Hello There 2 escrita por Lucas André


Capítulo 3
S02EP03 – The Devil You Know


Notas iniciais do capítulo

O Demônio que Você Conhece

Aterrorizada pelos acontecimentos da última noite, Emily tenta avisar Jordana de que algo está errado. Novos rostos começam a surgir quando as sobreviventes recebem a notícia do ataque em Springwood Diner.

Capítulo revisado e atualizado.



HELLO THERE 2

CAPÍTULO 03 – O DEMÔNIO QUE VOCÊ CONHECE

 

14/03/2018

 

A manhã havia chegado à Oakfield. A noite passada tinha sido uma loucura. Emily não esperava, nem em um milhão de anos, que algo como aquilo aconteceria. Tentava acreditar que era apenas uma pegadinha, algum adolescente idiota e desocupado, mas o seu interior dizia o contrário. Dizia que ela deveria tomar cuidado. Que, por algum motivo, as coisas estavam começando a desencarrilhar mais uma vez. Era uma sensação que lhe corroía tudo, subindo numa onda quente e que lhe causava náuseas.

Primeiro, a ligação, onde o remetente usava o mesmo bordão — hello there — e a mesma voz de Julia e Connor de sete anos atrás. Depois, o indivíduo vestido de Carrasco, o mesmo Carrasco de antes, surgiu do meio das sombras naquela rua vazia. Por fim, a perseguição que deixou Emily com alguns ralados e arranhões nos braços e pernas. Além disso, lembrava-se muito bem que o mascarado tinha uma faca. Era grande e avantajada do lado do corpo dele. Tal lembrança ainda lhe causava calafrios. Mesmo assim, não poderia saber se era verdadeira ou falsa. E não sabendo de tais informações, jamais seria capaz calcular a intensidade do ataque — pois, realidade ou pegadinha, aquilo foi um ataque.

Após o auxílio de Sam e Lincoln, que a ajudaram a limpar os ferimentos e acalmar os nervos com dois copos de água com açúcar, Emily voltou para casa acompanhada dos dois e foi deixada na frente da residência, onde Jordana a esperava de braços cruzados e tremendo de frio, completamente preocupada com a demora da amiga. A albina não conversou com o casal, apenas acenou com a cabeça e foi com a morena até a sala de estar, onde perguntou o que havia acontecido. Emily deu a desculpa de que havia decidido ir a pé e que acabou caindo e se machucando, logo em frente a casa dos Winters. Mesmo com certa temerosidade, Jordana acatou a resposta e decidiu não questionar mais ao perceber como Emily parecia perturbada, mas continuava um pouco desconfiada.

Contudo, naquela manhã, depois de muito pensar, Emily havia decidido contar o que realmente tinha acontecido. Seria a melhor opção, pensava ela, e se algo realmente perigoso estivesse para acontecer, Jordana devia saber para estar preparada. De qualquer jeito, esse pensamento lhe aterrorizada. Será que estava sendo tão paranoica assim para imaginar tal coisa? Era praticamente impossível, mas os fatos contraditórios eram jogados constantemente em sua cara: uma ligação, uma perseguição, um disfarce de Carrasco.

Desceu as escadas lentamente, arrastando a mão pelo corrimão. A primeira noite na casa nova poderia até ter sido boa caso o ataque não tivesse acontecido, mas ele aconteceu, e Emily mal pregou os olhos durante a madrugada. Por isso, tentava ignorar o sono e o cansaço que lhe envolvia o corpo, sentindo o cheiro de bacon e escutando o som deles sendo fritos em alguma frigideira na cozinha. Não podia negar que sentia fome. O contratempo da noite passada acabou cortando o jantar e as duas foram para a cama de barriga vazia, esquecendo de se alimentar por conta da situação.

Chegou ao térreo, observando o longo e vazio corredor. Não hesitou em seguir até uma das passagens, entrando na cozinha e encontrando Jordana de costas para si, mexendo com uma espátula em algumas tiras de bacon na frigideira fervente. Com uma cara de quem está para contar para a mãe uma besteira feita, Emily apoiou os braços na bancada, esperando que a amiga se virasse ao notar sua presença.

— Bom dia — cumprimentou, erguendo a voz ao notar que a albina estava distraída demais para percebê-la parada ali.

Jordana virou o rosto em sua direção, sorrindo de lado.

— Bom dia — respondeu. — Quer um pouco de bacon? — Ela se virou na direção da bancada, onde dois pratos estavam postos.

— Claro… Obrigada.

A albina colocou o bacon nos pratos sob o olhar de Emily, que esperava pela brecha perfeita para iniciar o assunto, nervosa em relação à reação que desencadearia na amiga. Mas não foi tão boa em esconder os pensamentos, e Jordana percebeu que estava sendo encarada, levantando os olhos. Arqueou uma das sobrancelhas, perguntando:

— O que foi? — Deu meia volta e jogou a frigideira na pia, tornando para a amiga de novo enquanto limpava as mãos engorduradas num pano de prato.

— Sobre ontem… — soltou, sem jeito. — Eu não cai na rua…

— Imaginei — respondeu, mastigando um bacon ao pegá-lo com a mão, despreocupada. — O que aconteceu? — Franziu o cenho, ansiosa.

Emily respirou fundo, desviando o olhar por alguns segundos. Por algum motivo, pensou em Sam e Lincoln e como não havia agradecido os dois em momento nenhum na noite passada. Sentiu-se mal, e disse para si mesma que agradeceria a eles mais tarde.

— Eu não sei se foi algum idiota querendo me pregar uma peça… — começou. — Mas eu vi o Carrasco ontem. — Jordana parou de mastigar, encarando-a com seriedade, esperando a próxima frase. — O mesmo Carrasco de sete anos atrás.

— Como assim?

— Era a mesma fantasia, a mesma máscara, a mesma roupa… Tudo! Era como se a Julia ou o Connor estivesse na minha frente de novo, me caçando… — Emily começava a ficar nervosa novamente, sentindo um arrepio subir pela espinha.

— Isso é loucura — disse Jordana com ar de que não acredita, virando-se de costas e indo até a pia, onde começou a lavar as mãos com uma certa fúria pelo assunto ter sido levantado. — Foi algum retardado. Desencana.

— Não, não era… Eu não sei como, mas eu sei que não era.

— O que você tá querendo dizer?

Emily suspirou, olhando ao redor.

— Ele me perseguiu, Jordana. — A albina levantou a cabeça, mesmo que a sobrevivente não pudesse ver a face dela por estar de costas a si. — Me perseguiu pela rua, e depois sumiu. Foi como a sete anos. Não tirou a máscara, apenas correu atrás de mim… Logo depois de ter me ligado.

— O quê? — Jordana virou-se para a amiga, um pouco espantada.

— Lembra daquela hora que o telefone tocou? Que eu atendi? — A albina concordou com a cabeça. — Era a mesma voz que o assassino usava quando a gente era adolescente. Falou do mesmo jeito e tudo… Toda aquela merda de “Hello there, Emily”…

— Isso é loucura.

— Não é!

— E o que isso quer dizer pra você? Todo mundo sabe quem a gente é, e alguém tá querendo fazer uma brincadeira! Só isso!

Emily discordou com a cabeça. Sabia que a reação de Jordana não seria a melhor, mas não estava preparada por tanta descrença vinda dela. Estava pensando se continuaria no assunto ou deixaria de lado. Por algum motivo, optou por continuar.

— Ele tinha uma faca — contou, assustada.

— Era de verdade? — Jordana franziu o cenho, preocupada.

— Eu não sei… Não é como se eu tivesse parado e perguntado!

— Então, Em! Pode ser falsa! — A albina abanou as mãos, um pouco cansada. — E de qualquer jeito, o que quer dizer com isso?

Emily mordeu o interior dos lábios.

— Talvez esteja acontecendo de novo… Eu não sei, só foi um pressentimento que tive… — Deu de ombros.

