Hello There 2 escrita por Lucas André


Capítulo 1
S02EP01 – It Comes at Night


Notas iniciais do capítulo

Ao Cair da Noite

A troca de turnos de Clary Chambers nunca foi uma escolha ruim até aquela noite, quando se viu presa em uma luta pela sobrevivência na lanchonete em que trabalhava junto de seu namorado e sua chefe.



O sininho sobre a porta chacoalhou e emitiu seu som agudo quando a mesma bateu de encontro a ele, alertando a presença de um novo cliente. Um relâmpago ricocheteou ao longe, iluminando todo o ambiente enquanto Toby apressava-se para dentro da lanchonete, e para fora da tempestade. Assim que a porta voltou a fechar e o silêncio predominou, o som da água caindo do céu foi abafado, transformando-se em um ruído fraco e constante, com as gotas grossas batendo na vidraça. O menino parou diante do local, olhando ao redor, a procura de sua namorada. Ao lado de Toby Fray, as mesas estendiam-se pelo piso xadrez, com os bancos estufados um de frente ao outro, cada um de um lado da mesa. À frente, o balcão escondia metade da porta que levava à cozinha, e apenas uma pequena janela a prova de ruído, normalmente usada para transportar os pedidos para as garçonetes, mostrava o outro cômodo.

Era por lá que Clary viu o namorado entrar, deixando os talheres de lado e se pondo a ir até ele enquanto o mesmo aproximava-se de uma das mesas ao fundo, provavelmente esperando por ela. Com as roupas molhadas incomodando o andar e as gotas de água caindo do cabelo, Toby sentou no banco estufado, o móvel expelindo ruídos e estalos provindos do couro do material. Cruzou os braços sobre a mesa e encarou a porta da cozinha, sabendo que, a qualquer momento, a garota sairia de lá. E foi exatamente o que aconteceu. Clary Chambers, diferente dele, estava seca, os cabelos presos em um coque no alto da cabeça, um sorriso no rosto, o habitual traje de garçonete no corpo e as mãos carregando uma caneca e uma garrafa de café.

Toby estava ali para levá-la embora. Havia se passado pouco mais da meia-noite. A lanchonete Springwood Diner, gerenciada por Allyson Horsdal, ficava aberta por vinte e quatro horas, e as trocas de turnos eram recorrentes entre os empregados dali. Chambers não foi diferente. Havia trocado o turno do dia pelo da noite com sua amiga Olivia Ree para ir a um show, e agora arrependia-se imensamente apenas ao ver o dilúvio do lado de fora. Com Fray sendo a sua carona, ela foi capaz de ver o jeep do menino parado no estacionamento da frente. O carro dele era o único, e o lugar estava completamente vazio. Era incomum receber clientes àquela hora da madrugada, mas a regra de 24hrs ainda se aplicava pois, na temporada de verão, muitos caminhoneiros frequentavam o lugar.

Quando a menina se aproximou, com a luz amarelada do teto clareando seu rosto e suas curvas, Toby levantou levemente o torso, aproximando os lábios dos da namorada e beijando-a docemente. Clary colocou a caneca em frente a ele, ainda sem dizer nada, e sorriu ao enchê-la de café.

— O turno já tá quase acabando – disse ela, tampando a garrafa. – Daqui a pouco poderemos ir.

— Por que tem que terminar se não tem ninguém? – tornou Fray, mais uma vez olhando ao redor. A lanchonete tinha um formato retangular, praticamente dividida em duas partes: cozinha e área para clientes. Também, uma porta na cozinha dava em um corredor que, posteriormente, levava para a saída dos fundos. Além do outdoor Springwood Diner, uma vidraça ia de canto a canto, formando a parede. Por ela, era possível ver o estacionamento e a tempestade. O céu retumbou um trovão e clareou com um relâmpago. A água ainda batia no vidro. Além dele, as mesas ao redor permaneciam vazias.

— São as regras – respondeu, levemente desinteressada. – E eu não quero ser despedida. Já volto.

De certa forma, o menino não se importava em fazer o que estava fazendo. Ele amava a garota, e era comum em sua vida ir dormir tarde, portanto o sono não era um inimigo. Ele apenas não via sentido em ficar até tarde sendo que nenhum cliente estava presente e que Ally poderia fazer todo o trabalho sozinha até que o funcionário seguinte chegasse. Mas naquele noite em especial, parecia que o garoto nunca sentira tanto sono. Os olhos quase fechavam, e ele até urrou dentro de si ao ver que a namorada lhe trazia uma xícara de café. Aquilo, pelo menos, o deixaria acordado.

Deu meia volta, andando quinze passos para longe dali. Toby tomou um gole do café e viu-a se afastar, sentindo o líquido quente descer pela garganta. Clary deu a volta no balcão, mal reparando nos itens sobre ele, e entrou na cozinha mais uma vez, deixando a porta bater sozinha. Era um lugar grande, também. Um extenso retângulo com paredes de concreto, um pouco escuro pelas lâmpadas fracas. O metal também era bastante presente, pois prateleiras estendiam-se pelas paredes, alguns carrinhos com rodinhas carregavam potes e outros itens, e uma espécie de balcão, também feito de ferro, separava o cômodo em dois. Nele, haviam fogões, assadores de frangos, fritadeiras e etc.

Do outro lado desse balcão, Chambers viu a mulher loira de costas para si. Allyson Horsdal, gerente do lugar, lavava as louças com calma. Clary se aproximou e jogou o café velho da garrafa na pia, vendo o líquido negro descendo pelo ralo. Ally agarrou o item e começou a lavá-lo. Além dos três, não havia mais ninguém no estabelecimento.

— Tem alguma coisa que eu possa fazer? – perguntou inocentemente enquanto encarava a chefa, pedindo mentalmente para que ela respondesse que não. A loira virou a cabeça para si, os olhos verdes lhe penetrando, e respondeu:

— Guarde esses talheres. – Além de ter dito de forma séria, Horsdal era sim muito gente fina com todos os seus funcionários.

Correspondendo ao pedido de Allyson, Clary pegou um punhado de facas e garfos do escorredor e um guardanapo do cabide ao lado e começou a enxugá-los. Como fundo, a chuva caía intensamente. Ali na cozinha o som era mais forte, sendo que ela ficava próxima à porta do fundo. Chambers nunca havia ficado até tão tarde no trabalho, e umas das vantagens disso era que poderia aproveitar o dia seguinte. E também não precisaria se preocupar com os pais, que moravam em outra cidade. Essa era a parte boa de ser maior de idade: se ver livre de todos. Pelo menos, era o que Clary pensava.

