Hello There 2 escrita por Lucas André


Capítulo 3
S02EP03 – The Devil You Know


Notas iniciais do capítulo

O Demônio que Você Conhece

Aterrorizada pelos acontecimentos da última noite, Emily tenta avisar Jordana de que algo está errado. Novos rostos começam a surgir quando as sobreviventes recebem a notícia do ataque em Springwood Dinner.



A manhã já havia chegado à Oakfield. A noite passada havia sido uma loucura, a sobrevivente não esperava, nem em um milhão de anos, que algo como aquilo aconteceria. Tentava acreditar que era apenas uma pegadinha, mas o seu interior dizia o contrário, dizia que ela deveria tomar cuidado, que, por algum motivo, as coisas estavam começando a desencarrilhar mais uma vez. Primeiro, a ligação, onde o assassino usava o mesmo bordão e a mesma voz de Julia e Connor de sete anos atrás, depois o indivíduo vestido de Carrasco, o mesmo Carrasco de antes, e por fim a perseguição que deixou Emily com alguns arranhões nos braços. Ela não se lembrava se o mascarado portava algum tipo de arma, não reparou em tal coisa, por isso não poderia calcular a intensidade do ataque – pois, realidade ou pegadinha, aquilo foi um ataque.

Após o auxílio de Sam e Lincoln, que a ajudaram a limpar os ferimentos e acalmar os nervos, Emily voltou para casa acompanhada pelos dois e foi deixada na frente da residência, onde Jordana a esperava, completamente temerosa com a demora da amiga. A albina não conversou com o casal, apenas acenou com a cabeça e foi com a amiga até a sala de estar, onde perguntou o que havia acontecido. Hayes deu a desculpa de que havia decidido ir a pé e que acabou caindo e se machucando, logo em frente a casa dos Winters. A albina acatou essa resposta, mas continuava um pouco desconfiada, decidindo não perguntar mais.

Contudo, naquela manhã, horas depois da perseguição, depois de muito pensar, Emily havia decidido contar o que realmente tinha acontecido. Seria a melhor opção, pensava ela, e se algo realmente perigoso estivesse para acontecer, Jordana devia saber para estar preparada.

Desceu as escadas lentamente, arrastando a mão pelo corrimão, sentindo o cheiro de bacon e escutando o som dos mesmos sendo fritos em alguma frigideira na cozinha. Não podia negar que sentia fome, o contratempo da noite passada acabou cortando o jantar e as duas foram para a cama com a barriga vazia, esquecendo de se alimentar. Chegou ao térreo, entrando na cozinha e encontrando Brammall de costas para si, mexendo com uma espátula algumas tiras de bacon na frigideira.

Com uma cara de quem está para contar para a mãe uma besteira feita, Emily apoiou os braços na bancada, esperando que a amiga se virasse para ela.

— Bom dia – cumprimentou, fazendo com que Jordana se virasse para si, sorrindo de lado.

— Bom dia – respondeu a outra. – Quer um pouco de bacon? – Ela se virou na direção da bancada, onde dois pratos estavam postos.

— Claro… Obrigada.

A menina colocou o alimento nos pratos sob o olhar de Hayes, que esperava pela brecha procurada para iniciar o assunto, nervosa pela reação que teria da outra. Jordana percebeu a encarada, levantando os olhos. Arqueou uma das sobrancelhas, perguntando:

— O que foi? – Deu meia volta e jogou a frigideira na pia, tornando para a amiga de novo.

— Sobre a noite passada… – disse, sem jeito. – Eu não cai na rua…

— Imaginei – respondeu, mastigando um bacon ao pegá-lo com a mão. – O que aconteceu? – Agora, a albina mostrava-se levemente preocupada.

Emily respirou profundamente, desviando o olhar por alguns segundos. Por algum motivo, pensou em Sam e Lincoln e como não havia agradecido os dois em momento nenhum na noite passada. Sentiu-se mal, e disse para si mesma que iria agradecer a eles mais tarde.

— Eu não sei se foi algum idiota querendo me pregar uma peça… – começou. – Mas eu vi o Carrasco ontem. – Brammall parou de mastigar, encarando-a com seriedade, esperando a próxima frase. – O mesmo Carrasco de sete anos atrás.

— Como assim?

— Era a mesma fantasia, a mesma máscara, a mesma roupa… Tudo! Era como se a Julia ou o Connor estivesse na minha frente de novo… – Emily começava a ficar nervosa de novo.

— Isso é loucura – disse com ar de quem não acredita, virando-se e indo até a pia, onde começou a lavar as mãos com fúria. – Foi algum retardado. Desencana.

— Não, não era… Eu não sei como, mas sei que não era.

— O que você tá querendo dizer?

Hayes suspirou, olhando ao redor.

— Ele me perseguiu, Jordana. – A albina levantou a cabeça, mesmo que a sobrevivente não pudesse ver a face dela por estar de costas a si. – Me perseguiu pela rua, e depois sumiu. Foi como a sete anos atrás. Não tirou a máscara, apenas correu atrás de mim… Logo depois de ter me ligado.

— O quê? – Jordana virou-se para a amiga.

— Lembra daquela hora que o telefone tocou? Que eu atendi? – A menina concordou com a cabeça. – Era a mesma voz que o assassino usava quando a gente era adolescente. Falou do mesmo jeito e tudo… Toda aquela merda de “Hello there, Emily”…

— Isso é loucura.

— Não é!

— E o que isso quer dizer pra você? Alguém sabe quem a gente é e tá querendo fazer uma brincadeira, só isso!

