Hello There 2 escrita por Lucas André


Capítulo 23
S02EP21 – How to Stay Alive in the Woods


Notas iniciais do capítulo

Como Sobreviver na Floresta

Jordana deve ir em busca de um sobrevivente quando este é colocado em risco por um jogo do assassino.



Jordana estava sentada no balcão da cozinha, o som do mastigar da torrada em sua boca sendo o único que preenchia a casa silenciosa naquela manhã. Por sorte, a cidade havia sido presenteada com o calor, o sol forte entrando pela janela ao lado. A albina estava sozinha no cômodo. Ellen poderia já ter ido trabalhar ou nem acordado ainda – Brammall não havia assimilado os horários da doutora – e Archie encontrava-se em uma dessas situações também. Eram 6:32 da manhã, e por algum motivo a albina tinha acordado com mais disposição do que o normal.

Continuava pensativa em relação à Ellen e ao assunto que Emily havia trazido à tona. Contudo, o que mais lhe perturbava era a recente morte de Megan. Jordana estava mais chocada do que triste, para falar a verdade. Nunca foi muito chegada na advogada ou trocou muitas palavras com ela, mas por algum motivo Hayes tinha sido fortemente abalada pelo acontecimento. Era de se esperar, por um lado. Pelo que a morena havia lhe contado, havia presenciado a morte de Megan sem poder fazer nada, e era por esse motivo que continuava entocada em seu quarto desde que havia chegado da delegacia na noite anterior. Poderia estar dormindo, mas era mais provável que tivesse passado a noite em claro – a albina sabia o que era presenciar uma morte; mais do que isso, o que era matar alguém. Nunca teve um dia após os acontecimentos de sete anos atrás em que Jordana não foi assombrada pela lembrança de Connor sendo apunhalado aos seus pés, por suas próprias mãos.

Com o pensamento, tremeu. Em seguida, tirou as lembranças do assassino de sua mente e voltou a pensar em Emily. Jordana quase tinha certeza de que a amiga estava chegando ao limite. Um limite que a levaria à loucura ou à depressão. O mesmo limite do qual Brammall se aproximava. No entanto, não foi capaz de conversar com Hayes tanto assim quando ela chegou. Falou um pouco e subiu direto para o quarto. Jordana sabia que não deveria forçá-la a fazer alguma coisa que não queria, e não insistiria naquilo. Ellen e Archie pareceram de acordo com isso também, em não tocar no assunto, mesmo que não tivessem tido tanto contato com ela na noite passada.

A sobrevivente passava o indicador na borda do pratinho diante de si, alheia. Então, seu celular vibrou ao lado de seu braço. Pela tela acesa, Jordana notou que recebia uma chamada de Archie. Ao princípio, estranhou aquilo, pensando que o primo continuava na casa, mas logo pareceu mais óbvio que ele estivesse no trabalho. Atendeu, dizendo:

— Alô?

Uma arfada forte veio do outro lado da linha, e então:

Jordana, graças a Deus… – ouviu-se a voz de Archie, forte e desesperada.

Pelo tom usado, Brammall deixou a torrada no prato, prestando mais atenção na chamada.

— Aconteceu alguma coisa? – perguntou. – Pensei que tava aqui em casa.

Você precisa me ajudar, Jordana – tornou ele, baforando. – Por favor, eu não sei o que tá acontecendo… Me ajuda, pelo amor de Deus!

— Calma, Archie, respira – disse, vibrando a voz no nervosismo. Estava preocupada. – O que aconteceu? Onde você tá?

Eu não sei! Eu… E-Eu acordei num lugar escuro. Tava amarrado, mas consegui me soltar um pouco… Jordana, acho que foi o assassino… Acho que ele me pegou.

Sentia o peito inflar fortemente no peito. O coração batia rápido. Tentou manter a calma ao questionar:

— Ai, meu Deus… Você tem alguma ideia de onde tá?

É grande, minha voz ecoa… E é frio também. Tem… Tem uma luz entrando de algum lugar… Parece que é luz do sol, mas eu não consigo ver porque tem alguma coisa na minha frente e… Eu escuto árvores balançando, um monte delas… Parece uma floresta. Deve ser uma floresta. – Ele deu uma pausa e, antes que Brammall pudesse dizer alguma coisa, continuou: – Eu não sei o que tá acontecendo, Jor… O assassino deve ter ido embora, porque eu não vejo e nem ouço ninguém… Meu celular tava em cima de uma mesa perto de mim.

Um assobio na voz de Archie fez Jordana perceber que ela parecia diferente, quase mecânica. Não deu muita bola, provavelmente seria apenas interferência no sinal.

— Tudo bem, Archie – disse. – Eu vou chamar a polícia, vamos te ajudar. Eles vão rastrear seu celular e vão te encontrar, certo? Mantenha a calma.

Obrigado, Jordana… Muito obrigado. Venha logo – respondeu ele. – E fica na linha… Fica na linha até chegar aqui, por favor. Eu tô assustado… Eu não quero morrer… – A voz se desfez em um engasgo de choro, misturando-se ao som de catarro sendo sugado pelo nariz.

— Claro, eu vou ficar.

A garota desceu rapidamente do banco, preparando-se para sair da casa. Não sabia o que estava acontecendo, e a simples ideia de que o primo poderia correr risco de vida lhe dava todo tipo de temor. A primeira coisa que fez foi agarrar um caderninho numa das gavetas do balcão, arrancando uma folha e escrevendo sobre ela as palavras “FUI ME ENCONTRAR COM O ARCHIE, TALVEZ VOLTE TARDE. SE EU NÃO VOLTAR, ALGUMA COISA ACONTECEU”. Assinou seu nome no final e deixou ali.

Não poderia levar Emily. Ela já estava abalada demais e, de qualquer forma, não faria diferença desde que iria para a polícia. O bilhete era mais uma precaução caso algo de ruim acontecesse. Pelo menos alguém estaria avisado.

— Archie, é… Você consegue ver mais alguma coisa? – perguntou. – Consegue enxergar o que tem na direção dessa luz que você disse?

