A Criação da Luz escrita por André Tornado


Capítulo 19
Um aliado


Notas iniciais do capítulo

"E havia o sofrimento de ter tido aquilo com o que sonhara durante todos aqueles longos anos e de afinal se ter transformado em pó e cinzas."
in As Brumas de Avalon – A Rainha Suprema, Bradley, M. Z., Difel, 1996



A escuridão, entremeada de nevoeiro denso, era pavorosa. As árvores, de muitos metros de altura, coroadas por copas cerradas, dificultavam a visão. Os arbustos enrolavam-se nas pernas e atrapalhavam a caminhada. Os ruídos das criaturas noturnas aterravam por se ocultarem na distância e na sombra. A floresta era viva à noite.

Eu avançava de olhos fixos no escuro, afastando ramos, evitando as armadilhas naturais de plantas espinhosas ou de buracos. Deixara de correr quando me vira suficientemente afastada da clareira iluminada pela casa do mestre Eilin, que se via até grande distância, desde o interior da floresta. Procurava pela antiga base imperial, local da minha chegada ao planeta acompanhada de Lyle Bergh. Mas se com o contrabandista a viagem desde o espaçoporto abandonado até à clareira não tinha sido longa, o caminho inverso parecia que levava uma eternidade.

A explicação mais simples era de que estava perdida.

Parei e respirei fundo. Não era produtivo continuar a avançar às cegas, sem saber onde iria parar, pois aquela floresta parecia infinita. O mais normal seria que uma grande porção da superfície do planeta fosse coberta de árvores, o que significava que eu podia levar dias a percorrer aquela mancha arborizada sem encontrar a base. E para uma viagem de dias necessitava de provisões, de água e de agasalho. Estava transida de frio, apesar de a capa me proteger da humidade que tornava o ambiente fantasmagórico, mas já estava encharcada e o frio penetrava através do tecido. Além do mais, a progressão em terreno desconhecido era mais lenta à noite, pelo que a lógica ditava-me que aguardasse pelo romper do dia.

Analisei as minhas possibilidades, com um sentimento crescente de pânico. Se falhasse naquela tentativa de regressar à base, tinha o pressentimento de que as coisas iriam descambar. Kram ficaria irritado por não me recuperar e o cavaleiro Jedi seria cobardemente executado. Seguir-se-ia a guerra e todo o poder de fogo do senhor do trono negro seria exibido, esmagando sem apelo a Nova República e todos os ideais de liberdade, prosperidade, harmonia e paz. Basicamente, a visão catastrófica do mestre Eilin.

Um uivo evolou-se das ramagens altaneiras sobre a minha cabeça.

Tinha duas possibilidades, finda a análise sucinta. Tentar regressar à clareira de onde fugira, guiando-me pelo brilho da casa que seria capaz de avistar desde um ponto relativamente afastado em que não comprometia a minha fuga e encetar um novo trilho, numa direção diferente, experimentando vários trilhos até que me acercasse da base. Ou utilizar a Força e deixar que os meus passos se guiassem por essa energia mística.

Sorri com a ousadia da segunda possibilidade. Fazia todo o sentido se eu acreditasse naquilo que me tinham dito Luke Skywalker e o mestre Eilin, se eu considerasse que essa tinha sido a génese da minha criação maldita. O senão era que não estava totalmente convencida de que era essa extraordinária maravilha e que conseguia controlar a Força da mesma forma ou melhor que um Jedi bem treinado.

— Quieta! Não te mexas!

Falaram-me próximo ao ouvido esquerdo. Não pretendia mover um músculo antes de descobrir quem me tinha encontrado no meio daquela desolação. Qualquer movimento brusco assustaria quem me ameaçava e fiz o que me mandavam. Ao sentir o cano de uma pistola laser nas costas fiquei ainda mais imóvel.

Ele rodeou-me lentamente, mantendo a arma apontada. Olhei-o diretamente. À primeira vista, não parecia um dos soldados de Kram, já que não vestia nenhum dos uniformes que vira na nave.

— Olhem só o que anda a vaguear por aqui… – observou com ironia.

De uma forma desconcertante, achei-o atraente. Bem proporcionado, estatura elevada, ombros largos. Os cabelos eram loiros e ondulados, os seus olhos, verdes, uma barba rala a emoldurar um sorriso confiante, dentes perfeitos. Por causa da roupa informal não seria um dos soldados de Kram, mas podia ser um caçador de prémios à minha procura, a soldo de Kram. Resolvi ir com cautela.

