A Criação da Luz escrita por André Tornado


Capítulo 46
Nuvens


Notas iniciais do capítulo

"Como resultado, tinha-se castigado a si próprio. Uma por uma, fechara as portas e obstruíra as janelas que em tempos lhe tinham dado acesso aos prazeres da vida."
in O Artista da Morte, Silva, D., 1117, 2012



Um pressentimento inquietante despertou-me das deambulações mentais, como sonhos acordados, em que mergulhara depois de termos deixado o sistema Hosniano. Experimentei uma ansiedade esquisita, ao me endireitar na cadeira. Não conseguia recordar nenhuma das visões que me tinham acompanhado durante o breve trajeto, se eram imagens de coisas que já tinham acontecido ou possibilidades do que estava por acontecer. Aclarei a garganta, esfreguei os olhos. Envolvi o punho do sabre de luz com os dedos.

Descobri porque tinha despertado. A resposta estava na janela. Um imenso fundo negro salpicava-se de infinitas luzes minúsculas. Se já conseguia vislumbrar as estrelas, tínhamos saído do hiperespaço. Iko afinava os instrumentos e verificava os vetores fornecidos pelo computador que lhe permitiriam a aproximação definitiva ao nosso destino.

Na calma exterior do firmamento repousava um planeta em tons rosáceos. O principal mundo do sistema de Bespin, um gigantesco planeta gasoso, rico em gás Tibanna que era explorado por uma instalação mineira consideravelmente próspera desde os tempos da Antiga República, onde se situava a Cidade das Nuvens. A pouca distância encontrava-se uma nave quase tão gigantesca como o planeta, rodeada por diversos veículos estelares que, pelas suas formas invulgares, tinham pertencido ao Império Galáctico. Não precisava de nenhum computador a identificar a assinatura daquele imperial star destroyer para saber que, para além do código alfanumérico único, tinha um nome também único: Belirium.

Gostaria de poder fazer uma transmissão para Primeiro Hosniano, pedir que me ligassem à sala de comando do conselho de guerra e de declarar num tom solene, semelhante à eloquência irrepreensível de Mon Mothma:

— Princesa Leia Organa Solo, é altamente improvável, mas o facto é que O’Sen Kram possui dois imperial star destroyers de dimensão considerável que escaparam ao desmantelamento do fim da guerra.

Um calafrio ia-me roubando a coragem.

Tal como suspeitara e descobrira, Kram estava em Bespin. Luke Skywalker também.

Um aviso sonoro surgiu do computador e debrucei-me sobre o painel para auxiliar a navegação de Iko. Afastei todos os pensamentos que me podiam turvar o raciocínio e ocupei a minha atenção nos problemas mais imediatos. A nossa entrada na Cidade das Nuvens não iria ser fácil com uma comitiva de boas-vindas como aquela, formada pela Belirium e restante escolta.

— Estás a vê-las? – E apontei para o agrupamento de naves.

O monstro respondeu-me afirmativamente, acompanhando o aceno com uma rosnadela breve. Agarrava-se aos comandos e conduzia vagarosamente o nosso veículo pelo espaço. Espreitei o monitor do sistema de navegação. As linhas indicavam-nos dados normais, sequências do vetor que utilizávamos.

— Não nos vão deixar passar… Eu não deixaria! Estão a pedir-nos alguma senha?… Não? Que estranho… Não estou a gostar disto, amigo.

 Até ali, tudo corria bem. Nenhuma mensagem de advertência, nenhuma comunicação áudio a interpelar-nos sobre o que fazíamos no sistema, nenhuma solicitação de códigos de autorização, nem um pedido formal de identificação. Começava a desconfiar de que estavam à nossa espera e de que tinham ordens para não nos impedirem de chegar ao planeta.

Contudo, não devia ficar tão espantada. Se eu perseguia Kram, ele saberia que eu estava atrás dele. Se Luke Skywalker se encontrara com ele e se ainda não acontecera um primeiro recontro, a conversa teria levado seguramente o cavaleiro Jedi a mencionar-me, após uma provocação do senhor do trono negro. O interesse por mim era mútuo. Luke queria descobrir o que me ligava a Kram, Kram desejaria conhecer o que me ligava a Luke.

O planeta gigante ficou mais próximo após uma viragem muito suave, em que a nave se inclinou lentamente para a esquerda. A proa da Belirium desapareceu da janela e deixámos de ver as naves imperiais quando o nosso transportador passou graciosamente pelas luas do planeta e penetrou na atmosfera de Bespin. Os motores troaram barulhentos, a carlinga estremeceu. O painel de navegação acendeu-se, corrigindo a sustentação e os consumos da nave.

— Nada a assinalar, até agora – informei, apertando diversos botões.

As nuvens alaranjadas, rosa e amarelas, que constituíam os grandes bancos de gás natural, envolveram a nave que sobrevoava sem sobressaltos aquele mundo gasoso. A calma era total no exterior.

— Não estou a gostar disto.

Iko rosnou para me sossegar.

Espreitei a janela, para melhor visualizar o interminável tapete nebuloso. Voávamos completamente sozinhos. Procurava pelos carros espaciais de cápsula dupla que costumavam escoltar todos os veículos interestelares que se aproximavam de Bespin, mas não havia nada lá fora para além de um silêncio etéreo e colorido.