Emily discordou com a cabeça. Sabia que a reação de Jordana não seria a melhor, mas não estava preparada por tanta descrença vinda dela. Estava pensando se continuaria no assunto ou deixaria de lado. Por algum motivo, optou por continuar.

— Talvez esteja acontecendo de novo… Eu não sei, só foi um pressentimento que tive… – Ela abanou os ombros.

— Você tá louca, Emily. Acontecendo de novo? – Brammall ria, nervosa, não acreditando em uma palavra da amiga. – Isso é insano! Emily, deixa isso para lá e segue a vida… Olha onde a gente tá, o que a gente conseguiu fazer… Vamos recomeçar, como nós planejamos, tá?

Era aquilo, Jordana não acreditaria nela. E, de fato, Emily não tinha prova nenhuma a não ser a ligação e a perseguição. Não estava sabendo das notícias ocorridas no dia anterior, nem a albina. Ninguém havia dito a elas ainda. Talvez, se tivesse conhecimento dessa informação, Brammall pensasse melhor e até mudasse sua opinião.

— Tudo bem – concordou, por fim, desistindo de tentar. Teria de encontrar mais para convencer a amiga, mas por enquanto deixaria de intrometê-la nesse assunto. Foi uma tentativa em vão de alertá-la. Talvez, até mesmo, ela estivesse certa, talvez Emily ainda estivesse traumatizada e estava fazendo tempestade num copo d’água. – Você está certa. Eu vou deixar pra lá, Jordana. Obrigada.

A outra sorriu em sua direção, feliz. Havia conseguido tirar Emily daquela paranoia. Ela realmente achava que havia sido uma pegadinha, e nada a faria mudar de opinião até que os corpos começassem a cair. Mal sabia Jordana que, na verdade, eles já haviam começado.

 

1

 

A manhã acordou tão alegre que o casal decidiu ir andando até a galeria. Sam caminhava calmamente de mãos dadas com o noivo, observando com atenção o interior das lojinhas do seu lado direito, cumprimentando os comerciantes e sorrindo para os pedestres com gentileza. Ela sempre fora alguém muito bem-humorada e feliz com a vida, não se lembrava da última vez que havia sido rude com alguém. De fato, tais situações só ocorriam quando Winters se via forçada a ser brava, e aí sim, era quando o outro lado da loira ficava em evidência. E foi realmente por esse tipo de temperamento que Lincoln se apaixonou, logo após ele derrubar uma bandeja com bebidas em cima dela enquanto ainda trabalhava como garçom, na juventude.

Do lado esquerdo, nada diferente da moça, o moreno caminhava com um sorriso no rosto, apertando a mão da noiva com a mesma força mantida no amor da relação dos dois. O humor dele era como o dela, alegre e sorridente na maior parte do tempo, querendo sempre o bem para todos, mas conseguia ser bravo quando era forçado para isso.

— O que acha que aconteceu com a Emily ontem? – perguntou o careca, sem tirar os olhos da rua, apreciando a vista que tinha dos carros passando.

— Hum? – perdida em pensamentos, Samantha se virou para ele, encarando-o de perfil. – Não sei, na verdade. Ela disse que tinha alguém atrás dela.

— Pois é… Isso pode ser perigoso.

Sam suspirou, ficando séria de repente.

— Acha que tem alguém atrás dela? Tipo, de verdade mesmo? – Ela se virou para o rapaz, dessa vez encarando-o. Desviaram os olhos. – Digo, já aconteceu uma vez e… É estranho que três pessoas tenham sido mortas um dia antes delas aparecerem.

— Tá dizendo que tem um novo assassino indo atrás dela? – Lincoln sorriu de lado, não dando muita atenção para o que ela dizia.

— É possível, não é? Sempre acontece nos filmes…

Ele riu, trazendo-a mais para perto e dando-lhe um selinho rápido.

— Não pensa nisso, tá? Nada disso vai acontecer, Sam.

Ela concordou com a cabeça, ainda não convencida. Voltando a olhar para as vitrines quando o assunto pareceu ter sido encerrado, reparou no reflexo no vidro de uma delas, percebendo Emily andando na calçada do outro lado. Surpresa, viu que o noivo não havia reparado, e cutucou-o com o indicador da mão livre, dizendo ao olhar para Hayes, que ia na direção oposta dos dois, do outro lado da rua:

— Ei, amor… É a Emily.

— Onde? – Ele dançou com os olhos, procurando.

— Ali, do outro lado.

Finalmente, Lincoln encontrou-a. Os dois pararam sem sequer perceberem, encarando, ainda de mãos dadas, a sobrevivente.

— Vamos até lá? – perguntou o moreno.

— Acho melhor, né? Perguntar como ela está…

— Tudo bem.

Então, olharam de um lado para o outro da rua, certificando-se de que não seriam atropelados por nenhum carro, e cruzaram-na rapidamente, ligados pelos dedos entrelaçados. Os cabelos loiros de Sam esvoaçavam ao vento fraco da manhã, enquanto Davis sentia a careca gelar com o mesmo, não se importando, pois estava calor. Chegaram na calçada, ficando a apenas um metro de Hayes, que ainda não havia percebido a presença do casal.

— Emily – disse a loira, chamando a atenção da outra. Emily virou-se ao ouvir seu nome, curiosa, e parou em frente a eles. – Oi…

— Oi, Sam… Lincoln…

— Oi, Emily – cumprimentou o homem.

— Nós ficamos preocupados na noite passada – tornou a moça. – Você está bem?

Emily abanou as mãos, sinalizando que não deviam se preocupar com isso, e riu de lado.

— Sim, está tudo bem. Não precisam se preocupar.

