A Criação da Luz escrita por André Tornado


Capítulo 41
Determinação


Notas iniciais do capítulo

"Eu nunca me tinha sentido tão desligada de tudo o que me rodeava. Estava de partida."
in Helena de Troia, George, M., Chá das Cinco, 2010



Chovia torrencialmente quando Iko chegou ao abrigo. Eu tinha colocado o aquecimento no máximo e sentava-me no centro da sala comum, vestida apenas com a camisola interior de mangas cavas e as calças dobradas até ao joelho, descalça. Meditava para acalmar-me e fugir do lado negro que quisera derrubar-me, uma vez mais. A pedrinha negra já normalizara as palpitações e eu conseguira dominar a minha inquietação.

Iko abriu a porta, espreitou para o interior do abrigo, rosnou um cumprimento. Sacudiu-se energicamente na soleira para se enxugar. Notei parte do speeder X-34 que estacionara perto da casa. Tinha uma cor diferente, teria andado a pintá-lo e a embelezá-lo.

Relaxei a postura. Seria impossível concentrar-me com o monstro ali. Disse-lhe para entrar, que estava calor suficiente para que se secasse, não queria que ficasse doente por causa de mim, tentei sorrir-lhe mas saiu-me uma careta. Suspirei desconsolada. Continuava triste, embora tivesse afastado a negatividade do sentimento que me conduziria ao lado negro. Sentia-me também inútil, proscrita, imprestável. Um falhanço galáctico.

Não servia para Kram, nem para Luke Skywalker.

As gotas da chuva tamborilavam no telhado metálico fazendo um ruído ensurdecedor, como se o abrigo estivesse a ser bombardeado por milhares de meteoritos. Esfreguei os olhos cansados. Podia ter dormido mais um pouco, depois de o cavaleiro Jedi se ter ido embora. Afinal não tinha ninguém que me obrigasse a fazer o que quer que fosse naquela lua deserta, mas não conseguira adormecer entre o choro, a ventania e depois a chuva.

Iko tinha trazido mantimentos que arrumava na bancada onde as refeições eram preparadas. Desde a noite anterior que eu não comia nada, mas não tinha fome. O meu estômago estava de tal maneira embrulhado que tinha a impressão de que se ingerisse alguma coisa, nem que fosse chá de fygre, iria vomitar. O monstro esperou que eu lhe pedisse comida, mas como não me manifestei nesse sentido, foi-se sentar comigo, encostando-se à parede contígua àquela onde se abria a porta e uma janela. Ronronou num tom sussurrante.

O torpor tomou conta de mim ao imaginar-me dentro do abrigo durante dias intermináveis, com o monstro a ronronar-me, a chuva a cair no exterior, numa tempestade ininterrupta, característica de uma qualquer estação daquela lua.

Olhei para a mesa, para o meu sabre de luz.

Não fazia sentido que me entregasse à inação de uma forma tão abnegada.

Mas que mais podia fazer?

O silêncio irritava-me e comecei a falar.

— Bem, Iko… Estamos presos nesta lua que resolveu alterar dramaticamente o clima. Chove tanto! Que irritação! Se não estivesse a chover, iríamos correr pelo bosque e depois apanhar sol para secar o suor. Que magnífico primeiro dia de férias!

O monstro piscou os olhitos redondos.

— Sabes se vai continuar a chover durante muito tempo?

Negou com a cabeçorra.

— Também és um estrangeiro em Luyta, não é? – Assentei o queixo na mão. – O sítio de onde vens… Os lagos Kendon. É um sítio bonito? Lembras-te quando visitei a primeira lua de Luyta, com Luke? Levou-me a um parque onde havia lagoas. Estive a dar uns mergulhos, gostei bastante… Também podemos mergulhar nos teus lagos Kendon?

Incerto sobre as minhas intenções, ou não estaria a perceber o que pretendia eu, pois desconheceria o conceito de fazer conversa tão próprio dos humanos, acenou afirmativamente. Deu um par de rugidos.

— A água é quente? Não?… Hum, está bem… Provavelmente podemos mergulhar nos lagos Kendon mas não conseguimos aguentar muito tempo dentro da água fria. Tu não te deves importar com a temperatura do banho, pois com esse casaco de pelo estás bem protegido.

