Say you won't let go escrita por Fe Damin


Capítulo 5
Capítulo 04


Notas iniciais do capítulo

Olá, pessoal!
Desculpe a demora, mas aqui está mais um capítulo fresquinho!
Espero que gostem :)



Se o apartamento de Astória não tivesse proteção mágica para os barulhos, aquele seria um dia no qual seus vizinhos teriam batido à sua porta esbravejando. A garota se encontrava no cômodo favorito do imóvel, o local onde tinha seus livros e o único luxo que se permitira trazer da casa dos pais: seu piano. Os dedos voavam frenéticos pelas teclas, colocando na música toda a frustração que ela acumulara nos últimos dias. Seus pensamentos iam ainda mais rápidos, criando uma atmosfera perfeita de como estava sua mente.

—Por que ele simplesmente não fala? - ela vociferou, batendo as mãos com força nas teclas quando errou uma passagem que não tinha nada de difícil - só abrir aquela boca e falar!

Astória não era dada a arroubos de descontentamento, mas sentia que tempo demais já havia passado. Ela passou as mãos pelo rosto, tentando voltar a se acalmar e a se concentrar na música. Já respirava mais tranquila quando voltou a encostar os dedos nas teclas brancas, porém o som da campainha a impediu. Quem seria àquela hora? Era final de tarde em um sábado, não esperava visitas, fato denunciado pelas roupas de dormir que usava, e seu porteiro não avisara a chegada de ninguém. Bom, isso não importava, não era agradável deixar quem quer que fosse esperando na sua porta.

Assim que a garota olhou, através do olho mágico, quem a aguardava se sentiu a pior amiga do mundo.

—Nyssa, me desculpa! - ela indicou para que sua melhor amiga entrasse - acabei me esquecendo que tínhamos combinado de sair, ainda estou de pijamas.

Nunca tinha esquecido um compromisso antes, Astória se encontrava mortificada, porém sabia que a amiga não se chatearia por isso. Ela e Nyssa estudaram juntas todos os anos em Hogwarts e eram inseparáveis desde o primeiro dia que se viram. Ambas sentiam não se encaixar com o restante dos alunos, Astória por ter sido criada feito uma boneca de porcelana que não podia conhecer o mundo lá fora, e Nyssa por ter tido uma vida completamente trouxa até receber sua carta. Atualmente a amiga tinha um trabalho muito puxado entre os aurores, mas sempre arrumavam tempo para se encontrar.

—Sem problema, Tory - Nyssa cumrpimentou a amiga com um beijo rápido na bochecha e entrou já se acomodando no sofá - podemos pedir alguma coisa por aqui mesmo, o que acha? - sempre podia contar com a amiga para dar soluções com a praticidade que só os trouxas conheciam.

—Ótimo - Astória se acomodou ao lado de Nyssa, contente em se distrair com algo mais eficiente do que seu piano, porém ainda estava de cabeça cheia.

—O que é essa ruguinha de preocupação na sua testa? - a garota levantou uma das sobrancelhas, se mostrando intrigada - não a vejo desde que achou que ia tirar menos do que ótimo na sua matéria favorita - aquilo era a mais pura verdade, a loira era um livro aberto para a amiga que, com aqueles olhos castanhos afiados, a conhecia tão bem.

—Não é nada - Astória tentou desconversar, não queria trazer suas preocupações para o encontro delas, preferia afastá-las.

—Eu te conheço há mais da metade da minha vida, então pode começar a desembuchar, o que é? - quando Astória viu que a amiga se ajeitou ainda melhor no sofá e puxou sua presilha de cabelo para prender as longas madeixas pretas, sabia que não tinha mais jeito, Nyssa estava em seu modo determinado.

—É só o trabalho.

—Aqueles criminosos estão te dando problemas? - a morena fechou a cara, pensando em todos os tipo complicados que ela encontrava em sua própria ocupação.

—Não os chame assim, Nyssa! São pessoas! - Astória não gostava de generalizações e, para ela, mesmo os que se desviaram para caminhos errados tinham uma história, seus motivos e quem sabe um meio para redenção.

—Tá bom, desculpa, mas não consigo ter muita simpatia - Nyssa torceu ligeiramente o nariz. Fizera parte de esquadrões de aurores que lutaram na guerra, e sabia muito bem com quais pessoas sua amiga estava lidando, então tinha dificuldade em ser gentil sobre o caso.

—Você não pode falar do que não sabe - a loira insistiu com um quê de indignação, meio sem saber porque, apesar de que um par de olhos prateados não lhe saíam da cabeça.