— Mas você disse que tinha alguém te perseguindo… – lembrou Lincoln, sério.

— Devia ser só algum adolescente… – A sobrevivente também havia ficado séria agora. – Eu não vi direito quem era. Talvez nem estivesse atrás de mim e eu só me precipitei. E eu quero agradecer a vocês e me desculpar pelo imprevisto.

Sam parecia desconcertada, não entendo a leveza na voz e no assunto retratado por Hayes. Lembrava-se da forma desesperada como a garota apareceu no meio da rua, como estava desorientada e aterrorizada. Aquilo pareceu ser real demais para a loira, e ela entendeu que a garota estava mentindo. Por algum motivo, ela mentia.

— Imagine… – continuou Lincoln, ainda sem ter chegado nas mesas conclusões que sua noiva. – Você não precisa se desculpar por nada, Emily. Ficamos felizes em ajudar.

— É claro… Exatamente – concordou Winters, demonstrando a desconfiança na voz, o cenho franzido. A sobrevivente pareceu perceber isso, ficando levemente acanhada sob o olhar da mulher.

No momento de silêncio que predominou, o vento soprou mais forte, deixando o lugar um pouco mais refrescante. As pessoas iam e vinham ao redor, sob o céu matinal. Hayes estava com um pouco de pressa, havia marcado de fazer uma coisa dali dez minutos, e achava que poderia não chegar a tempo. Por isso, procurava em sua mente alguma força educada de se despedir, sem ser grossa ou dar uma cortada violenta no casal, muito menos sem deixar que a desconfiança de Sam, da qual já havia reparado, crescesse mais.

Contudo, antes que pudesse se manifestar, como em um estalo, a loira exaltou-se, arqueando as sobrancelhas e se desfazendo da face curiosa. Ela abriu os lábios e disse, olhando rapidamente para Davis:

— Quase me esqueci! Vá até a nossa casa hoje à noite. – Lincoln também pareceu entender do que falava e se alegrou em conjunto. – Nós vamos fazer um pequeno encontro de amigos e conhecidos para comemorar a abertura da nossa galeria.

— Isso – disse o outro. – Leve a Jordana, nós adoraríamos conhecê-la.

Emily também ficou mais aliviada, sorrindo em resposta. Não imaginava que a galeria havia acabado de ser inaugurada, e pensou a quanto tempo eles estavam na cidade.

— Com certeza. Nós vamos sim. – Ela começou a sair dali. – Nos vemos a noite, então. Tchau, tchau.

Os dois acenaram juntos, vendo a garota se distanciar com um sorriso no rosto.

 

2

 

Para sua sorte, o calor do exterior foi expelido de si quando entrou no lugar. Havia uma sala de espera à esquerda, no canto. Duas poltronas e uma mesinha de centro com revistas em cima estavam ali em grande conforto. Do outro lado, uma jukebox brilhante e uma pequena escrivaninha com discos de vinil localizavam-se encostados na parede, ao lado da grande e única vidraça do estabelecimento. Mais à frente, também à direita, um balcão acomodava-se como secretaria, junto de um computador. O lado paralelo a esse tinha algumas plantas em vasos altos. A música espalhava-se pelo ar, ressoando pelo ambiente, junto do som do ar-condicionado sobre a porta. A luz solar da vidraça acompanhava a das lâmpadas no teto. Era agradável.

Trazendo a bolsa mais para cima nos ombros, Emily ficou parada diante da porta, olhando ao redor, até reparar nas presenças do ambiente. Dois homens estavam encostados na bancada, cada um de um lado dela, conversando animadamente. Um deles parecia manter um rosto conhecido para Hayes, que foi até eles, procurando por um atendimento.

— Oi – cumprimentou o que estava do lado de dentro do balcão, sorrindo para ela de forma convidativa. – Bem-vinda. Você deve ser a Emily, certo?

O companheiro ergueu as sobrancelhas, também reconhecendo-a ao encará-la.

— Eu sou o Garrett – continuou o rapaz de sobrancelhas grossas e cabelos encaracolados e negros assim que a sobrevivente concordou a cabeça. – Você marcou hora, não é?

Para ajudar ainda mais em seu recomeço, em uma decisão tomada logo após a discussão com Jordana, Emily havia percebido que devia mudar mais. Mudar fisicamente. Por isso, não encontrou nada melhor do que marcar o corpo com uma tatuagem.

— Sim, marquei – respondeu.

— Nós nos vimos ontem, não nos vimos? – perguntou o outro rapaz, acanhado.

— Acho que sim, na verdade. – Ela sorria, animada. – Você é o Peter, não?

— É, sou eu mesmo.

— Então vocês já se conhecem? – tornou Garrett, levantando os olhos da agenda no balcão.

Emily e Peter se encararam, rindo. Peter mantinha-se um pouco envergonhado, provavelmente por ter que explicar o motivo da aproximação de ambos no dia anterior.

— É… A Megan trombou com ela e eu ajudei – disse, por fim. Garrett riu alto, achando completa graça daquilo. Emily não entendeu o motivo. – Cala a boca… – sussurrou Cambridge sem que Hayes ouvisse, percebendo que o amigo havia escutado.

— Garanto que ela também te xingou – continuou DeLucca, o tatuador.

— Pois é… – a confirmação de Emily fez o rapaz rir ainda mais. – O que tem de tão engraçado…? – perguntou, desentendida.

Peter foi quem respondeu, antes mesmo que Garrett tivesse a chance para tal, ainda apoiado com um dos braços na madeira. Eles pareciam bem íntimos, como se fossem amigos de longa data.

— Meu amigo aqui acha engraçado o fato dela ser rude às vezes.

