A Criação da Luz escrita por André Tornado


Capítulo 40
O apelo na escuridão


Notas iniciais do capítulo

"Falou em espírito com a força que reinava no mundo, fosse ela qual fosse, com a divindade que comandava o céu, as infindáveis espirais de hidrogénio, a região de toda a noite, todas as almas."
in Libra, DeLillo, D., Sextante Editora, 2013



As estações na terceira lua de Luyta estavam a mudar. O tempo ameno que proporcionava dias quentes e noites agradáveis, embora ventosas, dera lugar a um tempo mais húmido e frio, com prenúncios de chuva nas nuvens que se juntavam no horizonte. Passei a usar a capa para me agasalhar, assim como Luke, quando os exercícios não me exigiam esforço físico, que, por si só, me aqueciam.

Anoitecia e o vento soprava, fazendo balançar as copas compactas das árvores. Estava no exterior do abrigo a tentar perceber as movimentações das nuvens, se finalmente iria chover ou se ficaria tudo como até ali, uma simples promessa. Pela primeira vez reparei que o silêncio era muito naquele lugar, quando o comparei com o contraste dos assobios da ventania. Era uma espécie de música e fechava os olhos a tentar encontrar-lhe as modulações de uma canção. A natureza cantava comigo, que lhe imitava os sons em murmúrios inventados.

Luke aproximava-se do abrigo, caminhando devagar entre as moitas. Vinha velado pela sua capa e, ao longe, assemelhava-se a um sacerdote vetusto. Escondia a sua juventude sob o ascetismo dos Jedi, que no início me desgostava, agora tinha aprendido a aceitar o seu recolhimento e distância. Era uma forma de se resguardar, de proteger a sua identidade única e os seus fantásticos atributos. Ele era um Skywalker, uno com a Força. Era um cavaleiro Jedi muito poderoso e continuaria a classificá-lo como tal mesmo que existissem outros com que se pudesse medir ou comparar.

Vinha de outro momento de meditação. Passara a isolar-se mais vezes depois de eu lhe ter contado o que pensava sobre Kram. Deixava-me nos meus exercícios e refugiava-se em parte incerta, de preferência num local bastante afastado do abrigo ou de onde eu me treinava. Chegava a sumir-se da minha perceção, mas eu também não perdia muito tempo a tentar encontrá-lo, já que imaginava que ele pretendia solidão. Luke queria descobrir mais sobre o seu inimigo através de um contacto mental mais estreito com a energia universal. Valia-se da Força, sabendo que nunca o iria defraudar.

Gostaria de ter a mesma fé que ele. Esse era o meu maior defeito, naquela fase do meu treino. Acreditava na Força, mas não cegamente ao ponto de entregar-me incondicionalmente no seu amplexo quando o desespero de uma situação inesperada chegasse.

— Já terminaste? – perguntou-me, sem baixar o capuz.

— Sim, mestre. O meu sabre de luz está terminado.

— Quero vê-lo.

Nessa manhã tinha sido ele a despertar-me. Disse-me que eu não iria correr no bosque, o dia seria passado a construir o meu sabre de luz. Fiquei apreensiva, apesar de me lembrar de que na minha vida anterior tinha afirmado que sabia construí-lo. Se tivera esse conhecimento especial, tinha-o irremediavelmente perdido, pois por mais que me esforçasse era incapaz de convocar a sabedoria que iniciaria essa construção.

Não precisava de me preocupar, contudo, o meu mestre desconhecia esse detalhe sobre mim e iria ensinar-me o que precisava de saber. Na mesa deixou as peças e as ferramentas, explicou-me o procedimento e anunciou que não me preocupasse em fazê-lo rapidamente. Teria o dia inteiro. Ele iria sair para outra ronda de reflexões e de conversas com os espíritos que o ajudavam. Eu sabia que ele se aconselhava com Obi-Wan Kenobi e com o mestre Yoda, provavelmente com o pai, Anakin Skywalker.

Entreguei-lhe o punho prateado que eu estivera a compilar, juntando as peças que defini como as que mais me agradavam segundo o objetivo traçado, dando-lhe o meu cunho pessoal, pois aquela era uma arma com a assinatura do seu portador, única, inimitável e identificável.