— Você tá louca, Emily. Acontecendo de novo? — Jordana ria de nervoso, não acreditando nem em uma única palavra da amiga. — Isso é loucura! Emily, deixa isso pra lá e segue a vida… Olha onde a gente tá, o que a gente conseguiu fazer… Vamos recomeçar, como nós planejamos, tá?

Era aquilo, Jordana não acreditaria nela. E de fato, Emily não tinha prova nenhuma a não ser a ligação e a perseguição. Não estava sabendo das notícias ocorridas no dia anterior na lanchonete Springwood Diner, nem a albina, então não tinha argumentos com sustentação para usar. Ninguém havia dito a elas ainda. Talvez, se tivesse conhecimento dessa informação, Jordana pensasse melhor e até mudasse sua opinião.

— Tudo bem — concordou, por fim, desistindo de tentar. Teria de encontrar mais provas para convencer a amiga, mas por enquanto deixaria de intrometê-la no assunto. Foi uma tentativa em vão de alertá-la. Talvez, até mesmo, ela estivesse certa. Talvez Emily ainda estivesse traumatizada e estava fazendo tempestade num copo d’água. — Você está certa. Eu vou deixar pra lá, Jor. Obrigada.

A outra sorriu em sua direção, mostrando contentamento. Havia conseguido tirar Emily daquela paranoia. Ela realmente achava que havia sido uma pegadinha, e nada a faria mudar de opinião até que os corpos começassem a cair. Mal sabia Jordana que, na verdade, isso já havia começado a acontecer.

 

 

A manhã acordou tão alegre que o casal decidiu ir andando até a galeria. Sam caminhava calmamente de mãos dadas com Lincoln, observando com atenção o interior das lojinhas que passavam do lado direito, cumprimentando os comerciantes e sorrindo para os pedestres com gentileza. Vivendo naquele meio, conhecia a todos. Ela sempre fora alguém muito bem-humorada e feliz com a vida. Não se lembrava da última vez que havia sido verdadeiramente rude com alguém. De fato, tais situações só ocorriam quando Sam se via forçada a ser brava, e aí sim, era quando o outro lado da loira ficava em evidência.

E foi realmente por esse tipo de temperamento que Lincoln se apaixonou, logo após ele derrubar uma bandeja com bebidas em cima dela enquanto ainda trabalhava como garçom, na juventude. A forma como aquela moça loira lhe xingou por mais de cinco minutos, e então se desculpou intensamente ao procurá-lo e ir até o estoque dos fundos, o fez perceber que Samantha tinha algo de especial em si.

Do lado esquerdo, nada diferente da loira, o negro caminhava com um sorriso no rosto, apertando a mão da noiva com a mesma força mantida no amor da relação dos dois. O humor dele era como o dela, alegre e sorridente na maior parte do tempo, querendo sempre o bem para todos, talvez até com mais paciência do que ela.

— O que acha que aconteceu com a Emily ontem? — perguntou Lincoln, sem tirar os olhos da rua, apreciando a vista que tinha dos carros passando.

— Hum? — perdida em pensamentos, Sam se virou para ele, encarando-o de perfil.

— Perguntei o que acha que aconteceu com a Emily noite passada.

— Ah… — Sam pensou por um instante, voltando a atenção para a calçada. — Não sei, na verdade. Ela disse que tinha alguém atrás dela.

— Pois é… Isso pode ser perigoso.

Sam suspirou, ficando séria de repente.

— Acha que tem alguém atrás dela? Tipo, de verdade mesmo? — Ela se virou para o rapaz, dessa vez encarando-o. Desviaram os olhos. — Digo, já aconteceu uma vez e… é estranho que três pessoas tenham sido mortas um dia antes delas aparecerem.

— Tá dizendo que tem um novo assassino indo atrás dela? — Lincoln sorriu de lado, não dando muita atenção para o que ela dizia.

— É possível, não é? Sempre acontece nos filmes…

O careca riu, trazendo-a mais para perto e dando-lhe um selinho rápido.

— Não pensa nisso, tá? Nada disso vai acontecer, Sam.

Ela concordou com a cabeça, ainda não convencida. Foi uma grande surpresa ver a sobrevivente na frente de sua casa, em estado de pânico. Não tiveram muito tempo para conversar e nem sabiam o que aconteceu quando ela voltou para casa, mas a curiosidade consumia o casal. Adorariam saber de tudo.

Voltando a olhar para as vitrines quando o assunto pareceu ter sido encerrado, Sam tornou a levar a cara de paisagem no rosto e, por um instante, pensou ter visto errado quando encontrou algo um pouco surpreendente no reflexo da vitrine de uma das lojas. Mas então, se viu certa. Era Emily, andando na calçada do outro lado da rua.

Surpresa, viu que o noivo não havia reparado, e cutucou-o com o indicador da mão livre, dizendo ao olhar para Emily, que seguia na direção oposta dos dois:

— Ei, amor… é a Emily.

— Onde? — Ele dançou com os olhos, procurando.

— Ali, do outro lado.

Finalmente, Lincoln encontrou-a. Os dois pararam sem sequer perceberem, encarando a sobrevivente, ainda de mãos dadas.

— Vamos até lá? — perguntou o rapaz.

— Acho melhor, né? Perguntar como ela está…

— Tudo bem.

Então, olharam de um lado para o outro da rua, certificando-se de que não seriam atropelados por nenhum carro, e cruzaram-na rapidamente, ligados pelos dedos entrelaçados. Os cabelos loiros de Sam esvoaçavam ao vento fraco da manhã, enquanto Lincoln sentia a careca gelar com o mesmo, não se importando muito pelo fato de estar calor. Então, acabaram chegando na calçada, ficando a apenas um metro atrás de Emily, que ainda não havia percebido a presença do casal.

— Emily — disse Sam, chamando a atenção da outra. Emily virou-se ao ouvir seu nome, curiosa, e parou em frente a eles. — Oi…

— Oi, Sam… Lincoln… — cumprimentou a sobrevivente, um tanto surpresa.

— Oi, Emily — cumprimentou o homem.

— Nós ficamos preocupados na noite passada — tornou a moça. — Você tá bem?

Emily abanou as mãos, sinalizando que não deviam se preocupar com aquilo, e riu de lado, sentindo-se levemente envergonhada.

— Sim, tá tudo bem. Não precisam se preocupar.

— Mas você disse que tinha alguém te perseguindo… — lembrou Lincoln, sério.

— Devia ser só algum idiota… — A morena também havia ficado séria agora. — Eu não vi direito quem era. Talvez nem estivesse atrás de mim e eu só me precipitei. E eu quero agradecer a vocês e me desculpar pelo imprevisto.

Sam parecia desconcertada, não entendendo a leveza na voz e no assunto retratado por Emily. Lembrava-se da forma desesperada como a garota apareceu no meio da rua, como estava desorientada e aterrorizada. Aquilo pareceu ser real demais para a loira, e ela percebeu na hora que a garota, por algum motivo, estava mentindo.

— Imagine… — continuou Lincoln, ainda sem ter chegado nas mesas conclusões que sua noiva. — Você não precisa se desculpar por nada, Emily. Ficamos felizes em ajudar.

— É claro… Exatamente — concordou Sam, demonstrando a desconfiança na voz, o cenho franzido. Emily pareceu notar aquilo, ficando levemente acanhada sob o olhar da mulher, temendo ser acertada por novos questionamentos.

No momento de silêncio que predominou, o vento soprou mais forte, deixando o lugar um pouco mais refrescante. As pessoas iam e vinham ao redor, sob o céu matinal. Emily estava com um pouco de pressa, havia marcado de fazer uma coisa dali dez minutos, e achava que poderia não chegar a tempo. Por isso, procurava em sua mente alguma forma educada de se despedir, sem ser grossa ou dar uma cortada violenta no casal. Mais do que isso, uma forma de sair sem deixar que a desconfiança de Sam, da qual já havia reparado, crescesse mais.