— Não – discordou Garrett, dando a volta no balcão e saindo dali. – Eu acho engraçado o fato do Peter ser o escravo pessoal dela. – Cambridge mostrou-se ainda mais envergonhado, desviando o olhar. – A má-educação da Megan não é um dos fatores.

— Ela não é mal-educada… – tentou o assistente.

— É sim. Você que é cego.

Quando saiu por completo de trás do balcão, DeLucca se pôs ao lado de Emily, que estava levemente avulsa no assunto. Ele sorriu e deu as costas ao amigo, deixando claro que o assunto acabaria ali.

— Está pronta? – perguntou.

— Sim, estou.

— Já tem uma ideia do que quer?

Emily pensou um pouco. Já tinha sim uma ideia do que queria. Seria algo simbólico para ela. Um pouco temerosa por nunca ter se aventurado em algo como aquilo, ela concordou com a cabeça.

 

3

 

Sentando-se na maca almofadada, Hayes encarou com ansiosidade a tatuagem pronta. Virou o braço de forma que conseguisse vê-la melhor, sendo que havia feito-a logo abaixo do ombro. Era colorida e com traços delicados. Um coração vermelho e sombreado de preto era apunhalado por uma adaga, como as japonesas, de metal e cabo plástico. A lâmina passava diretamente pelo coração, sem sangue algum, representando tudo o que a sobrevivente já havia vivido. Estava perfeito.

— Ficou boa? – perguntou o tatuador, empolgado com a resposta, afastando-se com a cadeira de rodinhas e indo até uma prateleira metálica, pronto para pegar o papel filme para enrolar seu feito.

— Incrível – respondeu Emily, sorrindo. Ela reparou na forma como ele encarava a figura em seu braço, parecendo um pouco perdido pelo sentimento guardado nela. – Pode parecer um pouco mórbido, triste ou não tão emocional… Mas para mim é bonito. – A garota ficou séria, e Garrett fez o mesmo do outro lado da sala, pegando um rolo do plástico filme e voltando com a cadeira até ela. – Vai me fazer lembrar de tudo o que passei.

Percebendo que havia esboçado demais o que pensava sobre aquilo – que era algo realmente meio mórbido para alguém que sobreviveu a tal situação no passado –, DeLucca sorriu da forma mais convincente que conseguiu. Era apto em tal coisa, já havia perdido as contas de quantas coisas malucas as pessoas já haviam lhe pedido para desenhar em seus corpos.

— Eu entendo o que você está querendo dizer, Emily – disse, pegando o braço dela delicadamente e começando a enrolar o plástico. – Achei ela bem bonita, para falar a verdade.

— Obrigada… – respondeu, sem jeito.

Após terminar de proteger o braço de Hayes, os dois voltaram para a frente da loja, onde Peter continuava esperando. Tinha o dia inteiro livre e, como não havia nenhuma outra coisa para se fazer em sua folga, decidiu ir encher o saco do amigo. Viu os dois passarem pela passagem que levava ao corredor que dava acesso às salas da tatuadora e se levantou de uma das poltronas, indo até o balcão para acompanhá-los. A ida de Emily foi rápida: ela pagou, Garrett lhe deu uma pomada para passar na tatuagem todas as noites, e então a menina saiu pela porta, deixando-os sozinhos novamente.

Vendo sua mais nova cliente saindo, DeLucca tornou a falar:

— Vocês se conheceram daquele jeito mesmo?

Peter suspirou fundo, prevendo as novas advertências vindas do tatuador.

— Sim – respondeu. – E sim, a Megan foi um pouco rude com ela e eu ajudei a Emily a se levantar depois de quase cair.

Garrett riu.

— Eu ainda não acredito que você trabalha pra ela… – resmungou ele. – É ridículo o jeito que ela te trata.

— Não fale desse jeito! – exaltou-se Cambridge, olhando para Garrett com um olhar reprovador. – Ela só é sobrecarregada. A Megan é muito gente boa quando tá fora do trabalho, Garrett. O problema é que você só lembra dela quando ela tá me xingando e me dando ordens.

— Exatamente, e você continua seguindo ela pra onde vai.

Peter abaixou a cabeça. Não concordava com que o outro dizia. Era estagiário e assistente de Steinfield havia dois anos. A advogada sempre fora um pouco fria e ríspida, mas esse fator nunca incomodou o garoto, que já estava preparado para tais coisas antes mesmo de começar a trabalhar com ela. Ou melhor, para ela. O problema era que Cambridge era cegado pelo sentimento nada recíproco existente entre os dois. Ele não tinha culpa de ter pego uma chefe tão linda – aos olhos dele, pelo menos. Os cabelos castanhos e os grandes olhos negros de Megan o levavam a loucura, e toda vez que aqueles lábios vermelhos da moça se abriam para falar, era como fogos de artifício explodindo dentro de seu peito.

E mesmo que achasse todas essas coisas, não teria chance em discutir com DeLucca, que sempre fora muito orgulhoso e dono de um ego enorme que o fazia sempre achar ter a razão de tudo. Essa discussão dos dois, que se conheciam antes mesmo de conhecerem Megan e por isso poderiam se considerar o melhor amigo um do outro, começou na primeira semana de trabalho de Peter, e pendurou até os dias atuais. Garrett considerava muito Cambridge, e mesmo que tratasse do assunto de uma forma nada séria e irônica, com risos e deboches, doía para ele ver o rapaz ser tratado como lixo por aquela que, para ele, era o lixão todo.

— Você devia tomar alguma atitude, Peter – continuava o tatuador. – Eu sei que você precisa desse trabalho e é o que te mantém, mas essa situação é inaceitável. Devia falar com algum superior dela e reclamar.