Luke manuseou o punho fazendo-o rodar entre as mãos, acariciando os pormenores com uma lentidão exasperante. Senti como se estivesse a passar os dedos pelo meu corpo, arrepiei-me com a implícita sedução dos seus gestos. Se era uma provocação, não era intencional e ele não se tinha apercebido como estava a perturbar-me. Fiquei com a boca seca e apeteceu-me uma malga de chá de fygre.

— Gosto… – disse-me, sopesando o punho metálico, com incrustações negras, um botão prateado com um aro verde. – Noto que é o teu sabre de luz. Afirmativo, irrevogável, cheio de resolução. Poderoso ou com essa ambição… Com voracidade, mas sem desejar derramar gratuitamente o sangue daqueles que se atravessarem no caminho da sua lâmina. Existe uma natureza combativa que tenta equilibrar-se com uma alma compreensiva.

Ligou-o e a lâmina verde faiscou entre nós, iluminando-lhe o rosto ensombrado pelo capuz. Agitou a espada languidamente, os seus zunidos soavam como a mesma canção murmurada pelo vento daquela lua silenciosa. Achei com orgulho que tinha feito um excelente trabalho, ao ver como era belo o meu sabre de luz nas mãos de Luke Skywalker.

— Vamos experimentá-lo amanhã – disse-me, desligando-o.

Perguntei, a receber o punho prateado:

— Como é que o vamos fazer?

— Da única forma com que podemos experimentar um sabre de luz. Em combate.

— Vou… combater contigo… mestre? – arquejei.

Sorriu-me.

— Não te preocupes. Serei cuidadoso.

A sua condescendência ofendeu-me. Apertei o punho e contestei:

— Não preciso que tenhas cuidado. Achas que vou aprender alguma coisa se te puseres com essas precauções? Quero que lutes comigo como se eu fosse O’Sen Kram!

— Não exageremos. Não quero destruir a minha aprendiza.

— Não me vais destruir com essa facilidade… mestre!

— Acalma-te, minha querida padawan. – Colocou-me as mãos sobre os ombros. – O que eu queria dizer era que não pretendo desmotivar-te na primeira lição de luta com sabres de luz. Preciso que sejas um excelente espadachim e nunca saberei que falhas deverei limar ou que qualidades enaltecer se te esmagar quando lutarmos.

— E se for eu a esmagar-te, mestre?

— Vou adorar saber que nas artes de luta com sabre de luz tu és muito superior a mim. Vamos para dentro? Começa a arrefecer.

Entrou no abrigo e eu segui-o. Ajudei-o a preparar a comida, compondo-a a partir de rações de combate, de pão desidratado e vegetais secos. Perguntou-me se gostaria de comer alguma coisa especial, mais doce, mais elaborada, mais saborosa, eu não lhe soube responder. Nunca tinha comido diferente desde que estava com ele, que tinha sido o único com quem partilhara refeições.

Apertou-me a mão na sua, aquela que era fria, sintética e que cobria com uma luva preta. Sempre que o fazia, e não eram assim tantas vezes, reparara que quando queria tocar-me ou indicar-me qualquer coisa utilizava a esquerda, deixava-me atrapalhada. O momento era demasiado íntimo, muito mais do que um beijo. Se ele concedia em tocar-me com a sua mão artificial era porque não se importava de me mostrar os seus defeitos e as suas feridas.

— És agressiva e inconveniente, mas tens os teus momentos de ternura que te tornam extraordinária, Cleo. Continuas a ser um mistério para mim, mesmo depois de todo este tempo juntos.

— E continuo sem as minhas memórias – brinquei.

— Não acredito nisso.

Deixou na mesa a travessa com a comida quente, indicou-me que me podia sentar. Só o fazia depois de mim. Eu pousei o jarro com chá de fygre e as malgas, servi as duas, começando por ele, sentei-me. Agarrei no meu prato.

— Por que dizes isso? – estranhei. – Descobriste alguma coisa?

— Não descobri nada. Simplesmente, sei.

— Sabes o quê? – tentei desconversar, servindo-me de uma porção de comida.

— O mestre Eilin ajudou-te a recuperar as memórias. Kram também interveio nesse processo. Não lhes chego, descansa. Não quero que fiques alarmada por ter revelado esses segredos que proteges com tanto afinco.

— Eu não tenho segredos… – remoí.

— Agora, os teus segredos já não interessam. Pois não, Cleo? Estás a treinar-te comigo, desejas inegavelmente derrotar O’Sen Kram, ambicionas um lugar nesta galáxia depois do fim da guerra. Tudo o que havia antes de construíres o teu sabre de luz perdeu o sentido. Serás um Jedi e isso é algo completamente diferente do que nasceste para ser.

