A Criação da Luz escrita por André Tornado


Capítulo 3
A memória de alguma coisa


Notas iniciais do capítulo

"Tinha sentido a magia nos limites da sua consciência durante horas,
mas, sempre que tentava usá-la, nada acontecia."
in Eragon, Paolini, C., Gailivro, 2006



O mesmo aroma doce e leve, inebriante como um incenso pungente.

Alguma coisa reconhecível – o cheiro do lugar. Recuperava novamente a consciência, mas desta vez sentia-me com mais forças para puder aguentar a vigília mais do que alguns instantes que apenas me fizeram ficar mais ansiosa, por não ter conseguido ainda a chave que descodificaria aquele mistério.

Estava deitada num leito e não estava sozinha. Caíra doente, com uma enfermidade de tal gravidade que me tinha tornado amnésica. E o sítio cheirava a incenso, o que não era desagradável mas deixava-me ligeiramente nauseada e alheada, uma espécie de torpor induzido quimicamente para evitar histeria. Um controlador. Era tudo o que sabia. Ah, mais o meu nome, que tinha surgido magicamente num disparo de luz no meu cérebro. Já sabia como me chamava e não me lembrava por que razão me chamava assim. Não sentia que aquele fosse, de facto, o meu nome, pois não tinha qualquer recordação de alguém a pronunciá-lo e eu a responder à chamada.

Pigarreei, aclarando a garganta. Queria experimentar a minha voz depressa, para saber se ainda sabia falar, para verificar se reconhecia o timbre como meu, já que nem essa memória tinha de mim – como soava a minha voz.

Abri os olhos num único movimento. As pálpebras pesadas não me iriam atraiçoar, decidira. Não me atraiçoaram, pois já não estavam tão pesadas. Pestanejei várias vezes para eliminar as ramelas que me picavam e faziam-me lacrimejar. Lágrimas ajudavam à limpeza e deixei-as formar-se, deslizarem pelas faces para arrastarem os resíduos secos criados pelos sonos demorados por que passara. A visão ficou ligeiramente nublada, mas não me importei.

Voltei a cabeça, a tentar perceber se era o mesmo sítio que eu vislumbrara ligeiramente quando tinha aberto os olhos pela primeira vez. Sim, continuava no mesmo sítio. Era uma casa estranha, feita de uma só divisão separada por pilares encimados por arcos perfeitos. As paredes, construídas de rocha acastanhada, assemelhavam-se a areia colada. Os móveis eram simples e toscos e não havia nenhuma decoração, nada que se pudesse dizer que estava a enfeitar qualquer canto. Ao fundo, uma máquina esquisita com luzes vermelhas e azuis que piscavam alternadamente. Já a tinha visto antes também… O leito onde me deitava era um simples paralelepípedo de pedra com cobertores igualmente castanhos. Tudo o que me rodeava possuía essa cor deprimente. Observei o teto baixo de onde se pendurava um candeeiro redondo que emitia uma luz amarelada que tornava tudo muito mais fantasmagórico.

Não reconheci o lugar. Nunca ali tinha habitado, nem nunca tinha tido um pesadelo com uma casa tão sombria. Pelo menos que eu me lembrasse e eu não me lembrava de grande coisa do meu passado. Sabia o meu nome e era tudo.

Podia voltar a adormecer… Ou não?

Um som metálico deslizante sobressaltou-me. Fiquei muito quieta enquanto alguém se aproximava. Era ele, o dono daquela voz que ouvira quando despertara da outra vez. O meu salvador, benfeitor, amigo, inimigo ou carrasco, não sabia e senti novamente aquele arrepio indefinido que me deixava mais hirta do que um dos pilares imóveis que sustinham os arcos perfeitos.

Ele sentou-se na beira da cama e olhou para mim. Encarei-o, apertando o cobertor com força. Vestia-se inteiramente de negro, túnica apertada com um cinto e calças justas rematadas com umas botas de cano alto. O preto das vestimentas estava empoeirado, como se tivesse andado por um deserto arenoso, o que aligeirava a imponência do traje. O rosto jovem, sério, ligeiramente crispado, com uma preocupação latente que tentava disfarçar. Os olhos eram azuis, profundos, destoando claramente do conjunto formado pela roupa negra e a expressão de seriedade. Tinham uma centelha de calor que me atingiu o peito como um dedo espetado sobre o coração. Transmitiam, de certo modo, alívio e segurança.

— Vejo que já despertaste… Sentes-te melhor?

Aquela cara, aquela postura, os dedos entrelaçados, a nobreza. Ele… Não me era totalmente desconhecido. Entreabri os lábios. Uma memória repentina fez-me estremecer. Eu sabia quem ele era!

— Encontrei-te sem sentidos junto ao desfiladeiro de Vitra – prosseguiu num tom calmo. – O que fazias por esses lados? Perdeste-te de alguma caravana?

Não fui capaz de responder a nenhuma das perguntas. O que tinha acabado de me dizer não fazia qualquer sentido. Desfiladeiro? Caravana? Eu só sabia que estava fraca e doente, só sabia o meu nome… E curiosamente também o nome dele!

Abanei ligeiramente a cabeça fechando os olhos. Doeu-me e percebi que, contra a minha vontade, iria perder novamente os sentidos. Porquê? Queria conversar mais com ele… Queria dizer-lhe qualquer coisa… Ouvir a minha própria voz.

— Vou buscar-te um pouco de água.

Por entre as pestanas que se fechavam, vi-o levantar-se.

Eu estava ali… com Luke Skywalker.



Notas finais do capítulo

Duas memórias regressaram à mente apagada da nossa narradora: o seu nome (será revelado em breve...) e o nome de quem está com ela. Luke Skywalker!

Estaremos perto de quebrar o mistério?

Próximo capítulo:
Mitos e lendas.



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