— Garrett, você não entende as pessoas daquele lugar. – Peter levantou os olhos e encarou o amigo. – Eles trabalham como um só. Se eu, um mero estagiário, chegar reclamando e apontando dedos para uma das melhores advogadas do prédio, é bem capaz que eu seja demitido.

— Pois seja! Encontre um trabalho melhor! – DeLucca engoliu em seco. – É sério, cara. É muito ruim te ver sendo tratado desse jeito… Faça alguma coisa.

Peter não respondeu, apenas se manteve encarando o chão, levemente envergonhado.

 

4

 

O café da manhã havia sido um horror, o clima pesado perdurou sob as garotas, e agora, como uma forma de reconciliação indireta, da qual nenhuma das duas deu a ideia, apenas aconteceu, haviam se juntado após a sessão de Emily e ido até um bar que ouviram falar ser uns dos melhores da nova Oakfield. Chamava-se Green Light, e a frente era toda tomada pela cor, com paredes verdes e um grande outdoor neon e chamativo. O interior era todo feito de madeira, no estilo vintage. Uma música tocava no rádio dentro do balcão, as pessoas conversavam e bebiam nas mesas redondas. Alguns baristas passavam carregando bandejas com bebidas, outros continuavam atrás do balcão, atendendo os clientes.

De modo quase imediato, assim que passaram pela porta, Jordana e Emily repararam na dupla que estava no balcão. Um garoto negro e fardado estava sentado num dos bancos altos, as mãos em cima da madeira. O interessante era que ele não bebia nada, provavelmente por estar em horário de serviço, apenas conversava com uma menina, que estava do lado de dentro do balcão, provavelmente uma das baristas, com uma face entristecida. A menina, no entanto, era idêntica a ele. Mantinha a mesma pele negra e os cabelos crespos, que estavam em uma trança, amarrados na cabeça. Os lábios eram iguais, as narinas e os olhos. A garota, contudo, tinha-os verdes, e o policial castanhos. Também, ambos tinham a mesma pinta do tamanho de uma unha de polegar no pescoço, no exato mesmo lugar, na exata mesma forma.

Não deram muita bola, não repararam, apenas seguiram até o balcão em busca de uma bebida. Sentaram-se a um banco de distância do rapaz negro e da garota que agora enxugava alguns copos, conversando seriamente um com o outro. Um barista aproximou-se e marcou o pedido das duas, saindo para fazê-lo. Conseguiam se ver do outro lado por conta de uma grande espelho que tomava metade da parede atrás da madeira, junto de uma imensa estante que ia de ponta a ponta, coberta por bebidas e garrafas.

— Você percebeu como esses dois do nosso lado são parecidos? – perguntou Jordana, puxando assunto.

Emily, um pouco avoada, virou sua cabeça para ela, respondendo:

— Sim… Logo que entramos.

— Acha que são irmãos?

— Talvez até gêmeos…

As duas voltaram a se silenciar, e por algum motivo Hayes desviou sua atenção para a conversa que se desenrolava entre os dois. O rapaz, percebeu ela naquele momento, tinha expressão cansada, a voz arrastada e os ombros retraídos. A menina parecia sentir pena dele, encarando-o com ternura. Nenhum deles percebia que a sobrevivente dava uma de enxerida no papo alheio.

— Eu estou cansado… – dizia o homem, suspirando fundo. – Não sei o que fazer.

A negra colocou o último copo do escorredor, encarando o negro fardado com as mãos apoiadas no balcão.

— Você não deve se preocupar com isso, Kai. – Então o nome dele é Kai, pensou Emily. – Era só alguém com raiva ou coisa assim… Querendo vingança… Sei lá… Você já lidou com casos iguais esse, não lidou?

Pela primeira vez, Kai levantou os olhos e encarou a irmã. Logo ao lado, discretamente, Hayes esticou o indicador e cutucou a lateral de Brammall, que não estava prestando atenção. A albina de um pequeno pulo, encarando-a.

— Escuta o que eles tão dizendo – avisou Emily, estranhamente curiosa com o que se desenrolaria entre o casal.

Jordana assim o fez, de forma discreta, encarando o balcão junto da amiga, com os ouvidos atentos nas palavras saídas das bocas dos dois.

— Zoe – continuou o rapaz. –, isso não é como antes. Eu sinto isso… – Kai engoliu em seco, balançando a cabeça. – Encontrar três pessoas assassinadas não é uma coisa comum. – A informação fez o coração de Emily sofrer as sequelas de um soco, palpitando cada vez mais rápido. Jordana também prestava atenção, levemente nervosa. – Eu tô assustado… A coisa foi feia.

— Muito feia? – perguntou Zoe com calma, tentando ganhar tempo para formular uma boa resposta capaz de acalmar o irmão.

— Nunca vi tanta violência na vida.

— E já acharam o culpado?

Novamente, Kai Conway pareceu se afundar em mais temor.

— Não – respondeu. – Ele usava um tipo de máscara… – A sobrevivente esperava por uma descrição mais detalhada. O fato dos três corpos pareceu acender nela uma faísca que trouxe de volta a memória da noite passada e ligou as duas coisas. Brammall não se movia, encarando a amiga por curtos segundos. – Uma máscara… Como posso dizer…? – Kai pensou com profundidade, tentando encontrar uma forma de exemplo, sob o olhar de Zoe, que esperava pelo comentário. – Era como a de um carrasco medieval, sabe?