Contudo, antes que pudesse se manifestar, como em um estalo, a loira exaltou-se, arqueando as sobrancelhas e se desfazendo da face curiosa. Ela abriu os lábios e disse, olhando rapidamente para Lincoln:

— Quase me esqueci! Vá até a nossa casa hoje à noite. — Lincoln pareceu entender do que ela falava e se alegrou em conjunto. — Nós vamos fazer um pequeno encontro de amigos e conhecidos para comemorar a abertura da nossa Galeria.

— Isso — disse o outro. — Leve a Jordana, nós adoraríamos conhecê-la.

Emily também ficou mais aliviada, sorrindo em resposta. Não imaginava que a galeria havia acabado de ser inaugurada, e pensou a quanto tempo eles estavam na cidade.

— Achei que vocês moravam aqui fazia tempo… — disse, rindo.

— Ah, a gente mora — respondeu Lincoln. — Só que a Galeria é recente.

— Hm, claro. Mas com certeza. Nós vamos sim. — Emily começou a sair dali, dando as costas. — Nos vemos a noite, então. Tchau, tchau.

Os dois acenaram juntos, vendo a garota se distanciar com um sorriso no rosto.

 

 

Para sua sorte, o calor do exterior foi expelido de si quando entrou no lugar. Havia uma sala de espera à esquerda, no canto. Duas poltronas e uma mesinha de centro com revistas em cima estavam ali em grande conforto. Do outro lado, uma jukebox brilhante e uma pequena escrivaninha com discos de vinil localizavam-se encostadas na parede, ao lado da grande e única vidraça do estabelecimento. Mais à frente, também à direita, um balcão acomodava-se como secretaria, junto de um computador. O lado paralelo a esse tinha algumas plantas em vasos altos. A música espalhava-se pelo ar, ressoando pelo ambiente, junto do som do ar-condicionado sobre a porta. A luz solar da vidraça acompanhava a das lâmpadas no teto. Era agradável.

Trazendo a bolsa para mais acima dos ombros, Emily ficou parada diante da porta, olhando ao redor, sem saber para onde ir, até reparar nas presenças no ambiente. Dois homens estavam encostados na bancada, cada um de um lado dela, conversando animadamente. Um deles parecia ter um rosto conhecido para Emily, que foi até eles, procurando por um atendimento.

— Oi — cumprimentou o rapaz que estava do lado de dentro do balcão ao notar sua presença, sorrindo para ela de forma convidativa e empolgada, fazendo seu papel de bom funcionário. — Bem-vinda. Você deve ser a Emily, certo?

O homem que estava do lado de fora do balcão ergueu as sobrancelhas ao encarar a sobrevivente, tendo um estalo ao reconhecê-la.

— Eu sou o Garrett — continuou o rapaz de dentro da bancada assim que Emily concordou com a cabeça. Ele tinha sobrancelhas grossas e cabelos encaracolados e negros, um corpo que não chegava a ser magro, mas também não era atlético. Mantinha a forma, podia-se dizer. — Você marcou hora, não é?

Para ajudar ainda mais em seu recomeço, com uma ideia que já vinha lhe preenchendo a mente desde que decidiram voltar para Oakfield, Emily havia percebido que devia mudar mais. Mudar fisicamente. Por isso, não encontrou nada melhor do que marcar o corpo com uma tatuagem.

— Sim, marquei — respondeu.

— Nós nos vimos ontem, não? — perguntou o outro rapaz, cortando a conversa repentinamente, apoiado no balcão.

Emily olhou para ele e sorriu, inclinando a cabeça.

— Acho que sim, na verdade — disse. — Você é o Peter, né?

— É, sou eu mesmo. — Peter sorriu.

— Então vocês já se conhecem? — tornou Garrett, levantando os olhos da agenda no balcão logo após conferir os horários marcados.

Emily e Peter se encararam, rindo. Peter mantinha-se um pouco envergonhado, provavelmente por ter que explicar o motivo da aproximação de ambos no dia anterior.

— É… A Megan trombou com ela e eu ajudei — disse, por fim. Garrett riu alto, achando extrema graça daquilo. Emily não entendeu o motivo. — Cala a boca… — sussurrou Peter sem que Emily ouvisse, apenas para que o amigo escutasse.

— Garanto que ela também te xingou — continuou Garrett, o tatuador.

— Pois é… — a confirmação de Emily fez o rapaz rir ainda mais. — O que tem de tão engraçado…? — perguntou, desentendida.

Peter foi quem respondeu, antes mesmo que Garrett tivesse a chance para tal. Eles pareciam bem íntimos, como se fossem amigos de longa data.

— Meu amigo aqui acha engraçado o fato dela ser rude às vezes.

— Não — discordou Garrett, dando a volta no balcão. — Eu acho engraçado o fato do Peter ser o escravo pessoal dela. — Peter mostrou-se ainda mais envergonhado, desviando o olhar. — A má-educação da Megan não é um dos fatores.

— Ela não é mal-educada… — tentou o estagiário de Advocacia.

— É sim. Você que é cego.

Quando saiu por completo de trás do balcão, Garrett se pôs ao lado de Emily, que estava levemente avulsa no assunto, achando graça. Ele sorriu e deu as costas ao amigo, deixando claro que o assunto acabaria ali.

— Tá pronta? — perguntou.

— Sim, eu tô.

— Já tem uma ideia do que quer?

Emily pensou um pouco. Já tinha sim uma ideia do que queria. Seria algo simbólico para ela. E um pouco temerosa por nunca ter se aventurado em algo como aquilo, ela concordou com a cabeça.

 

 

Sentando-se na maca almofadada, Emily encarou com ansiosidade a tatuagem pronta. Virou o braço de forma que conseguisse vê-la melhor, sendo que havia feito-a logo abaixo do ombro. Era colorida e com traços delicados. Um coração vermelho e sombreado de preto era apunhalado por uma adaga brilhante de metal e cabo negro, como as japonesas. A lâmina passava diretamente pelo coração, sem sangue algum, representando tudo o que a sobrevivente já havia vivido. Foi atacada, perseguida e posta em perigo mais vezes do que poderia contar, mas se recuperou. Estava perfeito.

— Ficou boa? — perguntou Garrett, empolgado para a resposta, afastando-se com a cadeira de rodinhas e indo até uma prateleira metálica, pronto para pegar o papel filme para enrolar ao redor da tatuagem.

— Incrível — respondeu Emily, sorrindo.

A sala em que estavam era pequena e fechada. Uma única maca e duas prateleiras a ocupavam, apenas. A porta mantinha-se aberta.

Emily reparou na forma como Garrett encarava a figura em seu braço, parecendo um pouco perdido pelo sentimento guardado nela.

— Pode parecer um pouco mórbido, triste ou não tão emocional… mas para mim é bonito — explicou, ficando séria, e Garrett fez o mesmo do outro lado da sala, pegando um rolo do plástico filme e voltando com a cadeira até ela, entendo o motivo. — Vai me fazer lembrar de tudo o que passei. Mais do que isso, de como superei tudo aquilo.

Percebendo que havia esboçado demais o que pensava sobre o assunto — que era algo realmente meio mórbido para alguém que sobreviveu a tal situação no passado —, Garrett sorriu da forma mais convincente que conseguiu, não deixando de pensar que era um desenho ousado de se fazer. Era apto naquilo, na verdade. Havia perdido as contas de quantas coisas malucas as pessoas já haviam lhe pedido para tatuar em seus corpos.

— Eu entendo o que você tá querendo dizer, Emily — disse, pegando o braço dela delicadamente e começando a enrolar o plástico transparente. — Achei ela bem bonita, para falar a verdade. Ótima escolha. Tem um significado lindo.

— Obrigada… — respondeu, sem jeito.

Após terminar de proteger o braço de Emily, a garota saiu da maca e ficou em pé. Garrett guardou suas coisas e, juntos, os dois voltaram para a frente da loja, onde Peter continuava esperando, sentado numa das poltronas. O rapaz tinha o dia inteiro livre e, como não havia nenhuma outra coisa para se fazer em sua folga, decidiu ir encher o saco do amigo. Era uma das coisas que mais gostava de fazer.