Eu não enxergo, as cordas não me deixam – respondeu ele, a voz chorosa. – Mas tem algumas mesas e umas estantes jogadas no chão… O lugar parece ser gigante e… E abandonado. Tem fuligem no chão e as paredes estão destruídas.

— Ok, fique firme, Archie – alertou. – Eu vou sair de casa agora, tudo bem?

Foi até a sala rapidamente e pegou sua bolsa e as chaves do carro. Estava indo para a porta quando percebeu que não houve resposta.

— Archie? – perguntou. Nada. – Archie? Archie?!

Tirou o aparelho do ouvido e, olhando para a tela, percebeu que a ligação havia caído. Pôde pensar que teve um fraco ataque cardíaco naquele momento, vendo a tela apagada. Archie havia sido pego? O assassino estava o matando agora mesmo?

Se preparava para ligar de volta, quando o celular voltou a vibrar em sua mão. Era uma nova chamada vinda do garoto. Ansiosa, Jordana logo atendeu.

— Céus, Archie, o que…

Teve a fala interrompida quando a voz ríspida e séria ressoou do outro lado, dizendo:

Entramos no grand finale, e como entrada do cardápio temos a família Brammall.

— Seu filho da puta, solta ele agora! – gritou, tentando conter o pânico. Continuava parada de frente a porta de casa, olhando diretamente para a madeira.

De modo algum – retrucou o psicopata. – O show só está começando, Jordana. Acha mesmo que vou perder a oportunidade de fatiá-lo ao meio?

— Eu vou encontrar você, e então você estará muito ferrado.

Se eu fosse você, ficaria longe disso. Eu posso até te deixar viva até o final, caso seja uma garota boazinha e se comporte seguindo as regras.

— Não me importo com a merda da sua intenção comigo, desgraçado! – gritou. – Só deixe o Archie vivo. Ele não tem nada a ver com isso! Deixa ele em paz, ou eu chamo a polícia!

Uma atitude burra e em vão, se me permite dizer – disse o maníaco, zombando dela. – Archie estará morto antes mesmo das viaturas atingirem metade do caminho. Então fique fora disso, branquela. O seu priminho pôde ter sido esperto em conseguir o celular quando eu não estava olhando, mas agora pagará caro por essa atitude estúpida. Mas não se preocupe, eu juro que ele não vai sentir nada…

A ligação foi cortada antes que ela pudesse dizer mais alguma coisa. Não adiantaria de nada ligar de volta. Além das conversas com o assassino lhe darem calafrios e não existirem chances dele dar-lhe alguma informação, Jordana sabia que o mascarado provavelmente não atenderia. Afinal, ele comandava o jogo, não o contrário.

Chamar a polícia estava fora de questão. Seria um tempo perdido. Dez minutos para convencê-los do que estava acontecendo, mais cinco para que se preparassem e vinte para que chegassem em qualquer lugar, contando com o rastreamento da ligação. Assim, teria de ir por conta própria. Não sabia como, nem para onde. Por isso, começou a pensar em algumas opções. Onde ele estaria sendo mantido?

Brammall abriu a porta e saiu para o lado de fora, trancando-a atrás de si. Havia guardado o celular na bolsa, e agora seguia em direção ao carro com a cabeça martelando. Lembrou-se das informações dadas por Archie. Ele disse que o lugar era grande, escuro, frio, destruído, provavelmente com uma floresta ao redor… Não existiam muitos lugares assim em Oakfield. Normalmente o governo da cidade construía novas coisas em cima das velhas quando estas ruíam com o tempo. No entanto, pensando racionalmente por um instante, Jordana lembrou-se de um único lugar destruído que continuava em pé.

Um pouco mais esperançosa, a sobrevivente entrou no carro e deu partida, seguindo pela rua. Não sabia se estava certa contanto àquilo, mas era um bom começo, desde que não tinha nenhuma outra escolha.

 

1

 

Jordana parou o carro a alguns metros de seu objetivo. Desceu com pressa, deixando a bolsa lá dentro. Em mãos, levou apenas o celular, as chaves do automóvel e o canivete suíço que sempre trazia consigo desde que o massacre começou pela segunda vez. Não podia mentir e dizer que não estava nervosa. A tensão a corroía de baixo à cima. Não sabia o que fazer, ou como agir. Não sabia o que encontraria, nem se encontraria alguma coisa. Talvez ter ido até ali fosse uma perda de tempo, que a afastava de seu objetivo real e que realmente ajudaria a trazer Archie são e salvo para casa.

Ao seu redor, árvores grandes cresciam do chão, seus caules cobertos pelas folhas caídas e pela terra. Contudo, o lugar onde estava era de concreto. Bem, o concreto em si estava sendo tomado pela vida selvagem, os traços de que algum dia aquilo fez parte da civilização sumindo gradualmente com o tempo. Mas era o que havia ali, embaixo de todas as folhas e plantas. Continuava firme, mesmo que algumas rachaduras aparecessem em alguns pontos. O céu continuava limpo, mas o sol escondeu-se atrás de algumas nuvens e o ambiente era tomado por um sombreado claustrofóbico.

A trilha seguia em linha reta até certo ponto, então embrenhava-se em meio as árvores e desaparecia. Brammall havia entrado o bastante com o carro até ali para que não fosse mais capaz de encontrar a entrada do caminho. Se olhasse para trás, veria apenas a floresta densa cercando-a, com os galhos secos e pontudos parecendo cada vez mais próximos, prontos para agarrá-la. Jordana terminou de dar sua olhada ao redor, escondeu o canivete dentro do sutiã e começou a seguir pela trilha, colocando as chaves do carro no bolso traseiro.

Ela lembrava-se muito bem daquele lugar. Era o mesmo que havia caminhado com Archie dias antes, quando tentou interrogá-lo e ver se era suspeito ou não. Foi no mesmo dia que ele revelou ter ido para Oakfield somente porque Jordana estava lá também, depois do rapaz ter perdido os pais. Isso fez o peito da albina apertar, com pena. Lembrou-se de como Archie realmente não merecia tudo o que estava acontecendo.