—Mas você sempre pode me contar, anda…

Atória respirou fundo, mas se deu por vencida, precisava mesmo desabafar um pouco.

—Um dos meus pacientes… - não conseguiu continuar, só pensava em como aquilo era errado, por mais que fosse lhe fazer bem - eu não devia estar dizendo isso, é antiético!

—O que tem ética a ver com amizade, prossiga! - Nyssa deu um tapinha em seu joelho, encorajando-a a continuar.

—Lembra do Draco?

—O Malfoy? - Astória assentiu - Claro que é, quem mais tem esse nome…. Draco Malfoy, mais conhecido como o garoto que você agarrou numa festa alguns anos atrás? - o tradicional sorrisinho debochado enfeitava os lábios da morena.

—O próprio - a outra respondeu constrangida.

—Não me diz que ele é um dos seus casos!

—O que você acha?

—Puta que pariu… que jeito de se reencontrar - Nyssa nem se deu ao trabalho de ser pouco expressiva, sempre fora espontânea em tudo - Eu sabia que ele não tinha andado muito na linha, mas daí a estar confinado pelo Ministério é outra coisa…

Por mais que trabalhasse como auror, Nyssa estava mais envolvida em casos com o exterior, portanto não se encontrava por dentro de toda a lista de presos e detidos do Ministérios.

—O problema é que ele… não estou conseguindo progredir. Ele sempre escapa e se fecha.

—Você não parece se importar com os outros, eles não fazem o mesmo? - Nyssa já ouviu a amiga relatando algumas coisas de seu trabalho, mas nunca a viu preocupada com um paciente dessa maneira.

—Fazem, mas é diferente. Ele parece ter um peso inteiro em cima dele, não lembra em nada o garoto que eu conheci...

—Ele cresceu - a  morena deu de ombros, era a conclusão mais óbvia para ela.

—Parece mais que passou pelo inferno e voltou.

—Credo - o tom seco da amiga, soou estranho, não combinava com seu jeito habitual.

—Mas é bem isso, Nyssa! Só que ele se recusa a contar, e eu não posso liberá-lo enquanto ele não entender que estará voltando para uma vida que pode dar certo…

Astória repetia essas mesmas palavras vezes sem fim em sua cabeça, tudo o que queria era que o bruxo teimoso que atendia entendesse.

—E por que isso está te preocupando tanto? Ele que fique mais algum tempo lá…. - a morena não despregou os olhos da amiga, e percebeu cada uma das mudanças em sua expressão, aquilo estava bem claro para ela - Você gosta dele!

—Não seja boba! - Astória revirou os olhos, dispensando a noção absurda, ele era apenas seu paciente complicado, nada além.

—Eu sei muito bem que aquela festinha particular ainda passa pela sua cabeça, está com vontade de agarrar ele de novo? - Nyssa a olhava com todo seu ar de provocação, sabia que a amiga não admitiria - Deve ter ficado gostosinho.

—Não sei para que eu te conto as coisas… - por mais que ela estivesse ligeiramente desconfortável com os comentários da amiga, Astória se sentia um pouco mais leve de ter compartilhado o que enchia sua cabeça nas últimas semanas. O que ela não gostou mesmo foi a menção à atual condição física de seu paciente, já que sua mente atrevida pulou para se ater a imagens dele e levá-la a conclusão de que Nyssa estava certa…. ele tinha ficado gostoso, bem mais do que aquele menino de três anos atrás tinha o direito.

Ótimo, agora isso não sairia da sua cabeça!

—Porque eu falo tudo o que você não quer admitir, sou quase a sua consciência! - a voz de deboche tirou Astória de sua divagação nada apropriada.

—Bela consciência que eu fui arrumar.

—E ele? Também parece querer te agarrar de novo? - a loira teve que se controlar para não rir da animação que tomou conta de sua amiga, de repente pareciam duas adolescentes novamente, trocando fofocas no dormitório da escola.

—Ele não lembra de mim - ela tentou deixar de fora de sua voz todo o sentimento estranho que aquele fato causava em si.

—Ele o que? - Nyssa, com toda sua expressividade, não se freou ao arregalar os olhos e elevar a voz com a surpresa.

—Isso mesmo, não lembra - a loira deu de ombros, querendo continuar logo a conversa para outros assuntos.

—Não acredito… - a morena a olhava como se fosse a ideia mais absurda que alguém pudesse se esquecer dela, mas Astória sabia que não tinha causado uma impressão tão grande assim.

