A Criação da Luz escrita por André Tornado


Capítulo 14
O encontro com um deus


Notas iniciais do capítulo

"Ele sabia que era a ambição e rir-se-ia daquilo que estou neste momento a tentar compreender em mim mesmo. Diria que eu estou a tentar complicar uma coisa simples."
in Aristóteles e Alexandre, Lyon, A., Dom Quixote, 2010



Um grupo de seis homens vestidos de vermelho e negro irrompeu pela cabina de pilotagem e o lugar ficou acanhado demais para tanta gente, já que comigo e com Luke fazíamos oito pessoas naquele espaço exíguo. Apontaram-nos as suas armas laser mecanicamente.

Luke continuava exangue, não totalmente desacordado mas sem qualquer reação e demasiado atordoado para reagir. Na mira de uma arma laser não havia muito mais que eu pudesse fazer a não ser levantar-me e seguir o homem que se decidisse a conduzir-me sob essa ameaça armada e foi o que eu fiz. Picaram-me nas costas com o cano gélido e saí da cabina, deitando um último olhar ao cavaleiro Jedi, mas não consegui ver o que lhe iriam fazer. Só podiam carregar com ele, se o queriam, como eu, fora da nave.

Desci pela rampa de acesso, empurrada por picadas ocasionais da arma laser. O porão densamente iluminado por uma luz branca, tão gélida quanto o cano que me empurrava, como se precisasse de um incentivo para me mexer com todo aquele teatro intimidatório montado, era vasto e constituía um tipo de hangar da nave gigantesca. Noutras placas estavam pousadas outras naves, rodeadas por homens com a mesma farda vermelha e negra, armas laser cingidas ao peito. Pelotões organizados, formados por duas colunas de dez homens cada, marchavam ordeiramente. O cenário militarista assemelhou-se-me a uma fantasia de mau gosto, uma emulação tosca do antigo Império.

Um homem com a cabeça coberta por um bivaque, de insígnias coloridas ao peito indicando um posto elevado na cadeia de comando, envergando o mesmo tipo de uniforme, de mãos atrás das costas, apareceu junto à rampa. Recebeu-me com um sorriso cínico e triunfante.

— Bem-vinda!

Dois homens passaram por mim, arrastando Luke entre eles. Tentou dizer-me qualquer coisa, mas não conseguiu. Escutei-lhe um lamento sofrido e vi-o levarem-no pelo porão, até uma porta estreita que se abriu, recolhendo-se lateralmente, e que se fechou.

— O que se está a passar aqui? – perguntei indignada.

O oficial inclinou-se ligeiramente para observar-me de perto. Dei um passo atrás e encontrei, nas minhas costas, o cano da arma laser. Estaquei. O sorriso daquele homem intimidante animou-me e, tomando-me de toda a bravura que consegui reunir na minha alma apavorada, declarei:

— Esta agressão a uma nave civil, em tempo de paz, quando se procedia à aproximação a Coruscant é intolerável e totalmente reprovável.

— É igualmente um prazer estar na tua companhia… – disse o oficial, ignorando a minha indignação. – Mas se julgas que me podes assustar com essa bazófia, enganas-te.

— O Novo Senado ficará a saber deste vil acontecimento e agirá em conformidade – interrompi elevando a voz. O homem parecia impenetrável à minha ameaça eloquente. De onde tinham vindo aquelas palavras presunçosas, não o sabia. – O responsável por esta abordagem criminosa será convenientemente punido. Estão a tomar como prisioneiro um cavaleiro Jedi sem qualquer razão ou acusação formada.

O oficial soltou uma gargalhada, endireitando-se. Um dos homens fez-lhe uma continência e disse-lhe:

— Capitão Revan. Estão à espera dela na Sala do Trono. Não será apropriado…

— Obrigado, Frint, por me recordares do que fazemos aqui. Não farei o mestre esperar, com certeza. Podem levá-la.

Eu finquei os pés ao sentir nova picada da arma.

— Julgam-se assim tão impunes? Estão a cometer um crime na vizinhança de Coruscant! – exclamei com mais desespero do que aquele que queria realmente transmitir.

O capitão Revan apagou o sorriso. As suas feições eram implacáveis quando não sorria.

— A nossa presença foi devidamente ocultada – explicou irritado. – Julgas, por acaso, que somos amadores? E a vossa mensagem de socorro foi devidamente intercetada pelo nosso sistema de barramento de comunicações inimigas. Ninguém sabe o que vos aconteceu… – Descontraiu-se e a irritação evaporou-se no ténue sorriso que mostrou de seguida. – A história oficial… Oh sim, haverá uma história oficial para o desaparecimento do cavaleiro Jedi! A história oficial reportará um infeliz acidente, no hiperespaço, com um asteroide não calculado. Não será de admirar, com um copiloto tão inexperiente a auxiliar o cavaleiro Jedi na navegação de um antigo transportador imperial, tipo Lambda.