Vendo a dupla atravessando o corredor que dava acesso às salas da tatuadora, se levantou da poltrona, indo até o balcão para acompanhá-los.

— Agradou ela? — perguntou para Garrett. — É uma dama, Garrett.

— Fiz o meu melhor — respondeu o outro, seguindo para dentro do balcão.

— Ele foi ótimo — disse Emily, sorrindo. — A tatuagem ficou ótima.

Peter observou o desenho no braço dela, nu pela manga curta da camisa.

— Muito bonita, Emily — comentou.

— Obrigada.

A ida de Emily foi rápida: ela pagou, Garrett lhe deu uma pomada para passar na tatuagem todas as noites, e então a menina saiu pela porta, despedindo-se e deixando-os sozinhos novamente na tatuadora gelada pelo feito do ar-condicionado.

Vendo sua mais nova cliente saindo, Garrett tornou a falar:

— Vocês se conheceram daquele jeito mesmo?

Peter suspirou fundo, prevendo as novas advertências vindas do tatuador.

— Sim — respondeu. — E sim, a Megan foi um pouco rude com ela e eu ajudei a Emily a se levantar depois de quase cair.

Garrett riu.

— Eu ainda não acredito que você trabalha pra ela… — resmungou ele. — É ridículo o jeito que ela te trata.

— Não fala assim! — exaltou-se Peter, olhando para Garrett com um olhar reprovador. — Ela só é sobrecarregada. A Megan é muito gente boa quando tá fora do trabalho, Garrett. O problema é que você só lembra dela quando ela tá me xingando e me dando ordens… E é sempre nesses momentos que vocês se encontram.

— Exatamente, e você continua seguindo ela pra onde ela vai.

Peter abaixou a cabeça. Não concordava com que o amigo dizia. Era estagiário e assistente de Megan havia dois anos. A advogada sempre fora um pouco fria e ríspida, mas esse fato nunca incomodou o rapaz, que já estava preparado para tais coisas antes mesmo de começar a trabalhar com ela. Ou melhor, para ela.

O problema era que Peter era cegado pelo sentimento nada recíproco existente entre os dois. Ele não tinha culpa de ter pego uma chefe tão linda — aos olhos dele, pelo menos. Os cabelos castanhos e os grandes olhos negros de Megan o levavam a loucura, e toda vez que aqueles lábios vermelhos se abriam para falar, era como fogos de artifício explodindo dentro de seu peito num turbilhão de sentimentos.

E mesmo que sentisse tudo aquilo, não teria chance ao discutir com Garrett, que sempre fora muito orgulhoso e dono de um ego enorme que sempre o fazia achar ter a razão de tudo. Essa discussão dos dois, que se conheciam antes mesmo de conhecerem Megan e por isso poderiam se considerar o melhor amigo um do outro, começou na primeira semana de trabalho de Peter, e perdurou até os dias atuais. Garrett considerava muito Peter, e mesmo que tratasse do assunto de uma forma nada séria, com risos e deboches, doía para ele ver o rapaz ser tratado como lixo por aquela que, para ele, era o lixão todo.

— Você devia tomar alguma atitude, Peter — continuava o tatuador. — Eu sei que você precisa desse trabalho e é o que te mantém, mas essa situação é inaceitável. Devia falar com algum superior dela e reclamar.

— Garrett, você não entende as pessoas daquele lugar. — Peter levantou os olhos e encarou o amigo. — Eles trabalham como um só. Se eu, um mero estagiário, chegar reclamando e apontando dedos pra uma das melhores advogadas do prédio, é bem capaz que eu seja demitido.

— E daí?! Seja demitido! Encontre um trabalho melhor! — Garrett engoliu em seco. — É sério, cara. É muito ruim te ver sendo tratado desse jeito… Faça alguma coisa.

Peter não respondeu, apenas encarou o chão, levemente envergonhado.

— Mas vamos falar de outra coisa — tornou Garrett. — A Emily é bem diferente do que eu esperava, pra falar a verdade.

Peter levantou os olhos.

— Por quê? Como esperava que ela fosse?

— Ah, sei lá… Imaginei que seria toda emburrada, séria… — Apoiou-se no balcão e encarou a rua pela vitrine. — Mas ela é legal, divertida.

— É, concordo. — Tentou se livrar da pequena discussão sobre Megan, e continuou: — Mas parece que ela não sabe do que aconteceu, né?

Garrett deu de ombros, sério. Os assassinatos em Springwood Diner ainda pareciam impossíveis demais de ter realmente acontecido.

— Uhum. Tava mais calma do que deveria caso soubesse.

— Cara, isso é horrível… — Peter tremeu-se todo.

— Mas acha que isso é uma coisa boa ou ruim? Ela não saber das mortes, digo — questionou Garrett.

Pensando por um instante, Peter soltou:

— Não sei. É bom que ela não tenha nada pra se preocupar e… reativar as lembranças dela, sabe. O passado dela é bem… conturbado.

— Realmente — concordou o tatuador. — O bom é que parece que ela superou.

— Percebi também. Duvido que eu também teria superado. — Peter franziu o cenho, incomodado com o assunto. — Tudo o que aconteceu aqui é extremamente fodido.

— Nem me fale.

Ficaram em silêncio, quase como se velassem por Oakfield.

 

 

O café da manhã havia sido um horror. O clima pesado perdurou sob as sobreviventes, e agora, como uma forma de reconciliação indireta — da qual nenhuma das duas deu a ideia, apenas aconteceu —, haviam se juntado após a sessão de Emily na tatuadora e ido até um bar que ouviram falar ser uns dos melhores da nova Oakfield.

Chamava-se Green Light, e a frente era toda tomada pela cor verde, com paredes nessa tonalidade e um grande outdoor neon e chamativo. O interior era todo feito de madeira, no estilo vintage. Uma música tocava no rádio dentro do balcão, as pessoas conversavam e bebiam nas mesas redondas. Alguns baristas passavam carregando bandejas com bebidas e outros continuavam atrás da bancada, atendendo os clientes.

Passando pela porta, Jordana e Emily pararam lado a lado, olhando ao redor.

— É bonito — comentou a albina, maravilhada.

— É mesmo — concordou Emily.

— Sua tatuagem também, esqueci de comentar — tornou Jordana, pela surpresa da morena, encarando a amiga com um sorriso no rosto.

— Obrigada, Jor — agradeceu. — Espero não me arrepender.

— Imagina, vai nada. Agora vamos em frente porque eu tô morrendo de fome.

Rindo pelo comentário da amiga, Emily foi na frente, e logo de imediato reparou na dupla que estava no balcão mais adiante. Um garoto negro e fardado, um policial, estava sentado num dos bancos altos, as mãos em cima da bancada. O interessante era que ele não bebia nada, provavelmente por estar em horário de serviço, apenas conversava com uma menina, que estava do lado de dentro do balcão. Ela provavelmente era uma das baristas, com uma face entristecida. A menina, no entanto, era idêntica ao rapaz.

Os dois tinham a mesma pele negra e brilhante e os cabelos escuros. Na moça, os fios estavam em uma trança no topo cabeça, e nele, simplesmente espetados. Os lábios carnudos eram iguais, assim como as narinas e os olhos. A garota, contudo, tinha-os verdes, e o policial castanhos. Nem mesmo a pinta do tamanho de um polegar no pescoço da dupla passou batida por Emily. Estava no exato mesmo lugar, e tinha a exata mesma forma.

Não deu muita bola, não reparou. Apenas seguiu até o balcão em busca de uma bebida, com Jordana ao seu encalço. Acabaram sentando a um banco de distância do rapaz fardado. Um barista aproximou-se alegremente e marcou o pedido das duas, saindo para fazê-lo. Conseguiam ver o que acontecia atrás de si por conta de um grande espelho que tomava metade da parede à frente, atrás de uma imensa estante que ia de ponta a ponta, coberta por bebidas e garrafas multicoloridas.