O carro foi ficando para trás. Tinha deixado ele ali, longe de onde queria chegar, para não chamar a atenção do psicopata caso ele realmente estivesse ali com seu primo. A cada galho seco que estralava, Brammall lançava um olhar desconfiado e assustado para a direção do som. Pássaros cantavam ao fundo hora ou outra, mas, mesmo assim, Jordana parecia estar envolta no mais profundo silêncio, nunca sentindo-se tão sozinha e exposta.

Quando começou a refazer seus pensamentos e a se arrepender de ter ido sozinha, percebendo que levar alguém junto seria dez vezes melhor e mais seguro, a albina viu a construção erguendo-se em meio as árvores. A floresta passava lentamente ao seu lado, nenhum rastro de civilização ou casas para qualquer direção que escolhesse olhar. No entanto, a beleza do ambiente não se comparava a estranha formosura que surgia por cima da copa das árvores, tampando a passagem do sol e se sobressaindo em relação ao verde das árvores.

O pico de um prédio surgia lá em cima. Seguindo com olhos, Jordana pôde notar o restante da construção, e aproximando-se cada vez mais, ficou finalmente diante dela. A estrutura estava no meio de uma clareira na floresta. Parte do chão era cimentada, parte não. Parecia ter sido um ótimo lugar antigamente, mas agora não se passava dos restos de uma parte de Oakfield que agora já não mais existia. As folhas caídas e a grama seca levavam à base do prédio. Tinha doze andares, como pôde contar, e paredes cinzas descascadas. Ao redor, pedaços de tijolos e cimento estavam espalhados, provavelmente por terem despencado com o tempo. No topo, todas as quatro extremidades estavam deterioradas, como se alguém tivesse passado uma faca nelas.

O que antes era o slogan do prédio jazia jogado na parte da frente, quebrado e com fios expostos. Ervas daninhas e musgo cresciam nele. Mesmo que quase obstruído e com letras faltando, Jordana conseguiu ler um pouco do que dizia ali: “EV-RWO-D H-TEL”. Nas paredes da construção, plantas cresciam e se misturavam ao cimento. Hastes de ferro ficavam expostas em certos pontos, e as janelas quebradas apareciam abertas ou tampadas com tábuas de madeira mal dispostas. Na parte lateral, a que estava virada para Brammall, um enorme buraco levava ao interior do lugar. Obviamente não foi feito como parte da arquitetura, pois os pedaços de tijolos que surgiam pareciam ter explodido para fora, abrindo a fenda de quase dez metros. Como estava na base, rente ao chão, poderia constatar que levava para o nível inferior do hotel, possivelmente o estacionamento.

Dando uma olhada ao redor, Jordana percebia que aquele era o lugar. Era ali mesmo, aquele hotel onde Olivia Ree e Tommy Howard haviam botado fogo e reduzido a cinzas a alguns anos antes. A fuligem aparecia para todos os lados, cobrindo as partes das paredes que ainda não tinham sido tomadas pelas trepadeiras. Lembrava-se de quando Archie contou essa história para ela. Foi no mesmo dia em que foi atacada pelo assassino pela primeira vez desde o retorno à cidade, o mesmo acontecimento que a fez ter certeza de que estava acontecendo de novo.

Tudo ficava tão coberto pelas árvores e mal iluminado pelo sol que, ao mesmo tempo que era bonito, tornava-se tenebroso. Uma bela estrutura que foi alvo de uma tragédia. Não sabia se Tommy e Olivia haviam sido pegos pelo que fizeram durante sua fase rebelde, mas como os Ree eram tremendamente ricos, era bem provável que tivessem incriminado alguém no lugar dos dois para proteger a estimada filha assassina e seu namorado manipulado, ou, pelo menos, tirado a culpa de cima deles, e o fato de serem culpados passou a ser uma lenda urbana.

Cercada pelas árvores, Jordana olhou para o celular e pensou em chamar pela polícia. Poderia dizer que viessem com calma, sem criar muito alarde, e explicar a situação. Mas para isso, primeiro teria de ter certeza de que estava certa, de que Archie estava realmente ali. Claramente não acreditava nas palavras do assassino. Afinal, ele gostava de brincar com a sanidade dos sobreviventes e entrar em suas mentes, então dizer que seu primo estava morto era a mesma coisa que dizer que ele estava esperando alguém novo estar presente para fazer acontecer. Ainda tinha uma chance de salvá-lo.

Mas tais chances foram esvaídas, pois o aparelho celular não apresentava sinal naquela região, como explicitava o símbolo na parte superior.

Suspirou fundo, tomando uma decisão. Começou a andar na direção da porta da frente, colocada embaixo de uma marquise destruída. As portas possivelmente eram de vidro antes, pois não havia nada ali agora, apenas um buraco que levava para o interior. Seus sapatos amassavam a grama do chão, pisando em folhas. Jordana seguia destemida na direção do lugar. Estava disposta a revirar o prédio para encontrar Archie, se fosse necessário. E foi toda essa intensidade que quase a fez não perceber o som dos passos que acompanhavam os seus.

Ela entrou em estado de alerta imediatamente. No entanto, demorou demais para tomar qualquer ação, e quando os passos lentos tornaram-se frenéticos, Brammall mal teve tempo de virar-se para trás e ver o Carrasco a centímetros de seu rosto. Seguido disso, veio o forte impacto em sua cabeça que a fez colidir inconsciente ao chão na mesma hora.

 

2

 

Com duas piscadas fortes, Jordana lutou para abrir os olhos. A cada levantada das pálpebras, ela se perguntava se realmente tinha aberto-os, pois a escuridão de onde estava obstruiu qualquer chance dela ver alguma coisa. Sentia o chão desnivelado embaixo de si, áspero e cheio de pedrinhas que cutucavam seu corpo. Brammall se mexeu um pouco, balançando a cabeça para o lado, aos poucos retomando a consciência. Ainda notou que estava sentada, as costas encostadas em alguma coisa, provavelmente uma parede, extremamente dura e fria.