Era notório que o sistema tinha sido capturado pelo exército inimigo, tal como tinha sucedido com Coruscant. Mas não acreditava que não se mantivessem os procedimentos de segurança e de controlo obrigatórios para todos os veículos que pretendessem uma aproximação ao planeta. Simplesmente, era incongruente e assustador.

A Cidade das Nuvens surgiu a meus olhos como uma visão encantada, que me fez esquecer os receios e as desconfianças. Já a conhecia das minhas memórias implantadas, mas vê-la pareceu-me irreal. Era grandiosa e sublime, a flutuar entre as nuvens, com os seus edifícios altaneiros e harmoniosos a riscar os céus brancos, com mil luzes intermitentes em cada torre. Fiquei completamente rendida ao seu vulto magnífico. Era impressionante que existisse uma metrópole a pairar, assente numa fina coluna, sobre o gás que se revolvia em espirais debaixo desta. O que a mantinha suspensa no vazio, todavia, não era a coluna, mas um grande reator circular disfarçado na base e que deixava a ilusão de haver uma cidade a emergir deslumbrante no meio de nuvens de carmim.

Iko puxou as alavancas, diminuímos a velocidade.

A plataforma de aterragem encontrava-se deserta quando o transportador aterrou aí com suavidade. Assim que os motores foram desligados, desapertei o cinto e saí da carlinga. Postei-me na porta de saída, Iko carregou no botão que acionava a rampa que começou a sua descida entre estalidos. Armou-se com a sua carabina laser E-5. Eu já estava armada, desde que saíra de Luyta, com o meu sabre de luz e a minha pistola laser DH-17. Disse-lhe que sim com a cabeça. Estava preparada para sairmos.

Uma rajada de vento bateu-me na cara quando desci para a plataforma. Não se via vivalma, não se escutava um som para além da ventania que passava pela pista. Descortinei no fim do passadiço de acesso um portão preto fechado. Iko adiantou-se, eu saquei da minha pistola e armei-a. Dos meus reflexos dependia a minha vida e estava consciente de que nos aguardavam muitas surpresas naquele sítio. Não considerei usar o sabre de luz, ainda não estava suficientemente treinada para servir-me dele com a eficácia necessária para rechaçar qualquer ataque. Iria usá-lo em Kram, claro, mas contava que fosse contra outro sabre de luz e que essa experiência iria ensinar-me a técnica à medida que a luta progredisse.

O monstro carregou no botão do painel que abria o portão.

— Tem cuidado – avisei.

Rosnou-me o mesmo. Temia por mim, eu temia por ele.

A grossa chapa metálica recolheu-se verticalmente e abriu-se um amplo corredor de um branco imaculado, que se subdividia noutras passagens mais adiante. Tal como na plataforma, não se via ninguém e a calma era absoluta.

Entrámos no perímetro da Cidade das Nuvens com todas as precauções, de olhos bem abertos, passos cautelosos, a segurar nas respetivas armas, dedos sobre o gatilho. O abandono que víamos por toda a parte era seguramente aparente e haveria para nós, algures, no virar de uma esquina insuspeita, um encontro desagradável. As naves que tínhamos visto no espaço não estavam ali por acaso.

Desde que chegara à metrópole tinha uma ligeira impressão sobre os ombros e a cabeça pesada. A pedrinha negra batia normalmente, o que me deixava menos apreensiva, mas estava plenamente consciente de que a minha presença já tinha sido detetada. Não somente pelo exército de Kram, que tinham claramente assaltado e tomado o sistema de Bespin, mas pelo próprio Kram. E também por Luke Skywalker. Duas presenças caminhavam ao meu lado, espíritos que vinham até mim através da Força, poderosos e antagónicos. Enfrentavam-se pelo futuro da galáxia e pela minha posse, provocando vibrações tão fortes que me causavam uma pressão dolorosa na pele, quase impercetível.

Apressei o passo, queria depressa encontrar-me com eles. Ao mesmo tempo, exultava porque se eu sentia dois espíritos significava que o meu mestre ainda não tinha sucumbido.

Nisto, o alento fugiu-me do peito, os meus joelhos fraquejaram, o meu corpo sacudiu-se com um espasmo. Tornei-me pálida, grossas gotas de suor gelado perlaram-me a testa. Senti uma mão invisível arrancar-me a alma. Apoiei um braço na parede para não cair. Iko acercou-se, a rosnar aflito.

— Eu… estou bem… – ofeguei, limpando o rosto com as costas da mão que segurava a pistola.

A Força tinha sido anulada. Logo que a energia cósmica faltou e deixou de me envolver, o ânimo fugiu-me e ia perdendo os sentidos. A pedrinha negra tinha morrido, o ar saturou-se de uma densidade vazia que acentuou ainda mais o silêncio. Compreendi que esse ataque cobarde tinha partido de Kram que podia destruir a Força, que utilizara esse estratagema vil para derrubar o cavaleiro Jedi.