— Você percebeu como esses dois do nosso lado são parecidos? — perguntou Jordana ao ouvido da morena, puxando assunto.

Emily, um pouco avoada, virou a cabeça para ela, respondendo:

— Sim… Logo que entramos.

— Acha que são irmãos?

— Talvez até gêmeos…

As duas voltaram a se silenciar, e por algum motivo Emily desviou a atenção para a conversa que se desenrolava entre a dupla ao lado. O rapaz, percebeu ela naquele momento, tinha expressão cansada, a voz arrastada e os ombros retraídos. A menina parecia sentir pena dele, encarando-o com ternura enquanto enxugava alguns copos. Nenhum deles percebia que a sobrevivente dava uma de enxerida no papo alheio.

— Eu tô cansado… — dizia o homem, suspirando fundo. — Não sei o que fazer.

A negra colocou o último copo do escorredor, encarando o garoto fardado com as mãos apoiadas no balcão.

— Você não deve se preocupar com isso, Kai. — Então o nome dele é Kai, pensou Emily. — Era só alguém com raiva ou coisa assim… Querendo vingança… Sei lá… Você já lidou com casos iguais esse, não lidou?

Pela primeira vez, Kai Conway levantou os olhos e encarou sua irmã, Zoe. Logo ao lado, discretamente, Emily esticou o indicador e cutucou a lateral do corpo de Jordana, que não estava prestando atenção. A albina de um pequeno pulo, encarando-a.

— Escuta o que eles tão dizendo — avisou Emily, estranhamente curiosa com o que se desenrolaria entre os dois.

Jordana assim o fez, de forma discreta, encarando o balcão junto da amiga, com os ouvidos atentos nas palavras saídas das bocas dos negros.

— Zoe, isso não é como antes — continuou Kai. — Eu sinto isso… — Ele engoliu em seco, balançando a cabeça. — Encontrar três pessoas assassinadas não é uma coisa comum pra uma cidade como Oakfield. Especialmente Oakfield.

A informação fez o coração de Emily sofrer as sequelas de um soco, aumentando o palpitar. Sentiu a face gelar. Jordana também prestava atenção, levemente nervosa.

— Eu tô assustado… A coisa foi feia — disse Kai.

— Muito feia? — perguntou Zoe com calma, tentando ganhar tempo para formular uma boa resposta capaz de acalmar o irmão.

— Nunca vi tanta violência na vida.

— E já acharam o culpado?

Novamente, Kai pareceu se afundar em mais temor.

— Não — respondeu. — Ele usava um tipo de máscara… — Emily esperava por uma descrição mais detalhada. O fato dos três corpos pareceu acender nela uma faísca que trouxe de volta a memória da noite passada e ligou as duas coisas. Jordana não se movia, encarando a amiga por curtos segundos. — Uma máscara… Como posso dizer…? — Kai pensou com profundidade sob o olhar de Zoe, tentando encontrar um exemplo. — Era como a de um carrasco medieval, sabe?

Zoe apenas concordou com a cabeça, não vendo a situação como as duas garotas logo ao lado. Emily encarou Jordana com uma mistura de fúria e medo, comprovando que a ligação e a perseguição não foram nada além de reais. Penetrou seus olhos na albina com tanta intensidade, anestesiada pelos sentimentos, que não percebia o olhar de loucura que lhe banhava a face. Era como se Emily estivesse entrando em pânico, próxima de uma crise.

Jordana não se segurou. Precisava de respostas imediatamente. Para ela, conclusões precipitadas levavam a lugar algum. Por isso, estendeu-se sobre a amiga e esticou um dos braços, tocando de leve o ombro de Kai, que de súbito se virou para as duas, enquanto Zoe ainda concordava com o último comentário vindo dele.

— Desculpa me intrometer, mas… — disse a sobrevivente, um tanto tímida por se intrometer. — Você disse algo sobre três corpos?

Kai encarou sua outra metade atrás do balcão, mas aquiesceu, virando o rosto para as duas. Zoe fez o mesmo, curiosa.

— Pois é… — disse ele, colocando o empoderamento e a segurança que um policial deveria dar na voz e deixando o homem cansado de lado. — Encontramos três corpos ontem de manhã na lanchonete Springwood Diner. Ainda não sabemos quem é o culpado. Mas não há nada com que vocês devam se preocupar.

As sobreviventes continuaram paradas, quase estáticas se não fosse pelo subir e descer dos ombros ao respirarem. Parecia irreal para ambas. A voracidade da perseguição ficou mais clara para Emily. Ela tinha certeza de que era alguém com más intenções. Isso fez um arrepio percorrer o corpo dela. Estava correndo perigo novamente.

Já Jordana, que não havia acreditado em nenhuma palavra da amiga pela manhã, tinha em mente que, ainda assim, poderia se tratar de alguma coincidência. Algum adolescente imaturo que soube das mortes, da volta das sobreviventes e decidiu fazer aquilo com Emily. Não queria acreditar que uma nova bomba estava prestes a explodir.

Mas algo que não se podia negar, era o timing perfeito do incidente: apenas um dia antes de chegarem à Oakfield.

O que não viam, no entanto, ainda absorvendo a informação e tentando formular um pensamento claro sobre aquilo, era a garota Conway, que ao fazer uma análise detalhada nas duas, reconheceu-as. Zoe estalou os olhos e abaixou-se discretamente na direção do irmão, sussurrando rapidamente no ouvido dele:

— São elas, Kai.

Parecendo não ter se tocado de quem era a dupla de garotas à frente, Kai também estalou os olhos e encarou-a por alguns segundos. Em seguida, vurou-se para Emily e Jordana com uma expressão diferente. Por algum motivo, parecia culpado, percebendo como tal informação, provavelmente, mexeria com o psicológico das duas. E tentando buscar um ponto de fuga para se reconciliar de alguma forma, disse:

— Meu nome é Kai, por sinal. E essa aqui é a minha irmã gêmea, Zoe. — Apontou para o lado, onde Zoe sorria convidativamente e acenava com uma das mãos.

O retorno da voz do policial fez as sobreviventes voltarem à realidade. Elas engoliram em seco e, em conjunto, estenderam os braços para a dupla de irmãos. Os quatro se cumprimentaram, um pouco tensos, apertando a mão um do outro.

— Eu sou a Jordana — disse a albina. — Essa é a Emily.

Podendo perceber que eles já haviam lhes reconhecido, tentaram não dar bola e foram gentis mesmo assim. Os Conway fingiram que não sabiam de nada.

Começando a ficar corroída pela curiosidade, e não se sustentando apenas com o que lhe foi dito, Emily tornou a perguntar da forma mais inocente que conseguiu:

— Você pode nos contar mais detalhes do que aconteceu?

Kai pensou por um instante, temeroso.

— Bom, não posso dizer muita coisa pra não quebrar nenhuma lei — disse o policial. — Mas foram três corpos. Uma mulher adulta e um casal de adolescentes. Assassinados.

— Sabe qual foi a arma do crime? — perguntou Emily.

— Isso é informação confidencial.

— Falou algo sobre uma máscara de carrasco, certo? — intrometeu-se Jordana.

Concordando com a cabeça, Kai respondeu:

— Isso mesmo. Era a mesma de… Bem, vocês sabem.

Emily olhou para a Jordana por um instante, então virou-se de volta para o rapaz.

— Mas vocês têm certeza de que era a mesma máscara? O mesmo disfarce?

— Absoluta. — Kai respirou fundo. — Segundo as imagens das câmeras de segurança da lanchonete, era o mesmo traje.

— Mas pode ser apenas isso, certo? — perguntou Zoe, entrando na conversa.

— É claro — concordou o negro. — Alguém pode ter se aproveitado do passado da cidade e decidido cometer o crime. Só isso.