A cabeça latejava do lado esquerdo, onde tinha sido nocauteada. Conseguia sentir o sangue seco grudado na pele, a dor de cabeça abalando-lhe como nunca antes. O simples movimento do pescoço foi capaz de fazê-la encolher-se de dor, grunhindo baixo. E assim que os olhos finalmente se abriram por completo, a albina foi atacada pela forte luz que vinha de algum lugar do recinto, forçando-a a fechá-los até se acostumarem. Era uma luminosidade amarela e nem tão forte, mas capaz de fazê-la ficar tonta e desorientada mais uma vez. Voltou a encarar o lugar, que parecia ser grande e destruído, exatamente como o que Archie tinha descrito.

Archie… Isso a fez tomar forças para se levantar, mas logo notou que tinha os pulsos e tornozelos atados por cordas, tão apertadas que chegavam a prender a circulação de seu sangue. Sangue este que Jordana estranhava não ter sido expelido o bastante para causar sua morte. Continuar viva, por um momento, não pareceu ser tão novo assim. O assassino não desperdiçaria a chance de matar alguém facilmente quando obviamente poderia fazer a vítima sofrer mais um pouco. Essa tese se aplicava ainda mais quando se referia à Jordana, uma das sobreviventes e pessoa pela qual o psicopata estava atrás, definitivamente.

Pesando nisso, a albina chegou a uma conclusão: era uma armadilha e sempre foi uma. Lembrou-se da voz metálica e estranha de Archie ao telefone quando ele a ligou, a forma como ele perfeitamente descreveu o lugar onde estava – tarefa impossível, pois Brammall não conseguiria fazer o mesmo nem se quisesse, por conta da escuridão e da desorientação –, mas parecesse impedido de dizer onde era exatamente, e ainda por cima o mais interessante: tinha recebido uma ligação dele, mas quando chegou percebeu que seu próprio celular não obtinha sinal.

O que martelava sua mente não era o fato de Archie ser o assassino, mas o do assassino ter se passado por Archie para levá-la até ali. Estava óbvio agora. A voz do primo no telefonema era, na verdade, a voz do assassino, modelada e alterada para que parecesse com a dele, exatamente como aconteceu com Kai na noite em que Zoe morreu.

Então, amarrada e isolada, sentindo o vento frio batendo no corpo e o cheiro de fuligem, mofo e lixo infectando o nariz, a garota tentou não fazer movimentos muito bruscos. Com uma olhada ao redor, constatava-se que o assassino não estava perto, muito menos prestando atenção em si. E Jordana queria deixar desse jeito, esperar que o mascarado achasse que ela ainda não havia acordado, até porque, com certeza, suas intenções seriam colocadas à prova quando ela acordasse. Dessa forma, tratou de olhar disfarçadamente ao redor, não se movendo muito e tomando cuidado para não fazer nenhum barulho.

Além disso, tentava encontrar uma forma de fuga. Não sentia o celular em lugar nenhum, nem as chaves do carro. Por sorte, o Carrasco não era um tarado e não procurou no sutiã de Brammall, pois lá encontraria o canivete suíço que ela tinha escondido quando desceu do carro. Continuava lá, já quente entre os seios. O ato de pegá-lo foi bem simples, na verdade. Puxou-o de uma única vez e exibiu a lâmina brilhante, quase oculta na escuridão. Jordana ao menos tinha dado bola para a luz que batia contra seu rosto, e estava pronta para começar a serrar a corda em seu pulso quando um gemido abafado ecoou pelas paredes do aposento.

Levantou a cabeça, tentando encontrar a direção de onde o som tinha vindo. O coração palpitava forte no peito, a respiração tornando-se ofegante. Mal percebeu que segurava o cabo do canivete com força entre os dedos, pronta para atacar caso algo pulasse em sua frente. Com mais uma olhada ao redor, Jordana finalmente começou a notar as formas diante de si, assim que os olhos se acostumaram completamente com a escuridão. Ao fundo, do outro lado do enorme recinto, uma abertura numa das paredes deixava a luz solar entrar fracamente – provavelmente seria a mesma abertura que Brammall havia visto do lado de fora do prédio, o que significava que estava no subsolo dele –, e os objetos no chão tornaram-se silhuetas negras. A albina notou grandes estantes tombadas, mesas quebradas e algumas inteiras, cadeiras, escrivaninhas jogadas e muito, muito papel espalhado pelo chão, sujos, melequentos e molhados, com as palavras ilegíveis. Talvez fosse uma biblioteca no passado, e como o prédio era residencial, fazia sentido ter uma.

Virou o rosto de um lado para o outro, até que, em certo momento, uma das cadeiras dali saiu de seu campo de visão e deixou à vista uma forte luminosidade branca. Jordana ficou cega por alguns instantes, cerrando os olhos. Então, percebeu que a luz vinha de uma lâmpada acoplada ao teto, bastante baixa. Ela ficava pendurada logo sobre uma mesa de madeira mofada e caindo aos pedaços. No entanto, era resistente o bastante para suportar o corpo que estava estendido em cima dela, esticado. A mesa era grande e sustentava todo o corpo. Os braços do indivíduo estavam colocados para trás, amarrados com cordas nos pés do móvel. Os tornozelos também. Com uma olhada curiosa, Jordana percebeu que era Archie.

Sentiu quase um derrame ao ver o primo naquela situação. Tinha um longo corte na testa, sangue por toda a cara. Ele remexia-se e fazia a madeira ranger e os pés da mesa balançarem. Tentou puxar os braços, mas eles estavam presos. Jordana estava abrindo a boca para chamar por ele, mas mudou de ideia assim que a figura do Carrasco surgiu da escuridão atrás do corpo, passando para a luz. Provavelmente ele estava sentado ali o tempo todo, esperando o rapaz acordar.

Tratou de serrar a cordinha em seus pulsos com o canivete. Sua mente à mil, desesperada, tentando ser o mais rápido possível. Não tirava os olhos de Archie, a uns quinze metros de si. Os dedos da garota não paravam de trabalhar, serrando e serrando. Um ruído baixo era emitido das fibras da corda sendo cortadas. Jordana temia que ambos os indivíduos no cômodo a vissem, tanto o assassino quanto Archie, que se a visse provavelmente daria um grito e alertaria ao mascarado que estava acordada. Por isso, tinha de ser rápida – mesmo que não tivesse um plano.