Terminando de colocar os talheres em uma gaveta, a menina soltou um longo suspiro, não percebendo que, ao fundo, Horsdal virava a cabeça e lhe encarava seriamente, estranhando.

— Foi você que quis esse turno – disse a loira, voltando a enxaguar os pratos. – Não tente me deixar culpada por não deixá-la ir embora.

— Não é isso – respondeu a mais jovem de imediato, fechando a gaveta e se virando para pegar mais alguns itens molhados. O nó do avental nas costas começava a lhe incomodar. – É que eu não estou conseguindo ver o Toby como antes, sabe?

Ally se lembrava do namorado meia-boca de Clary, como ela mesma dizia todas as vezes que o menino chegava. Os dois namoravam desde que a garçonete começou a trabalhar ali, e a loira frequentemente via os dois juntos. Nunca chegou a perguntar como se conheceram ou quando, nem mesmo quais eram os planos para o futuro dos dois. Com seu instinto adulto que lhe dizia sempre para ajudar os mais jovens com os problemas vindouros da juventude, respondeu, quase desinteressada:

— Bom, para mim, você deve fazer o que achar melhor – Não olhava para trás, mas conseguia sentir o peso do olhar da garota nos ombros. – O que lhe beneficie. Siga seus instintos e, se for isso mesmo que quer, apenas faça.

Clary desviou o olhar de sua chefe para o vidro que separava a cozinha do restante do restaurante. Era quadrado, do tamanho de uma janela de carro, mais ou menos. O material era grosso e feito exatamente para impedir que o som de um lado passasse para o outro, para que o som dos alimentos sendo feitos na cozinha não incomodasse os clientes. Na parte de baixo, uma espécie de portinha do tamanho de um estojo se localizava, sendo por ela que os pedidos eram passados para os garçons no balcão da frente. Era possível abri-la e fechá-la, e no momento permanecia fechada. Por ali, a morena observou Toby.

Ele continuava sentado lá ao fundo, a cabeça encostada relaxadamente no vidro e os braços jogados sobre a mesa. Percebeu o olhar vago dele encarando o exterior, se perdendo no ambiente. Os olhos quase se fechavam, e isso lembrou-lhe da primeira vez que se conheceram. Clary estava muito bêbada em uma festa, junto de sua melhor amiga Olivia, e as duas perceberam o menino quase dormente no sofá dessa festa. Se aproximaram com cautela e lhe deram um susto estarrecedor. Depois disso, os sentimentos foram apenas crescendo. E Toby era um garoto muito atraente, apesar de todas os defeitos na personalidade – como o egoísmo e a rebeldia –, tendo olhos grandes e castanhos, cabelos negros e sobrancelhas grossas.

Mas, apesar de todos esses quatro anos que passaram juntos, desde que se conheceram na faculdade, Clary percebeu que todo o amor foi se dispersando. Isso começou quando se mudaram para Oakfield. Fray havia clamado para que se mudassem para ali pois a cidade já havia sido alvo de um serial killer sete anos antes, e talvez fosse até mal-assombrada – o menino gostava muito do sobrenatural. Chambers não acreditou nisso, achando que ele só estava falando para assustá-la e que fosse só uma lenda urbana, mas mudou de opinião ao ver todas as notícias sobre como treze pessoas foram brutalmente assassinadas por dois adolescentes. O fato que mais a deixou arrepiada foi que os dois adolescentes eram amigos/conhecidos de todas as vítimas. Por fim, após toda a clemência dele, eles partiram para lá.

Talvez Clary tivesse pensado duas vezes se soubesse que acabaria trabalhando em uma lanchonete em vez de montar seu consultório de psicologia, pelo qual havia estudado e sonhado por cinco anos dentro de uma universidade pública. Mas não havia nada que pudesse fazer agora, e seguir em frente e se mudar parecia longe de todos os limites de sua vida, portanto continuaria ali até que não lhe restasse outra escolha. E parecia que esse momento estava chegando. Chambers não conseguira pensar no que seria de si sem o namorado, sendo que moravam juntos e pagavam as contas juntos. Hora ou outra teria de seguir em frente de vez.

— É… Talvez seja melhor – concordou.

Dez minutos depois, a louça havia acabado. A pia mantinha-se limpa e seca, nenhum talher ocupava o escorredor e as duas, Allyson e Clary, estavam livres para fazer o que quisessem a seguir. O dia havia sido bem movimentado, como a loira havia avisado para a jovem, e era de se esperar que uma grande quantidade de sujeira fosse surgir no período da noite. Duas grandes latas de lixo posicionavam-se ao lado da porta, e Horsdal tinha em mente levar os sacos cheios para fora. Ela olhou para o outro lado e viu Chambers enxugando as mãos com um pano de prato, o corpo cansado.

— Da próxima vez, fique com o turno do dia – disse a chefa. – Não gosto de deixar pessoas tão jovens como você presas aqui até tarde.

A mais jovem voltou seu olhar para a mais velha, sorrindo de lado.

— Não tem problema – respondeu, levando as mãos para trás, preparada para tirar o avental. – É até melhor. Tem menos gente para ser atendida e, assim, menos trabalho a ser feito. — Ela soltou um riso frouxo, enquanto Ally lhe mandou um olhar reprovador, mas, ainda assim, percebendo a ironia.

Vendo que Clary havia desfeito o nó do avental e agora o puxava para fora do corpo, a loira olhou para o relógio em cima da porta, dando a volta na bancada do meio e indo até as latas de lixo. Faltavam, ainda, alguns minutos para que o turno da jovem acabasse, e se ela quisesse receber o salário correto, deveria fazer cada segundo valer.

— Ei, ei, ei – chamou a atenção de Chambers, fazendo-a virar para si enquanto pendurava o avental vermelho no gancho ao lado da pia. – Ainda faltam trinta minutos para seu turno acabar.

— Mas não tem ninguém… – A adolescente parecia chateada, a face demonstrando isso.

— Mas alguém pode chegar – repreendeu a chefa, abrindo a lata de lixo e amarrando o saco negro para que seu conteúdo não caísse quando fosse puxado. – E eu não vou ficar aqui atendendo sozinha. Aliás, você mesma escolheu esse turno.