—Pois acredite porque é verdade.

—Puta merda que situação…. tem certeza?

—Ele falou com todas as letras - Astória ainda se lembrava com exatidão o olhar vazio que o encarou quando se encontraram na primeira sessão, mas aquilo não importava, não precisava que Draco Malfoy se lembrasse dela, apenas que a escutasse agora. Ambos eram pessoas diferentes depois de anos, de nada valia o que acontecera ou não naquela festa.

—E o anjinho não mente, por acaso? - Nyssa voltara a seu modo desconfiado tradicional. Astoria sempre dizia a amiga que ela devia aprender a confiar mais nos outros, porém ela repetia que em sua linha de trabalho, essa não era uma boa recomendação.

—Para que ele mentiria sobre o assunto? Se lembrasse de mim, provavelmente seria mais inteligente usar isso em seu favor - a verdade era que Astória não queria mais pensar nisso, já passara tempo demais ponderando o ocorrido e de nada adiantaria, pois ela não podia mudar o que o garoto se lembrava ou não, como tampouco deveria se importar.

—E se ele ficou com vergonha? - a morena insistiu.

—De que? Não faz sentido.

—Claro que faz! Da última vez que vocês se viram, ele era uma pessoa semi-normal que passou uma noite legal com você e ainda ajudou quando precisou. Agora ele é um criminoso sob avaliação e você é a responsável pela decisão. Não acha que isso pode dar um nó na cabeça de alguém…

Aquela hipótese não tinha lhe passado pela cabeça… talvez porque ela fosse a pessoa que acredita mais facilmente nos outros. Tinha aceito sem questionar o fato de que ele não se lembrava dela, será que a razão era a de que assim ficava mais fácil? Mai fácil esquecer que pensara nele naqueles anos que passaram, que se importava mais do que deveria…

Ela tinha que tirar aquilo da cabeça, ele não se lembrava dela e ponto final, não era importante, nunca fora e nunca seria.

—Tem certeza que não é você a pessoa com o diploma de psicologia? - ela brincou, querendo desviar de vez do assunto.

—Talento, nato, meu bem.

—Bom, mas não vou mais pensar nisso, não tem como eu saber. Se ele não me disser, eu não vou descobrir e o que ele mais faz é me frustrar ao não dizer nada.

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Fora mais um final de semana em que ele não pregara os olhos.

Já sentia em todo seu corpo sinais de cansaço que a falta de sono vinha lhe causando, mas era inevitável. Bastava tentar dormir que os mesmas imagens de sempre se infiltraram em sua mente, mantendo-o completamente acordado. Medo, culpa e apreensão se misturando quando pensava no que mais poderia ver quando não estivesse mais enxergando a luz do dia.

Demoraram alguns dias, mas a resposta de sua mãe chegou na segunda feira trazendo notícias dela e o pedaço de papel para o qual ele dera instruções específicas de como achar. Draco desdobrou o pergaminho antigo, que tinha os vincos bem pronunciados em virtude do tempo em que passou fechado no meio de um de seus livros favoritos. Ali estava a mesma caligrafia pequena e elegante que se lembrava, idêntica à que vira tantas vezes de ponta cabeça a preencher relatórios e anotações.

Ver novamente aquelas poucas palavras mexeu em alguma coisa dentro dele. Fez com que a noite de três anos atrás parecesse mais real do que se lembrava, muito mais detalhada… muito mais digna de saudade.

Saudade do que? Como ele ia ter saudade de algo que ele nem conhecia de verdade?

Se divertiu por uma mísera noite com aquela garota, nada mais do que isso. Entretanto, todos os dias de convivência forçada acabaram por mostrar ao Malfoy que ela continuava com a mesma vivacidade de antes, o mesmo espírito que o atraíra tanto. Não conseguia mais separar as duas imagens em sua cabeça e isso dificultava as coisas para si. Draco se sentia querendo mais e mais se aproximar da sensação que teve na noite da festa que passarem juntos e isso o assustava mais do que qualquer outra coisa. Já era difícil negar com todas as palavras que não se interessava nenhum um pouco pela bruxa intrometida, mas aquilo não levaria a nada, então de que adiantava?

O melhor que tinha a fazer era lembrar apenas do que estava escrito no passado, mesmo que ele quisesse, em algum canto escondido de si, que seu futuro pudesse ser diferente, ele não tinha reais esperanças de que pudesse acontecer.

Milagres não aconteciam para Malfoys.