— Não… – murmurei.

— Da minha perspetiva – prosseguiu untuoso –, não estás em posição de fazer qualquer tipo de exigência ou de encetar uma revolta, por isso aconselho-te a refrear esses teus impulsos que só te conduzirão a um destino pior e mais doloroso. De qualquer modo, és muito bem-vinda a este destruidor estelar. – Ordenou ríspido: – Leva-a para a Sala do Trono, Frint. Usa a força se ela te resistir.

Estremeci. Estava totalmente à mercê daqueles homens misteriosos que constituíam o exército de algum louco que me esperava numa sala ornamentada com um trono e que, o mais importante e singular, sabia que eu existia.

Avaliei rapidamente as opções que se me apresentavam e tinha tudo contra mim. Ninguém sabia que eu e Luke estávamos prisioneiros, as hipóteses de realizar uma fuga sozinha eram mínimas e nunca iria abandonar o cavaleiro Jedi, o mestre do capitão Revan e de todos aqueles homens parecia ser alguém com algum poder no novo esquema das relações políticas da galáxia, ou simplesmente um renegado perigoso munido de alguma arma especial que o fazia temível, num primeiro reporte.

E sabia que eu existia!

A resposta estava ali…

Foi, então, o soldado Frint que me escoltou até à Sala do Trono. Caminhava ligeiramente atrás de mim, do meu lado esquerdo, sem me picar nas costas, o que parcialmente foi uma melhoria na minha condição. Levava a sua arma laser junto ao peito, com o dedo no gatilho, pronto a disparar ao mais mínimo movimento suspeito. O soldado Frint era diligente, carrancudo, perigoso. Não me atrevi a inventar uma desculpa para me prejudicar e fazer com que o soldado Frint fosse promovido.

Apanhámos um elevador prateado, ao qual se acedia através de duas portas encaixadas num cilindro, diferente, portanto, da porta estreita para onde tinham levado Luke. Para ele não estava reservado nenhum encontro com o mestre.

Tinha medo, mas dominei-o contabilizando pequenos detalhes do que se estava a passar, do que via, contando os passos metódicos do soldado Frint no soalho escuro e espelhado daquela nave. Sempre que pensava que a mensagem de socorro para Leia tinha sido intercetada sentia um calafrio de desânimo e os meus joelhos fraquejavam. Sempre que imaginava a história oficial a ser divulgada, o meu coração apertava-se de tristeza.

Respirava fundo, a seguir, esticava o pescoço e tornava-me mais determinada. Iria conseguir combater aquela adversidade, ao lado de Luke, iria conseguir sobreviver àquela prova e haveríamos de levar à justiça aquele mestre que se julgava acima das leis da galáxia. As minhas ameaças no fim da rampa de acesso do nosso transportador aprisionado ganhavam um sentido profético e davam-me alento e coragem.

Eu e o soldado Frint seguimos por um imenso corredor com o teto baixo, formado por vigas metálicas. Era um sítio lúgubre e sombrio, com uma atmosfera pesada, opressiva como um templo maldito.

Parámos em frente a uma porta dupla onde se desenhava um medalhão com a figura de um sol negro com a cabeça de um animal, que não reconheci, no centro. As duas portas abriram-se e o medalhão ficou cortado ao meio. O soldado Frint afastou-se de modo a dar-me o protagonismo. Estendeu-se diante de mim um salão negro com um teto transparente, através do qual se via uma profusão de estrelas.

Pelo canto do olho vi a arma laser apontada à minha nuca.

— Avança. Se parares, hesitares ou fugires… morres!

Olhei para a passadeira que traçava um caminho pelo salão. Havia ali uma magia muito grande, negra e sufocante, um ambiente sobreaquecido que me dificultava a respiração.

— O teu mestre – ousei replicar – não vai querer… que me mates.

Senti a tremura do soldado atrás de mim, uma vibração insignificante que me enojou.

— Avança!

Obedeci tentando controlar as minhas emoções. Pisei a passadeira e comecei a andar, um passo, depois o seguinte, outro a seguir. O chão também era transparente e havia a ilusão de que estava a flutuar no exterior entre as estrelas, tão longínquas que ilustravam como o meu drama pessoal era descartável no esquema universal.