Olhei-o durante algum tempo. Era interessante como ele colocara as coisas. Mesmo sem os pormenores sórdidos acertara na verdade dos factos, expondo-os cruamente à luz da sua dissecação. Concordei:

— Sim, foi o mestre Eilin que me ajudou. Ele tem-me ajudado sempre, desde que me resgatou da Belirium. Tenho todas as minhas memórias, sei… quem sou. E queres saber a minha teoria sobre o mestre Eilin, esse… minorca traiçoeiro?

— Cleo, ele é um deus. Não gosto de ouvir a minha aprendiza mencionar um ser divino nesses modos desrespeitosos.

— Perdoa-me mestre, mas a minha formação ainda está incompleta e ser desabrida é algo que vai ser difícil de erradicar da minha personalidade extraordinária. Queres ouvir a minha teoria? – tornei. – Somos peões no jogo imenso que o mestre Eilin trava com O’Sen Kram. Eles conhecem-se desde sempre. De algum modo, foi incumbido ao mestre Eilin que contrariasse as ambições de Kram. Existe equilíbrio no Universo, Eilin e Kram são os dois opostos que estão destinados a confrontar-se em períodos determinados. Quando Kram existe, o mestre Eilin surge em toda a sua potência divina. Foi o mestre Eilin que ajudou o cavaleiro Jedi a derrotá-lo, no passado, tal como está a ajudar-te agora, no presente.

— Não é isso o que a Força me transmite.

— Apenas uma teoria, mestre.

Comecei a comer. Estava com fome.

— Tens teorias muito interessantes, contudo.

— Obrigada, mestre.

— Não me respondas com a boca cheia, por favor.

Forcei-me a engolir.

— Perdoa-me, mestre.

— Existem muitas coisas que devo erradicar da tua personalidade extraordinária, sem dúvida.

— Estás a dizer-me que não tenho maneiras? – indaguei aborrecida, com a malga de chá na mão, cotovelo sobre a mesa.

— Estou, minha querida padawan. Não te espantes ou zangues. Não suportaria que amuasses antes de ires para a cama, sabendo que amanhã vais tentar cortar-me às tiras com o teu sabre de luz!

Pousei a malga com um baque.

— O teu humor é tão…

— Sim?

— Irritante!

— Domina a tua vontade de te zangares comigo, minha querida padawan!

Riu-se com gosto. Franzi o sobrolho e espreitei a malga. O que teria ele misturado ao chá de fygre? Não me fazia qualquer efeito, era-me inócuo pois não tinha vontade de me rir.

— Por favor, não fiques tão séria…

— Está bem – concordei, insegura das razões dele.

— Devemos descansar esta noite, com a mente livre de tensões fúteis. Nada de espantos, nada de zangas, peço-te. Amanhã, quero-te na tua melhor condição, física e psicológica, para o nosso combate.

Sorri-lhe com ironia, bebendo outro gole de chá.

— Receias que te supere em duelo? Acalma-te, mestre. Irei lembrar-me de que te devo o meu respeito e dominarei este meu mau feitio, a minha falta de maneiras e todos os defeitos que poderão interferir na minha prestação. Contudo, aviso-te de que irei guardar alguns truques, para outros dias em que estejas menos avisado.

— A modéstia faz parte de um cavaleiro Jedi. Modera a bazófia, não condiz com a sobriedade que te é exigida, minha querida padawan.

— Tantas exigências! Terei de ser amorfa e insípida se quiser ser um Jedi?

— Eu não me considero amorfo e insípido.

— Oh… E não o és – gaguejei. Baixei o olhar para o prato, remexi a comida com a colher. – Compreendo que não devo ser imodesta. Mas posso estar ansiosa pelo duelo, não posso?

— Podes, claro que sim. É normal que queiras mostrar-me como te portas com um sabre de luz. E aceito que guardes alguns truques. Gosto que me surpreendas. E tens-me surpreendido, sem dúvida, durante estes treinos. Não precisas é de o demonstrar com essa impaciência e petulância. Aprende a ser mais comedida, menos brusca, mais diplomata…

— Não sei se algum dia o conseguirei fazer.

— Eu consegui.