Draco guardou o bilhete no meio das poucas coisas que tinha em seu quarto e continuou tentando lidar com a confusão que sentia dentro de si. Já não entendia exatamente o que queria, nem o que deveria fazer, porém acabou por optar pela decisão mais segura de sempre: manter aquela loira longe de si.

A hora de sua consulta chegou, ele percorreu - como sempre - os corredores acompanhado, nem um pouco ansioso por encarar a bruxa que o interrogaria mais uma vez. Aquilo estava deixando-o exausto. Era extenuante tentar se proteger de todas as investidas dela, principalmente somado ao fato de que estava há dias sem dormir direito. O mundo a sua volta nem parecia tão bem focado como deveria.

Como de praxe, ele fora o primeiro a sentar e não perdeu tempo ao se acomodar a sua cadeira habitual. Teve que resistir para não encostar a cabeça na mesa, mas a última coisa que queria era que ela notasse qualquer tipo de fraqueza de sua parte. Não demorou muito para que Astória chegasse, toda sorrisos e olhos brilhantes de sempre.

Completamente irritante.

—Aqui estamos de novo, loirinho - ela o cumprimentou ao puxar a cadeira e se ajeitar na cadeira a sua frente -  Alguma vontade de conversar hoje?

Ele tinha vontade de falar alguma coisa? Tinha e não tinha. Por um lado, queria acabar logo com tudo aquilo, queria que ela pudesse realmente ajudar do jeito que parecia acreditar que conseguiria, porém, Draco não acreditava nisso. Então não, ele não falaria nada.

—Já vi que não - ela deixou um suspiro fraco escapar pelos lábios ao constatar todo o silêncio com o qual seria premiada - eu não tenho mais o que inventar aqui, Draco. Tudo se resumo a sua boa vontade ou não. Não quer se livrar de mim?

Ele não queria.

Draco quase brigou consigo mesmo em voz alta assim que o pensamento se infiltrou, sem permissão em sua mente, porém foi capaz de se conter antes mesmo que pudesse fazer algo mais sério do que uma negação muito sutil com a cabeça que ele esperava, com todas as forças, que ela não tivesse percebido. O garoto ficou desconsertado ao reconhecer o sentimento que o atingiu com aquela pergunta tão besta. Ele reclamava sem parar daquela mulher que não o deixava em paz, mas e se ela simplesmente não aparecesse mais? Não conseguiu negar, nem para ele mesmo, que aquilo não o agradaria e não tinha ideia nenhuma do que fazer com essa descoberta.

Não saberia dizer por quanto tempo ficou em silêncio remoendo suas confusões internas, porém a voz dela o chamou de volta àquela sala pequena.

—Me disseram que você recebeu uma carta hoje, o que tinha nela? - ele já conhecia a tática dela de mudar de assunto, tentar engajá-lo em um tema mais simples, entretanto, o garoto podia jurar que escutou um tom de curiosidade na pergunta.

Não importava, ele nunca admitiria que pedira para a mãe enviar o bilhete dela que ele ainda tinha, seriam muitos níveis de patético para serem contados.

—Você sabe que eu posso confiscar sua correspondência, não sabe? - ela o desafiou cruzando os braços, deixando bem claro que não teria nem um pouco de pena de fazer exatamente aquilo caso ele não dissesse.

Alguma coisa ele teria que contar a ela, mas poderia ficar apenas nas notícias sobre sua mãe. Ela nunca descobriria que existira algo mais dentro daquela correspondência. Draco estava pronto para se apoiar naquela mentira, porém quando levantou os olhos para encará-la viu a expectativa que ela guardava, como se a resposta dele fosse a coisa mais importante do mundo. Ela sempre fazia isso, prestava atenção, se importava, repetia milhões e milhões de vezes que valia a pena, que ele valia a pena.

O garoto sentiu um misto de anseio e raiva com aquilo. Começou a gostar de ser olhado daquela forma, de ser visto, mas essa simples vontade o irritava mais do que tudo, pois ele não queria se importar com nada nem desejar nada, apenas viver a vida dele e pronto. Aquela bruxa surgiu do nada em sua vida novamente e aos poucos foi se infiltrando, mudando o que ele pensava saber como certo sobre si, da mesma forma que fizera anos antes.

Foi aí que se deu conta de que ele queria que ela soubesse. Draco queria, não, precisava, jogar na cara dela que lembrava sim. Que mentira. Não sabia se vinha de uma necessidade de que ela o enxergasse como a pessoa que ele fora antes, ou se precisava atingi-la de alguma forma para compensar, ao menos um pouco, o desbalanço que ela causava dentro dele.