Quando Archie finalmente acordou e retomou a consciência por completo, ele teve a forte luz da lâmpada vindo diretamente em seus olhos. Desorientado, encarou o assassino atrás de si, remexendo-se e sentindo as cordas esfolarem sua pele. Por sorte, a luminosidade não o deixava ver nada além daquilo.

— Por favor… Não… Não, por favor! Me solta! – gritou o garoto, arregalando os olhos e ficando vermelho de tanto que se debatia, entrando em desespero.

Finalmente, após um tempo que pareceu durar a eternidade, a cordinha nos pulsos de Jordana se rompeu. A garota sentiu os pulsos livres. O ar frio tocou a parte exposta da pele quando a corda foi ao chão, deixando à mostra o vermelhidão instalado abaixo das mãos da albina. Ardia um pouco, mas ela não deu bola e começou a serrar a corda em seus pés. Seus olhos ergueram-se quando um movimento suspeito se fez do outro lado do recinto, e Brammall observou o momento em que o assassino se abaixou atrás da mesa de Archie e voltou, segundos depois, com uma ameaçadora serra elétrica em mãos, a parte metálica reluzindo sob a luz.

Jordana sentiu o coração parar por um momento, pensando que presenciaria a morte do primo, e por isso voltou a serrar, mais forte. Os pedidos de socorro do rapaz do outro lado faziam o peito dela apertar. Precisava ser rápida. Então, a cordinha se rompeu e a sobrevivente estava livre. Suspirou aliviada, olhando ao redor enquanto segurava firmemente o canivete nas mãos.

— Me deixa ir! – Archie gritava, tentando se ver livre, a garganta doendo. Em cima de si, o Carrasco nada fez além de posicionar as lâminas da serra sobre seu rosto, tratando de puxar a cordinha na lateral do cabo para ligá-la. Archie gritou fortemente, vendo seu reflexo na lâmina afiada. No entanto, a tentativa do mascarado foi em vão, e a serra elétrica morreu em um engasgo violento. – Por favor, cara… Por favor! Socorro! Socorro!

Enquanto o psicopata voltava a tentar ligar a arma, Jordana se rastejou para a frente, engatinhando pelo chão. O ambiente estava quente, e talvez tenha ficado dez vezes mais pelo nervosismo e a adrenalina que corria pelo seu corpo. O suor empapava a parte de trás de sua camisa, molhando a nuca e os cabelos brancos. Suas mãos amassavam pedrinhas soltas e papéis sujos, os joelhos ralando no concreto. Era possível constatar que, se não fosse pelo som cortante da serra elétrica engasgando ao fundo, suas palmadas no chão seriam facilmente ouvidas pelo eco.

Brammall se escorou na escrivaninha caída em sua frente, ficando um pouco deitada para não correr o risco do topo de sua cabeça ser vista. Espiou na direção do moreno, encontrando-o na mesma situação de antes. A mesa de madeira parecia que cederia a qualquer instante, mas o Carrasco não se importava com isso, e na quarta tentativa de acionar a motosserra, a coisa vibrou em suas mãos e ligou, emitindo o forte som que Jordana só havia ouvido em filmes de terror. Parecia ensurdecedor, escondendo qualquer tipo de barulho, incluindo os gritos mil vezes mais fortes e desesperados de Archie, que estava logo abaixo dos dentes afiados da coisa, encarando-os com veias saltadas na testa e nuca e olhos vermelhos e aguados.

A própria albina sentiu na pele o medo do garoto, lágrimas unindo-se aos olhos no que poderia ser o último momento com o rapaz. E foram esses sentimentos que a fizeram seguir em frente, continuando seu caminho ao redor da velha escrivaninha. Já estava do outro lado dela e, olhando para aquela direção, encontrou uma mesa tombada. Respirou forte duas vezes, certificou-se de que o assassino não estava olhando, e correu abaixada até ela, jogando-se atrás da mesma. O coração pulava forte no peito, a respiração ofegante.

Jordana levantou a cabeça e encarou por trás da mesa, percebendo que estava na exata direção de Archie, toda a cena se desenrolando logo atrás de si. Seu objetivo em si era atingir a saída na lateral do lugar, e teria de ser rápida para obter tempo de chamar a atenção do maníaco e fazê-lo ir atrás de si, enquanto deixava Archie de lado.

Estava quase perto o bastante para que pudesse correr até lá sem se importar em ser pega, mas não queria correr riscos e por isso não tomou a ação que definiria seu destino. Deu uma última olhada para o primo, notando que o mascarado tinha dado a volta na mesa e, agora, estava ao lado do corpo, não atrás dele. A serra elétrica em suas mãos continuava ligada, apenas estudando o rapaz e parecendo traçar o caminho que percorreria dentro dele.

E que estudo rápido foi esse, surpreendendo Jordana, que não esperou que o destino de Archie fosse tão cruel quanto foi no momento seguinte, assim que a serra foi para baixo num movimento ágil dos braços do assassino e os dentes velozes e cortantes se enterraram na barriga desprotegida do garoto. Ele gritou como nunca, um grito de dor, de angústia e, principalmente, de medo. Uma linha de sangue voou para longe, o mesmo sangue que começou a escorrer da fenda aberta e se juntou na superfície da mesa. Os pés e a as mãos de Archie se entortaram com a dor lancinante e por um segundo pararam de se mexer, absorvendo a tortura da qual foi alvo. O psicopata, por sua vez, pareceu não se importar com nada disso, e continuou forçando a coisa para baixo, remexendo os braços freneticamente e tentando manter a serra estabilizada.

Jordana colocou a mão na frente da boca e as lágrimas logo começara a escorrer. A garganta coçava e se apertava na vontade de gritar, as pernas formigando na vontade de se levantar e correr até ele. Mas mesmo naquela situação, a sobrevivente foi esperta em escolher a alternativa que não lhe mataria e reprimiu todas essas vontades, ficando parada no lugar, com soluços inaudíveis escapando da boca e as lágrimas quentes formando trilhas pelo rosto. A sua outra mão agarrava com força a quina da mesa de madeira, os olhos, mesmo que infectados com aquela cena brutal, não pararam nem por um segundo de olhar.