— Porque estás a apontar-me isso? – indaguei, mostrando os braços devagar para não o assustar. – Estou desarmada. O que poderei fazer contra ti?

— Sim, tens razão – concordou desconfiado. – Posso revistar-te?

— Não te disseram que não estava armada? A revista parece-me desnecessária…

— Sou um homem previdente. E quem me haveria de falar de ti, posso saber?

Estaria a desconversar ou a ser honesto. Naquela fase não podia descuidar-me com primeiras impressões erradas e fiz um sinal com a cabeça para que avançasse. Assentou a arma no meu tórax e começou a passar a mão esquerda, primeiro pelos flancos, apalpando-me desajeitadamente, depois pelo cinto, metendo os dedos por dentro das dobras deste. Por fim nas pernas, com pequenas palmadas na parte exterior, apertando o interior das minhas coxas.

— Satisfeito? – perguntei.

Enfiou as mãos no cano das botas, apertou-me os tornozelos.

Levantou-se, afastou a arma e guardou-a no coldre que se pendurava no vistoso cinto dourado.

— Sim, satisfeito – respondeu-me, alargando o sorriso. – Mas se tentares algum ataque surpresa, aviso-te que sou rápido a sacar. Esta menina já me safou de muitos apertos – acrescentou batendo na coronha da pistola.

— Acredito.

Perguntou-me curioso:

— Deveria conhecer-te?

— Acho que não…

— Que demónios fazes no lado sombrio de Luyta, a vaguear numa floresta perigosa como esta? Tiveste sorte por nenhum animal te ter atacado. Costumam ser bastante selvagens.

— Lado sombrio? Quer dizer que o sol não vai nascer nunca?

— Não. O sol está do outro lado do planeta e fica sempre do outro lado do planeta.

— Será de noite para sempre?

— É o que acontece quando um planeta gira à mesma velocidade que a estrela do seu sistema. Não é muito frequente, contudo, mas Luyta é especial… O que fazias por estes lados?

— Estou perdida. Procuro um sítio… talvez conheças.

— As informações custam dinheiro.

Respirei fundo. Tinha de arriscar ou não sairia daquela conversa inútil. Por outro lado, desconfiava que não estaríamos assim tão longe da base, pois aquele homem previdente não se afastaria demasiado de um sítio seguro para vaguear por uma floresta pejada de animais perigosos. Ou teria um veículo que lhe permitia aventurar-se por aqueles recantos inóspitos, a fazer sabia-se lá o quê. De qualquer modo, era a minha potencial ajuda. Se não fosse um inimigo. Mas se o fosse, também me poderia aproveitar dele…

— Estamos a falar de que quantidade de dinheiro?

— Depende de quanto estiveres disposta a desembolsar.

— O suficiente para que pague o teu incómodo. Ou para cobrir o preço que te prometeram pela minha cabeça.

Ele soltou uma gargalhada.

— De que estás a falar, miúda? Não sou nenhum caçador de prémios, essa escumalha! Sou um negociante.

— Oh… Aposto que para além das habituais mercadorias, também negoceias com pessoas, passageiros especiais que desejam discrição. Bem, sou um desses passageiros. Senhor…? Ainda não me disseste o teu nome.

— Morva Senthy, ao teu dispor. Sim, faço o transporte desse tipo de passageiros, mas ultimamente esse negócio entrou em declínio. Quando o Império andava por aí, havia mais gente a desejar essa tal discrição, agora há salvo-condutos que se obtêm facilmente para viajar entre os sistemas planetários.

O orgulho do homem era o seu ponto fraco e ao fazer-lhe apelo ao mesmo, conseguira as informações de que precisava. Sentia-me mais segura na sua presença, mas não baixei totalmente a guarda. Ele continuava armado, era mais forte fisicamente do que eu e não seria totalmente de fiar, quando regateava a ajuda a uma mulher aparentemente indefesa no meio de uma floresta noturna.

— E como se chama a minha futura passageira?

Hesitei um segundo, mas desfiz-me num sorriso agradável para não o espantar.

— Cleo.

— Gosto do nome. – E piscou-me o olho.

Tentei continuar a sorrir, mas tornou-se impossível ante aquela tentativa amadora de sedução. Avancei com alguma impaciência:

— Morva Senthy, se concordares em levares-me ao sítio que procuro, pagar-te-ei o que quiseres. Não logo quando chegarmos, não tenho dinheiro comigo. Mas chegará às tuas mãos, prometo.