Mantendo a fachada fria e o mais distante possível ele enunciou as palavras como se não fossem nada.

—Você disse que os últimos anos em Hogwarts eram os melhores.

Draco não desviou o olhar dela e notou quando a confusão deu lugar a compreensão.

—Você disse que não se lembrava de mim! - o tom dela não foi nada amigável, ele esperava que ela fosse ficar brava com aquilo, mas nada o preparou para a maneira com a qual ela o encarou, o violeta de seus olhos parecendo pegar fogo.

—Era mentira, não foram os melhores, foram os piores - ele teve que desviar o olhar, não tinha como falar daquilo encarando o rosto à sua frente -  As coisas que eu tive que fazer…. porque era isso ou o meu pescoço. Atacar uma aluna, organizar a invasão à escola… matar o diretor. Eu…. eu não consegui.

Não saiu nem um pouco do jeito que ele queria. Draco tinha planejado sair inabalado, apenas destacar um fato e pronto, mas foi abrir a boca demais e as coisas começaram a se complicar… lembranças se misturando com sentimentos. A voz já não estava tão firme como gostaria, tampouco sua pose de mármore, quando já tinha passado a mão pelos cabelos mais de uma vez. Ao se interromper, ele se resguardou para a resposta dela. Esperava gritos, ou contestações, algum tipo de exigência em relação a mentira descarada que ele contara por tanto tempo, mas quando é que aquela garota fazia as coisas do jeito que ele esperava?

—Claro que não conseguiu, porque você é uma boa pessoa, lá no fundo você sabe disso - ele teve que levantar os olhos mais uma vez para ter certeza de que não estava ficando louco. Porém, lá estava, a voz gentil, o olhar encorajador que ele detestava saber que o confortava. Por que ela não brigava com ele?

—Uma boa pessoa? Você deve ter perdido a noção das coisas, nessa ficha tem todas as minhas informações, você sabe tudo o que eu fiz, não sou nada perto de uma boa pessoa - ele não conseguia acreditar nas besteiras que saíam da boca dela.

—Sim, e é por isso que eu digo que você é uma boa pessoa. Nem de longe o caso perdido que acha ser - ela era tão confiante que, se Draco não estivesse tão certo de que era um caso sem solução, poderia ter mudado de ideia ali mesmo.

—Você é louca, passou tanto tempo com lunáticos e malucos que ficou louca também - as palavras foram ácidas, ele queria que ela mudasse de assunto, parasse de dizer aquelas coisas para ele. Não fazia nem um pouco bem. Não ter esperanças de nada o deixava tranquilo, resignado ao seu destino, mas aí chegava ela com aquelas palavras fantasiosas e ele tinha medo de acabar se contaminando com aquilo.

—Isso não me afeta, Draco - ela deu de ombros, se encostando na cadeira e dando a ele o olhar mais altivo que já a vira usar, muito parecido com aqueles cultivados por tantos membros da alta sociedade que eles costumavam frequentar - Você acha que eu nunca fui chamada de louca antes? Acha que é o primeiro a dizer isso? Sou uma garota rica, uma garota muito, muito rica, que decidiu que precisava de mais do que apenas casar com um garoto rico para ser feliz na vida - não tinha um pingo de arrogância em sua voz, mas sim orgulho, e Draco teve que admitir que invejou a confiança que ela demonstrava - Eu decidi estudar, me dedicar a aprender para que eu pudesse ajudar aqueles que precisam, então eu fui chamada de louca milhares de vezes. Por vária pessoas, meu pai, tios, amigos… Então isso não me afeta, você não será o último. E exatamente como você - nesse momento ela se inclinou para frente, apontando o dedo para ele, que teve que se conter para não desviar e fugir do possível contato que, felizmente, não aconteceu - eu estive cercada de pessoas rudes e esnobes a minha vida toda, consigo lidar muito bem com isso. Por isso sou tão boa no meu trabalho. Tenho certeza que você notou que sou nova para o meu cargo, mas pode checar minhas referências, sou muito boa.

—Não me importa, pode ter funcionado com os outros não estou interessado - ele fechou mais uma vez a cara e respondeu com o maior desdém que conseguiu juntar, porém sua mente traidora já tinha se bandeado a imaginar uma Astória mais jovem tendo que enfrentar a família dizendo que faria seu próprio caminho e sendo chamada de louca por isso. Ele jamais teve essa coragem, se arrependia amargamente disso.