Foi a minha vez de me rir. Lembrei-me da sua impetuosidade e fogosidade quando andava pelos corredores da primeira Estrela da Morte, durante o salvamento da princesa Leia Organa, com a colaboração de um relutante Han Solo e de um ainda mais relutante Chewbacca. Luke Skywalker era tão diferente, nessa altura. Determinado, impulsivo, rebelde. O mestre Yoda apontou-lhe todos esses defeitos, mais aquele de que era demasiado velho para iniciar o treino para se tornar num Jedi. Ele quase que captou esse pensamento, pois notei-lhe a curiosidade muda nos seus olhos azuis brilhantes. Vira, seguramente, os nevoeiros de Dagobah, o caça X-Wing meio submerso nos pântanos.

— Se nos tivéssemos encontrado quando eu tinha acabado de sair de Tatooine… – começou, mas não quis terminar. Seria uma confissão demasiado arrojada para um cavaleiro Jedi. Sorriu-me.

— Teríamos combatido o Império juntos – disse eu, encontrando uma continuação que não nos constrangesse. – No entanto, encontraste-me em Tatooine.

— Estás a aprender, Cleo.

— O quê?

— A ser diplomata.

Depois de termos arrumado os pratos, descansei na sala comum, sentando-me no chão e esticando as pernas, como costumava fazer todas as noites. O silêncio surgia naturalmente, sem nunca ser inoportuno, incómodo ou estranho. Não havia nada que quiséssemos dizer um ao outro que já não tinha sido falado durante o dia. Passados uns momentos, eu começava a cabecear e decidia que estava na hora de ir deitar-me. Despedia-me, ele despedia-se de mim. Seguia para o quarto, fechava a porta. Despia-me, enfiava-me na cama e adormecia.

Naquela noite, foi diferente.

Uma angústia transformada em murmúrios latejou nos meus ouvidos. No início, não lhe liguei. Dormia descansada e apaziguada, suspensa num ar morno envolvente que me embalava em vibrantes vagas proporcionadas pelo contacto inconsciente com a Força. Protegia-me, eu desejava a sua proteção imaginando que provinha de Luke Skywalker.

Era um pesadelo. Havia muito medo, meu e dele. Principalmente, dele. Sentia-o como um escudo defletor que se apertava à minha volta e me impedia de respirar, causando-me a tal aflição opressiva. Eu era um objeto protegido por esse escudo. Uma coisa, um ciborgue com um invólucro metálico que imitava na perfeição a pele humana. Luke não podia ter medo, era omnipotente, único, extraordinário. Confiava nele… Mas ele não confiava em si próprio e tremia, jazendo derrotado, desiludido com a minha traição. Eu não iria traí-lo… Não. Seria mais fácil, menos doloroso. Só que eu gostava das dificuldades, dos caminhos tortuosos, dos erros cometidos resultantes da teimosia, do sofrimento, das perguntas, da liberdade. Naquele instante em que devia agir, eu perdia a coragem. Não conseguia rasgar aquela capa de metal, não conseguia voltar a ser humana.

Finquei as unhas no cobertor. Deixei-me levar…

A sala era negra e fria. As paredes misturavam-se com o teto e com o chão, pesadas vigas de ferro voavam, sem rumo. Era o vácuo, a ausência de gravidade, um poço infinito. Era o próprio tempo condensado numa espécie de vazio em que os anos rolavam sem parar. Nada fazia sentido.

A voz encheu a sala. Não, não era a minha voz, antes fosse… Outra voz. As suas palavras foram engolidas pelo negrume deprimente que envolvia o lugar. Um vulto surgiu ao meu lado. Trazia com ele algo que podia fender a escuridão. Nas suas mãos brilhava um sabre de luz…

Com o profundo anseio de fugir, mas com o estranho pressentimento que me levava a ficar, permaneci na sala negra e fria. Uma gargalhada gutural reverberou nas paredes da sala. Estremeci. Aquele riso… Nunca o tinha escutado, mas reconheci-o. Era memória impressa na minha alma. O vulto tinha desaparecido, procurei-o voando, chocando contra o teto, contra o chão, afastando as vigas vogantes. Clamava pelo cavaleiro Jedi mas ele não regressava. Tinha medo e escondia-se. Uma viga derrubou-me e escutei novamente a gargalhada.

— Estou a chamar-te, Skywalker!

O’Sen Kram.

Quis gritar pelo cavaleiro Jedi mas estava muda. Apertei a minha garganta, que se movia em espasmos em busca de ar.

— Estou a chamar-te, Skywalker!