Reparei na sua expressão intrigada.

— Não queres conversar mais? Compreendo-te… Também não me está a apetecer atirar umas asneiras para o ar e fazer delas um tema de conversa para ver se fico menos entediada, mas não sei o que mais podemos fazer, sem darmos em loucos a olhar um para o outro nesta sala minúscula. Não conheço jogos, nem histórias, que nos possam entreter. O tempo lá fora não está aconselhável para excursões…

Calei-me e estendi-me no chão, colocando os braços paralelos à cabeça. Fechei os olhos, imaginando que era ali que Luke dormia, sobre uma esteira almofadada que estava guardada, devidamente enrolada e atada, num dos cantos. Ele dissera-me que iria voltar. Não acreditava nisso. Tinha acabado de ser abandonada pelo meu mestre.

E tinha de reagir.

Não me apetecia…

A sensação benigna da Força tocava-me, com a leveza de plumas.

Olhei para Iko que tinha rosnado.

— Sim, presos! – respondi-lhe, admirada com a pergunta dele. – Luke foi-se embora e levou-nos a nave com que podíamos sair daqui. Só temos o teu speeder para dar uns passeios nesta lua. Temos de esperar que a chuva passe, entretanto. A propósito, o speeder está bonito. Gosto da nova cor. Antes era branco, não era?

Iko voltou a rosnar.

Sentei-me repentinamente com o que ele me disse.

— Ele… não levou… a nossa nave?

O monstro repetiu o que eu lhe dissera, mas na forma afirmativa.

Ele não levou a nossa nave.

— Tens a certeza, Iko?

Um ronco.

— Como saiu ele desta lua?… Comprou uma passagem numa nave de um contrabandista? Por que foi ele escolher essa maneira de viajar?! Perdeu o juízo! Não tinha necessidade, já que temos uma nave nossa… ou melhor, uma nave tua… Do mestre Eilin? Bem, melhor ainda, acho!

Ajoelhei-me, sentei-me sobre as pernas.

— Ele não perdeu o juízo – analisei, pensativa. – Quer chegar incógnito a algum sítio. Dominou o contrabandista com algum truque mental, liberta-o depois de chegar ao seu destino. Não se vai encontrar diretamente com Kram, vai fazer uma paragem algures. Talvez…

Levantei-me animada. Ele tinha-me dito que não o seguisse, mas não me cortara totalmente as minhas hipóteses de fuga. Eu podia sair daquela lua, pois a nossa nave ainda estava no hangar do entreposto comercial. Vesti a blusa, enfiei-a no cós das calças e anunciei:

— Vamos fazer uma viagem, Iko!

O monstro observava-me desconfiado e permaneceu sentado.

Fora criada como uma lutadora, não me podia deixar abater. Desde que abrira os olhos para o mundo tinham-me atirado para cima muitas contrariedades, criado inúmeros obstáculos, erguido barreiras intransponíveis, mas eu tinha superado tudo com a minha impetuosidade, vontade e imprevisibilidade. Nunca me detivera ou escondera ou fugira.

Naquela ocasião não agiria diferente.

O meu destino era lutar.

A minha presença na galáxia exigia-me bastante mais do que ficar confortavelmente à margem, a contemplar pormenores despiciendos, a carpir mágoas irreparáveis, a inventar justificações para os gestos dos outros ou a tentar ser simpática para que o tempo passasse mais depressa. Eu estava ali com um propósito. Contribuir para a glória de uma vitória. Abdicar desse projeto era cobardia.

Agarrei no meu sabre de luz. Tal como Luke o descrevera, percebia agora com toda a clarividência as suas qualidades únicas. Afirmativo, irrevogável, resoluto, poderoso, voraz. A natureza combativa que tentava equilibrar-se com a alma compreensiva. No fundo, a minha descrição.

Vesti a jaqueta, desdobrei o cano das calças, enfiei as botas. Iko rosnou-me.

— Quero ir já. Vamos, não fiques aí especado a olhar para mim. Não me digas que é por causa da chuva… Não me importo de me molhar e tu também não te importas, senão não terias vindo debaixo deste temporal.