—Essa é a situação, Draco de uma vez por todas - ela espalmou ambas as mãos na mesa, figurativamente colocando todas as cartas em jogo -  Se você não cooperar, não vai a lugar algum, pode não parecer, mas no final das contas, isso é uma prisão. Está maquiada, mas você é um prisioneiro aqui e não vai sair tão cedo.

Ele via nos olhos dela o quanto ela queria que ele entendesse a seriedade daquilo, mas ele não se importava em estar preso ou solto, sua mente andava uma confusão tão grande que só o que queria era estar em paz. Tudo o que ela não dava a ele.

—Não existe lugar algum que eu queria estar, não me importo.

—Esse é o problema, você precisa se importar! Isso é o que temos que mudar. Você tem que se importar, achar força em você para isso.

—Loirinha, isso é um caso perdido - ele colocou toda a arrogância que sabia usar em sua voz, ela precisava desistir, ele não queria mais querer nada que fosse ser em vão - passe para o próximo paciente que provavelmente é bem menos difícil.

Silêncio.

Pela primeira vez ela não respondeu nada, ficou apenas encarando seu rosto que devia estar completamente abatido. Os olhos atentos passeavam por vários pontos em sua face e o garoto foi vendo a expressão dela fechando, entristecendo. Draco sentiu que tinha conseguido vencer a persistência dela, mas de alguma forma, não veio a satisfação que esperava, apenas vazio.

—O que aconteceu com você? - ela perguntou baixinho, quase como se não quisesse assustá-lo -  Você não é aquele garotinho de 15 anos que eu conheci, que dançou comigo e me ajudou.

—Claro que não sou! - ele se irritou e acabou elevando a voz -  sou o filho da puta de 18 anos que participou de uma guerra e tem a marca negra no braço. Você sabe exatamente o que aconteceu, já conseguiu arrancar de mim!

Ele deveria estar na prisão.

Era o único sentimento que permanecia intacto dentro de si. Por que ela não chegava logo a mesma conclusão e o fechava numa cela até que esquecessem dele? Doía lembrar de quem ele já fora, de quem ele poderia ter sido… comparando com quem ele era, a imagem não era bonita.

—Não estou falando das coisas que aconteceram a você ou do que você fez. Quero saber para onde foi o Draco que você era. Quando foi que você passou a achar que sua vida não vale nada quando comparada às outras? - ele quase riu, mas a sinceridade dela foi tão honesta que não conseguiu debochar de sua pergunta, o que também o incomodava.

—Quando se junta uma pilha de merdas como a minha, as conclusões não são as melhores.

—Mas justamente por você sentir esse peso, isso significa que existe redenção dentro de você. A guerra acabou, todos merecem uma segunda chance, mas no seu caso, você mesmo tem que se dar uma. Você não quer voltar à uma vida normal? Não quer reconstruir um caminho melhor? Se rodear de coisas que importam?

Lá vinha ela com o reino de fantasias novamente.

—Não. Pra isso eu vou ter que ver que realmente não sobrou nada. O que eu quero é não sentir mais nada.

As palavras saíram arranhando sua garganta, uma verdade difícil demais de colocar em sons.

—Isso é impossível, Draco - ela balançou a cabeça, dispensando o que ele dizia querer -  Você não é feito de gelo como gostaria de ser - Astória esticou a mão para pegar a dele, mas dessa vez o garoto estava mais esperto, não deixaria acontecer como da última vez.

—Lá vem você achando que me conhece melhor do que eu! - num pulo ele levantou da cadeira, impedindo qualquer possibilidade de contato -  Que achou alguma coisa escondida. Para de perder o seu tempo e o meu! Já estou cansado disso. - à passos largos e decididos, ele se dirigiu a porta, porém a loira rapidamente se levantou e o impediu, se colocando no caminho.

—Você não vai sair, ainda não terminamos! Eu vou te convencer, nem que sejam necessários anos.

Por alguns instantes foi um embate de olhares, um desafio para ver quem desistiria primeiro. Acostumados a se encararem sentados à mesa, foi diferente vê-la olhando-o de baixo, o queixo erguido, cada centímetro a garota confiante e decidida que ele sabia que ela era. A luz refletia diferente em seu rosto dessa forma, e Draco mordeu a língua por ter se permitido pensar que de qualquer jeito ela sempre parecia bonita, mesmo que o cabelo estivesse um tanto desalinhado em virtude do movimento brusco que fizera ao levantar.