Clary bufou pesadamente, pegando a vestimenta de trabalho de novo. Fez um nó frouxo nas costas e só então percebeu que não havia tirado o celular do bolso do avental. Que sorte, pensou, se eu não tivesse posto de volta, iria esquecê-lo aqui. Com passos rápidos, Clary se redirecionou para a porta, notando o relógio em cima da mesma e percebendo que realmente faltava meia-hora para que pudesse sair dali. Com sorte, o próximo funcionário, por algum acaso, chegaria mais cedo e ela poderia ir embora. Mais um trovão ricocheteou quando ela saiu pela porta, reparando em Ally, pelo canto dos olhos, tirando o saco de lixo da lata.

Voltando para o balcão, via toda a frente da lanchonete pela vitrine na parede. Para quem estivesse do lado de fora, poderia ver todas as mesas e o balcão. Era uma vista privilegiada do interior do estabelecimento. O estacionamento tomava grandes metros primeiramente, e então a rua aparecia, seguida pela loja de ferragens da cidade, que estava escura e vazia. Um punhado de árvores cercava Springwood Diner, e era dessa forma que a maioria dos lugares de Oakfield era separado um do outro. A menina não passou do balcão, apoiando o torso com os antebraços e ficando de frente para as portas duplas. Suspirou fundo, cruzando as pernas, ainda de pé, e observou Toby a algumas mesas de distâncias. Dormiu, pensou ela, pelo menos não tem perigo dele dormir no volante agora.

Naquele momento, começou a pensar no que faria contanto a sua relação com ele. Provavelmente esperaria mais uma semana, pois seria quando viajaria com alguns amigos para uma cidade próxima, para ver uma exposição de artes. Aí, poderia embarcar de uma vez só para longe dali, e nunca mais voltar. Poderia até mesmo pedir para alguma de suas amigas dar em cima de Toby. De certa forma, achava mais fácil fazer com que ele terminasse com ela, do que ela própria terminar com ele. Além dos sentimentos passarem a ser menores, Clary ainda achava difícil terminar uma relação de anos, e não queria deixar o namorado triste.

Pensamentos interrompidos: seu celular vibrou no bolso da frente do avental. Desinteressada e um pouco chateada por ter de mudar sua posição tão confortável, ela vasculhou o bolso e tirou o aparelho, voltando a ficar apoiada, agora com um dos braços erguidos na frente do rosto.

Ainda olhando para o lado de fora, hipnotizada pela chuva intensa e os relâmpagos fortes que caíam, desbloqueou a tela, voltando sua atenção para o celular, apenas para ver a notificação de uma mensagem enviada por “Número Desconhecido”. Franzindo o cenho e estranhando, olhou para Toby, adormecido a algumas mesas de distância, para ter certeza de que não era mais uma de suas brincadeiras. Ele estava mais parado do que um cadáver.

Observou, então, a mensagem.

Número Desconhecido: Hello there, Clary.

Não impediu que um riso fraco saísse de sua boca. Digitou em resposta:

Clary: Quem é?

A resposta veio quase de imediato.

Número Desconhecido: A sua consciência.

Clary: HAHA. Hilário. Ou não.

Número Desconhecido: Tem razão. Não é engraçado.

Não fazia ideia do que se tratava, e estranhou a bipolaridade de seu remetente. Apoiou-se ainda mais na bancada, esperando que a nova mensagem viesse enquanto via os três pontinhos dançantes no canto da tela indicando que “Número Desconhecido” estava digitando.

Número Desconhecido: Não é para ser engraçado, é para ser sangrento.

Olhou para Toby mais uma vez, mas seus braços estavam jogados sobre a mesa, e não haviam modos dele estar mexendo em um celular. Rindo de lado, curiosa, respondeu:

Clary: Sério, quem é?

Número Desconhecido: O amigo de um amigo. Até mais, parceira.

Estava um pouco assustada, não podia negar, mas também não levou aquelas mensagens a sério. Poderia ser algum dos seus amigos que sabiam que ela estava até tarde ali e queriam deixá-la assustada, ou até mesmo Toby, que de alguma forma tinha pensado na mesma coisa.

Pensou em ir até o namorado do outro lado do recinto e lhe perguntar se era algum tipo de brincadeira idiota, mas então foi interrompida quando o telefone na bancada tocou. Pela monotonia da lanchonete, Clary se assustou quando o som rompeu o silêncio. Encarou o aparelho branco ao seu lado, imaginando quem ligaria a essa hora da noite. Normalmente os pedidos eram feitos de dia e, de qualquer jeito, não entregavam àquela hora, então o remetente teria de se satisfazer com uma bela rejeitada.

Mas por gostar de conversar e estar entediada ali, Chambers atendeu, dizendo:

— Springwood Diner. Sinto muito, mas não estamos fazendo entregas, então…

— Eu não liguei por isso — respondeu uma voz arrastada do outro lado da linha.

Clary franziu o cenho.

— Como?

— Disse que não liguei por esse motivo.

— E por que ligou, então?

— Para escutar sua voz uma última vez

Olhou para Toby, mas ele continuava imóvel. Primeiro, mensagens, depois, uma ligação. Aquilo era com certeza uma pegadinha, e os responsáveis nem mesmo sabiam fazê-la direito.

— Acha engraçado, babaca? — disse, a voz firme. — Se eu fosse você, desligava agora. Não sei se é um dos amigos desocupados e virgens do Toby, mas acredite quando digo que a melhor opção é parar de me atrapalhar antes que eu chame a polícia e você vire uma putinha na prisão.

— A única putinha aqui é você, Clary Chambers. Tão durona pelo telefone, mas acredito que não será tão forte assim quando eu for atrás de você. Todas as máscaras caem em algum momento.

Ofendida, a morena gritou:

— Só pode tá brincando mesmo! Eu não sou obrigada a ficar ouvindo merda. Vou desligar!

— Eu não faria isso se fosse você.

— E por que não?

— A não ser que queira morrer, você, Clary Chambers, vai ficar na chamada até eu dizer que pode ir. Do contrário, estará morta antes mesmo que possa dizer um "a".

Mesmo que estivesse assustada, continuou:

— Está cometendo um grande erro ao achar que é tão foda assim, sabia?

— Estou mesmo?

— É, tá sim. Acha que vai conseguir fazer alguma coisa aqui?

— Não duvidaria tão fácil.

— Pois eu duvido, trouxa. Então, a não ser que você diga quem você é, eu vou ligar pra polícia agora mesmo e contar tudo o que disse. Inclusive as ameaças e os insultos.

— Eu não tenho medo da polícia. Se tivesse, nem estaria começando com isso.

— "Começando com isso"?

— Exatamente — Ele pareceu satisfeito. — Você é só a primeira peça do quebra cabeça, Clary. Depois de você, virão outros... E mais outros, e mais outros.