Zoe apenar concordou com a cabeça, não vendo a situação como as duas amigas logo ao lado. Emily encarou Jordana com uma mistura de fúria e medo, comprovando que a ligação e a perseguição não foram nada além de reais. Encarou a albina com tanta intensidade, anestesiada pelos sentimentos, que não percebia o olhar de loucura que lhe banhava a face. Era como se Hayes estivesse entrando em pânico. Brammall não se segurou, precisava de respostas imediatamente. Para ela, conclusões precipitadas levavam a lugar algum.

Estendeu-se sobre a amiga e esticou um dos braços, tocando de leve o ombro de Kai, que de súbito se virou para as duas, enquanto Zoe ainda concordava com o último comentário.

— Desculpa me intrometer, mas… – dizia a sobrevivente. – Você disse algo sobre três corpos…?

Conway encarou sua outra metade, mas aquiesceu, virando o rosto para as duas. Zoe fez o mesmo, curiosa.

— Pois é… – disse ele, colocando o empoderamento e a segurança que um policial deveria dar na voz e deixando o homem cansado de lado. – Encontramos três corpos ontem de manhã, na lanchonete Springwood Dinner. Mas não há nada com que vocês devam se preocupar.

As duas continuavam paradas, quase estáticas se não fosse pelo subir e descer dos ombros ao respirarem. Parecia irreal para ambas as duas. A voracidade da perseguição ficou mais clara para Emily, ela tinha certeza de que era alguém com más intenções. Isso fez um arrepio percorrer o corpo dela. Estava correndo perigo novamente. Já Jordana, que não havia acreditado em nenhuma palavra da amiga pela manhã, tinha em mente que, ainda assim, poderia se tratar de alguma coincidência. Algum adolescente imaturo que soube das mortes, da volta das sobreviventes e decidiu fazer aquilo com Hayes. Mas não podia-se negar que ambas percebiam o timing perfeito do incidente, apenas um dia antes delas chegarem à Oakfield.

O que não viam, no entanto, ainda absorvendo a informação e tentando formular um pensamento claro sobre aquilo, era a garota Conway, que ao fazer uma análise detalhada nas duas, reconheceu-as. Por isso, abaixou-se discretamente na direção do irmão, sussurrando o fato no ouvido dele, que ainda parecia não ter se tocado de quem era a dupla de garotas à frente. Kai virou o rosto de leve, escutando. Em seguida, tornou para Emily e Jordana com uma expressão diferente. Por algum motivo, parecia culpado, percebendo como tal informação, provavelmente, mexeria com o psicológico das duas.

Tentando buscar um ponto de fuga para se reconciliar de forma indireta, disse:

— Meu nome é Kai, por sinal. E essa aqui é a minha irmã gêmea, Zoe. – Ele apontou para o lado, onde Zoe sorria convidativamente.

O retorno da voz do policial fez as sobreviventes voltarem à realidade. Elas engoliram em seco e, em conjunto, estenderam os braços para a dupla de irmãos. Os pares trocaram os braços, até que ficaram nos lugares anteriores, logo após Brammall e Hayes terem se apresentado também, mesmo sabendo que eles já sabiam quem eram. De qualquer forma, os Conway fingiram que não sabiam também.

Começando a ficar corroída pela curiosidade, e não se sustentando apenas com o que lhe foi dito, Emily tornou a perguntar, da forma mais inocente que conseguiu:

— Você pode nos contar mais detalhes do que aconteceu?

 

5

 

O dia havia acabado, e uma única casa da rua enchia-se de pessoas, que, bem-vestidas, entravam pela porta da frente aberta e eram recepcionadas por uma mulher esguia e loira. Como o combinado, o jantar na casa de Sam e Lincoln realmente aconteceu, apenas para os amigos mais próximos – o que não era muito, sendo que o casal havia se mudado a pouco tempo. De qualquer forma, a quantidade de pessoas, vista por eles naquele momento, parecia absurdamente grande. As luzes acesas iluminavam pouco mais de uma dúzia de rostos conhecidos pela casa, metade deles na sala de estar e a outra metade na cozinha. Os carros dos convidados colavam-se nas calçadas de ambos os lados da rua e davam um ar feliz no ambiente.

Entre as pessoas na sala de estar, estava Emily, que havia juntado forças e coragem para comparecer a tal, e uma alegre e empolgada April Green. O cômodo era grande, por sorte, e todos tinham espaço o bastante para andar de um lado para o outro sem que ficassem encalhados em algum objeto ou trombassem com um ombro alheio. As paredes eram de madeira, assim como os móveis. As luzes não eram tão fortes, de forma que davam uma ambientação sombria na sala de estar, mesmo que as vozes e risadas fossem mais altas e alegrassem tudo. Também dava-se para ver a porta de entrada aberta, onde Samantha continuava a recepcionar os convidados.

Vestindo um vestido azul e estampado com diversas flores da mesma cor, em tons diferentes, Hayes olhava de um lado para o outro, tentando se ver livre da estranha conversa que se desenrolava com Green. April, por sua vez, sempre com um senso de superioridade e beleza, querendo ser o centro das atenções para onde ia, tinha no corpo uma calça boca de sino social e preta, acompanhada de um terninho colado no torso. Os cabelos lisos e castanhos estavam penteados de forma elegante nas laterais da cabeça, e a maquiagem, mesmo que simples, conseguia chamar a atenção.

— E você está fazendo isso a quanto tempo? – perguntou Emily para não ser mal educada e continuar o assunto. April se animou de imediato, estalando os olhos e desviando a atenção do celular por alguns segundos.

