A Criação da Luz escrita por André Tornado


Capítulo 2
Segundo momento


Notas iniciais do capítulo

"Sentimos vergonha por sermos mortais, por sermos tão ignóbeis perante o inimigo. É algo que viola as leis dos deuses."
in Portas de Fogo, Pressfield, S., Ulisseia, 2004



Regressei!

Foi um alívio regressar. Imaginei aquela ausência como a morte. E não seria justo morrer quando tinha acabado de nascer – pelo menos era o que eu pensava ao me descobrir ali, no tal lugar como o primeiro de todos em que efetivamente encaixava a minha presença física. Que tinha nascido. Não havia outra explicação lógica para a falta de outras lembranças. Não me lembrava do que tinha havido antes de estar cheia de dores, de olhos fechados, tão doente que não conseguia fazer mais do que soltar um gemido que provavelmente ninguém ouvira.

Estaria sozinha?

Nascia já adulta, prodígio da Natureza, milagre universal.

O mais provável era não ser nada disso. Tratava-se de uma simples amnésia. Assim que despertasse, pois que estava adormecida, lânguida, deitada, ainda indefesa e confusa, logo que recuperasse um pouco as forças e me decidisse a encarar o mundo estranho, haveria de surgir alguma referência que me devolveria as lembranças perdidas.

O tempo passara, sabia-o. Tentava recuperar tudo o que era meu, que seria singelamente os pensamentos do primeiro instante em que ganhara consciência e a minha alma. Temia a realidade da perda total do que significava ser quem eu era, por isso não fazia grandes esforços, que poderiam significar a eliminação da possibilidade de recuperar o que me tinha sido roubado ou apartado.

Aos poucos fui compreendendo o mergulho, a viagem que empreendera vinda de longe até àquele local desconhecido que me era tão reconfortante quanto a enfermidade me permitia.

Continuava sem me lembrar de nada. Continuava a sentir o corpo a tremer de calor e de frio. Havia no ar um aroma estranho que me dificultava a respiração, doce e leve, como se fosse incenso.

Sabia que o tempo passara e não o contara. Horas, dias, semanas? Ou meses em coma? Ou meros minutos, sono profundo que durara um punhado de segundos que não faziam mossa na minha idade ou crescimento? Era uma mulher, conseguia reconhecê-lo, jovem, na plenitude das suas capacidades afetivas, emotivas, físicas. Se ao menos não estivesse doente…

Onde estava? Não reconhecia os ruídos que me rodeavam e que os meus ouvidos principiavam a captar, disfarçados entre o silêncio abundante. Animei-me, de súbito. Se escutava qualquer coisa, a minha condição melhorava. Emergia da piscina espessa onde flutuava anónima e tentei mover-me. Consegui, pareceu-me. Rodei o pulso, estiquei os dedos. Percebi o tecido do cobertor, estava deitada.

Concentrei-me nas pálpebras teimosamente pesadas. Era necessário olhar e as minhas orbes, reclusas daqueles pedaços de pele fina, mexeram-se da esquerda para a direita e da direita para a esquerda, como quando sonhamos e os nossos olhos pousam sem parar em cenários inventados, querendo ver o que não pode ser visto e decorar o que se esquece mal se desperta.

Pestanejei debilmente. Com imenso esforço, despertei. Estava dormente, exaurida, delirante. Absolutamente doente em sítio estranho. Ao fundo descortinei luzes a piscar, vermelhas e azuis, desfocadas e demasiado brilhantes. As paredes derretiam sobre mim num formato de abóbada, feitas de areia. O meu leito situava-se numa espécie de nicho escavado numa divisão única, mais ampla e arredondada. Não aguentei a façanha de abrir os olhos, não estava ainda preparada para acordar. Mesmo que a vontade fosse demasiada, o corpo protestava com as suas limitações. Alguém deteve-se junto a mim.

Não estava sozinha.

Descobri-lo causou-me um arrepio. Não consegui defini-lo, medo ou alegria, esperança ou apreensão, pois tornei a cair no abismo que me levava para longe.

— Sentes-te melhor? – perguntou-me.

A voz dissolveu-se como eu. Continuou a falar-me mas eu deixei de ouvir. Deslizei para mais uma viagem ao mundo desconhecido dos sonhos sem sentido que não se recordam no fim da noite, mesmo que os nossos olhos não parem sob as pálpebras fechadas.



Notas finais do capítulo

O narrador definiu-se... Uma mulher, jovem, na plenitude das suas capacidades afetivas, emotivas, físicas.
E... não está sozinha. Alguém falou com ela antes de voltar a perder os sentidos.

Próximo capítulo:
A memória de alguma coisa.



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