— Do que tá falando? — Agora, o medo realmente se instalou no peito da garçonete.

— Oakfield pensa que se livrou de mim, mas eu sempre estive aqui. Os pesadelos não chegaram ao fim, e nunca vão chegar.

— Você é idiota?!

— Posso até ser. Mas sabe quem é mais ainda? Você mesma, por não ter ligado para a polícia desde o momento em que recebeu as mensagens. Agora já é tarde demais.

— E por que diz isso?

— Porque, agora, ela nunca vai chegar a tempo. Quando vierem, a única coisa que vão encontrar vai ser o seu corpo ainda em bom estado, apenas.

— O que você quer?! — Começou a entrar em pânico, ofegando.

— Eu quero ver como você é por dentro!

— Para com isso!

— Qual é, Clary! Você não é durona? Não é uma badass? Pois venha, vamos brincar! Vamos ver em quantos pedaços eu consigo te cortar! Vamos ver se você consegue ser rápida o bastante para fugir de mim! Vamos ver se vai fazer as escolhas certas! Vamos ver se você continuará viva até o fim desta noite!

— Vai se foder!

Desligou, batendo o telefone no gancho. Olhou ao redor, mas a única coisa que estava diferente era a posição das poças d'água do lado de fora. Toby continuava dormindo, Ally não pareceu notar a gritaria. Continuava sozinha ali na frente.

Esfregou os olhos e pensou no que fazer. A adrenalina não a fez raciocinar direito, e Clary não ligou para a polícia imediatamente. Diferente disso, deu a volta no balcão e foi até o namorado adormecido. Chacoalhou os ombros dele com cuidado, o celular pendendo de uma das mãos ao lado do corpo.

Fray abriu os olhos lentamente, sentindo a dormência do lado da cara que ficou apoiado no vidro. Estreitou os olhos para o lado e encarou a namorada.

— Eu dormi? — perguntou inocentemente, colocando-se em uma posição mais confortável e olhando ao redor. As luzes continuavam acesas, mas agora parecia um tanto mais escuro, mais sombrio.

— Dormiu — respondeu ela. — Você me mandou mensagem? Fez a ligação?

— O quê? Quando?

— Agora mesmo. Fez ou não?

— Não… Não fiz. — Ele parecia curioso. Chambers mantinha-se aflita.— Posso ver?

Clary estendeu a tela do celular na direção do namorado, deixando que ele visse.

 

1

 

Do outro lado do restaurante, Ally levava os dois sacos de lixo ao lado do corpo, cada mão carregando um deles. Estavam extremamente pesados, e se castigou internamente por não ter pedido a ajuda de Clary. Agora, no entanto, não havia volta, e de qualquer forma a porta que levava ao fundo da lanchonete, e posteriormente às caçambas de lixo, ficava logo após a curva daquele corredor. Sua face de esforço e as mãos brancas de tanto segurar demonstravam o esforço feito pela loira, mas ela continuou andando.

Diferente de Fray, ela teria de ficar ali a noite toda. Como sendo a gerente, tinha de escolher em que parte das 24hrs do dia ficaria. Sempre escolheu a parte da noite, sua vida era muito corrida e o dia era usado, sempre, para fazer suas coisas e tarefas pessoais. A lanchonete era dada como uma das melhores da região, por isso tinha muito trabalho a ser feito. Ficava próxima da saída da cidade, justamente para atrair a atenção de visitantes e viajantes, e essa fama crescia cada dia mais. Springwood Diner era conhecida pelo delicioso menu de café da manhã, que trazia bacon frito, ovos fritos, omeletes, panquecas e waffles. Os clientes aumentavam e tudo tornava-se uma loucura. Uma loucura que se multiplicou quando a irmã de Ally morreu um ano atrás.

As duas foram as únicas herdeiras restantes do estabelecimento, antes gerenciado por seus pais, e agora apenas uma delas tinha o cargo e o dobro de trabalho em mãos. Horsdal imaginava o que aconteceria quando sua própria vida chegasse ao fim, e chegou a conclusão de que Sprinwood Diner provavelmente faliria e apodreceria, sem ninguém para continuar o negócio da família, já que Allyson não tinha nenhum filho ou parente próximo. Ela até chegou a pensar em passar a gerência para algum de seus funcionários, mas todos eram jovens e, com certeza, não iriam querer trabalhar 24hrs por dia em cima de um lugar como aquele.

Virou a curva do corredor e de imediato sentiu uma onde forte de vento frio atingir o corpo. O lugar era tão escuro quanto o exterior, pois ela havia esquecido de acender a luz – e também era um pouco impossível, sendo que suas duas mãos estavam ocupadas –, e vazio. No fundo, no entanto, uma forte luz atingiu os olhos de Ally. Era como uma luz no fim do túnel, e ao observar um pouco mais, percebeu se tratar da porta aberta. Feita de metal, o material grosso estava escancarado, e a moça não se lembrava de tê-lo deixado daquela forma. Parou onde estava, vendo a chuva invadir o interior da lanchonete com as gotas consistentes, molhando o azulejo do chão, clareando todo o corredor a cada relâmpago e vibrando as paredes a cada trovão.

— Que merda…? — sussurrou, voltando a andar na direção da porta aberta.

O vento frio nunca pareceu tão forte, quase arrastando-a para trás. Ally esforçou-se a continuar, e quando finalmente atingiu a porta, começou a carregar os sacos com apenas uma mão, usando a outra para pegar o guarda-chuva encostado na parede. Saiu para o lado de fora, observando as árvores que cercavam o local e a grama baixa que estendia-se por alguns metros. À sua direita, duas caçambas de lixo verdes estavam lado a lado. Após elas, uma curva se fazia, levando para um dos lados do Springwood Diner. O lado esquerdo mantinha-se vazio, sem nada além da parede cor de caramelo.

Horsdal foi na direção de uma das caçambas, percebendo que o guarda-chuva mal fazia efeito e sentindo as roupas ficando molhadas, o som ensurdecedor da tempestade inundando seus ouvidos. O tênis esmagava o barro do chão, o vento esvoaçava seus cabelos e o corpo inteiro era clareado pelos relâmpagos. Uma das caçambas estava aberta. Ally foi até ele e jogou os dois sacos dentro, um de cada vez, escutando o som de água quando eles atingiram o interior. Por estar aberta, a água da chuva provavelmente havia criado uma piscina no interior. De qualquer forma, aquilo não era hora para aquilo, e a mulher fechou a tampa pesada, o som do ato sendo ocultado pelos trovões. Em seguida, voltou para dentro.