Ao fundo do salão estava um palco e, sobre este, um trono com um espaldar elevado e estreito, coroado por espigões desencontrados, formando um conjunto ameaçador de dentes afiados. Tudo era negro, o palco e o trono. O senhor que se sentava nessa imponente cadeira, o mestre, estava voltado para uma enorme tela onde se viam explosões de supernovas, quasares palpitantes, nebulosas dançantes, cometas velozes, toda uma parafernália de manifestações cósmicas. Se parecia uma janela ao primeiro relance, um prolongamento do teto vítreo, não passava, contudo, de um monitor, fino e flexível como uma membrana, que transmitia um acontecimento distante algures no Universo. De vez em quando, o senhor agitava o braço coberto por uma pesada manga e a cena tornava-se mais catastrófica. O senhor comandava a destruição que observava.

O trono girou na plataforma onde estava assente e o senhor ficou de frente para a passadeira e para mim. Estaquei. O meu coração batia loucamente.

— Ah… A minha querida voltou.

Não lhe conseguia ver o rosto, ocultado pelas sombras de um capuz tão negro como o trono, a sala, o céu que nos envolvia para além daquele compartimento cristalino. Nem lhe conseguia distinguir os contornos de um corpo, se seria velho, jovem, anafado, magro, velados por um manto no mesmo tom escuro, se existiria alguém debaixo daquele tecido pesado. Até podia estar a enfrentar um espetro dotado de uma voz e de um braço destruidor, pelo que me era dado ver.

O senhor conhecia-me, de facto, o que era perturbador e interessante. Declarara que eu lhe pertencia ou que já lhe tinha pertencido, ao ter-me apelidado de sua. Fingia que queria conquistar-me ao tratar-me com uma falsa amizade, empregando a palavra querida. A curiosidade tornou-me intrépida. Perguntei:

— O que queres de mim?

A minha voz vibrou no ar quente.

— De nós? – acrescentei, pensando em Luke. – Quem… és tu?

O capuz moveu-se impercetivelmente quando o senhor se encostou no espaldar e pareceu relaxar.

— Tu esqueceste-te – constatou, entre o divertido e o admirado. – Tu esqueceste-te de tudo.

— Quem és tu? – repeti.

— Sou aquele que vais temer e amar, ao mesmo tempo. Sou o teu destino.

O enigma da resposta confundiu-me. Na realidade, tinha-me esquecido completamente dele, se alguma vez nos teríamos cruzado. Tinha-me esquecido de tudo relacionado com a minha vida. Cerrei os punhos.

— O que fazemos aqui, eu e o cavaleiro Jedi? Não vejo nenhuma razão para nos tomares como teus prisioneiros. Não fizemos nada de mal e não representamos nenhuma ameaça para a galáxia. Pelo contrário…

— Equilíbrio.

— O… quê? – Sentia dificuldade em falar, a garganta estava estrangulada e as palavras passavam a custo.

— Precisamos de equilíbrio na Força. Um lado luminoso e outro lado sombrio.

— Os Jedi pertencem ao lado luminoso… Onde está o lado… sombrio?

— Tu és inteligente, minha querida.

— O lado sombrio foi derrotado… Tu… Tu pertences ao lado sombrio? Foste aliado do Imperador Palpatine?

Uma risada mesquinha ecoou no salão e o capuz oscilava brandamente enquanto o senhor se ria, sentado no trono.

— Não tenho aliados e certamente que não faria dos Darth os instrumentos para alcançar os meus objetivos. Palpatine? Oh, sim… o senador Palpatine. Lembro-me dele e da sua ambição… Vigiava-o e analisava-o. No fim, perdeu o controlo. – Fez uma longa pausa e concluiu marcando cada palavra: – Isso não me vai acontecer.

O senhor tinha um ponto fraco. Minúsculo e insignificante, mas não era de menosprezar. Tentei o confronto, nada tinha a perder. A minha situação já era péssima.

— Luke Skywalker é um cavaleiro Jedi muito poderoso. Derrotou Palpatine e o último dos Darth, precipitou a ruína do Império Galáctico. Todos nós perdemos o controlo… algures.

No monitor uma explosão muda iluminou o salão com uma luz intensa que me fez levantar um braço para proteger os olhos.

— Se não jogarmos o jogo completo, é provável. Palpatine, a certo ponto, sentiu medo. Eu não sei o que é o medo, nada receio neste universo ou em qualquer outro. E existe… equilíbrio. Luke Skywalker apenas é poderoso com a Força e eu comando a Força.

— Impossível! – gritei apreensiva. – Ninguém comanda a Força, é como afirmar que se comanda a própria vida!

Empalideci. Luke tivera um colapso na cabina de pilotagem, como se… Luke tinha-me dito que a Força o abandonava. Fora assim que aquele monstro o dominara e nos capturara.