Levantou-se de um salto e rugiu um protesto, escancarando a bocarra.

— O que queres dizer com não podemos ir? – estranhei franzindo a testa, limpando-a com a ponta dos dedos da saliva do monstro. – Sei perfeitamente onde quero ir… Para o sistema Hosniano! Luke foi para lá, sei-o. A Força revelou-mo… Ele é um bom mestre, ensinou-me bem… É no sistema Hosniano que está o conselho de guerra, a resistência liderada por Leia e por Han. Como Coruscant já caiu, Kram vai atacar esse sistema a seguir. Luke quer evitar o derramamento inútil de sangue, quer negociar com o louco… Quer combatê-lo, se tudo o resto falhar.

Iko esbracejou e rugiu, encurvando as garras. Não me deixei intimidar. Pendurei o sabre de luz no cinto, fui buscar a minha pistola laser DH-17.

— Eu sei que ele te disse para me protegeres e que eu não devia, sob qualquer pretexto, sair da terceira lua de Luyta. Também me disse que não fosse atrás dele, que era perigoso, que estava a fazer isso a pensar no meu bem… Tens as tuas ordens, eu tenho as minhas. Mas, Iko… Não vou obedecer! – Espetei-lhe um dedo no tórax musculoso e peludo. – E tu, meu amigo, se quiseres continuar a proteger-me e cumprir, pelo menos, uma das ordens dadas pelo cavaleiro Jedi, vais ter de vir atrás de mim.

Agarrei numa sacola e enchi-a com algumas rações de combate secas para debicar pelo caminho, pois aquela agitação despertara-me o apetite. O monstro cobriu a porta com o seu corpo maciço, rosnando e arreganhando os dentes.

Cruzei os braços.

— Iko, por favor. Não o posso fazer sozinha. Preciso de um piloto para aquela nave.

Uma rosnadela prolongada. Notei-lhe a hesitação.

— Não vou fugir. Estou a pedir-te que venhas comigo e que me protejas. Não é o que deves fazer? Proteger-me? Além disso, Luke Skywalker precisa de mim. Ele é demasiado orgulhoso para admiti-lo, nesta fase em que receia que eu não seja suficientemente forte. E Luke sente o mesmo que tu. Não suportaria que me magoassem.

O monstro bufou inquieto, passou o peso de uma perna para a outra.

— Estive aqui a treinar-me para quê? – acrescentei, fingindo-me desolada. – Para que, quando sou mais necessária, não faça uso dos meus poderes e das minhas habilidades? Quero lutar! Quero fazer a minha parte na guerra contra O’Sen Kram. Não estou a pedir nada mais do que aquilo que é a minha obrigação. Ajuda-me, Iko, a salvar os meus amigos, o meu mestre. A salvar a galáxia.

No final, o fingimento tinha-se transformado numa declaração sincera.

Respirei fundo. O monstro afastou-se da porta, destrancou-a. Vesti a minha capa, atei-a debaixo do queixo e murmurei-lhe:

— Obrigada.

Saltámos para o speeder. Arrancámos sob aquela chuva intensa que nos fustigou como chicotadas geladas durante o trajeto desde o abrigo até ao entreposto comercial. Quando entrei no hangar tremia de frio e estava completamente ensopada, apesar da proteção que a capa me conferira. Retirei-a, pois tinha um peso enorme, molhada como estava. Espirrei. Iko pediu-me que esperasse, pois iria vender o deslizador. Senti uma pontada de pena. Tinha sido a sua distração, brinquedo e entretenha durante a sua estadia ali, mas não vinha melancólico quando se me juntou, com alguns créditos a tilintar numa pequena bolsa.

Seria provavelmente por causa da tempestade, mas o entreposto comercial não tinha ninguém. A cantina estava encerrada e não havia qualquer movimento nos restantes edifícios deprimentes, que pareciam ainda mais degradados sob aquela chuvada inclemente e aquela luz diurna mortiça. Na pista de aterragem só estava a nossa nave.