Ele franziu a testa, admirado com a proposta.

— Quer dizer que não me vais pagar… já?

— Impossível. Não me revistaste? Não tenho arma comigo, nem dinheiro.

— Então, não há negócio, miúda.

— Como é que não há negócio? – protestei furiosa. – Estou a dizer-te que vou pagar-te! Diz o teu preço.

Ele recuou, acenou-me com dois dedos junto à testa.

— Sem dinheiro, não há informações, nem transporte. Adeus, gostei de te conhecer.

Deu meia volta e embrenhou-se na floresta, desaparecendo entre a neblina. Escutei-lhe os passos sobre a folhagem orvalhada. Primeiro vigorosos, próximos, depois a desvanecerem-se na distância à medida que se afastava. Não vacilara por um instante, considerando que deixava uma mulher completamente abandonada num local tão perigoso quanto fizera questão de anunciar. E continuou a andar, implacável na sua decisão. Escutei, quando o som dos passos desapareceu, o zunido do motor de um veículo planador e um ronco, indicando que se punha em movimento.

Um uivo breve, guinchos e arranhadelas sobrepuseram-se ao silêncio frio.

— Não acredito! Aquele bastardo deixou-me aqui sozinha…

Na prática, nada tinha mudado na minha situação. Já estava a fazer aquele caminho desacompanhada, estava tão perdida como antes de conhecer aquele homem, continuava enregelada. Mas os dados novos que tinham sido acrescentados àquela aventura tinham-me deixado numa zona de desconforto. Aquela floresta situava-se no lado sombrio do planeta, o que queria dizer que não haveria um dia luminoso para afastar a escuridão, e os animais das sombras eram selvagens, que poderiam atacar quem lhes parecesse vulnerável.

Furiosa, corri em frente, tentando estupidamente alcançar o veículo de Morva Senthy. Rasguei a capa nos arbustos, ignorei as chicotadas nas mãos provocadas pelos ramos despidos. Corria sem parar, rangendo os dentes, pensando naquele maldito contrabandista que ousara abandonar-me, que provavelmente esperava que uma mulher lhe implorasse por ajuda e o deixasse cobrar o que quisesse pelo favor. Ele gostara de me revistar, o bastardo! Corria sem parar, zangada comigo mesma porque era fraca, indefesa, inútil, porque julgava que conseguia salvar os antigos heróis da Rebelião.

Galguei uma ladeira íngreme. No início, o ímpeto levou-me até metade do trilho sem dificuldade, mas a corrida desenfreada roubou-me, de uma vez só, a força nas pernas e fui com os joelhos ao chão. Agarrei-me aos torrões húmidos de terra, rugi de impaciência, de frustração. Icei-me lentamente e venci a ladeira a rastejar. Sentei-me no topo sem fôlego. O suor tornava-se gelo na testa.

Não me lembrava de ter passado por uma descida com Lyle Bergh e Iko. Fora um caminho curto, sem nenhum relevo assinalável. Estava definitivamente perdida. Limpei a cara com as mãos sujas, recuperava o alento sorvendo grandes porções de ar. Ouvi alguns grunhidos atrás de mim.

Estreitei os olhos. Mais adiante, os arbustos eram rasteiros e as árvores mais afastadas. Via-se alguma claridade, diferente do escuro opaco da floresta. Corri com o coração aos saltos, a pensar que finalmente tinha chegado à base imperial. Enganei-me.

No entanto, aquilo que encontrei constituía uma visão igualmente magnífica.

A perder-se até ao horizonte aberto, estendia-se um enorme lago de águas prateadas que ondulavam levemente com a brisa que soprava naquelas paragens. A névoa levantava-se do espelho aquático e formava figuras lânguidas, semelhantes a espíritos. O arvoredo rodeava o lago, projetando a sua sombra quieta sobre as águas. Ali acabava a floresta e começava outro reino.

Passado o êxtase inicial, deixei-me cair na margem lamacenta.

Tive a completa certeza de que estava demasiado afastada da base imperial.

Retomei o meu raciocínio. Tinha duas hipóteses. Reencontrar a clareira através do seu brilho, utilizar a Força. Como a última parecia-me impossível para alguém destreinado, ainda que tivesse nascido com tremendas habilidades nesse domínio que foram posteriormente arrancadas de mim quando me apagaram a memória em Tatooine, deveria cingir-me à primeira hipótese.