Colocou o guarda-chuva de lado, sentindo o incômodo das roupas grudando na pele, e empurrou a porta para fechá-la.

— Eu não deixei ela aberta… — sussurrou para si mesma, sentindo um leve medo ao pensar que algum ladrão havia entrado na lanchonete.

O metal estalou ao prender-se no batente, e dessa vez Allyson trancou-a, virando a chave na fechadura. Os sons do exterior foram abafados, e o estabelecimento voltou a ficar silencioso. Virou-se rapidamente para trás, querendo se ver livre da escuridão, mas seu corpo bateu contra alguma coisa. Imaginou se tratar da parede, mas reparou que a estrutura era mais mole do que concreto. Olhou para cima, sendo baixa demais para que seus olhos captassem cada centímetro da presença, e uma fina luz passou pelas frestas da porta quando mais um relâmpago se fez, clareando os olhos morteiros do Carrasco.

A loira recuou um passo, assustada e desorientada. A figura trajava as mesmas vestes de sete anos atrás, a mesma máscara que perseguiu e executou mais de uma dúzia de pessoas no passado. Mantinha-se parado, quase oculto na escuridão, e quando Horsdal preparou-se para soltar um longo grito, uma das mãos pressionou-lhe a boca.

 

2

 

— Vamos lá, Toby — disse Clary, apoiada na mesa com um dos punhos fechados. — Não é nada. Deixa para lá.

Estavam daquela forma fazia alguns minutos. Fray havia encanado com as mensagens e com o relato da ligação, dizendo que aquilo não era normal, que poderia ser até perigoso. Chambers revirava os olhos a cada repreendimento vindo dele, pedindo para que desencanasse, pois poderia ser apenas Olivia ou algum outro amigo. A ideia de que foi o próprio namorado havia saído de sua mente. Ele ainda digitava freneticamente na tela do aparelho, sem dar a mínima atenção para ela, tentando fazer com que o remetente respondesse-o ou falasse alguma coisa novamente.

Depois de alguns minutos, mais calma, a garota realmente tinha desencanado da ideia perigosa daquilo tudo. Resolveu não se precipitar e, desde que estivesse com Toby, estaria protegida.

— A Ally quer que você pegue um pedaço de carne e deixe descongelar, para amanhã cedo — disse ele, do nada, atraindo um olhar de curiosidade da namorada. Quando ela não respondeu e Toby encarou-a, ele continuou a falar: — Ela acabou de te mandar uma mensagem dizendo isso.

Clary tomou o celular da mão do namorado e viu a mensagem. Dizia exatamente o que ele havia falado. Bufou novamente, dando meia volta, levando o aparelho consigo.

— Me chame quando estiver pronta — avisou o garoto, agora sem dar a mínima para as mensagens, apoiando a cabeça em cima dos braços fechados sobre a mesa. Ele voltava a tentar dormir e se livrar do sono.

A garçonete não respondeu, e voltou para a cozinha. Ela continuava como antes, o mesmo local vazio, frio e levemente escuro. Mas, dessa vez, o vazio se estendeu. Ally não estava ali, e não havia sinal algum de que estava nos últimos minutos.

— Ally? – chamou, mas não obteve resposta. – Ei, Ally. – Nada.

Um leve arrepio percorreu o corpo da garçonete, e ela se perguntou onde a gerente estava. Contudo, tomou como ideia o fato de que ela provavelmente havia ido tirar o lixo, dado que as latas estavam abertas. Suspirou, guardando o celular de volta no avental, e começou a andar na direção do frigorífico ao fundo, uma porta de ferro brilhante e com trava. Como Horsdal não havia especificado o tipo de carne e Clary estava sem vontade alguma de perguntar, disse para si mesma que, provavelmente, seria a de boi, pois era com elas que faziam os hambúrgueres e essa era a refeição mais pedida no café da manhã.

Indo na direção do local, passou novamente ao lado da janelinha, percebendo Toby lá ao fundo, adormecido. Ao chegar na porta, destravou a tranca de baixo e a de cima, fazendo o som da trava ressoar por toda a cozinha. De imediato, uma pressão foi feita sobre a porta quando foi empurrada pelo frio do lado de dentro. Chambers virou a maçaneta e abriu-a de uma vez só, exibindo o interior do frigorífico para si mesma. Uma nuvem branca eclodiu dali, e o vento gelado castigou-a, fazendo a camisa de manga curta se assemelhar a um trapo. Clary arrepiou, vendo os pedaços pendentes de carne à frente. Estava escuro, e então ela passou a mão no interior do local, apertando o interruptor e acendendo as luzes dali, enquanto dava dois passos para frente.

A lâmpada deu uma estralada, e então todo o frigorífico ficou claro. O primeiro ponto de visão que a menina teve foi o chão feito de concreto. Estava limpo, a não ser por um ponto logo à frente. A mancha vermelha tinha o tamanho de um prato plástico, desregular, ainda estendendo-se pelo chão. No centro dela, gotas do líquido igualmente rubro e consistentes pingavam com graciosidade, aumentando a poça. O coração da menina acelerou antes mesmo da figura sobre a poça ser revelada. Os lábios se abriram e os olhos esbugalharam. Sobre a poça de sangue, o corpo sem vida de Allyson Horsdal pendia por um dos ganchos.

O metal curvo surgia logo no seio esquerdo dela, pouco abaixo do ombro, todo manchado de vermelho. A outra parte aparecia do lado de trás, fundindo-se ao teto e deixando-a pendurada a meio metro do chão. O líquido viscoso ainda descia pelo corpo de Ally, saindo do grande buraco em seu tórax e escorrendo por toda a extensão do corpo, manchando as roupas brancas de vermelho. Os cabelos loiros dela se embrenhavam em meio a ele também, a cabeça pendida para o lado e os olhos sem vida alguma. Os braços e pernas ainda balançavam lentamente, como se a corrente de ar da porta se abrindo os tivesse movimentado. Ao redor do corpo, pedaços grandes de carne posicionavam-se, e Horsdal misturava-se a eles.

Toda a cena fez Clary recuar. Aquilo causou uma tontura passageira na menina, os olhos dela encheram-se de lágrimas. A respiração alertou uma falta de ar e o interior frio do frigorífico desapareceu; estava quente como o inferno para ela. Não foi capaz de gritar, não foi capaz de correr na direção dela. Em tal estado de choque e pânico, a única coisa que Chambers queria fazer era sair dali. Por isso, recuou dois passos para o lado de fora e bateu com tudo em alguma coisa. A estrutura rígida, mas, ao mesmo tempo, molenga, era a mesma que a loira havia atingido minutos antes. Virou-se de supetão, encarando o mascarado.