A voz sinistra feria-me os ouvidos.

— Vem a mim, Skywalker!

Em desespero estiquei os braços para me segurar a alguma coisa que me mantivesse ali, mas um poder gigantesco sugava-me para trás e para longe. Kram e Skywalker enfrentavam-se na sala negra e fria. Decidiam o destino da galáxia e do Universo. O mestre Eilin observava-nos através do lago límpido, mais transparente do que alguma vez estivera, vidro líquido.  

Tentei gritar. Continuava muda.

Kram agitou o seu manto. Um mensageiro maldito que tudo engolia no esvoaçar daquelas asas tenebrosas. Falava, falava sem parar. Luke Skywalker ofegava, derrotado. Eu não conseguia escutar o que dizia O’Sen Kram, pois aquele vórtice sugava-me e levava-me para onde eu não podia interferir. Fechava-me na minha insignificância.

Mas eu era importante. A peça chave para completar o jogo.

Não havia tempo… Eu tinha de regressar e sentenciar a contenda.

Acordei em sobressalto. Sentei-me a tossir, enquanto inspirava o ar que me tinha faltado no pesadelo. Continuava a amarrotar o cobertor nas minhas mãos trémulas. Larguei-o, admirada com aquela reação extrema que denotava o mais completo terror. Apalpei a pedrinha negra, palpitava levemente. Não tinha sido o lado negro, seria uma coisa diferente. Mas o quê? A explicação de se tratar de um simples sonho mau pareceu-me demasiado redutora. Não admitiria que Luke me acalmasse com essa justificação.

Vi que a alvorada iria romper dentro em breve. Saltei da cama, calcei as botas, penteei os cabelos desgrenhados com os dedos.

As imagens que vira escondiam um acontecimento. Não era passado, Luke Skywalker e O’Sen Kram nunca se tinham encontrado na Belirium como ele me revelara. Não era o presente, o cavaleiro Jedi estava ali comigo. Portanto, seria o futuro.

Estremeci, como no pesadelo. O encontro com o senhor do trono negro seria difícil. Havia muito medo, raiva, impotência, descrença naquela sala negra e fria onde iria ocorrer o combate entre o Bem e o Mal. Revi as impressões principais. A derrota do cavaleiro Jedi. O meu afastamento.

Abri a porta do quarto, a casa estava às escuras. Na sala comum, onde Luke costumava dormir, não estava ninguém.

Estou a chamar-te, Skywalker!

A energia lânguida da Força rodeou-me. Uma perturbação mínima no ambiente silencioso confortou-me, mas eu sacudi a sensação frouxa de um agasalho invisível. Não queria ser aquietada, aprisionada numa cela falsamente confortável. Eu descobria-me sozinha e isso não era normal.

O pesadelo… Compreendia agora o seu mistério. Não fora apenas uma visão de um possível futuro ou a materialização de um qualquer receio secreto em relação a tudo que se estava a passar comigo nos últimos tempos. Fora a mistura de uma premonição e de uma realidade. O’Sen Kram chamava por Luke Skywalker. E o cavaleiro Jedi tinha seguido aquele apelo maldito.

Ao abrir a porta exterior do abrigo escutei uma trovoada. Divisei a silhueta velada dele a afastar-se apressadamente entre as árvores. Corri para alcançá-lo, agitando um braço, a gritar:

— Luke… Luke! Mestre – emendei –, onde vais?

Deteve-se. Coberto com a capa castanha que arrastava pela relva, uma figura imóvel recortada na penumbra da madrugada, assemelhava-se a um espetro imaterial. Igual a Kram. Rodeei-o. O capuz tapava-lhe a cara parcialmente e as sombras não me deixavam lobrigar os seus olhos.

— Onde vais, mestre? – insistí ansiosa.

Fitou-me, perscrutando as minhas inquietações.

— Tu sabes onde vou.

A aflição crispou-me o rosto.

— Vais enfrentar O’Sen Kram… – balbuciei. Aclarei a voz e declarei: – Não podes ir! Quero dizer, não podes ir sozinho.

— Cleo…

— Leva-me contigo.

— Cleo, não me podes acompanhar.

— Por que não?

— Não estás preparada.

A veemência deu lugar à indignação.