— Já estou melhor. Podemos ir, Iko. Precisam de mim e não me devo demorar…

Luke estava em perigo. Kram desejava recuperar-me e sabendo-me na Cidade das Nuvens, assegurava-se de que a sua armadilha tinha resultado. Utilizara o engodo correto e descartava-se deste sem pejo ou remorso, quando não lhe fazia mais falta pois eu tinha chegado e regressava para a sua zona de influência. Comigo, a conquista do Universo era apenas uma questão de querer, não de poder. A decisão não pressupunha qualquer percalço ou dúvida. Constituía uma sólida certeza. O jogo no seu final glorioso.

O monstro e eu retomámos a caminhada.

A pedrinha negra, aos poucos, tornou a bater. A Força regressava timidamente e eu agarrei-a sôfrega, alimentei-me dela, fechei-a em mim, escondi a minha aura para que Kram não me voltasse a atingir ou conseguisse encontrar-me naquele labirinto alvo de ruas solitárias. Luke contorcia-se para sobreviver na ausência da Força e eu encetei uma curta corrida para chegar depressa ao local onde eu sentia a aura do meu mestre.

Subimos alguns degraus que nos deram acesso a uma passagem superior. Iko ia à frente, olhei para trás para verificar que não seríamos atacados pela retaguarda. Na esquina próxima estacámos, como se tivéssemos apanhado em cheio com um raio paralisador.

Soldados com o uniforme vermelho e negro faziam uma patrulha naquela galeria.

— Abram fogo! – ordenou o oficial.

Um disparo eclodiu por cima dos meus cabelos. Um braço peludo puxou por mim e refugiámo-nos atrás da esquina, que nos servia de barricada e ajudava-nos a ripostar ao ataque dos homens de Kram.

O meu protetor disparava ininterruptamente e eu imitei-o. Agachada para permitir que o monstro me cobrisse com o seu corpo maciço e atirasse a partir de uma posição mais elevada, para alcançar o fundo da coluna inimiga, premia o gatilho mecanicamente. Via pouco por causa do fumo branco formado por cada explosão, o zunido dos tiros era assustador.

Um soldado caiu, varado por um disparo certeiro do monstro. Recolhi-me, encostei-me à parede a retomar o fôlego. Não iríamos conseguir vencer aquele pelotão. Nós éramos apenas dois contra um grupo bem armado e muito bem treinado. Se não saíssemos daquela esquina, acabaríamos por cair nas suas mãos. Não pretendia que me levassem a Kram, queria ir pelo meu próprio pé.

Descortinei um turboelevador, o único senão era que se encontrava do lado oposto onde estávamos e, para chegar a ele, teríamos de sair do nosso esconderijo e atravessar a galeria onde se acantonavam os soldados a disparar sobre nós. Era preciso arriscar.

— Protege-me e segue-me! – berrei, apertando a pistola.

Iko rosnou um protesto, mas eu só pensava no meu próximo salto.

Fixei o painel de comandos do turboelevador. Sustive a respiração. Desatei a correr a disparar para o lado. Os raios laser dos soldados passavam a milímetros de mim. O monstro cobria a minha corrida com outros disparos criando um muro mortal para que os soldados se coibissem de atirar sobre nós, mas havia aqueles que por temor ao seu oficial não soltavam os dedos do gatilho.

Carreguei no botão do painel, a porta abriu-se e atirei-me para dentro do cubículo tubular. Apontei a pistola ao fumo e disparei até ver Iko entrar no turboelevador. Escutei os gritos do comandante do pelotão a ordenar aos seus subordinados que fossem atrás de nós, que nos impedissem de escapar. Tarde demais, felizmente para nós. A porta fechou-se, um último tiro furou as paredes interiores, protegi-me com os braços. O turboelevador começou a descer e levou-nos para longe daquela comitiva hostil.

Destapei o rosto, mais aliviada.

— Não estão para brincadeiras… Sim, já sei o que estás a pensar. Se eu estou a ir ao encontro de Kram, mais valia que me entregasse e poupava-nos estas voltas num lugar que desconhecemos. Mas acho que não iria resultar, amigo. Aqueles são de disparar primeiro e perguntar depois…

Iko grunhia e rosnava.

— Eu sei por onde estou a ir. Basta seguir… a aura de Luke Skywalker.

Uma sombra toldou-me o semblante. Não era nada fácil de seguir, pois cada vez sentia-a mais débil e a esvair-se rapidamente para a obliteração. O meu coração apertou-se. Temia estar a distrair-me demasiado.

A curta descida terminou com um solavanco. A porta deslizou suavemente. Iko colocou-se à minha frente. Não vi claramente o que aconteceu a seguir. Surgiu uma voz, um tiro, um ronco irritado, o silêncio. Espreitei pela abertura que o monstro criava entre o braço esquerdo e o seu corpo peludo e descobri um soldado deitado de borco, com um buraco fumegante nas costas.

De seguida, Iko ordenou-me que corresse para o corredor da direita e eu obedeci. Escutei o som das botas a matraquear o chão das passagens contíguas. Dois raios vermelhos passaram ao meu lado, um deles rasou a capa e ter-me-ia atingido não fosse essa grossa peça de vestuário. Iko voltou-se e, sem diminuir a velocidade da corrida, respondeu com alguns disparos. Não tiveram nenhum efeito prático, já que não acertaram em ninguém, mas por alguns segundos travaram os nossos perseguidores.