— Quem és tu? – soprei entre os lábios trémulos. – És um deus?

— A tua ingenuidade é comovedora, minha querida.

— Não… Não sou tua… – murmurei assustada. – Não sou a tua querida.

— Ao te teres esquecido tornaste a tarefa um pouco mais difícil, só isso. A minha, mas sobretudo a tua missão.

— Tu sabes quem eu sou. Diz-me! O que me aconteceu para ter ficado sem memória?

— Vais ter de descobrir sozinha… Ou provavelmente nunca o descobrirás. A partir deste momento, estás à minha mercê e a tua vontade terminou. Na verdade, nunca tiveste vontade própria. Sempre foste uma escrava. Pressentiste-o, não foi? No planeta deserto? Estiveste quase a desvendar o segredo, mas seria inconveniente se o fizesses sem a minha mão a guiar-te. A dor seria insuportável e irias sucumbir ao desespero.

— Não pertenço a ninguém… Não vou deixar que me derrotes.

O trono girou na plataforma e o senhor ficou novamente de frente para o monitor onde se multiplicavam imagens de planetas em ebulição, choques entre asteroides e explosões brilhantes num silêncio tenso que aumentava a minha angústia.

— Seguiremos em breve para o meu sistema favorito, Luyta – informou num tom átono. – Aprecia a viagem. Será a última que farás em relativa… paz.

— Onde está… o cavaleiro Jedi?

— Não te preocupes com ele.

— Quem és tu? – gaguejei.

— O mestre de todos os mestres. O senhor de todos os senhores. O’Sen Kram.

Pestanejei para desanuviar a visão que se turvava. Sei que cambaleei, pois dei um passo atrás para impedir-me de cair. Nunca tinha ouvido falar de O’Sen Kram e no entanto…

Eu era uma escrava? Luke tinha-me dito que não… E eu acreditava nele.

Eu não era uma escrava dos Pickot, poderia ser de outro povo qualquer. Daquele mestre destruidor, daquele senhor magnífico. Daquele louco. Não era possível… Não…

— Estás dispensada.

A princípio, não me mexi. As novidades rodopiavam na minha cabeça como a areia o fazia no deserto vermelho de Tatooine, em remoinhos irrequietos. Os meus novos conhecimentos precisavam de assentar, como a areia numa duna, formar um conjunto coerente do qual eu pudesse extrair informação preciosa, uma ideia para combater aquele mal que se tinha abatido sobre mim, sobre Luke, sobre a galáxia e o Universo inteiro. Sentia-me esmagada com a monstruosidade de tudo aquilo.

Recuperei algumas das minhas forças. Cerrei os punhos outra vez. Recuei, temendo que o senhor me atingisse nas costas com algum raio que me mataria. Mas ele não queria que eu morresse. Eu tinha-o dito ao soldado Frint, eu tinha-o comprovado com o que acabara de escutar. Ele precisava de mim para completar a sua missão, semelhante àquela que movera o maldoso Palpatine, mas sem falhas e detendo o controlo absoluto do jogo.

Voltei-me na passadeira e saí do salão num passo demasiado lento para a urgência que sentia no coração, a falta de tempo que pressentia para encetar e concluir um plano tão avassalador como o que seria necessário gizar para derrubar O’Sen Kram daquele trono negro.

Quando saí do salão, a porta dupla fechou-se e o medalhão reconstruiu-se. O soldado Frint baixou a sua arma laser que mantivera sempre apontada à minha nuca, agarrou-me por um braço e arrastou-me pelos corredores, puxando-me à bruta. Quis protestar, mas não tinha ânimo. A situação global era mais grave do que a minha situação particular de estar a ser maltratada pelo soldado Frint.

Olhei-o com pena. Vi-o pálido e trémulo, apoderado por um terror indizível. Ele temia o mestre, o senhor do trono negro. O mais provável seria que ele morresse primeiro se alguma coisa corresse mal, antes de eu ser fulminada pelo mau génio de O’Sen Kram se ele decidisse, num assomo de loucura, que já não precisava de mim. O soldado Frint sabia como era arriscado estar no mesmo lugar que o mestre.

Eu não duvidava que tinha enfrentado um deus e que tinha, milagrosamente, sobrevivido. Talvez por compaixão, a pena dúbia que se tem pelos seres inferiores. Pelos escravos.

Mordi o lábio inferior para não chorar.



Notas finais do capítulo

O inimigo revelou-se, finalmente. Chama-se O'Sen Kram e é um mestre negro misterioso... Opiniões, leitoras e leitores! O que acharam dele?

O Luke e a Cleo estão prisioneiros. O que lhes vai acontecer agora?

Próximo capítulo:
A vontade dos lutadores.



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