Iko abriu a rampa da nave e entrei. O calor do interior confortou-me, mas tornei a espirrar ruidosamente. Descartei-me da capa encharcada, da pistola laser DH-17 e da sacola, depois de enfiar uma barra de comida na boca e de a mastigar depressa. Mantive o sabre de luz no cinto. Entrei para a carlinga, sentei-me na cadeira do copiloto, sacudi as mãos de migalhas batendo-as uma contra a outra. Coloquei o cinto de segurança, acendi o computador e cliquei noutros botões da consola. O monstro ocupou o lugar do piloto.

Deixávamos o sistema de Luyta, entre as estrelas, a aguardar que o computador calculasse as coordenadas para saltarmos para o hiperespaço, quando Iko me rosnou. Até ali tinha estado em silêncio, preocupado com os meus espirros mas que não o tinham feito distrair-se completamente da sua tarefa de pilotagem. Sorri-lhe.

— Não, ele não te vai castigar… Porque eu vou dizer-lhe que fui eu que te obriguei a fazê-lo. Quem merece castigo, sou eu… Oh, Iko! Agradeço a tua preocupação, mas não acredito que o meu mestre vai ser severo a esse ponto. Provavelmente vai obrigar-me a fazer um qualquer exercício esgotante que me deixe arrasada durante dias, para que eu perca a vontade de lhe voltar a desobedecer. Ele não é injusto, descansa… Ele… gosta de mim… – Engoli em seco. – Ele gosta muito da sua aprendiza. Está sempre a chamar-me de minha querida padawan. Nos dias em que eu não o arrelio demasiado…

Era mentira. Nunca mais iria treinar com Luke Skywalker. Tinha essa certeza embutida no meu espírito e senti-me triste por estar a enganar deliberadamente o meu devotado protetor, o monstro que se preocupava comigo. Por que estúpido motivo reincidia no pecado de ser uma dissimuladora com todos os que me rodeavam e que me queriam bem?

O computador de bordo apitou. Dei a Iko as coordenadas da nossa rota que ele introduziu diligente no sistema de navegação. Entrámos na velocidade da luz com um leve chiar da carroçaria. As estrelas que piscavam na janela transformaram-se em traços brilhantes e, de seguida, os traços ficaram em grossas nuvens cinzentas numa borrasca de sombras.

Recostei-me. Iko desapertou o cinto, saiu da carlinga, regressou pouco depois com um cobertor que me colocou sobre os ombros. Agradeci-lhe a lembrança. Disse-lhe que preferia ficar ali e ele também ficou. Espreguiçou-se ruidosamente quando se tornou a sentar.

Estava a caminho da guerra. Acariciei a pedrinha negra. A Força acompanhava-me e dava-me toda a confiança e serenidade de que precisava naquele momento em que tinha escolhido a salvação do Universo e a minha perdição. Sem ilusões ou fantasias, sabia o que me esperava logo que chegasse ao sistema Hosniano. O primeiro passo na direção do meu abismo particular…

Nunca mais iria treinar com Luke Skywalker. Era uma pena. Mas também já não iria precisar de mais treino, que se completaria quando enfrentasse O’Sen Kram. Seria um Jedi e seria poderosa. Não havia mais nada para mim. As visões do meu mestre esgotavam-se aí.

Nunca me juntaria a Kram. Tinha operado a metamorfose requerida pelo mestre Eilin, tinha sido imprevisível. O lado negro não me iria aprisionar e condicionar os gestos, não seria uma traidora e desenganaria Luke Skywalker. Iria ajudá-lo, plenamente consciente do preço que estava a pagar com essa decisão.

Talvez não estivesse tudo irremediavelmente perdido. Talvez existisse um outro caminho em que eu regressaria às lagoas da primeira lua de Luyta para um último mergulho. Bastava fazer a escolha certa…



Notas finais do capítulo

Sempre indomável, logo que descobriu que podia sair da terceira lua de Luyta, a Cleo não hesitou - vai desobedecer ao seu mestre e vai atrás dele, para ajudá-lo a lutar contra O'Sen Kram. Tomou a firme decisão de que vai estar sempre ao lado de Luke Skywalker e provar a todos, incluindo a ela própria, que está definitivamente do lado do Bem.
Manterá essa decisão até ao fim?

A partir dos próximos capítulos entramos na fase final desta história. Vamos ter muita ação e acontecimentos imparáveis...

Próximo capítulo:
Guerra.



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