O corredor dividia-se em dois. Não sabia qual direção tomar. Ainda avancei para o da esquerda, mas decidi-me e enveredei pelo da direita. Parei junto a uma porta estreita, abri-a e entrei numa passagem secundária mal iluminada. Assim que Iko se juntou a mim ordenei:

— Tranca a porta!

A chapa metálica fechou-se, o monstro rebentou com o painel de comandos. Recuperava o fôlego quando descobri uma luz azul na penumbra. Saltei com o susto e encostei-me à barriga peluda de Iko. Apontei e guinchei:

— Além!

Ele apontou a carabina laser mas uma sensação que me arrepiou os cabelos na nuca fez-me dar-lhe uma palmada no braço.

— Não!

Rosnou-me confuso.

Eu aproximei-me da pequena luz. Enfiei a pistola no cinto, assentei um joelho no chão, estendi a mão.

— Está tudo bem, pequenino… Sou eu.

O androide apitou timidamente. Chamei-o com um aceno. Acrescentou uma série de silvos mais alegres quando me reconheceu, extraiu o seu terceiro apêndice locomotor e rolou até mim.

— Artoo!

Fiz-lhe uma carícia na abóbada que girava enquanto piava aliviado, relatando as suas atribulações na Cidade das Nuvens. Tinha perdido o seu amo, estava a tentar escapar dos soldados inimigos que o perseguiam e que não hesitariam em rebentar-lhe com a carcaça se o descobrissem, por isso tinha-se metido por aqueles corredores mais sombrios, que passavam debaixo das ruas principais daquela estação mineira. Percebia-o tão claramente como entendia os grunhidos da criatura dos lagos Kendon.

— Aconteceu como da primeira vez que estiveste na Cidade das Nuvens com o Luke… Perdeste-te dele.

Artoo apitou afirmativamente.

— Eu sei. Não temas, agora as coisas vão ficar melhores. Estou aqui para salvá-lo.

O pio descrente fez-me sorrir.

— Sou quase um Jedi, pequenino… Oh, está bem! Já viste muita coisa nesta galáxia… Bem, confiando ou não em mim, sou a melhor hipótese do teu amo. Por isso, vou continuar a procurar por ele.

Apresentei o androide ao meu protetor, cumprimentaram-se mutuamente com gestos desengonçados e rígidos, entre rosnadelas e apitos. Massajei os ombros, ajeitei a capa no pescoço, toquei na pedrinha negra. A sensação da presença de O’Sen Kram e de Luke Skywalker, embora inconsciente, tornara-se mais forte.

Na passagem exígua reinava a mesma calma inquietante que tínhamos encontrado nas ruas despovoadas que ficavam mais acima. Os nossos passos e o deslizar do astromec ecoavam nas paredes, refletiam-se no teto baixo. Artoo rolava uns passos mais adiante, a verificar a segurança do nosso caminho, Iko atrás de mim estava atento aos movimentos suspeitos, com o dedo no gatilho da sua carabina laser E-5. Eu empunhava novamente a minha arma.

Após algum tempo de caminhada, a passagem terminou numa porta idêntica àquela que lhe dera acesso. O monstro adiantou-se-nos, carregou no botão do painel, a porta recolheu-se verticalmente. Dois soldados surgiram. Vi-os e saltei para cobrir Artoo, apontando a pistola. O monstro enviou dois disparos certeiros. Eu também premi o gatilho, três vezes. Os homens explodiram em fagulhas e caíram fulminados.

Com receio de que o barulho dos raios laser atraísse outros soldados, saímos dali rapidamente, sem avaliar os estragos provocados.

Descemos um lance de escadas, Iko carregou com o astromec degraus abaixo, evitámos os turboelevadores pois estariam vigiados depois de termos escapado por um deles, e entrámos num complexo sombrio, com um zumbido permanente a inquinar a atmosfera, como se um gerador estivesse a trabalhar algures. O chão era coberto por placas rendilhadas e nas paredes escuras existiam portas, em intervalos regulares, hermeticamente fechadas.

Olhei em volta.

— Que lugar será este? Artoo, consegues ligar-te a um terminal do computador central e descobrir onde estamos? – Apitou-me num tom otimista. – Eu sei que adoras realizar essas pequenas transgressões… Também temos de descobrir onde andam os soldados inimigos, para podermos evitá-los.

Surgiu um oficial no corredor. Pelas estrelas no uniforme, deduzi ser um capitão.

— Quem são vocês? O que fazem aqui? – inquiriu ameaçadoramente, ao mesmo tempo que sacava a sua arma.

O gesto ficou-se pela intenção. Iko disparou de imediato e eliminou o capitão.

— Deve haver mais soldados por aqui… – observei preocupada.

Passámos pelo corpo do homem e descemos para um piso inferior, com Iko a voltar a carregar Artoo, onde o zunido aumentara de intensidade. Ao olhar com mais atenção reconheci a área de detenção da Cidade das Nuvens onde Darth Vader tinha torturado Han Solo, onde Leia e Chewbacca estiveram encarcerados, com Threepio transformado numa sucata dourada desconjuntada.

— Isto não é bom. Podemos ficar encurralados aqui.