— Eu não acho — soltou Emily.

O policial franziu o cenho.

— Por quê?

Engolindo em seco, a sobrevivente percebeu que não deveria ter falado aquilo.

— Nada… Eu só… — Deu de ombros, balançando a cabeça. — Eu ainda não superei tudo aquilo. Me desculpe.

— Sem problemas. — Kai sorriu de canto. — E como disse, não devem se preocupar. Nós ainda não sabemos a origem do crime, nem a motivação. Mas o culpado será pego logo, logo. Tentem pensar em outra coisa.

— Não é como se fosse possível — comentou Jordana, um pouco grosseira e cansada. — Nós… vivenciamos tudo aquilo, e agora voltamos e somos surpreendidas por esse tipo de coisa… — Segurou o choro, mas não demonstrou. — Como não ficamos sabendo disso?

— Estamos tentando abafar o caso ao máximo — respondeu Kai.

— Pra quê?

— Pra não chamar muita atenção pública. Algumas vans de reportagem já tão circulando a cidade, e com o passado que temos, não precisamos de toda essa atenção.

Jordana respirou fundo.

— Eu preciso tomar um ar — disse.

Sem que alguém pudesse interceder, Jordana virou as pernas e desceu do banco alto. Emily tentou pará-la, mas apenas gaguejou e, quando viu, a albina já seguia até a porta do bar a passos rápidos, obviamente não querendo ser acompanhada. Quando ela sumiu para o lado de fora, a sobrevivente respirou fundo, amedrontada.

— Ela teve a reação mais natural possível — comentou Zoe, olhando para a porta. — Não se preocupe. Ela vai ficar bem.

— Espero que sim… — Passando a mão pela testa, Emily já conseguia sentir uma dor de cabeça chegando.

— Novamente, tente não se preocupar — disse Kai.

Encarando a irmã, o policial mandou-lhe um sinal com os olhos e ela logo captou. Então, tentando mudar de assunto, Zoe sorriu o mais convincentemente possível e perguntou com uma alegria que era impossível de existir naquela situação:

— Essa sua tatuagem é nova?

 

 

O vento gelado realmente lhe fez bem. Jordana sentia todo o calor do corpo saindo, acertada por aquela brisa maravilhosa. O bom de Oakfield era que, no verão, não importava quantos graus fazia, sempre havia um vento aliviante atravessando o ar.

Do lado de fora do bar, a parede formava uma sombra sobre a sobrevivente, protegendo-a do sol escaldante. De olhos fechados, Jordana tentava relaxar e tirar aqueles pensamentos da cabeça. Odiava voltar àquele assunto, e começava a se arrepender de ter voltado para lá. Sabia que Emily não estava bem, os sinais eram explícitos desde o Michigan, mas, mesmo assim, a apoiou na ideia de retornar para a cidadezinha. Agora, via que deveria ter negado. Seria melhor para as duas.

De qualquer jeito, a notícia das mortes não lhe deixava em paz. Saber que pessoas foram assassinadas apenas um dia antes de irem até Oakfield a deixava temerosa. Não seria possível que tudo aquilo começasse a acontecer de novo. Mas também havia o relato de Emily, de como foi perseguida e, provavelmente, quase morta. Mesmo assim, se negava àquilo. Jordana gostaria de relaxar, recomeçar. Aliás, foi por esse motivo que voltou para lá. O único problema era que a albina não percebia que, novamente, os sinais eram explícitos e ela se cegava a eles para seu próprio bem — ou não.

Abriu os olhos e olhou ao redor. A rua estava vazia. Apenas um carro passava pelo asfalto logo à frente. O bar, no entanto, mantinha-se bastante cheio para uma quarta-feira. Carros de diferentes modelos estavam estacionados no meio-fio.

— Isso não é nada… — disse para si mesma. — Relaxa…

Jordana desviou o olhar para a direita, onde encontrou um objeto sobre o chão. Era uma espécie de caixa metálica vermelha, erguida do asfalto por uma haste metálica. Numa das laterais da caixa, havia uma portinha com janela que mostrava o interior. Mais especificamente, os diversos jornais que haviam ali. Era um ponto de venda de jornais, onde os pedestres poderiam simplesmente colocar uma moeda na abertura superior e conseguir acesso para a portinha mecanicamente trancada, abrindo-a e pegando um dos jornais.

Mas o que chamou a atenção de Jordana não foi a caixa metálica ou a tinta vermelha que já começava a descascar. A albina aproximou-se com passos tensos e calculados do objeto porque, ali pela janelinha, conseguia ter uma visão da manchete do jornal. “SOBREVIVENTES DO CARRASCO RETORNAM PARA A CIDADE” estava escrito em letras grandes na primeira página, junto de uma imagem dela mesma e Emily pega de sua rede social no verão passado, uma bela selfie que tiraram e postaram.

Nunca se sentiu tão explorada. Jordana franziu o cenho diante da caixinha, apenas encarando o jornal ali dentro, querendo socar o objeto e quebrá-lo ao meio. Mas não fez nada disso. Apenas reprimiu tudo o que sentia e se conteve. Não ajudaria em nada caso tivesse um surto no meio da rua. Qualquer um poderia ver. E também, era somente o estresse que tinha acabado de passar agindo. Passaria logo.

Levou um susto quando uma voz surgiu por trás, dizendo:

— Sinto muito por isso.

Virou-se de imediato, encarando o rapaz loiro que estava encostado na parede do bar sabe-se lá por quanto tempo. Era Tommy, levando um sorriso no rosto.

— Não é nada — disse Jordana, recuperando a pose.

— Tá tudo bem com você? — perguntou Tommy, desencostando-se da parede.

— Eu tô ótima. Obrigada. — Engoliu em seco, arrumando os cabelos brancos bagunçados pelo vento.

A expressão que Tommy fez revelou que ele não acreditou naquilo.

— A quanto tempo tá parado aí? — perguntou Jordana, um pouco assustada por não tê-lo notado antes.

— A tempo o bastante — respondeu o loiro, aproximando-se.

Jordana franziu o cenho.

— Novamente, sinto muito — repetiu Tommy. — Fui eu que… fiz essa manchete.

Abrindo a boca e expressando sua surpresa, a sobrevivente virou o rosto e encarou o porta-jornais mais uma vez. Fingiu não estar com raiva.

— Achei meio intrusivo — disse ela, sincera, mas gentil.

— É o meu trabalho. — Tommy sorriu. — É o que alguns jornalistas pensam: quanto mais polêmico, melhor.

— Esses jornalistas são bem babacas, então.

Calou-se e abaixou a cabeça, arrependendo-se de ter dito aquilo. Mas Tommy não pareceu levar a sério, continuando a sorrir, parado a alguns metros com as mãos nos bolsos.

— Não foi a minha intenção te ofender — disse ele.

— Não sabia que éramos motivo de primeira página.

— Qual é, vocês são heroínas aqui.

Jordana riu debochadamente.

— Ah, fala sério.

— Acredita em mim. — Tommy mostrou empolgação. — Todos te adoram.

— É, eu posso provar que não.

— Certo, nem todo mundo. Mas eu sim. Acho vocês duas mulheres muito valentes, fortes e que merecem todo o reconhecimento.

Revirando os olhos, a albina soltou:

— Bom, eu não gosto de… todo o reconhecimento. Estar na manchete de um jornal não é legal. Principalmente por esse motivo.

— Vou pedir sua permissão da próxima vez.

— Próxima vez?

Tommy arqueou uma sobrancelha.

— O que eu teria de fazer pra você me conceder uma entrevista?

— Há! — Jordana sorriu, olhando ao redor. — Sem chance. Eu não dou entrevistas.

— Nem se eu te pagasse?

— Tenho dinheiro o suficiente.

Bufando, um pouco decepcionado, Tommy continuou:

— Seria ótimo pra minha carreira, Jordana.

— Desculpa, quem é você mesmo? — questionou ela, se dando conta de que não sabia quem era o rapaz loiro.