Tudo o que pôde fazer foi desviar de um golpe vindo de seu companheiro. Quando o braço encapuzado e a mão enluvada, portadora de uma enorme faca de sobrevivência, vieram em sua direção em um movimento de arco na horizontal, pretendendo atingi-la, possivelmente, nas costelas, Clary agachou-se de uma vez só. Foi tão rápido que ela ao menos percebeu que havia acontecido. A lâmina passou próxima do topo de sua cabeça, e foi ali que seus instintos de sobrevivência foram ligados. No momento seguinte, vendo um espaço vazio ao lado do assassino, com o grito preso na garganta, Clary lançou o corpo para frente e lutou para não tropeçar na posição agachada, passando ao lado do agressor enquanto o mesmo ainda se recuperava do golpe não acertado.

Com temor, notou que era a mesma pessoa que tinha lhe telefonado. E também que o perigo era mais real do que imaginava.

— Socorro! – gritou ao atingir o exterior, voltando à posição ereta. – Toby!

Nada acontecia. O vidro de separação dos cômodos nunca foi tão eficiente, e a porta fechada não ajudava em nada. Via à frente a fileira de prateleiras e a bancada separando a cozinha em duas. A porta mantinha-se do outro lado, completamente fora de seu alcance. Com isso em mente, Chambers apenas correu na direção dela, não querendo olhar para trás ou pensar que o mascarado estava atrás de si. O desespero constante castigou-lhe a alma, e Clary não percebeu que estava correndo muito devagar. Muito menos que, por esse motivo, o assassino havia a alcançado.

Ele colocou a mão em seu ombro e afundou os dedos na carne. Com o toque repentino, a menina virou com um grito agudo, tropeçando nos próprios pés ao tentar se livrar do toque. Sentiu um calcanhar enroscar no outro e, no momento seguinte, o mundo virou. O psicopata sumiu e deu lugar para o teto. Os braços desesperado dela, em busca de apoio, bateram com força em um pote plástico, normalmente usado para transportar talheres, e virou-o na própria direção. O objeto bateu em sua face ao cair da bancada metálica, tampando-lhe a vista antes que o corpo de Clary atingisse o chão.

O mundo girou e a cabeça latejou. Foi um impacto forte. A face doía no local onde o pote havia batido, e o mesmo agora estava jogado logo ao lado. Chambers ergueu os olhos, gemendo de dor, e mesmo diante de todo o desnorteamento da queda, percebeu quando a faca foi erguida acima da cabeça de seu inimigo. A lâmina brilhou ao contato da luz e desceu em sua direção. Ela foi rápida o bastante para rolar para o lado, mal sentindo que realmente o fazia, e assim saiu da mira da arma. A lâmina estalou e ricocheteou ao atingir a grande de um duto de ar, entrando nela. Clary, ao terminar de rolar, vendo estrelas, forçou o corpo a se levantar, apoiando um dos braços na bancada.

Fechou os dedos nela e começou a se levantar, olhando para trás e vendo o Carrasco ainda agachado na posição de ataque, pronto para tirar a faca do duto. Por isso, para ganhar tempo, ergueu uma das pernas, ainda meio agachada, e chutou a face do desgraçado. Sua perna doeu, e o assassino caiu para o lado com o golpe inesperado.

— Toby! – gritou novamente. – Por favor, me ajuda!

Posicionou-se de pé, voltando a correr. Ao fundo, o mascarado fazia o mesmo. Ele era incrivelmente ágil, e em um único giro pareceu se recuperar do chute na cabeça, agarrando a faca ao lado com agilidade e voltando a perseguir a mais jovem. Clary olhou para trás e, em um momento de descuido, seus cabelos castanhos entraram na frente do rosto assim que o coque se desfez. O coração quase saiu pela boca e, de repente, ela diminuiu a velocidade. Foi quando duas mãos seguraram-na com força pelos ombros. Ela sentiu o corpo ser agarrado, transformando-se em uma presa fácil, e quando os cabelos finalmente saíram de seus olhos, Chambers viu o vidro de separação vindo em sua direção.

Bateu com tudo nele, fazendo-o vibrar. O barulho foi alto do lado de dentro da cozinha, mas quase inaudível no exterior. O nariz dela desapareceu em meio ao sangue ao ser fraturado. A garçonete gritou com a dor enquanto o membro transformava-se em uma massa avermelhada. O líquido vermelho espalhou-se pelo vidro, as bochechas de Clary sendo esmagadas e manchando-o ainda mais. Ela gritava em desespero, batendo os braços ao lado do corpo, temendo levar uma facada. O assassino atrás de si preparava-se para isso.

Pelo vidro, Chambers pôde ver Toby ainda adormecido numa das mesas, tão longe quanto a China, a cabeça ainda enfiada entre os braços. Ele estava obviamente afundando no mais profundo sono, e seus gritos e súplicas eram em vão.

No momento seguinte, a cara foi desgrudada do material rígido e transparente. O corpo foi lançado para trás violentamente. Clary viu tudo girar de novo, as costas acertaram a bancada e foram deslizando por ela. Todos os materiais caíram pelo chão, espalhando-se. O vidro do fogão rachou. Ela tentava parar a queda, mas nem mesmo isso adiantava. Por fim, ainda gritando, caiu do outro lado. O corpo retorcido logo voltou ao normal. O nariz latejava, o sangue saído dele adentrando sua boca. Lágrimas escorriam pelas bochechas. Todos os membros doíam.

A menina tornou a engatinhar na direção da porta, sabendo que nunca conseguiria pois estava muito longe dela. Virou a cabeça a tempo de ver a figura pular a bancada com facilidade. Foi em um único pulo, e logo o Carrasco estava ao seu lado.

— Socorro… – sussurrou, sem forças, deixando uma linha vermelha no chão, ainda engatinhando para longe dele. – Por favor…

Então, sentiu um peso ser colocado sobre si e a cintura foi pressionada por duas pernas, estabilizando-a ali e impedindo-a de continuar. Clary não teve tempo de olhar para trás, e quando o mascarado aprumou-se em cima dela, a mão livre dele agarrou-a pelos cabelos. A menina gemeu com a dor dos fios sendo puxados com violência, o couro cabeludo queimando, e franziu o rosto ao ter a cabeça levada para trás. Em seguida, o crânio foi entortado para o lado, inclinado para a esquerda, deixando a parte lateral do pescoço virada para cima.