Encontrei um terminal do computador e pedi a Artoo que se ligasse a este. Iko vigiava o corredor, mas aparentemente o local parecia sossegado. O androide astromec fazia as suas explorações ilícitas no sistema central quando eu senti um estremeção. Aproximei-me de uma porta, ligeiramente atordoada. Estava alguém ali dentro.

— Iko, chega aqui. Consegues arrombar isto e entrar na cela?

O monstro negou-se a abandonar a sua vigilância.

— O que raio se passa contigo? Chega aqui! Está alguém preso e acho que o devemos salvar.

Urrou inquieto e apontou-me a carabina laser. Indignei-me.

— O que pensas que estás a fazer?!

Artoo assobiou e voltei a cabeça. Cobri a boca para não gritar. Um vulto silencioso parara entre a penumbra. Era um homem calvo com um dispositivo que lhe rodeava a cabeça, que emitia luzes piscantes que cortavam a escuridão e que se ligava ao computador central da estação mineira, que Artoo explorava ilegalmente. Parara perante a ameaça da carabina laser de Iko. A minha mão crispou-se sobre a minha pistola, mas o braço pesava-me demasiado e era como se fosse incapaz de levantá-lo.

Reconheci o mordomo da Cidade das Nuvens, que servia fielmente o seu barão administrador.

— Lobot…

Sem desfitar o ciborgue, fiz um sinal ao monstro.

— Iko, não dispares. Eu… conheço-o. Quero dizer, sei quem ele é. Faz parte dos amigos, não dos inimigos. – Engoli a saliva que se acumulara na boca. – Lobot, o que fazes na área de detenção?

Avançou um passo. Os olhos moveram-se na direção da porta que eu assinalara. Artoo piou. Conseguira a preciosa informação sobre a localização das tropas em Bespin.

— Muito bem, Artoo… Quem está aqui dentro, Lobot?

Avançou um segundo passo, afastei-me. Iko rosnou, mas eu pedi com novo gesto que se acalmasse. Ainda não tinha baixado a sua carabina. Estava a proteger-me e não podia censurá-lo.

— Calma, Iko. O Artoo diz que não existem soldados na área de detenção. E já te disse que ele não é nosso inimigo. Oh… Ele está a comunicar contigo também, Artoo? Através… do computador central da Cidade das Nuvens?… Tão esquisito. Não está a interferir com o que estás a fazer? – Artoo girou a sua abóbada, com um apito. – Isso é bom, acho eu…

Lobot abriu um painel dissimulado por uma tampa escura, mostrando um teclado composto por botões com números, letras e outros símbolos. Apontou-mo e fez-me um aceno. Disparei contra o painel, expondo um molho de fios elétricos coloridos. Puxou pelos fios, ligou-os. Fechou os olhos ao afastar-se, as luzes do dispositivo computorizado que lhe envolvia o crânio acenderam-se. Artoo silvou agitado.

A porta estalou e após um pronunciado ruído proveniente do seu sistema hidráulico, abriu-se.

Espreitei para dentro da cela obscurecida. Alguém se levantou de um banco e acercou-se cauteloso da saída. Quando a fraca luz do corredor lhe traçou os contornos do rosto, exclamei:

— Lando?!

O barão administrador da Cidade das Nuvens, antigo jogador, contrabandista e grande amigo de Han Solo, que participara como general na guerra contra o Império Galáctico, que pilotara a Millenium Falcon no lendário assalto contra a segunda Estrela da Morte, ajeitou a capa azul nos ombros a olhar para mim admirado. Volveu a sua atenção para o ciborgue.

— Lobot, obrigado por teres vindo tirar-me desta prisão injusta. As coisas estão mais calmas?

— Sim, senhor. Mas o perigo mantém-se. O exército continua na cidade. Os soldados estão a desmobilizar dos seus postos e concentram-se num único lugar, onde se encontra o seu comandante supremo. Aterrou na plataforma sul, há pouco menos de uma hora, viajando numa antiga nave imperial T-4a, tipo Lambda.

Lando reparou no astromec que soltou uma série de assobios curtos.

— Artoo? O que fazes aqui?

Colocou as mãos na cintura e observou-me desconfiado.

— E quem és tu, miúda? O que fazes com o Artoo?

— Chamo-me Cleo e sou amiga do Han e da Leia. O Artoo está comigo.

Ao reparar em Iko que se aproximou de nós, sobressaltou-se. Não gostava de criaturas gigantescas e peludas, com força suficiente para esmagar ossos e torcer pescoços. Não tinha recordações nada agradáveis de Chewbacca e reprimi um sorriso ao recordar-me dele nas mãos do wookie, a sufocar por ter acabado de trair Han Solo que fora entregue nas mãos do caçador de recompensas Boba Fett. Apesar de já ter feito as pazes com Chewie naqueles anos que se tinham passado, o medo intrínseco mantinha-se…

— E quem é… este?

— O meu protetor e chama-se Iko. Não te vai fazer mal nenhum, se não me atacares.