— Faz quase dois anos! – respondeu, empolgada, quase gritando. – E, nossa, é um sonho sendo realizado… Estar em cima de um palco, se apresentando para dezenas de pessoas… – Ela suspirou fundo. – Deve ser ruim pra quem não consegue fazer o que quer, né? – Emily olhava de forma envergonhada para ela, sentindo certa vergonha alheia das caras e bocas proporcionadas pela companheira. – Por isso eu me sinto muito sortuda por ter conseguido conquistar isso tudo… Pobres coitados… – Green riu alto.

— Mal posso imaginar como é…

Do outro lado do cômodo, Emily reparou na albina conversando com Lincoln. Ansiava estar lá com eles, em vez de com April. Desde o início da conversa, a artista se vangloriava por ser quem era, deixando claro a forma mesquinha e egoísta de ser, assim como Tommy e Logan haviam dito no dia anterior. O estranho, no entanto, era que, em consideração a todas as pessoas que havia conhecido, April foi a única a tratar Hayes de uma forma normal, sem demonstrar que a reconhecia pelo passado.

— Ah, aliás, amanhã é a estreia da minha peça – continuou Green, fazendo Emily se virar para ela mais uma vez. – É sobre uma garota que vem de uma família pobre e conquista o mundo depois de adulta. Eu sou a protagonista. – A moça sorriu alegremente. – Você deveria ir, aposto que vai amar.

— Sim, claro… – respondeu. – Vou ver se posso comparecer. Parece ser ótima, por sinal.

— Óbvio que é! Eu que escrevi!

Emily estalou os olhos, surpresa, sentindo uma enorme vontade de dizer para que ela deixasse de ser tão metida. April continuou:

— Vai ser no teatro Stanley Woodel.

— Onde?

— Não me diga que você é jovem demais para se lembrar do Stanley Woodel, Emily.

Ela cutucou a sobrevivente nas costelas, fazendo-a dar um sobressalto maior do que deveria.

— Sou tão velha que tinha me esquecido do Stanley Woodel até você me lembrar.

Ela riu.

— Quantos anos você tem? Vinte e dois, vinte e três?

— Vinte e cinco.

— Um bebê. Igual eu.

Vá embora, April, pensava Emily, farta da conversa.

Então, por algum motivo, ao olhar ao redor, as duas repararam no novo convidado que entrava na casa. Uma mulher alta e de cabelo chanel, bem-vestida. Megan. Viram como a advogada deu um sorriso cínico para Winters, e em seguida entrou na casa, indo para a cozinha, possivelmente atrás de uma bebida.

— Aquela mulher é fogo… – comentou April quando Steinfield passou. Ao olhar para ela, a sobrevivente percebeu a expressão de repulsa no rosto da garota, como se ela estivesse se lembrando de alguma coisa ruim.

— Por quê? – perguntou, curiosa, querendo explicações de novas pessoas.

— Não sei, na verdade. Desde que eu conheci a Megan ela é desse jeito. – Green virou-se para Hayes e ergueu as sobrancelhas. – Ela acha que, por ser uma advogada bem-sucedida, tem o direito de diminuir todo mundo e se achar a dona do pedaço.

Emily concordou com a cabeça. De fato, pelas várias descrições de Megan que já havia ouvido, a mulher não era nenhum anjo.

— Ela bota medo, rebaixa os outros – continuou April. – É falsa com todo mundo…

— Ela já fez alguma coisa que a deixou com essa fama?

— Não que eu me lembre… Não comigo, pelo menos. – A artista engoliu em seco. – Uma coisa grande não. Apenas… Xinga Deus e o mundo, é rude… Qualidades excêntricas, sabe? – Suspirou fundo. – Mas talvez seja só eu. As mulheres não gostam muito de mim. – Deu de ombros.

— Por quê?

— Não sei. Inveja, talvez.

A garota concordou com a cabeça, pensando que deveria manter distância de Steinfield se quisesse se manter longe de problemas. Contudo, Peter, o assistente da advogada, parecia ser diferente dela, alguém com quem poderia criar uma amizade. Emily lembrou da conversa na tatuadora e percebeu que, em alguns casos, os opostos se atraem. Bem, somente um dos lados.

— Eu topei com ela outro dia… – comentou Hayes. – Foi completamente grosseira.

April, como resposta, bufou com vontade, deixando claro que não estava impressionada com o comportamento de Megan, assim como odiava isso. As duas ficaram em silêncio por alguns segundos, uma ao lado da outra. Olhando ao redor, a sobrevivente também percebia alguns outros conhecidos, como Tommy, Peter, a garota asiática, Olivia, da qual Kai havia comentado no bar, que era grande amiga de uma das vítimas do restaurante, e Molly. Além dos anfitriões e Jordana, é claro.

Então, para a surpresa de Emily, Green voltou a falar, dessa vez com a voz empolgada e longe de qualquer raiva e desgosto de segundos atrás, tirando de sua enorme bolsa verde-amarelada um celular:

— Ei, Emily. Venha. – Ela virou a cabeça, encarando a outra. – Dê um sorriso bem grande.

Quis socá-la naquele instante, com sua falta de consciência, seus ares de garotinha. Engoliu a fúria, tentou reverter, tentou ser gentil, então sorriu roboticamente enquanto April pressionava seu rosto contra a bochecha de Emily e tirava uma foto com o celular.

Ela virou o telefone e as duas viram os rostos expremidos um contra o outro, como se fossem amigas desde sempre. April tinha esticado os lábios para frente em um bico de pato exagerado, cerrando os olhos no que achou ser uma expressão sexy, fazendo o seu melhor carão.

— Obrigadinha… – comentou a garota, mexendo freneticamente no celular.

