, através da fronteira mexicana até uma unidade do governo federal - informou para a equipe. Num mapa, apontou para o local que as interessava — O único ponto de vulnerabilidade é este aqui, ao norte da fronteira. Dorcas, preciso da posição GPS e fotos de satélite do cânion, bem como dos relatórios meteorológicos dos últimos três dias - pediu. 

Estudou o rosto do homem, que era reproduzido em várias fotos e pensou que apesar de tudo, era um cara bonito.

Ela sabia que isto não deveria fazer a menor diferença, alvo é alvo. Mas de alguma forma o trabalho ficava mais fácil quando o canalha era um ogro. De qualquer forma, ali não haveria problema, já que não se tratava de nenhum Brad Pitt.

Observou aquele rosto mais algumas vezes, observando cada ruga, cada cicatriz, o tamanho dos cílios, o formato das orelhas, firmando a ferro e fogo a imagem do sujeito em sua memória.

Fenrir Greyback.

"Bem, sr. Greyback, seja bem-vindo ao último dia da sua vida."





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