Revirou os olhos com aquela observação, que fora infeliz, admitia-o. Girou sobre os calcanhares e foi pelo corredor para abandonar a área de detenção. Lobot seguiu-o, caminhando tão levemente que os seus passos não se escutavam sobre o chão gradeado. Disse a Artoo para se desligar do computador central e também o segui, com Iko e o androide atrás de mim. Lando conferenciou em surdina com o mordomo e decidiu-se a abrir a porta que dava acesso àquela zona restrita da urbe.

— Sim, as coisas parecem mais calmas – disse, a espreitar cautelosamente para os corredores brancos vazios.

De um armário que foi destrancado por um código secreto que Lobot inseriu no computador central, através do dispositivo único que se ligava ao seu cérebro parcialmente artificial, Lando retirou uma carabina laser para si, verificando num relance que estavam todos armados menos ele. O mordomo, pelos vistos, não precisava de se armar.

— Porque é que tens um sabre de luz?

— Oh… Sou uma aprendiza de Jedi. Luke Skywalker é o meu mestre – respondi ao barão administrador. E vi ali a minha oportunidade para saber mais sobre a minha vinda àquele sistema. – Viste-o?

O rosto de Lando Calrissian expressou uma desarmante incredulidade.

— O quê, miúda?

— Viste o Luke? Ele está aqui…

— O que faz ele em Bespin?

— Veio encontrar-se com… o comandante supremo do exército que vos atacou.

Lando puxou-me para um recanto. Iko arreganhou os dentes.

— O que raio está a acontecer aqui? E tenho a impressão de que tu sabes…

— Foram atacados. Onde está a população da Cidade das Nuvens?

— Todos reféns, nas respetivas habitações. Eu tive menos sorte… Sou o barão administrador desta colónia, responsável pelo seu governo. Confrontei-os, enfiaram-me numa cela da área de detenção, depois de uma ligeira… sessão de tortura, completamente fútil pois não me fizeram qualquer pergunta.

O mesmo tratamento que Darth Vader dispensara a Han Solo. Era curioso como o que provocávamos regressava a nós, como simples aviso ou firme sentença. Mesmo que tivéssemos obtido a redenção, entrementes…

— A Nova República está novamente em guerra – contei. – O novo inimigo faz uso dos recursos do extinto Império Galáctico que não foram destruídos. Chama-se O’Sen Kram e é muito perigoso.

— Esse é o nome do imbecil que nos atacou?

— Ele não é nenhum imbecil – protestei indignada.

— Ele vai arrepender-se de se ter metido comigo. Lobot, dizes que esse tal de Kram veio para a Cidade das Nuvens?

— Espera, Lando! – exclamei. – Não te metas no que não te diz respeito! Kram está aqui para se enfrentar a Luke Skywalker e eu venho ajudá-lo nesse combate.

— Tu?!

— Tenho estado a treinar para ser um Jedi… Não me subestimes!

Lando mostrou-me a palma das mãos.

— Calma, miúda. Não te irrites comigo. Estamos do mesmo lado.

Não estava irritada, apenas mais ansiosa do que devia. Então, declarei:

— Compreendo que estejas nervoso com tudo o que está a acontecer. Foram atacados de surpresa, Bespin foi subjugado por antigas tropas imperiais, não tiveste tempo de reagir apropriadamente e viste todos os teus colaboradores afastados e aprisionados. Mas informo-te que este sistema não foi o único a ser capturado. Aconteceu com Coruscant, o Novo Senado é leal a O’Sen Kram e, neste preciso instante, a frota de Kram ataca furiosamente o sistema Hosniano onde se baseia o conselho de guerra liderado por Leia Organa Solo. Se vencerem, será o fim definitivo da liberdade na galáxia. Kram serve-se de um poder antigo e insuperável… que só um Jedi pode derrotar. Atraiu Luke Skywalker à Cidade das Nuvens para esse combate e os soldados que destacou para cá tinham como objetivo não apenas dominar esta colónia, mas também preparar o cenário para esse confronto. Por favor, agora escuta-me: preciso da tua ajuda, general Calrissian.

Ele pestanejou, inquieto.

— Terás toda a ajuda de que precisares. Não quero que a sombra de um novo império paire sobre a galáxia. Gosto mais da liberdade…

— Isto vai terminar hoje, garanto-te.

Olhei para o androide que fez soar um pio lastimoso. Olhei para o monstro peludo que grunhiu demoradamente.

— A partir daqui, vou sozinha. Amigos, sei que compreendem. Este caminho é apenas meu. Fiz uma promessa a Luke Skywalker e não a quero quebrar. Não posso abandoná-lo e tenho de terminar o meu treino. Ficam com Lando Calrissian.

 Artoo encostou-se às minhas pernas e passei-lhe a mão pela cúpula que girava devagar, de um lado para o outro. Iko abraçou-se a mim, daquela vez não me preveni e fiquei com a boca cheia de pelos. Senti as lágrimas a bailar nos olhos. O meu coração batia acelerado, entre silvos e rugidos amigáveis, quentes como aquela amizade incomum que nos unia.

Lando pigarreou. O androide e o monstro afastaram-se de mim. Compus a capa nos ombros.

— Tentarei reunir uma milícia para dominar estes soldados e eliminar as suas posições, de modo a derrotá-los – disse-me o barão administrador. – Somos uma colónia pacífica, não possuímos exército, mas tentarei inverter este golpe de estado com os meios que tenho ao meu dispor.