— O que queres dizer com isso?! – exclamei. Controlei-me para que não me acusasse de ser inconveniente ou de não ser convincente. Queria demovê-lo daquela ideia e precisava de ser inteligente no discurso. Prossegui, escolhendo as palavras: – Por ainda não termos treinado com sabres de luz? Sempre me disseste que saber manejá-lo não era importante, que a Força iria ajudar-me se precisasse de fazê-lo. Yoda… o mestre Yoda nunca te treinou com sabres de luz, foi Obi-Wan Kenobi, a bordo da Millenium Falcon, que te teu algumas lições.

— Cleo, escuta-me…

— Sinto-me perfeitamente preparada!

— Escuta-me. Não quero que me acompanhes.

A minha impetuosidade estava a denunciar-me. Coloquei as mãos atrás das costas, para que ele não visse como tremiam.

— Tu também tiveste o mesmo pesadelo.

— Um Jedi não tem pesadelos, apenas visões que lhe contam sobre o passado, o presente e o futuro.

— Eu sei, eu sei! Também interpretei o pesadelo… essas visões da mesma maneira. Percebi que Kram contactou-nos. Aos dois, não somente a ti. Eu também estava naquela sala, ao teu lado. Estou preparada! Leva-me contigo.

— Não, Cleo. Não insistas, peço-te.

— Por que não? Dá-me uma razão que eu consiga entender, para além de ser, obviamente, a tua vontade!

— Já te dei a única razão lógica para a minha decisão. Enquanto teu mestre, considero que não estás preparada.

Tentei outro argumento, na raia do desalento:

— O mestre Eilin disse-te que precisavas de mim para derrotar Kram. Se não me levares, o que julgas que vai acontecer?

— O mestre Eilin também me disse outras coisas.

— Que coisas?

— O que te disse, eu não preciso de saber. Guarda os sábios conselhos do mestre Eilin e utiliza-os quando julgares que te serão úteis. Portanto, o que ele me disse, tu também não precisas de saber. São conselhos que me pertencem e que usarei quando melhor me aprouver. Julgo que esse aspeto tinha ficado esclarecido desde o início. Mas já que mencionámos o mestre Eilin, deixa-me corrigir-te para te esclarecer melhor sobre o que estamos aqui a discutir. Não estás preparada, Cleo. Não terminaste o teu treino e não és um Jedi. O mestre Eilin disse-te, assim como o disse a mim, que apenas sendo um Jedi me poderias ajudar.

Assentei as mãos no peito.

— Tu viste, noutras visões sobre o futuro, que completaria o meu treino lutando contra Kram.

— O que eu vi então não se relaciona com o que vai acontecer agora.

Estou a chamar-te, Skywalker.

— E o que vai acontecer agora, senão o teu combate contra O’Sen Kram pela posse do destino da galáxia e do Universo? Por que insistes em ir sozinho?!

— Ele chamou-me.

— Não entendo, mestre! Eu estava lá quando ele te chamou. Estou aqui, disposta a sacrificar-me para ir contigo.

Escutei-o a disfarçar um suspiro. A sua boca contraiu-se e contou-me exasperado:

— A Nova República declarou guerra a O’Sen Kram. Estamos oficialmente e novamente sob a égide de um conflito galáctico. Como retaliação, Kram tomou o Novo Senado em Coruscant e dissolveu-o. Neste momento, o centro da Nova República, Coruscant, está nas mãos dos senadores traidores, acólitos de Kram. A população encontra-se refém e sob bloqueio. Numa jogada política rápida, o senhor negro deu poder aos governadores dos sistemas que controla e que o estão a apoiar, prepara-se para despejar toda a sua força bélica sobre o único foco de resistência que subsiste, liderado pela minha irmã Leia, no sistema Hosniano. Mas existe uma possibilidade de negociação. Exigiu que me apresentasse perante ele. Está furioso com a declaração de guerra, com a hostilidade que foi movida contra ele, quando, alega, nada fez que motivasse uma ação dessa gravidade. Embora se tenha confirmado a movimentação de antigos vasos de guerra do Império na Orla Exterior.

Percebi que tinha sido o que Kram tinha falado no pesadelo e que eu falhara em escutar devido à ventania que me empurrava para fora do cenário. 

— Isso não faz sentido! – atirei perplexa com a ingenuidade dele. – Kram não pode estar furioso com algo que ele já tinha previsto, desde que começou a pôr em prática os seus planos de conquista. Isto tudo faz parte das suas manobras para anular a ordem política da galáxia, a resistência no sistema Hosniano, o único cavaleiro Jedi que o pode enfrentar e que ele teme.