—Eu não te entendo!  - ele vociferou, com vontade mesmo de chacoalhá-la até que ela o deixasse em paz, ela era tão insistente, tão certa de tudo… e se ela estivesse certa? Draco tinha medo de sequer pensar nisso e no que poderia significar enfrentar  - você tem coisas melhores para fazer do que ficar tentando me consertar.

—Não preciso te consertar, você não está quebrado, só não sabe lidar com sua nova realidade - ela deu um passo à frente em direção a ele, um pequeno sorriso gentil nos lábios -  Tudo o que você está sentindo é normal, a culpa, a vergonha, o arrependimento. Mas existe luz no fim do túnel depois disso. Você só precisa se permitir passar por todas as etapas. Precisa sentir cada uma delas, me deixa te ajudar, Draco. - antes que ele pudesse perceber a intenção dela, a garota levantou a mão, e correu os dedos pelos cabelos dele que caiam desalinhados pelo rosto

Foi um gesto tão simples, mas ao mesmo tempo tão mais íntimo do que tudo que compartilharam recentemente. Ele sentiu o peso e o calor dos dedos dela, principalmente quando esbarraram de leve em seu rosto.

—Astória... - ele falou baixinho, sem saber se estava pedindo para que ela parasse de encostar nele, ou não saísse mais de perto. Aquilo era quase nada, mas ele percebeu o tempo que ele passara sem contato com ninguém, ninguém que não o estivesse tocando para machucá-lo. Não se lembrava de nada que não fossem os ocasionais abraços que concedia a sua mãe.

—Então além de tudo você ainda lembra o meu nome - ela brincou, e ele sentiu o estômago dando um nó ao escutar o sorriso em sua voz, principalmente pelo fato dos dedos delicados que ainda brincavam com seus cabelos.

—Eu… desculpa - de repente ele se sentiu envergonhado pelo que fizera, sentia os ombros cedendo com tudo que se passava dentro de si. Estava todo esse tempo falando e repetindo a ela, e a si mesmo, que não queria sentir nada, queria que ela desistisse, então por que gostava tanto da sensação que o invadia? Por que as palavras dela dizendo que queria ajudá-lo, que ele valia a pena não paravam de ecoar em sua mente. Estava acontecendo exatamente o que ele temia no início… ela tinha conseguido fazer com que ele se rendesse ao maior perigo de todos: esperança.

—Tudo bem - ela respondeu com a voz delicada e ele notou como ela se espantou de ele ao olhar direto nos olhos dele.

Draco teria se espantado também se ali tivesse um espelho onde ele pudesse olhar o brilho prateado que haviam virado seus olhos em virtude de lágrimas que ele nem sabia que queria chorar. Parecia que tudo havia se soltado dentro dele, todos os medos, vergonhas, arrependimentos, estava tudo em liberdade para atacá-lo, e a única coisa mantendo-o ali de pé, era aquela loira pequena que não sabia o estrago que tinha feito.

—Qual foi a última vez que você chorou, loirinho? - ela levantou a outra mão para secar a primeira lágrima dos olhos dele.

Ele ficou em silêncio, não se sentindo nem um pouco capaz de dizer alguma coisa, não que ele fosse saber a resposta. Draco sentiu novamente os olhos se enchendo de água, e tentou ao máximo se controlar para não transformar aquilo num choro completo, não saberia dizer onde pararia se se permitisse. Preferia descobrir longe dela, onde estivesse menos vulnerável aos olhos atentos e aos toques que o afetavam mais do que deveriam.

—Não precisa responder dessa vez - ele estava mais do que pronto para terminar com aquilo e sair dali, não previa um final bom se permanecesse no lugar, porém a pequena se insinuou para frente e o puxou para um abraço que o pegou totalmente despreparado. Ela era muito mais baixa do que ele, mas ela se esticou de forma que o envolvesse de maneira que, em segundos, o garoto estivesse com o rosto apoiado no contorno de seu pescoço.

Um dos braços dela o envolveu pelas costas e o outro se acomodou próximo à sua nuca, de modo que sua mão pudesse ter acesso completo aos cabelos que agora ela acariciava. Aquilo estava completamente fora do que Draco esperava, e o choro não conseguiu mais ficar sob controle. Astória não estava lhe dando opção de ir se recompor sozinho, então ele finalmente chorou. Chorou pelas merdas que fizera, pela pessoa que se tornou, pela pessoa que gostaria de ter sido, por tudo o que não tinha mais, pelo medo do que viria pela frente. Chorou pela mágoa que o pai sempre inflingiu nele, por achar que mesmo se tentasse, não passaria do fracasso que Lúcio sempre achou que o filho era.