— O Artoo conhece os locais onde estão os soldados, retirou-os do computador central. Acredito que Lobot também os conheça.

O mordomo moveu a cabeça calva impercetivelmente.

— Tentarei encontrar, entretanto – prosseguiu Lando –, também com a colaboração de Lobot, uma sala de comunicações que não esteja comprometida e contactarei com Primeiro Hosniano, para que saibam que estamos sob ataque e que esse tal de Kram está em Bespin. Depois, esperarei por ti e pelo Luke… Sei que quando nos reencontrarmos, terão boas notícias.

— Também espero que consigas boas notícias de Primeiro Hosniano. A vitória da frota da Nova República é fundamental…

A minha hesitação alarmou Lando.

— Julgas que Kram vos vai escapar? Luke é um poderoso cavaleiro Jedi!

Forcei um sorriso.

— Vai correr tudo bem.

Uma vaga quente invadiu-me os sentidos e senti que tentavam arrancar-me a alma. Não me conseguia mexer. Desliguei-me, como um autómato de baterias esgotadas. A minha cabeça pendeu, os meus olhos vazaram-se, estendi os braços ao longo do corpo.

Os sons ondulavam distorcidos no ar quente.

A inércia que me dominava esvaiu-se. Lando debruçou-se sobre mim.

— Está tudo bem, miúda? O que foi que te aconteceu?

— Kram chama por mim… Tenho de ir agora.

Ao fundo, um turboelevador colocou-se em movimento. Lando empertigou-se, Lobot permanecia impassível. Artoo apitou, a rolar para trás e para a frente. O monstro mirava-me ronronando com aquela ternura que ninguém imaginaria possível numa criatura que era capaz de matar à mínima provocação.

— Foste um protetor extraordinário, Iko. Obrigada!

— Ficas bem, miúda?

— Não te preocupes comigo, Lando. Recupera a Cidade das Nuvens.

— Recuperarei. Boa sorte, para ti e para o Luke.

— Que a Força esteja contigo.

Lando Calrissian deu meia volta e correu pelo corredor afora, com Artoo a rolar na mesma urgência, Lobot a andar depressa para acompanhá-lo e o monstro a fechar o grupo. Antes de desaparecer na esquina, Iko deitou-me um breve olhar. Com um urro comovido disse-me adeus. Compreendi o que estava a acontecer. Para a valente criatura dos lagos Kendon acabava a missão que o mestre Eilin lhe confiara: proteger-me.

Pela primeira vez desde que tinha sido criada, estava por minha conta.

Não tinha ninguém para me vigiar, defender ou orientar. Nem soldados leais, nem um feiticeiro arrependido, nem um cavaleiro Jedi, nem um ser divino, nem um monstro peludo, nem contrabandistas insuportáveis, nem amigos improváveis.

O turboelevador parou naquele piso. Fugi para não ser apanhada, contornando umas colunas de exaustão, descendo para uma plataforma que terminava num portão fechado. Abri-o e regressei às ruas alvas da Cidade das Nuvens. Andei com cautela, espreitando cada canto, apurando os ouvidos, mas as vias continuavam a estar assustadoramente desertas.

Foquei os sentidos para encontrar o local onde Luke fora tão duramente atingido pela ausência da Força. A pedrinha negra batia, encontrava-me calma, segura, irredutível. Pistola laser DH-17 na mão, sabre de luz no cinto. Não era longe, mas eu não conhecia os caminhos da Cidade das Nuvens e podia deparar-me com um beco ou com o inesperado obstáculo de um pelotão de soldados.

Andei durante algum tempo e depois apercebi-me de que vinha alguém a imitar-me os passos, numa perseguição inteligente e dissimulada. Corri até um portão, carreguei no botão para abri-lo e depois voltei para trás. Escondi-me junto a um pilar que suportava a passagem dos pisos superiores e vi-o passar, saltitando silenciosamente.

Saí do meu refúgio, mas a minha capa esvoaçou, num roçagar barulhento.

Ele voltou-se, de repente.

O soldado apontou-me a sua arma, num reflexo fiz o mesmo. Postávamo-nos os dois a ameaçar-nos mutuamente com as respetivas armas, alvos bem fixados, um tiro impossível de falhar, definitivo, que poria fim a qualquer sobranceria.

Reconheci o meu perseguidor.

— Frint.

— Tu lembras-te.

Sorriu-me atrás da mira da espingarda laser, o modelo E-11 utilizado pelos stormtroopers do Império. Reparei que estava na posição de atordoamento. Eu tinha vantagem ali, pois o meu tiro não serviria para adormecer.

Ele sabia quem perseguia. Sentia-me como criatura especial ou simplesmente raciocinara nesse sentido. As minhas passadas eram distintas das de Iko, de Lando Calrissian, de Lobot e diametralmente diferentes dos rolamentos de uma unidade R2. E eram passadas solitárias, por isso só poderia ser eu. Ou apanhara-me num vislumbre e não largara tão importante presa.