Archie já não mais sentia a barriga ou qualquer região próxima a ela. A dor era tão forte e, ao mesmo tempo, tão anestesiante que parecia impossível que estivesse realmente acontecendo. Seus membros se sacudiam enquanto a serra entrava mais e mais fundo em sua barriga, logo abaixo do peito e logo acima da cintura, próxima ao umbigo, na horizontal. O sangue parecia queimar de tão quente. As lágrimas já não eram sentidas escorrendo pelos olhos. A garganta se transformou em pó, mas nem mesmo seus gritos de angústia eram ouvidos, mascarados pelo som da serra em funcionamento.

Jordana observava a morte de Archie, seu primo, e não podia fazer nada se quisesse ficar viva. Poderia estar sendo egoísta, mas deixaria esse egoísmo lhe abalar mais tarde, quando estivesse viva, respirando e longe de fazer escolhas estúpidas. Teria de assisti-lo morrer, uma ação que condenaria a si mesma pelo resto da vida. Dessa forma, voltou a correr.

Com as lágrimas tampando a vista e não se importando em soluçar o mais alto possível, a garota seguiu em frente, na direção da abertura na parede a alguns metros. Com as costas arqueadas para ser mais difícil de ser vista, Brammall passava de móvel a móvel, escondendo-se atrás deles por um tempo e esperando a situação acalmar para seguir adiante.

— Me desculpa, Archie, me desculpa, me desculpa… Desculpa… – sussurrava para si mesma durante o trajeto, não conseguindo parar de chorar.

Como plano de fundo estavam os gritos quase inaudíveis do rapaz. A motosserra continuava traçando um caminho pelo corpo dele, serrando-o ao meio. O metal já estava afundado pela metade, o movimento dos dentes da lâmina levando enxurradas de sangue para todos os lados. O Carrasco estava coberto por inteiro pela substância grossa, os olhos inexpressivos sob a máscara encarando a vítima. Ele estava gostando, sem sombra de dúvidas. Archie, o garoto que perdeu os pais e voltou para a cidade em busca de sua única parente conhecida, nem mesmo tinha o poder de se proteger do golpe, mãos e pés amarrados com força.

O sangue ainda acumulava-se no topo da mesa, ao lado do corpo, e vazava pelas frestas e pelos cantos do móvel, atingindo o chão como chuva. Em dado momento, quando um esforço a mais foi colocado na arma, uma parte dos intestinos de Archie voou para longe, saindo daquela enorme fenda que dividia seu corpo ao meio. O pedaço grande e cortado da tripa caiu no chão aos pés do mascarado, que não mostrou reação. Nesse momento, ele começou a perder a consciência.

Jordana seguiu em frente, não olhando para trás. Disse a si mesma que seria pior se visse o primo naquela situação. Isso, se fosse possível. A situação atual, olhando para frente em direção à saída, lhe lembrava o fato de que Archie não teria a mesma sorte. Archie não sairia dali naquela manhã. Archie ao menos estaria respirando dali alguns segundos. E a verdadeira culpada para isso era a albina, que escapava da situação com o pouco de frieza que restava em seu corpo, deixando para trás não só um amigo, mas alguém da sua família. Sangue do seu sangue.

— Não, não, não! – gritou para si mesma, não se importando em ser escutada, negando a vontade de voltar e ajudar Archie. De qualquer forma, não poderia ajudar mesmo que quisesse. Depois de tanto tempo com uma serra elétrica no corpo esfolando seus órgãos, Archie já era um caso sem salvação.

De um lado, a salvação, do outro, a destruição. Jordana já podia ver boa parte do lado de fora, escorada atrás de uma estante pequena com as lágrimas sendo suas únicas companheiras. Uma rampinha estreita e perigosa de terra, pedras e tijolos se formava, levando para a abertura, que agora, mais de perto, parecia dez vezes maior. Do outro lado, Brammall reconhecia as árvores e o céu azul. Um vento glorioso batia em seu corpo quente e o refrescava. A luz do sol já lhe iluminava o bastante para que pudesse ser vista.

Mas Archie ainda não saía de sua cabeça. Lembrava-se do garoto que, em tão pouco tempo, conseguiu sua confiança e se transformou em uma das únicas pessoas em quem Jordana realmente confiava. Todas essas lembranças e emoções se esvaíam junto dos gritos dele ao fundo, que se perdiam em meio ao caos e, finalmente, deixaram de existir.

Foi quando a serra elétrica partiu o osso da coluna vertebral e serrou os poucos centímetros de carne que restavam em seu corpo, atingindo a mesa de madeira e dividindo o rapaz completamente ao meio, que Jordana deu seu passo decisivo. Saiu de uma única vez de trás daquela estante e correu como nunca antes na direção da saída. Ainda soluçava, chorando como nunca. Naquele momento, não teria cobertura para esconder-se e teria de contar com a sorte para não ser vista. Chegou na rampa e, quando começou a escalar pelas pedras e pela terra, a serra elétrica foi desligada, devolvendo o silêncio para o ambiente e deixando completamente vulneráveis o som de seu choro, de sua respiração ofegante e de seus passos desesperados.

Escalando o aclive de quatro, Jordana empurrou com os pés uma pedra grande, que se soltou e desceu, batendo fortemente no chão de concreto num som que ecoou por todo o recinto. Demorou alguns segundos para ela perceber que estava silêncio de novo, e assim que isso aconteceu, olhou para trás.

A visão que teve foi a do assassino parado ao lado do corpo de Archie, a máscara de carrasco virada em sua direção. Estava sendo encarada por aquela figura ensanguentada e ameaçadora. Ao lado dela, o corpo morto de Archie, com a cabeça tombada para o lado e os olhos sem vida. O rosto já estava pálido pela perda de sangue, o enorme rasgo em sua barriga deixando a mostra parte de seus intestinos. Essa imagem fez Jordana chorar ainda mais. Tanto por saber que o primo estava definitivamente morto, quando por saber que suas poucas chances de escapar com vida tinham se esvaído com o vento.