Respirei fundo, resolvida a ser mais racional e menos emocional naquela segunda tentativa para chegar à antiga base imperial. Olhei para a capa esfarrapada. Se lhe arrancasse pedaços, poderia ir marcando o trajeto que estivesse a percorrer e assim evitar que andasse em círculos e que passasse mais do que uma vez pelo mesmo sítio. Frio já tinha, pelo que perder aquela peça de vestuário não me parecia, à partida, problemático.

Acerquei-me do lago, enchi uma mão de água e lavei a cara.

Nisto, um grunhido irrompeu na quietude da noite. Endireitei-me. Soara demasiado perto. Olhei para o lago, aterrada. Soara dali.

Um membro gigantesco, munido de garras afiadas, varreu o chão debaixo dos meus pés e derrubou-me. Bati com as costas no chão duro, soltei um gemido.

Devia reagir. Tonta, finquei as unhas na terra enquanto resvalava pelo declive da margem. Dobrei o pescoço e tentei ver através do cabelo despenteado. Mexiam-me nas pernas atabalhoadamente. Gritei horrorizada. Um animal descomunal, coberto de grossas escamas pretas, com um longo focinho guarnecido de presas afiadas, metade do corpo esguio enfiado na água, tentava arrastar-me para o fundo. Esperneei e consegui que me soltasse a perna que já segurava e estrangulava. Voltei-me, escalei o declive apoiando-me nos cotovelos, gritando como se os meus berros me dessem mais força na escalada.

Com novo grunhido, o animal cravou-me as garras na perna direita. A dor aguda que se me entranhou nos ossos foi horripilante. Gritei mais alto. Um líquido quente e espesso empapava-me as calças e a bota. Fiquei agoniada, desisti e deixei-me levar.

O animal deu-me um puxão, soltou-me a perna ensanguentada. Rosnou ameaçador e colocou as patas dianteiras em cima das minhas costas, pressionou, enterrou-me na terra. Senti-lhe o bafo pútrido na nuca. Tive um espasmo, o vómito subiu-me à garganta. Comecei a tossir, engasgada com a areia que aspirava.

Vou morrer, pensei desesperada. Vou ser devorada no lado sombrio de Luyta. E assim, desta forma ridícula, termina a maravilhosa criação de O’Sen Kram.

Pingos de saliva molharam-me a orelha esquerda, enquanto o animal farejava e rosnava. Fechei os olhos, contraí os músculos. Queria que fosse rápido.

Dois disparos cruzaram o ar, o animal calou-se. Subitamente, o seu peso saiu de cima de mim e eu pude levantar um pouco o queixo para respirar melhor. Voltei a gritar. Esgravatei a terra, elevando-me o suficiente para rastejar uma nesga pelo declive acima. Puxaram-me pelo braço, equilibrei-me precariamente nas pernas que tremiam, levantei o pé direito com a dor lancinante que senti, comecei a trotar o declive enquanto era arrastada até às primeiras árvores.

— O que raios estavas a fazer, miúda? Não te tinha dito que a floresta era perigosa?

Vacilei e ele amparou-me. Olhei para Morva Senthy atónita.

— O lago é mais perigoso ainda!! – completou zangado.

Tentei dizer alguma coisa, mas saiu-me uma tossidela. O choque fazia-me tremer e suar. Ele abanou a cabeça e afastou-me das margens do lago, explicando:

— Vamos embora. Esses animais estão por todo o lado. Não tarda e teremos outro a atacar-nos. Basta-lhes cheirar o teu medo e o sangue.

Coxeei encostada a Morva e quando ele achou que estávamos suficientemente longe da água, obrigou-me a sentar com um safanão brusco. Encolhi-me cheia de dores. Tinha a perna direita dilacerada e quis agarrá-la, mas ele deu-me uma palmada.

— Não lhe toques, tens as mãos sujas e ainda arranjas uma infeção.

Agachou-se junto a mim. De uma sacola que usava a tiracolo retirou um pano e enrolou-o no meu ferimento. Esforcei-me para não gritar, apertando os dentes, cerrando os olhos, engolindo os gemidos. Estava prestes a rebentar em lágrimas.

— Pronto! Está tratado, provisoriamente. Precisas de ser vista por um androide médico.