Não foi nem de longe um de seus melhores momentos. Ele sentia as lágrimas escorrendo e molhando a camisa branca que a garota usava, mas ela parecia não se importar, não o soltou por um minuto sequer, apenas acariciava os cabelos dele e murmurava palavras gentis. Foram vários minutos de silêncios quebrados apenas pelos ocasionais soluços dele, porém com o choro, uma parte de angústia pareceu se dissolver, principalmente quando ele sentia, mesmo de olhos fechados, que não estava sozinho ali. Procurou por tanto tempo se isolar de todos, que deixou de perceber que precisava de mais do que apenas sua própria companhia.

Assim que a respiração foi voltando ao normal e as lágrimas diminuindo ele sabia que tinha que se afastar, porém a sensação dela junto a ele era tão boa, tão reconfortante, que se permitiu um pouco mais. Com o rosto tão perto do pescoço da garota, ele conseguiu sentir o cheiro adocicado de seu perfume e poderia jurar que era o mesmo que ela usava quando se conheceram. Não foi um bom pensamento, pois logo se lembrou do beijo e se deu conta de que sua boca se encontrava muito próxima da dela… Estava na hora de sair daquele abraço.

Ele se desvencilhou gentilmente dos braços dela, meio sem saber como encará-la depois desse momento nada corriqueiro. Passou as mãos no rosto e nos cabelos, tentando ganhar algum tempo para se recompor. Se sentia um pouco melhor por dentro, mas ao mesmo tempo, muito mais desprotegido. Porém, não podia ignorá-la para sempre, respirou fundo e olhou para Astória que continuava calada esperando por ele.

—Agora sim, gosto dos seus olhos dessa maneira - ele se surpreendeu com o elogio que pareceu impensado, querendo saber de que maneira era essa que ela falava - desculpe, isso está sendo muito inapropriado - foi a vez dela ficar desconsertada.

—Seus olhos são muito mais bonitos que os meus - ele falou baixinho, não tendo certeza de que queria que ela escutasse ou não, mas ele percebeu que ela ouvira e o garoto ficou admirado de ver um leve rubor surgir no rosto dela.

—Eu… melhor eu ir - Astória chacoalhou a cabeça e se virou para pegar suas coisas sobre a mesa.

—Não tem vinho hoje, não é…. - ele não sabia de onde tinha vindo o humor, mas se sentiu com vontade de manter a atenção dela.

—Não confunda as coisas, Draco - ela o advertiu já com seu material em mãos e pronta para sair.

—Você já vai? Fica mais um pouco - ele prendeu a mão dela na sua, aquilo era tão avesso às suas ações habituais que surpreendeu a ambos, que ficaram encarando o local onde seus dedos se tocavam - não quero ficar sozinho - ele admitiu quase que pare seus próprios sapatos.

Draco não sabia muito bem o que estava fazendo. Começara o dia com a mente tão cheia de pensamentos diferentes dos que tinha agora que processar tudo era complicado demais, então estava optando por apenas agir. Tinha se sentido bem com a presença dela ali, com o contato, o suporte. Poderia ser julgado por querer mais?

—Tudo bem, só mais um pouco - ele se sentou novamente em sua cadeira ela depositou o material onde estava antes e, num impulso, se sentou na mesa bem em frente a ele.

Draco se sentia tão exausto física e mentalmente, que nem pensou antes de deitar a cabeça no colo da loira

—Você não tem dormido bem, não é? - ela indagou, por mais que ele tivesse certeza de que ela sabia a resposta.

—Só as vezes, os pesadelos…

—Pode descansar um pouquinho, eu te chamo quando tiver que ir - ela murmurou, ao mesmo tempo que ele sentiu novamente o toque conhecido das mãos dela em seus cabelos.

Draco não saberia dizer o tempo que levou, mas uma calma lhe atingiu de um jeito que quando deu por si já estava dormindo. Quando acordou, estava sozinho em sua cama.



Notas finais do capítulo

Eu diria que as coisas estão ficando interessantes entre o casal....
O Draco finalmente confessou que lembrava dela e já está está ficando mais vulnerável aos encantos da loirinha... O que será que acontece a seguir?
Não deixem de me contar seus pensamentos nos comentários!
Até o próximo capítulo
Bjus :)



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