— Tommy Howard. — Ele lhe estendeu a mão. — Sou jornalista, trabalho no O Boletim de Oakfield, lá no centro.

Jordana teve um estalo enquanto o cumprimentava.

— Por acaso você tem um namorado chamado Logan? — perguntou.

— Como sabe disso? — Tommy franziu o cenho, estranhando.

— A Emily me contou. Tem uma April também, não é?

— É, mas… Essa não é a questão. — Tommy aproximou-se mais, lançando-lhe um sorriso. — Eu só quero sua ajuda, uma única entrevista.

— Não. Muito obrigada.

Sorrindo, Jordana começou a dar as costas, indo em direção à porta de entrada.

— Por favor, eu vim até aqui! — disse Tommy às costas dela.

Jordana virou-se no mesmo instante com um sorriso incrédulo.

— Você tava seguindo a gente?!

O rapaz fechou o rosto, vendo que falou demais.

— Não… — tentou ele. — Jamais. Eu não sou assim.

A sobrevivente deu as costas novamente, e antes de passar pela porta e entrar no bar, ganhou tempo para fazer um último comentário:

— Você é menos legal do que a Emily descreveu, Tommy!

 

 

O dia havia acabado, e uma única casa da rua enchia-se de pessoas, que, bem-vestidas, entravam pela porta da frente aberta e eram recepcionadas por uma mulher esguia e loira. Como o combinado, o jantar na casa de Sam e Lincoln aconteceu, apenas para os amigos mais próximos — com exceção de Emily e Jordana. De qualquer forma, a quantidade de pessoas, vista por eles naquele momento, parecia absurdamente grande. As luzes acesas iluminavam pouco mais de duas dúzias de rostos conhecidos pela casa, metade deles na sala de estar e a outra metade na cozinha. Os carros dos convidados colavam-se nas calçadas de ambos os lados da rua e traziam um ar feliz ao ambiente.

Entre as pessoas na sala de estar, estava Emily, que havia juntado forças e coragem para comparecer ao evento, acompanha de uma alegre e empolgada April. O cômodo era grande, por sorte, e todos tinham espaço o bastante para andar de um lado para o outro sem que ficassem encalhados em algum objeto ou trombassem com um ombro alheio. As paredes eram de madeira, assim como os móveis. As luzes não eram tão fortes, de forma que davam uma ambientação refinada na sala de estar, mesmo que as vozes e risadas fossem mais altas e alegrassem tudo. Também dava-se para ver a porta de entrada aberta, onde Sam continuava a recepcionar os convidados.

Vestindo um vestido azul de mangas longas que cobriam o plástico que envolvia sua tatuagem no braço, Emily olhava de um lado para o outro, tentando se ver livre da estranha conversa que se desenrolava com April. Esta, por sua vez, sempre com um senso de superioridade e beleza, querendo ser o centro das atenções para onde ia, tinha no corpo uma calça boca de sino social e preta, acompanhada de um terninho colado no torso. Os cabelos lisos e castanhos estavam penteados de forma elegante nas laterais da cabeça, e a maquiagem, mesmo que simples, conseguia chamar atenção.

— E você tá fazendo isso a quanto tempo? — perguntou Emily para não ser mal educada e continuar o assunto. April se animou de imediato, estalando os olhos e desviando a atenção do celular por alguns segundos.

— Faz quase dois anos! — respondeu, empolgada, quase gritando. — E, nossa, é um sonho sendo realizado… Estar em cima de um palco, se apresentando pra dezenas de pessoas… — Ela suspirou fundo. — Deve ser ruim pra quem não consegue fazer o que quer, né? — Emily olhava de forma espantada para ela, sentindo certa vergonha alheia das caras e bocas proporcionadas pela companheira. — Por isso eu me sinto muito sortuda por ter conseguido conquistar isso tudo… Pobres coitados… — April riu alto.

— Mal posso imaginar como é…

Do outro lado do cômodo, Emily reparou em Jordana conversando com Lincoln. Ansiava estar lá com eles, em vez de com April. Desde o início da conversa, a artista se vangloriava por ser quem era, deixando claro a forma mesquinha e egoísta de ser, assim como Tommy e Logan haviam dito no dia anterior. O estranho, no entanto, era que, em consideração a todas as pessoas que havia conhecido, April foi a única a tratar Emily de uma forma normal, sem demonstrar que a reconhecia pelo passado.

— Ah, aliás, amanhã é a estreia da minha peça — continuou April, fazendo Emily se virar para ela mais uma vez. — É sobre uma garota que vem de uma família pobre e conquista o mundo depois de adulta. Eu sou a protagonista. — A moça sorriu alegremente. — Você deveria ir, aposto que vai amar.

— Sim, claro… — respondeu, contida, segurando uma taça de champanhe na mão e a bolsinha na outra. — Vou ver se posso ir. Parece ser ótima, por sinal.

— Óbvio que é! Eu que escrevi!

Emily estalou os olhos, surpresa, sentindo uma enorme vontade de dizer para que ela deixasse de ser tão metida. April continuou:

— Vai ser no teatro Stanley Woodel.

— Onde?

— Não me diga que você é jovem demais pra se lembrar do Stanley Woodel, Emily.

Ela cutucou a sobrevivente nas costelas numa intimidade que a sobrevivente não havia concedido, fazendo-a dar um sobressalto maior do que deveria.

— Sou tão velha que tinha me esquecido do Stanley Woodel até você me lembrar.

April riu.

— Quantos anos você tem? Vinte e dois, vinte e três?

— Vinte e quatro.

— Um bebê. Igual eu.

Vá embora, April, pensava Emily, farta da conversa. Ainda tinha lembranças da noite passada, daquela sala de estar e da cozinha ao longe, quando foi recolhida por Sam e Lincoln depois do ataque. Apenas por pensar naquilo, sentiu um calafrio.

Então, por algum motivo, ao olhar ao redor, as duas repararam no novo convidado que entrava na casa. Uma mulher alta e de cabelo chanel, bem-vestida e de nariz empinado. Megan. Viram como a advogada deu um sorriso cínico para Sam, e em seguida entrou na casa, indo para a cozinha sem cumprimentar ninguém, possivelmente atrás de uma bebida com a qual poderia passar a noite ao lado.

— Aquela mulher é fogo… — comentou April quando Megan passou.

Ao olhar para a artista, a sobrevivente percebeu a expressão de repulsa no rosto da garota, como se ela estivesse se lembrando de alguma coisa ruim.

— Por quê? — perguntou, curiosa, querendo explicações de novas pessoas, buscando por outras perspectivas em relação à Megan.

— Não sei, na verdade. Desde que eu conheci a Megan ela é desse jeito. — April virou-se para Emily e ergueu as sobrancelhas. — Ela acha que, por ser uma advogada bem-sucedida, tem o direito de diminuir todo mundo e se achar a dona do pedaço.

Emily concordou com a cabeça. De fato, pelas várias descrições de Megan que já havia ouvido, a mulher não era nenhum anjo. Mas April também não passava longe. As duas tinham basicamente as mesmas personalidades, só que uma era depravada nas palavras e mal percebia quando diminuía os outros, e a outra era mais reservada e séria.

— Ela bota medo, rebaixa os outros… — continuou April, séria. — É falsa com todo mundo… Enfim, uma víbora que você não deve chegar perto.

— Ela já fez alguma coisa que deixou ela com essa fama?

— Não que eu me lembre… Não comigo, pelo menos. — A artista engoliu em seco. — Uma coisa grande, não. Apenas… xinga Deus e o mundo, é rude… Qualidades excêntricas, sabe? — Suspirou fundo. — Mas tem alguns boatos de que algo muito trágico tenha acontecido com ela, porque ninguém sabe do passado da Megan e ela nunca conta pra ninguém. Nem pro Peter. Na minha opinião, ou ela tem uma doença terminal e tá aproveitando o restante da vida da maneira que gosta, ou talvez seja por minha causa. As mulheres não gostam muito de mim. — Deu de ombros.