Sorriu-me porque ao mencionar o seu nome, descobria que eu, de facto, lembrava-me. Um trunfo a acrescentar à excelente captura, quando me apresentasse ao seu senhor, desta vez sem tremuras porque já não estava a traí-lo. Eu lembrava-me de tudo, sabia quem eu era, não tinha desculpas para não me unir ao meu criador e ajudá-lo a vencer.

— Não estou contigo, Frint – esclareci. – Nunca estive. E agora estou com o cavaleiro Jedi.

Num gesto repentino, ele arrancou o capacete. Despenteou os cabelos escuros com uma mão. Era atraente, não o negava. Uma beleza selvagem marcada pela ironia e pela desilusão, a masculinidade acentuada pela disciplina militar.

— Não vou mudar de lado – acrescentei.

— Encontrei-te. As minhas ordens são para te levar ao meu senhor.

— Por que razão estás sempre sozinho?

— Desde que mataste o meu camarada, na nave para Tatooine, não gosto de ter ninguém ao meu lado nas patrulhas. O desgraçado que anda comigo não tem sorte… Superstição.

— Tu também mataste o teu camarada, em Luyta. Antes de me teres dado o cartão com a localização da cela do cavaleiro Jedi.

— Como te disse, o desgraçado que anda comigo não tem sorte.

— Estás a ser cínico.

— Ensinaste-me bem… C.L.E.O.

Franzi uma sobrancelha.

— Pronuncias o meu nome de maneira diferente… Como um acrónimo.

— Tu não tens um nome. Podemos chamar-te assim para ser mais fácil… Nós os humanos gostamos de dar nome às coisas para as conseguirmos distinguir e torná-las únicas. Não concordas?

Cerrei os dentes, zangada. Quis gritar-lhe que não era uma coisa, mas ele, de entre todos que me conheceram desde a minha criação, fora o único que nunca me dispensara esse tratamento abjeto e impessoal.

Noutro assomo inesperado, baixou a espingarda.

— Mas tu não precisas de um nome. Tu sempre… foste única.

A pistola tremeu na minha mão.

— Deixa-me ir – pedi.

— Não o farei. Tenho as minhas ordens.

— Já traíste as tuas ordens tantas vezes.

— Tu também, minha querida!

— Por causa de mim.

Irritei-o com a menção da sua fraqueza. Levantou a espingarda, eu fui mais rápida porque nunca tinha perdido o ponto de mira. O meu disparo queimou-lhe o peito, caiu para trás. Nunca tinha tido outra intenção que a de matar. Ele, todavia, só iria atordoar-me.

Ajoelhei-me junto dele. Sorriu-me, moribundo.

— E morri como um soldado…

Retirei a capa e cobri o cadáver do soldado Frint. Fiz-lhe uma curta elegia, murmurando palavras reconfortantes para a sua alma que atravessava o grande desconhecido em direção à luz, que se fundiria em breve com a Força. Não tinha qualquer dúvida de que Frint seria um dos eleitos, ainda que ele não acreditasse nisso, ainda que tivesse vivido uma vida sempre do lado errado. Mas eu redimia-o, assim esperava.

Ao tocar-lhe no peito hirto e frio, recordei o seu olhar maravilhado quando eu travara os sóis em Tatooine. Uma centelha de vida que eu não sabia que se podia transmitir através de um simples olhar. A cintilação da alma. Fora a primeira vez que eu percebi o que era estar viva… O que era ser alguém. Uma pessoa.

— Adeus. Obrigada por tudo o que me mostraste.

Deixei a pistola laser junto ao cadáver. Já não precisava daquela arma.

Continuei a andar, com os ombros cada vez mais pesados, a alma cada vez mais vazia, a serenidade esgotada, o medo a atacar a pedrinha negra que vacilava as palpitações. Mas não iria recuar. Não podia.

No fim de uma extensa passadeira encontrei uma plataforma hidráulica que conduzia a um nível superior. Olhei para cima, mas a altura era demasiada, o que me impossibilitava de vislumbrar o piso de destino. Pulei para a plataforma e empurrei uma alavanca. Comecei a subir.

O poço escurecia à medida que a plataforma ia avançando entre rangidos lúgubres. Os cabos que a puxavam e que a faziam movimentar-se chiavam, estalavam, persistiam eficientes no movimento ascendente que me transportava para um sítio que eu conhecia, porque já o tinha visto num pesadelo.

Concentrei-me na Força. Cerrei os punhos e juntei toda a bravura que julgava possuir. Aguardava-me o maior teste da minha vida. A escolha mais importante que alguma vez iria fazer.

Agora, esgotara-se o tempo das hesitações e dos receios.

Chegara o momento da verdade.



Notas finais do capítulo

Tivemos o aparecimento de Lando Calrissian e de Lobot, duas presenças importantes e muito necessárias, pois estamos na Cidade das Nuvens - e com este duo terminamos, nesta história, a introdução de personagens oficiais da saga Star Wars.
Também tivemos novamente a presença do soldado Frint e, ironia, dissemos-lhe adeus.

Foi também a despedida de Iko, o protetor que veio dos lagos Kendon.

A Cleo está finalmente a caminho do seu confronto com O'Sen Kram.
E como será que vai encontrar o cavaleiro Jedi, depois dos ataques do senhor negro que o privou da Força?

Próximo capítulo:
O duelo



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