— Aqui… não há nada – arquejei. – Só árvores e um lago… Onde vou encontrar um androide médico?

— Há também uma antiga base imperial. É esse sítio que procuras, não é?

Pensei antes de responder. Já não tinha nada a perder, estava nas mãos daquele contrabandista. Perdida e ferida, não iria muito longe sem ajuda. Acabava de fintar a morte, não estava em posição de negociar nada. Acenei afirmativamente com a cabeça.

— Muito bem… – murmurou ele, a olhar-me fixamente.

Pigarreei para aclarar a garganta ainda congestionada da areia inalada.

— Mataste-o?

— Não te largava se não o fizesse. Ia-te abocanhar a cabeça. Tiveste sorte, miúda. Com os tuyaq não se brinca.

— Era… um tuyaq?

A primeira vez que escutava tal designação para um predador. A minha amnésia era pródiga em colar-me rótulos de pura ignorante. Não devia culpar apenas a falta de memória, todavia. Tinha sido criada pouco antes de me terem largado em Tatooine e o meu criador não devia ter preenchido a minha mente com muitas informações sobre a galáxia. Daí ter existido tanto espaço para enchê-la de lembranças da guerra nas estrelas…

— Estás a ouvir-me? – perguntou Morva estalando os dedos diante dos meus olhos.

Não, não o ouvira. Ele repetiu:

— Decidi levar-te à antiga base imperial. Agora tens mais um motivo para lá ir, para te tratarem dessa perna. Lá posso arranjar-te um medicamento que te vai tirar as dores, mas depois deves sair de Luyta por causa da assistência médica de que precisas.

— Então, o que te fez mudar de ideias?

— Estive a conversar com o meu amigo Lyle Bergh.

O nome do contrabandista que me salvara da Belirium sacudiu-me. Comecei a magicar um enredo mirabolante, mas desisti do exercício cansativo. Faria todo o sentido que se conhecessem. Morva era outro da mesma laia, negociante de mercadorias proibidas e de pessoas anónimas. Ele prosseguiu:

— Bergh confirmou-me que deveria andar uma mulher na floresta de Luyta. Tinha-a deixado aqui algum tempo antes, depois de um salvamento arriscado num antigo star destroyer que aparentemente está de novo operacional. Achou estranho que não estivesses com a criaturinha que pagara pelo teu salvamento, onde te deixou… Numa clareira, acho eu. Confirmou-me também que tu eras valiosa e que eu só teria a ganhar se te ajudasse. Podias não andar carregada de dinheiro, mas que haveria sempre alguém que pagaria uma fortuna pela tua vida.

— Oh…

— Vim atrás de ti. Não gosto de desperdiçar um negócio lucrativo. Por pouco não perdia o meu investimento.

— Fico muito feliz – observei, sarcástica. – Graças à tua ganância, salvaste-me a vida.

— Tiraste-me as palavras da boca, miúda. Não fiques ofendida. Tu, de qualquer modo, disseste que me pagavas. A diferença é que eu não acreditei em ti, antes.

— Não estou ofendida.

— Consegues andar? – perguntou levantando-se, fechando a sacola.

Segurei-me ao tronco mais próximo e pus-me de pé. A dor lancinante fazia a perna latejar com cada batida do coração. Eu não conseguia andar, mas deduzia que não iríamos fazer o trajeto a pé até à base. Por isso armei-me de coragem, assentei a ponta dos dedos do pé direito no chão, mais dores, mordi a língua, inspirei fundo.

— Sim, consigo andar – menti, sentindo-me tonta e prestes a desmaiar.

— Bem, segue-me.

Uma tarefa quase impossível, seguir Morva Senthy pelo terreno escorregadio da floresta a arrastar uma perna ensanguentada, mas fui atrás dele sem gemer um queixume. Estava enjoada. Para não me focar no meu estado debilitado e para o obrigar a andar mais devagar comecei a fazer conversa:

— O animal que me atacou tem veneno nas garras?

— Não. Precisas apenas de prevenir uma infeção, de coser o ferimento e de aplicar um cicatrizante. Coisa simples.

— Conheces muito bem a floresta…

— Ando por aqui muitas vezes.

— A apanhar gente perdida que procura a antiga base imperial?

— Não, a caçar. És o primeiro humano que vejo na floresta, em muitos anos.

— O que caças?