A mão portadora da faca logo se ergueu, e ainda de quatro, Chambers teve a arma enterrada em si. A lâmina entrou na parte lateral direita do pescoço, a que estava exposta pelo puxão de cabelo, e afundou com facilidade, quase como se sua pele fosse manteiga. Entrou quase por inteira, deixando uns cinco centímetros para o lado de fora. Ela estalou os olhos e o sangue foi um grande companheiro. Primeiramente, foi expelido da fenda aberta. Era assustadoramente quente, escorrendo pela nuca e pelas costas, assim como pelo tórax, pingando no chão em uma cascata vermelha. Depois, saiu pela boca em um regurgitar violento, deslizando pelo queixo.

Não conseguia respirar ou gritar, muito menos mover algum músculo. A dor intensa tornou-a em uma estátua. A mão enluvada do Carrasco ainda segurava o cabo com firmeza, a outra agarrando os cabelos da menina. Logo, todos os sentidos da garota foram perdidos. Uma facada na garganta foi a causa de sua morte, e o corpo despencou para o chão, morto, deixando que uma extensa poça de sangue começasse a se formar.

 

3

 

Levantou-se de sobressalto. Abriu os olhos com força e ergueu a cabeça, encarando o ambiente à frente. A lanchonete continuava igual fisicamente, mas a sensação era de que era o único no local. Espreguiçou-se e checou o celular, percebendo que era quase uma da manhã, quase o fim do turno da namorada. Assustou-se e olhou para o lado, percebendo que a chuva havia parado de cair e agora o asfalto do estacionamento estava molhado. O silêncio foi assustador, e então Toby levantou-se.

— Clary? – perguntou. Nada veio como resposta. – Clary.

Começou a andar na direção da cozinha. Ela já deveria ter lhe chamado até aquele momento. Estava frio também, sombrio. Ele cruzou a área das mesas e ficou na frente do balcão, tornando a chamar:

— Ei, Clary. – Nada novamente. – Tem alguém aqui?

Esperou por alguns segundos, observando cada centímetro do local. Foi quando percebeu uma mancha estranha no vidro que separava os dois locais. Era desregular e incrivelmente vermelha, grossa. Um arrepio tornou o corpo do menino, e ele se preocupou, achando se tratar de sangue. Do outro lado, a cozinha estava vazia. Não havia ninguém lá, pelo menos se vista de onde Fray estava. Sem resposta alguma e dezenas de perguntas na cabeça, o menino deu a volta e foi até a porta.

As roupas já haviam secado, e ao olhar para trás ele percebeu uma linha molhada que saía da porta da frente e chegava até a mesa em que estava anteriormente. A caneca de café vazia continuava lá. Passou pela porta e se deparou com a cozinha. Nunca havia entrado ali, e foi uma descoberta para o menino. Toby reparou nos talhares e objetos espalhados pelo piso, estranhando.

— Clary, você tá aqui? – perguntou. – Ally?

Foi até o vidro ensanguentado, observando com curiosidade. Estava levemente seco, mas ainda um pouco fresco. Isso fez ele arrepiar mais uma vez. Voltou a olhar ao redor. Todo o ambiente parecia uma cena de luta, como se algo de ruim tivesse acontecido, e por isso Fray ficou ainda mais preocupado. Começou a dar a volta na bancada.

— Ei, Clary… Se isso for uma das suas brincadeiras, você tá muito ferrada – dizia enquanto pulava os garfos e facas sobre o chão. – Tudo bem, eu me arrependo de ter te assustado tantas vezes, mas isso aqui não tem graça nenhuma.

Virou na curva e percebeu uma fritadeira borbulhando com óleo quente, o líquido amarelado fervendo e expelindo gotas consistentes quando as bolhas estouravam. Toby sentiu certo calor ao passar ao lado, mas não prestou muita atenção, tornando a andar. Não deu mais de cinco passos, e logo um de seus sapatos chutou alguma coisa. Ele abaixou o olhar, percebendo uma estranha figura numa das prateleiras inferiores. Prestando mais atenção, percebeu se tratar de uma mão.

O garoto recuou um passo, encarando aquilo com a bile subindo pela garganta, reparando na extensa poça de sangue no chão. O mesmo sangue que ainda escorria do interior da prateleira. Para ter certeza do que era, Toby abaixou-se levemente e puxou a porta.

No mesmo instante, o cadáver de Clary caiu diante de si em um impacto seco. Primeiro, achou se tratar de uma brincadeira, mas a grande quantidade de sangue e a fenda aberta no pescoço da namorada lhe provaram o contrário. Expeliu um grito de horror enquanto o corpo rolava pelo chão e parava de barriga para cima, os olhos quase ocultos pelo líquido vermelho lhe encarando. Tateou para trás de si, procurando alguma estabilidade para que não caísse diante do choque, e foi quando passos pesados e frenéticos surgiram de trás de si.

Virou-se de supetão, observando com temor a figura encapuzada vindo em sua direção. A faca de sobrevivência foi estendida no meio do caminho, e com o pouco de sanidade que ainda restava no corpo de Fray, ele olhou ao redor e começou a calcular seu próximo passo. Conseguia ver o escorredor à direita, e um portador de panelas à esquerda. A fritadeira com óleo quente estava muito longe. Quando o Carrasco estava a apenas um metro de si, o braço de Toby agiu sem ao menos pensar, agarrando uma das panelas ao lado. Em um único golpe, trouxe o braço de volta para frente, acertando a mão do assassino, a mesma que portava a faca. A arma voou para longe, saindo do aperto dos dedos, batendo na parede e caindo longe do alcance dos dois.

Desnorteado pelo ataque repentino, o assassino não conseguiu se proteger quando mais uma panelada veio, dessa vez no alto do estômago. Toby não fazia ideia do que estava acontecendo, mas tinha certeza de que não se tratava de uma pegadinha, e tinha mais certeza ainda de que aquela era a mesma máscara que aterrorizou um grupo de adolescentes sete anos atrás. O maníaco envergou-se para frente, pressionando a barriga, e foi quando o garoto pôs-se a correr dali.

— Socorro! – gritou. Por acaso, talvez, Ally ainda estivesse ali, e assim poderia ir ajudá-lo. Mal sabia ele que, na verdade, a moça estava pendurada por um gancho no peito logo atrás de si. – Por favor!