Enquanto respondia, Hayes percebeu que ela entrava no Instagram e postava a foto sem ao menos pedir a sua autorização para tal. O problema é que ela é incrivelmente egoísta e está sempre querendo ser o centro das atenções. Principalmente nas redes sociais, querendo ser uma Selena Gomes do Instagram ou coisa assim, lembrou-se da conversa com Tommy e Logan no dia anterior.

O fato que mais a incomodou, no entanto, foi a legenda: “Selfie com a SOBREVIVENTE!! O.O”. Mais uma vez, percebeu que April, provavelmente, estava tentando tirar proveito da reputação de Emily para ganhar seguidores, fãs ou coisa assim.

Com um sorriso animado, a artista não percebia o quanto Hayes estava incomodada.

 

6

 

A festa já havia acabado, e as amigas entraram juntas na casa. Tirando a echarpe do pescoço, Jordana havia se corroído a noite inteira por ter falado daquela forma rude com Emily pela manhã, e agora percebia que devia tê-la tratado melhor. A sobrevivente só estava revivendo o passado, e mesmo que, pela crença da albina, fosse alguma espécie de pegadinha de mal gosto, era o bastante para fazer qualquer um que havia passado por aquilo retornar a loucura e despertar demônios antigos. Principalmente Hayes, que havia passado por aquilo tudo sabendo que a culpa era toda sua. Havia achado que a tarde no bar seria o bastante para a reconciliação, mas o clima piorou com a notícia dada pelo policial.

Pelo que sabiam, três corpos haviam sido encontrados, os de Clary Chambers, Toby Fray e Allyson Horsdal, garçonete, cliente e gerente, respectivamente. Todas mortes brutais, uma delas causadas por uma faca de sobrevivência HK-205 TAUE, a mesma do massacre de sete anos atrás, como foi informado por Kai. Também, a figura encontrada nas câmeras de segurança era a de um carrasco medieval. Era tudo o que ele poderia falar até o momento, até que novas informações fossem liberadas e a autópsia completa fosse feita, onde teriam mais coisas para se trabalhar sobre.

— Olha, Emily… — chamou a atenção da amiga, vendo-a se encaminhar para as escadas. Emily se virou. Para ser franco, ela já havia se esquecido da pequena discussão no café da manhã. — Me desculpa pelo jeito que eu falei com você hoje cedo… Foi grosseria, e eu não devia ter falado daquela forma.

— Não, não… Tá tudo bem, sério — respondeu, relaxando e parando. — Eu sei que a gente já passou por muito e você só quer se afastar de uma situação como essa. Fui eu que exagerei e me precipitei.

Jordana se aproximou. A casa estava silenciosa, e seus passos eram facilmente ouvidos.

— Não diga isso. Você fez o certo, se isso fosse real. Mas eu vou continuar dizendo e acreditando que foi algum babaca fazendo uma brincadeira depois de saber que a gente tinha voltado.

— Eu entendo… Só acho estranho que três pessoas tenham sido assassinadas com a mesma fantasia de sete anos atrás, logo antes da gente chegar na cidade, e então eu recebo uma ligação como as de antes e sou perseguida pelo mesmo Carrasco…

Brammall estava sim assustada, só queria passar algum tipo de conforto para amiga. Via como ela estava sofrendo, e não queria deixá-la pior. Para ela, nada havia sido comprovado com as mortes. Certo, três pessoas foram assassinadas por alguém vestindo o mesmo traje que aterrorizou um grupo de estudantes no passado, mas que fantasia melhor o assassino usaria para matar alguém se não quisesse ser descoberto, a não ser a mesma do massacre anterior, se inspirando no assassino do passado? Jordana acreditava que, quem quer que fosse o responsável pelo ataque na lanchonete, havia feito aquilo por razões pessoais e ocultado sua identidade com tal traje para não ser descoberto e fazer as autoridades ligar as pontas com as duas e ficar fora do caso em si.

— Sabe… Julia e Connor eram os únicos que tinham aquela coisa… — continuou. — Se esse assassino usou a mesma fantasia, ou ele pegou ela de algum arquivo enterrado nas salas da delegacia ou fez uma por conta própria. E ambas as opções são extremamente improváveis de ser a certa, seria um trabalho e tanto.

— Nós duas sabemos que os dois faziam loucuras para conseguir o que queriam.

— Não faz diferença — respondeu a albina com seriedade.

Emily parou e pensou por alguns instantes, ficando em silêncio. Então, olhou para Brammall com os olhos extremamente assustados.

— Eu aceito as suas desculpas… Mas e se estiver acontecendo de novo? Você ouviu o que aquele policial e a irmã disseram…

— Eu sei o que eles disseram…

—E isso ainda não te faz acreditar de que possa ter outra pessoa por aí? Outro assassino?

Jordana repensou em toda as suas conclusões do momento, e após alguns segundos, respondeu, decidida:

— Não, não faz, Emily. Pode ser coincidência, tudo bem? — Engoliu em seco. — Pare de pensar nessas coisas.

Sem ao menos esperar que a amiga respondesse, tentando se ver livre daquele assunto, passou ao lado dela e subiu as escadas, fugindo da situação.



Notas finais do capítulo

Esse capítulo foi mais focados nas sobreviventes e nas consequências do ataque. Acho que é bem comum isso nos filmes e obras do gênero, sempre uma das partes vai ficar decidida que está acontecendo de novo, enquanto a outra vai estar assustada demais para acreditar e irá negar até que a merda atinga o ventilador. Além disso, tivemos a apresentação de novos personagens, como Garrett, Kai e Zoe.
Me digam se vocês já gostaram de algum personagem, quem acham que vai ser o próximo a ser morto... Espero que tenham gostado, e até a próxima!



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