Não esperou para voltar a correr, atingindo o topo em menos de cinco segundos e sentindo o vento frio bater na pele. Cegada pela luz forte do sol, Jordana tentou se orientar o mais rápido possível e não cair. Então, finalmente reconheceu o lugar – a lateral do hotel – e seguiu na direção de onde tinha se lembrado de deixar o carro. Não estava com as chaves, mas era lá que a trilha de volta à civilização estava. Por isso, começou a correr pela grama seca o mais rápido que conseguia, o corpo doendo e mal acostumado com a posição de antes.

Os pés falhavam a cada passo para longe do lugar, e Brammall não olhava para trás para ver o quão próximo o mascarado estava de si. Por sorte, ainda não conseguia ouvir os passos dele, e isso significava que ainda tinha uma chance. E foi por essa chance que ela não desistiu, seguindo em frente. O cabelo batia no rosto e por vezes era levado pelo vento. O suor escorria pelo corpo, a respiração escassa apitando de segundo a segundo, o peito parecendo explodir a cada batida forte do coração. Seus braços iam e vinham ao lado do corpo, as pernas trabalhando em conjunto para longe dali, passando como vultos pelo ambiente. Ao lado da garota, as árvores surgiam como borrões e a estrutura destruída do hotel era deixada para trás.

O canivete continuava em sua mão, mas ela nem se importava mais. Nada parecia importar mais enquanto as lágrimas escorriam pela face e caíam no chão. Archie continuaria morto, mesmo se conseguisse escapar, e quem teria de arcar com as consequências de tê-lo deixado para trás seria ela, não importasse o quanto as pessoas dissessem o contrário.

Finalmente atingiu a trilha, passando estreitamente entre duas árvores. O chão de grama logo tornou-se aquele concreto desaparecido de antes, coberto por musgo e folhas caídas. Brammall não parou. Agora, as árvores estavam mais próximas de si, o que por um lado era bom, desde que seria mais fácil de não ser vista. Por outro lado, a floresta podia dificultar sua corrida por conta da quantidade de obstáculos.

Depois de alguns segundos correndo, Jordana começou a notar uma coisa: estava demorando demais para encontrar seu carro. A caminhada para o prédio não demorou tanto assim, e se estava correndo até aquele momento, significava que algo estava errado. Por isso, Brammall parou com tudo, derrapando por alguns segundos pela terra. Olhou ao redor, os cabelos batendo no rosto e o desespero à flor da pele. Com uma olhada para o chão, Jordana notou as marcas de pneu na terra. Então, constatou que seu carro tinha sido levado de lá.

— Não… Não! – gritou, desesperada.

Mas logo foi tirada desse momento de raiva, pois continuava sendo perseguida, como deixou claro a visão que teve a seguir, quando o Carrasco surgiu na trilha. Veio da mesma direção que Jordana, o sobretudo negro mais negro do que antes por conta de todo o sangue que o cobria. A máscara também estava coberta por gotículas vermelhas. Em uma das mãos, um enorme facão. Ele deve ter pego-o lá dentro, e por isso demorou tanto para vir atrás da sobrevivente. De qualquer jeito, o que importava era que o maníaco estava pronto para usá-lo nela.

Foi pega de surpresa e teve de pensar rápido. Em menos de dez segundos, o Carrasco estaria perto o bastante para matá-la. No momento de desespero, Jordana apenas seguiu para o primeiro caminho que viu. Desorientada, acabou cruzando para o lado e entrando na floresta.

— Socorro! – berrou com força, sua voz ecoando entre as árvores.

Troncos de madeira passavam na velocidade da luz ao seu lado. A cada passo, um novo obstáculo parecia surgir. Brammall não parou na sua corrida apressada, não olhando para trás. Pulava por galhos soltos e desviava de árvores que surgiam em seu caminho. Por vezes, quase bateu de encontro a elas, mas logo conseguiu se recuperar e seguir em frente. Adiante, não havia nada além da floresta. Era incrível como as árvores jamais pareciam deixar de existir, sempre aparecendo na linha do horizonte, não importasse o quanto a albina corria.

O corpo doía. Tudo doía. Até sua mente parecia doer. De fato, a dor psicológica sofrida por Jordana naquele instante era enorme. O choro não ajudava em nada também, fazendo sua cabeça latejar. As lágrimas ainda saíam, os soluços angustiados mexendo com sua sanidade e orientação. Arbustos surgiam e passavam reto. Galhos riscavam seus braços e pernas, quebrando diante do rosto. Sentia o corpo arder e pedir por um pouco de descanso. A respiração estava tão pesada que já nem mais parecia estar ali.

Jordana não parou. Tentaria sair com vida. O canivete continuava em sua mão, quente e escorregadio pelo suor. Em dado momento, pensou em como sairia dali se sobrevivesse. Correu o bastante para poder se perder. Tentou não se importar com isso no momento, e continuou a avançar.

— Socorro! – gritou, fazendo pássaros abrirem voo do alto das árvores e balançar as folhas sobre sua cabeça. – Alguém me ajuda!

Corria aos tropeços pela floresta, sem o sol para ajudar-lhe a calcular a passagem do tempo. Tinham-se passado poucos segundos, mas francamente pareciam horas. Não conseguia ver claramente o que acontecia em sua frente. Ouvia sons vindos de trás de si, passos, farfalhar de folhas, cigarras cantando, coelhos correndo, o vento e os pássaros balançando a copa das árvores… Ameaças vindas de todas as partes e de lugar nenhum.

Um tronco caído surgiu em sua frente e Jordana pulou com o impulso da correria. Era pequeno, mas foi o bastante para fazê-la enroscar o pé e cair. Sentiu a terra e os espinhos das árvores arranharem os braços e os joelhos. Jordana arfou, perdendo o pouco de ar que lhe restava. Em questão de segundos, se levantou, mal se importando caso tivesse quebrado alguma coisa, e voltou a correr. A única coisa que importava era sua sobrevivência. Era o mínimo que poderia fazer por Archie: continuar viva. Ele gostaria que ela fizesse isso.