Tremendo-se por inteiro, não obtendo tempo para chorar pela namorada morta, pulou o corpo da mesma em sua busca pela sobrevivência, mas mal terminou de fazê-lo quando uma mão agarrou-lhe pela gola da camisa. Um tranco repentino e forte, capaz de puxar Toby para trás com tudo. Sentiu seu corpo bater de encontro ao do Carrasco, e em seguida os dois começaram a despencar. Foi um impacto forte, e quando se deu por si, estava de costas sobre o inimigo, ambos praticamente deitados sobre a bancada. Debateu-se na busca de se livrar das mãos enluvadas enquanto as mesmas agavam-se a si. Em meio aos movimentos bruscos, a panela voou de sua mão.

Jogou a cabeça para trás, tentando acertar uma cabeçada no outro, mas de nada adiantou, e só conseguiu se ver livre quando escorregou pelo metal da bancada, quase caindo quando os pés atingiram o chão. Lançou o corpo para o lado e viu o mascarado saindo de sua posição deitada, pegando, sem pensar novamente, vendo como única saída, um pequeno rádio posto na prateleira acima da bancada. Puxou-o pelo fio e fez um movimento de arco. Ele foi arrancado da tomada e a caixa metálica voou pelo ar, acertando com força a cabeça do mascarado. Diferente de Clary, o assassino estava tendo muito trabalho em combater essa vítima.

O corpo do acertado foi jogado para o lado, e as mãos agarraram de imediato um pote repleto de garfos, facas e colheres, enquanto Toby ainda se recuperava do golpe com o rádio, jogando-o para o lado, e voltaram com tudo para cima do menino. O Carrasco lançou os objetos cortantes para cima dele, e no impulso de não ter os olhos perfurados, protegeu-se com os braços. As facas fizeram linhas finas nos antebraços e ombros, os garfos quase afundaram-se na pele. Fray gritou quando os cortes começaram a arder, todo o ambiente tornando-se uma sinfonia do horror de gritos, urros e metal batendo contra metal.

— Me deixa em paz! – berrou com todas as forças, recuando alguns passos enquanto abaixava os braços. – Não! – O assassino voltou a correr em sua direção, e dessa vez sem chances de se proteger, o menino teve o peito pressionado com força em um empurrão bruto. Havia voltado para o lugar de onde veio, e quando entendeu quais eram as intenções do agressor, desesperou-se e gritou com todas as forças.

A fritadeira se aproximava, os braços se debatiam e as pernas tentavam se afastar. Mas o aperto do mascarado era muito forte, e Toby poderia tentar se livrar daquilo o quanto quisesse, pois nada adiantaria. O óleo fervente chegou mais perto, e no momento seguinte uma das mãos do assassino pressionaram a cabeça do menino na direção dele. O calor foi escruciante, o membro dele, mesmo que tentando voltar para trás, ficou a centímetros do óleo borbulhante. Toby gritava no esforço de se afastar do líquido, as mãos agarradas na bancada pressionando o corpo para a direção oposta. Bolhas estouravam a centímetro de sua pele, queimando-lhe. O psicopata, por sua vez, continuava forçando-o naquela direção.

Com seus últimos esforços, enquanto achava que teria a cabeça afundada no óleo quente, sentindo a lateral do rosto queimar em uma dor lancinante e o corpo inteiro doer, desprendeu um dos braços do aperto do mascarado e deu uma cotovelada violenta no primeiro ponto de seu agressor que encontrou. Sentiu o cotovelo bater nele e em seguida o aperto foi desfeito. A cabeça de Fray foi para trás com tudo, se afastando do líquido, e virou-se de imediato para o Carrasco, preparando-se caso alguma coisa viesse a seguir. Pela forma como o outro pressionava o pescoço com ambas as mãos e a respiração sob a máscara ficava pesada e entrecortada, quase como se estivesse sem ar, Toby percebeu que havia acertado o pescoço do assassino.

Então, no momento em que começava a virar os calcanhares e começar a correr, o maníaco moveu-se novamente. Um soco veio em sua direção, o punho enluvado se aproximando tão rápido que ao menos teve chance de desviar. O olho direito latejou ao impacto, as pernas desestabilizaram. Toby foi ao chão de uma vez só, virando para o outro lado enquanto o fazia, tamanha foi a força do golpe. Grunhiu de dor e o ar foi perdido quando o peito bateu no chão. Suas mãos ao lado do corpo dançavam freneticamente pelo piso, a visão tornava-se estrelas e escurecia. Estava desnorteado, tonto.

— Por favor… Não me mata…

Tornou a alcançar algum apoio para se levantar o mais rápido possível. O corpo inteiro doía, o desgaste da luta foi às alturas. Olhou ao redor com grande curiosidade e medo, tentando encontrar a localização de seu inimigo. O tórax saiu do chão e as pernas ficaram eretas. Ao fundo, o mascarado procurava por alguma arma com a qual pudesse finalizar o rapaz. Por fim, ao olhar para a direita, encontrou um assador de frangos. O equipamento com portas de vidro guardava algumas lâminas de assar o alimento. De uma vez só, enquanto Fray, à frente, começava a se estabilizar, o maníaco quebrou as portas de vidro e agarrou uma das armas.

Sem tempo para se proteger, Toby foi acertado por uma delas em um movimento ágil. Era no formato de um tridente, com quatro grandes hastes metálicas e afiadas formando um quadrado. Uma quinta haste formava-se no centro das outras quatro, elevando-se a elas. O objeto cravou-se nas costas do menino. Foi de uma vez só, e ele parou onde estava. Olhou para baixo, a procura do ponto de dor, e conseguiu encontrar as cinco pontas metálicas projetando-se para fora de seu peito, molhadas de sangue.

As lâminas haviam perfurado-o por inteiro, entrado pelas costas e saído pelo peito, perfurando todos os seus órgãos internos, empalando-o por completo. O sangue escorreu como nunca, saindo de todos os dez furos. Um regurgitar violento veio da boca de Toby, as mãos do Carrasco ainda forçando a arma para o interior dele. As lâminas afundavam ainda mais, aparecendo do outro lado, deslizando lentamente.

Em um último suspiro, a vida foi se dissipando dos olhos do garoto e, de repente, ele se tornou apenas mais um entre todos os corpos sem vida daquela noite infernal.



Notas finais do capítulo

AAAAAAH Estamos de volta!!!! Espero que tenham gostado desse capítulo. Ele é o "first blood", a cena de abertura de Hello There 2. Segue a mesma linha de Hello There 1. No próximo, teremos a apresentação dos personagens e os primeiros mistérios que rondarão a vida das nossas sobreviventes.

Dreamcast oficial da história sz: http://fanficsweirno.blogspot.com/2018/06/cast-hello-there-2-temporada-02.html

Me digam se gostaram, o que acharam e suas críticas! Até mais ^^



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