— Vercas. Hoje em dia dão muito dinheiro pelas unhas e pelos dentes dos vercas, para fazer joias para as senhoras das grandes cidades. Dizem que é uma extravagância. Concordo… Se soubessem o trabalho que dá apanhar um verca…

— Outro dos teus negócios…

— Temos de diversificar.  

— Os vercas também são perigosos?

— Muito. Nesta floresta, só há animais perigosos.

— Alguma vez foste atacado por um animal?

— Aqui? Já aconteceram várias tentativas, mas ando sempre armado. – Bateu na coronha da pistola. – Esta menina já me safou de muitos apertos, como te contei.

— Devia andar armada também…

Com o que contava enfrentar dali por diante, seria o mais ajuizado.

— E o que queres da base, miúda?

— Fazer uma transmissão. É possível?

— Sim, claro que é possível. Queres enviar uma mensagem para onde?

— Coruscant.

Morva parou. Olhou-me por cima do ombro, assobiou.

— Deves ser alguém mesmo muito importante.

— Nem sabes quanto!

— Tens amigos em Coruscant? No Novo Senado…?

— Espero que ainda estejam lá, senão pode ser tarde demais.

— Hum… O star destroyer operacional está relacionado com a tua mensagem.

— Talvez.

Ele encolheu os ombros, desaparecendo entre dois arbustos.

— Salvei-te a vida e continuas a não confiar em mim – observou do outro lado do muro natural.

— Tu também não confias em mim. Estamos apenas a concluir um negócio, benéfico para ambas as partes.

Afastei os arbustos, arranquei a bainha da capa que ficara presa nos pequenos ramos aguçados. Reparei que a ligadura improvisada da minha perna tinha uma mancha escura. Continuava a sangrar e não era bom. Encontrei Morva a calçar umas luvas, junto ao seu veículo planador, um speeder estreito com um painel simples abaixo de um volante bipartido em duas alavancas, com o qual se controlava a direção. Tinha apenas um banco, indicando que era um monolugar, e placas laterais para assentar os pés. Como qualquer veículo utilizado por um contrabandista tinha o aspeto de uma sucata recuperada, um antigo modelo 74-Z imperial transformado. Não desdenhei do transporte, contudo. Precisava urgentemente de descansar, nem que fosse a fintar as árvores a alta velocidade sobre aquela geringonça periclitante.

— Agarra-te a mim. Com força, miúda, ou saltas daqui a voar – disse-me a alçar uma perna, cavalgando o speeder que oscilou com o seu peso. Ligou o motor. Reconheci o zunido que já tinha escutado antes.

Sentei-me atrás, na nesga de banco que sobrava, empurrando-me para a frente. Abracei-o pela cintura. Com uma tontura inesperada, encostei o nariz ao casaco dele. Estreitei o abraço, temendo não conseguir sobreviver à viagem.

Luke Skywalker e Leia Organa montavam speeders idênticos, bicicletas motorizadas velozes, a perseguir soldados imperiais de reconhecimento na verde lua de Endor. Fechei os olhos para combater aquela náusea que me fazia alucinar.

— Vês? Somos amigos.

Ignorei a piada duvidosa. O corpo de Morva Senthy era quente, contudo.

O speeder arrancou. Os grossos troncos das árvores passavam rapidamente por nós e rapidamente eram ultrapassados, aumentando com a proximidade, minguando na lonjura. O motor silvava à medida que avançávamos pela floresta escura que era bastante maior do que julgara. Nunca sobreviveria sozinha num lugar tão terrível.

Uma voz muda embalou-me. Vi o rosto de Luke Skywalker, contemplativo, sem marca assinalável de um qualquer padecimento ou tortura insuportável. Sorri-lhe nesse sonho.

— Estou quase a chegar – murmurei-lhe.



Notas finais do capítulo

O novo amigo da Cleo chama-se Morva Senthy. Apesar de a ter salvado do animal do lago, não parece muito diferente de Lyle Bergh... Ficarão amigos?
A Cleo não tem outra hipótese a não ser confiar nele... ou aproveitar-se da sua companhia e considerá-lo um aliado, pois de outro modo a floresta da Luyta acabaria por derrotá-la.
Mais algumas criaturas de minha autoria, como os vercas e o tuyaq.
A Cleo começa a usar a Força e consegue ver nitidamente Luke Skywalker.
Conseguirá ela enviar a mensagem a Coruscant e ajudar no resgate do cavaleiro Jedi?

Próximo capítulo:
Na antiga base imperial.



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