— É um risco que terei e irei correr. Como teu mestre, não te posso obrigar a fazer os mesmos sacrifícios que eu. Se alguma coisa me acontecer, ficas somente tu e a minha irmã para continuar o legado dos Jedi e dos Skywalker.

— Não o posso fazer sozinha. Nem tu. Caminhas diretamente para a armadilha perfeita de O’Sen Kram.

— Ele quer desesperadamente recuperar-te! – exclamou, como se fosse a conclusão definitiva daquela conversa. – Não sei porquê, não consigo entender que segredo existe entre ti e O’Sen Kram… O vosso primeiro encontro não foi suficientemente longo para ele te deixar essa marca tão indelével e irrefutável. Se te levo comigo, também cairás na armadilha perfeita de O’Sen Kram. Coloco-te num perigo maior do que alguma vez imaginei.

— Não confias em mim – acusei, indignada, assustada, pois ele chegava próximo da verdade. – Sempre me disseste que a confiança era o elo mais importante que nos unia nesta ligação que temos, mestre e pupila. Mas, no fim, descubro que tu não confias em mim. Julgas que te vou trair.

Ele não respondeu. Continuava a fitar-me com uma gravidade incómoda e acusadora. Ele sabia que eu iria traí-lo, desde o início que tivera essa visão. Mas continuara a treinar-me, convicto de que conseguiria refutá-la se fosse bem-sucedido como meu mestre. Mas o tempo esgotara-se. Para mim, para ele. Para a galáxia.

Não havia tempo… Eu tinha de regressar e sentenciar a contenda.

— Voltarei, Cleo. E tu deves voltar ao abrigo. Vem aí uma tempestade.

— Podes crer que vem aí uma tempestade – repliquei.

— Direi a Iko para vir até aqui, para te fazer companhia e para te proteger.

— Para me vigiar!

— Agora, devo partir. Até ao meu regresso, minha querida padawan. Que a Força esteja contigo.

Recomeçou a andar.

Senti que poderia perdê-lo para sempre, que poderia nunca mais voltar a vê-lo.

Corri, atravessei-me à sua frente. Pedi:

— Beija-me!

Luke Skywalker inclinou-se sobre mim e depositou-me um beijo casto na testa. Não era o que eu queria. Antes que ele escapasse ao meu alcance, aproximei-me e uni os meus lábios aos dele, num ímpeto tanto feroz como carinhoso. Quando nos separámos, um frágil fio de saliva ficou pendurado entre nós. Era tão ténue e insignificante que o mais leve sopro quebrou-o. Nada me ligava a ele.

Sem denunciar os seus sentimentos ou acusar-me da futilidade dos meus, o cavaleiro Jedi empreendeu novamente o seu caminho, sumindo-se entre as árvores esguias que oscilavam por causa das rajadas repentinas do vento que se tinha levantado.

Deixei-o, finalmente ir, com o coração apertado.

Regressei ao abrigo derrotada, tentando encontrar um sentido na escolha que ele tinha feito. Simplificando, ele tinha partido para evitar uma guerra que já estava a acontecer, convencido de que com a sua imolação salvaria os seus mais queridos amigos, a irmã Leia Organa Solo e Han Solo. Eu ficaria para que o seu martírio não tivesse sido em vão, recebendo o testemunho e lutando, posteriormente, com O’Sen Kram, vingando todas as mortes desnecessárias, incluindo a dele.

Era demasiado terrível pensar que seria assim que iria acontecer, mas a desesperança, a cólera e o medo dominavam-me, arrepiavam-me, enlouqueciam-me e faziam-me derramar lágrimas imparáveis.

Estava tão enlevada naquela tristeza que nem me apercebera que a pedrinha negra, que usava ao pescoço, tinha deixado de palpitar.



Notas finais do capítulo

Luke Skywalker deixou a Cleo para trás para se encontrar com O'Sen Kram.
Cleo ficou com o seu treino incompleto, sozinha, em Luyta.
A guerra finalmente começou - Coruscant caiu, Kram domina alguns sistemas que lhe asseguram o controlo do governo, a única resistência é liderada por Leia que tem a sua base no sistema Hosniano.
O que poderá acontecer a seguir?

Este é o meu capítulo favorito, de todos os capítulos desta história - contando aqueles já publicados e os que ainda faltam publicar. Qual é a vossa opinião?

Próximo capítulo:
Determinação.



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