— Por quê?

— Não sei. Inveja, talvez.

A garota concordou com a cabeça, pensando que deveria manter distância de Megan se quisesse se manter longe de problemas. Peter, por outro lado, parecia ser diferente dela, alguém com quem poderia criar uma amizade. Emily lembrou da conversa na tatuadora e do encontro que tiveram na rua. Realmente, eram bem diferentes um do outro.

— Eu topei com ela outro dia… — comentou Emily. — Foi completamente grosseira.

April, como resposta, bufou com vontade, deixando claro que não estava impressionada com o comportamento de Megan, assim como odiava isso. As duas ficaram em silêncio por alguns segundos, uma ao lado da outra. Olhando ao redor, a sobrevivente também percebia alguns outros conhecidos, como Tommy, a garota asiática, Olivia, da qual Kai havia comentado no bar, que era grande amiga de uma das vítimas do restaurante, e Molly. Além dos anfitriões e Jordana, é claro.

Então, para a surpresa de Emily, April voltou a falar, dessa vez com a voz empolgada e longe de qualquer raiva e desgosto de segundos atrás, tirando de sua enorme bolsa verde amarelada um celular:

— Ei, Emily. Vem aqui. — Virou a cabeça, encarando a indesejada companheira. — Dê um sorriso bem grande.

Quis socá-la naquele instante, com sua falta de consciência, seus ares de garotinha. Engoliu a fúria, tentou reverter, tentou ser gentil, então sorriu roboticamente enquanto April pressionava seu rosto contra a bochecha de Emily e tirava uma foto com o celular.

Ela virou o telefone e as duas viram os rostos espremidos um contra o outro, como se fossem amigas desde sempre. April tinha esticado os lábios para frente em um bico de pato exagerado, cerrando os olhos no que achou ser uma expressão sexy, fazendo o seu melhor carão, mas, segundo Emily, falhando miseravelmente.

— Obrigadinha… — comentou a garota, mexendo freneticamente no celular.

— Imagina.

Emily percebeu que ela entrava no Instagram e postava a foto sem ao menos pedir a sua autorização para tal. O problema é que ela é incrivelmente egoísta e tá sempre querendo ser o centro das atenções. Principalmente nas redes sociais, querendo ser uma Selena Gomes do Instagram ou coisa assim, lembrou-se da conversa com Tommy e Logan no dia anterior.

O fato que mais a incomodou, no entanto, foi a legenda: “Selfie com a SOBREVIVENTE!! O.O”, mais uma vez percebendo que April, provavelmente, estava tentando tirar proveito da reputação de Emily para ganhar seguidores, fãs ou qualquer outra coisa da qual ela estivesse correndo atrás.

Com um sorriso animado, a artista não percebia o quanto Emily estava incomodada.

 

 

A festa havia acabado, e as amigas entraram juntas na casa. Tirando a echarpe do pescoço, Jordana havia se corroído a noite inteira por ter falado daquela forma rude com Emily pela manhã, e agora percebia que devia tê-la tratado melhor. Emily só estava revivendo o passado, e mesmo que, pela crença da albina, fosse alguma espécie de pegadinha de mal gosto o ataque da noite passada, era o bastante para fazer qualquer um que havia passado por aquilo retornar a loucura e despertar demônios antigos. Principalmente Emily, que havia passado por aquilo tudo sabendo que a culpa era toda sua. Havia achado que a tarde de almoço no bar seria o bastante para a reconciliação, mas o clima piorou com a notícia dada pelo policial Kai.

Pelo que sabiam, três corpos haviam sido encontrados, os de Clary Chambers, Toby Fray e Allyson Horsdal, garçonete, cliente e gerente, respectivamente. Todas mortes brutais, mesmo que não soubessem a arma usada para o crime. Também, a figura encontrada nas câmeras de segurança era a de um carrasco medieval. Era tudo o que ele poderia falar até o momento, até que novas informações fossem liberadas e a autópsia completa fosse feita, onde teriam mais coisas para se trabalhar sobre.

— Olha, Emily… — chamou a atenção da amiga, vendo-a se encaminhar para as escadas mais à frente. Emily se virou. Para ser franco, ela já havia se esquecido da pequena discussão no café da manhã. — Me desculpa pelo jeito que eu falei com você hoje cedo… Foi grosseria, e eu não devia ter falado daquela forma.

— Não, não… Tá tudo bem, sério — respondeu, relaxando e parando com a mão no corrimão. — Eu sei que a gente já passou por muito e você só quer se afastar de uma situação como essa. Fui eu que exagerei e me precipitei.

Jordana se aproximou. A casa estava silenciosa e vazia, e seus passos de saltos altos eram facilmente ouvidos.

— Não diga isso. Você fez o certo, se isso fosse real. Mas eu vou continuar dizendo e acreditando que foi algum babaca fazendo uma brincadeira depois de saber que a gente tinha voltado. Só isso.

— Eu entendo… Só acho estranho que três pessoas tenham sido assassinadas com a mesma fantasia de sete anos atrás, logo antes da gente chegar na cidade. E então eu recebo uma ligação como as de antes e sou perseguida pelo mesmo Carrasco…

Jordana estava sim assustada. Só queria passar algum tipo de conforto para amiga. Via como ela estava sofrendo, e não queria deixá-la pior. Para ela, nada havia sido comprovado com as mortes. Certo, três pessoas foram assassinadas por alguém vestindo o mesmo traje que aterrorizou um grupo de estudantes no passado, mas que fantasia melhor o assassino usaria para matar alguém se não quisesse ser descoberto, a não ser a mesma do massacre anterior, se inspirando no assassino do passado, como Kai havia dito?

Acreditava que, quem quer que fosse o responsável pelo ataque na lanchonete, havia feito aquilo por razões pessoais e ocultado sua identidade com tal traje para não ser descoberto e fazer as autoridades ligar as pontas do crime com as duas sobreviventes e deixar o verdadeiro culpado avuslo fora do caso em si.

— Sabe… Julia e Connor eram os únicos que tinham aquela coisa… — continuou Jordana. — Se esse assassino usou a mesma fantasia, ou ele pegou ela de algum arquivo enterrado nas salas da delegacia ou fez uma por conta própria. E ambas as opções são extremamente improváveis de ser a certa, porque seria um trabalho e tanto.

— Nós duas sabemos que os dois faziam loucuras pra conseguir o que queriam.

— Não faz diferença — respondeu a albina com seriedade.

Emily parou e pensou por alguns instantes, ficando em silêncio. Então, olhou para Jordana com os olhos extremamente assustados.

— Eu aceito as suas desculpas… Mas e se estiver acontecendo de novo? Você ouviu o que aquele policial e a irmã disseram no bar…

— Eu sei o que eles disseram…

— E isso ainda não te faz acreditar de que possa ter outra pessoa por aí? Outro assassino vindo atrás de nós? Aconteceu uma vez, Jor.

Jordana repensou em toda as suas conclusões do momento, e após alguns segundos, respondeu, decidida:

— Não, não me faz acreditar, Em. Pode ser coincidência, tudo bem? —Engoliu em seco, mascarando o medo que sentia. — Pare de pensar nessas coisas.

Sem ao menos esperar que a amiga respondesse, tentando se ver livre daquele assunto, passou ao lado dela e subiu as escadas correndo, fugindo da situação.



Notas finais do capítulo

Esse capítulo foi mais focados nas sobreviventes e nas consequências do ataque. Acho que é bem comum isso nos filmes e obras do gênero, sempre uma das partes vai ficar decidida que está acontecendo de novo, enquanto a outra vai estar assustada demais para acreditar e irá negar até que a merda atinga o ventilador. Além disso, tivemos a apresentação de novos personagens, como Garrett, Kai e Zoe.
Me digam se vocês já gostaram de algum personagem, quem acham que vai ser o próximo a ser morto... Espero que tenham gostado, e até a próxima!



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