Agora, tinha folhas enroscadas no cabelo, terra sujando o casaco branco e rasgos na calça. Seguiu em frente, os olhos azuis dançando pelo ambiente. Mas a floresta parecia infinita. Um punhado de arbustos surgiu e Brammall passou entre eles, arranhando os braços nos galhos. Um pouco de sangue saiu de um corte superficial. Suas mãos batiam nos troncos das árvores de forma desgovernada. O som de seus passos ecoavam no ambiente.

Então, o chão sumiu. Jordana não entendeu muito bem o que tinha acontecido, até que o corpo começou a rolar para baixo. O fato era de que tinha chegado a um declive escondido por arbustos, e seus pés acostumados a seguir em linha reta não estavam preparados para a descida repentina. A albina torceu o tornozelo e o tronco foi jogado para a frente violentamente. Grunhiu quando a face atingiu em cheio o chão e as pernas voaram para a frente numa cambalhota involuntária. O corpo virou na horizontal e começou a rolar pelas folhas e pelas pedras que haviam no declive, enquanto Jordana expelia grunhidos e urras de dor a cada golpe recebido.

Rolou e rolou por mais de dez segundos, o ombro chegando a bater no tronco de uma árvore, até que parou ao atingir o solo retilíneo novamente. Deslizou pelas folhas, deitada de bruços, os braços esticados. Levou pouco de cinco segundos para Jordana perceber a forte dor em sua barriga. Ela gritou no primeiro momento, perdendo o fôlego, e virou-se para cima. Por um momento, encarou o barranco de onde tinha acabado de cair, em seguida, tornou o olhar para a própria barriga. O canivete estava alojado a ela, um punhado de sangue saindo em fluxos constantes.

— Merda! – gritou, percebendo como estava mais ferrada agora.

Tentou estancar o sangue com as mãos, olhando ao redor, em busca do perigo. Não tinha nada. O assassino parecia ter sido despistado. As árvores não escondiam nada e nenhuma figura em forma de carrasco lhe observava. Voltou a atenção para o ferimento. Doía como o inferno, mas não era tão profundo, e foi fácil arrancar o canivete de dentro de si com um puxão só.

Jordana grunhiu, tentando não fazer mais barulho. As lágrimas secaram nos olhos e, pela primeira vez, Brammall se esqueceu de Archie. A queda e o ferimento na barriga a fizeram esquecer, e por um lado isso era bom. Agora, com o item ensanguentado em mãos, a albina nada fez além de jogá-lo para o lado, sobre algumas folhas. Levantou-se com dificuldade, apoiando a mão em uma árvore. A outra mão estava estancando o sangue da fenda em sua barriga, molhada no líquido grosso e quente, que também descia em linhas finas pelas pernas e deixava uma trilha no chão.

Olhando ao redor, Jordana ainda não encontrou nada além da floresta. Finalmente o choro voltou, assustando a ela mesma. Brammall tinha até esquecido de que continuava chorando. Voltou a correr. Bem, não correr, mas andar rápido. Não era capaz de correr naquelas condições, e seguiu adiante da forma mais ágil que conseguia, o que não era tanto assim.

Dessa vez, olhava frequentemente para os lados e para trás. Sua queda teria sido atraso o bastante caso o assassino continuasse atrás de si. Quase se deixou enganar pelo fato dele ter lhe perdido, mas quando se deu por si Jordana percebeu que seria impossível. O Carrasco continuava ali, em algum lugar. Talvez não estivesse correndo freneticamente em sua direção, mas estava ali, ela tinha certeza disso. Parado atrás de alguma árvore, escondido sob arbustos… Não importava. Poderia estar quieto, mas Brammall sabia que algo aconteceria, e por isso tinha de ser rápida. Era a calmaria antes da tempestade, sem dúvidas.

Andava a passos tortos e fracos, hora ou outra olhando para o sangue das mãos. A cabeça virava freneticamente para todas as direções, as roupas sujas e rasgadas e o corpo extremamente dolorido. Se o assassino aparecesse, não teria chances de sobreviver, e foi por esse motivo que Jordana entregou-se ao choro mais uma vez.

Estava próxima de se encolher em uma posição fetal e esperar pela morte quando sentiu uma mão pousar em seu ombro. Pulou com o susto e foi virada para trás, dando de cara com o assassino diante de si. Sem ao menos conseguir gritar, os olhos do Carrasco encararam sua pele quente e branca e o enorme facão refletiu em suas íris azuis, momentos antes da arma zunir em sua direção, lançando uma enxurrada de sangue tão forte que foi capaz, até mesmo, de sujar as folhas das árvores mais próximas.



Notas finais do capítulo

Eu particularmente gosto de capítulos voltados só pra um acontecimento, como foi esse. E caras... Ele é bem pesado, não acham? Archie começou como um suspeito da história e agora está morto. Quem será o próximo? E a Jordana? O final ficou meio em aberto (afinal, eu não descrevi onde ela foi acertada), então o que vocês acham que aconteceu com ela? Continua viva ou bye bye Jor Jor? Quais os seus pensamentos em relação a isso e a tudo o que aconteceu no capítulo? Quem são os seus suspeitos? Comentem o que acharam e até mais sz
Aliás, entramos na rodada final. Já sabem o que acontece, né? Isso mesmo: morte morte morte morte morte rsrs E pra deixar vocês mais ansiosos, a revelação do assassino vai acontecer no capítulo 27!
Aliás pt.2, adicionei um telefonema do assassino no primeiro capítulo. Não sei se lembram, mas antes ele só enviava algumas mensagens. Agora, ele também entrará em contato verbal com a Clary! Se estiver curioso, é só ir lá conferir ;)

Informação inútil mas interessante: eu descobri que tem um ator chamado Sean Hayes hahahaha Sean é o sobrevivente de Hello There e Hayes é o sobrenome da Emily. Como disse, informação inútil mas interessante, de que um cara que eu nem sabia que existia quando criei a história hahaha



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