A Criação da Luz escrita por André Tornado


Capítulo 15
A vontade dos lutadores


Notas iniciais do capítulo

"Se o futuro não fosse fixo, como é que toda a gente poderia ter visões de um amanhã coerente?"
in Flashforward, Sawyer, R. J., Saída de Emergência, 2010



Encerraram-me numa pequena cela, de paredes lisas cor de cinza, sem qualquer abertura para o exterior a não ser uns respiradouros gradeados no teto. Quando a porta se trancou com alguns apitos, a indicar que se inseria o código único que impediria quem o desconhecesse de a abrir, encostei a testa à sua superfície gelada. Doía-me a cabeça terrivelmente. Como se tivesse lutado mentalmente com alguém, esgrimindo argumentos para destruir ideias alheias que vinham para me prejudicar. Provavelmente essa seria a melhor definição do que tinha acabado de acontecer entre mim e O’Sen Kram. Desenhei nos lábios um sorriso cansado. Como se eu me pudesse comparar, em poder, magnitude e majestade, ao senhor do trono negro. Estava exausta e delirante, os acontecimentos tinham sido rápidos e avassaladores, era tudo. Não podia estar com ilusões ao lidar com uma realidade dura como aquelas paredes lisas.

Permiti-me ceder finalmente à tensão. Os meus joelhos amoleceram e acocorei-me com a testa sempre encostada à porta. Abracei-me, apertando as dobras da capa como se esse gesto pudesse trazer mais calor ao meu corpo solitário.

Escutei um gemido e endireitei o pescoço. Não estava sozinha.

Levantei-me, girando sobre os calcanhares. No fundo da cela havia uma prateleira da largura da parede, onde os prisioneiros podiam descansar, sentados ou deitados. Estava lá alguém estendido.

— Luke…

Ajoelhei-me junto a ele. Tremia levemente, como se sentisse nos ossos o mesmo frio que eu experimentava. Tinham-lhe despido ou arrancado a capa, que jazia a seus pés, amarrotada como um trapo. Tinham-lhe confiscado o sabre de luz que já não existia pendurado no cinto. Desenrolei a capa e estendi-a sobre o cavaleiro Jedi que soltou outro gemido, crispando o rosto numa aflição calada. Estava desmaiado e tentava recuperar a consciência, mas o esforço parecia superior às suas parcas forças. Ao tapá-lo toquei-lhe no peito que estava hirto, como se congelado. Encostei o meu ouvido à sua boca, senti e escutei o bafo ténue da sua respiração superficial.

Fechei os olhos e pousei as minhas mãos abertas sobre o peito dele. Imaginei o lugar do coração e vi o órgão vital aprisionado numa malha escura e pegajosa, debatendo-se, querendo retomar os batimentos normais, lutando para viver. Batia tão tenuemente quanto o seu dono respirava. Vi sombras necrófagas ululantes que tragavam toda a luz, transformando-a em gelo e em morte, arrancando pedaços daquela nobre alma. Vi revolta ante a fatalidade de um poder superior que não dava tréguas, que vencia, aos poucos, cada porção de esperança daquele grande homem.

Eu não iria deixar que ele desistisse, mesmo perante probabilidades tão adversas.

Mesmo que eu não fosse ninguém…

Fechei os olhos e pousei as mãos abertas sobre o peito dele. Pensei em Tatooine, no calor escaldante dos seus desertos vermelhos, na areia quente nos meus pés descalços quando vestia aquele vestido comprido.

De olhos fechados vi a luz combater as sombras. O equilíbrio.

Um ardor inesperado incendiou-me as entranhas e reprimi a vontade de gritar, contorcendo-me, encolhendo-me. As minhas mãos pousavam-se no peito dele e eu continuava de olhos fechados.

Mordi os lábios. Era difícil, muito difícil… Eu lutava quando não sabia lutar.

Um toque na minha face, leve como o indício de um beijo. Um dedo, dois, tocavam-me na face…

Através das pestanas que entreabri vi-o acordado. Estava suado e o rosto recuperava a cor. Os seus brilhantes olhos azuis fitavam-me com gratidão. Esticava um braço e com a mão esquerda, a sua mão verdadeira, tocava-me na face com a ponta dos dedos quentes. Foi como uma descarga elétrica. Arquejei e saltei para trás. Voltei-lhe costas, sentei-me no chão e puxei o capuz até ao nariz, cheia de vergonha.

— Estás a chorar – apontou, com a voz rouca.

Limpei a cara atabalhoadamente. Estava molhada. Não me lembrava de ter começado a chorar, mas seria compreensível, outra forma de descarregar a tensão daqueles últimos acontecimentos. E ele tocava-me para… para limpar-me as lágrimas?

— Salvaste-me, Cleo. Obrigado.

— De nada, cavaleiro Jedi – respondi num sussurro.

— Sabes o que fizeste?

Neguei com a cabeça. Ele sentava-se na prateleira, penteava os cabelos com os dedos.

— Utilizaste a Força, a tua energia… especial. Entregaste-me vida. Compreendes?

— Acho que sim… – Devia ser sincera e corrigi: – Não, não compreendo. Não sei o que fiz. Foi como naquele dia, na prisão dos Pickot. Apenas… desejei fazê-lo e aconteceu.

— Precisas de treino.

— Fantasias! Temos problemas mais imediatos para resolver.

— A tua frontalidade chega a ser ofensiva.

Assentei o queixo nos joelhos que puxei para mim. Deixei que o silêncio preenchesse o lugar, como bálsamo para curar o que, outra vez, tinha sido quebrado entre nós, que eu não sabia bem definir o quê, pois na verdade não existia nenhuma relação entre mim e Luke Skywalker. Sempre que trocávamos mais do que um par de frases, começávamos a agredir-nos verbalmente e isso era incompreensível. Havia algo que nos repelia, como a matéria e a antimatéria. Com uma distância apropriada nada acontecia, mas assim que nos aproximávamos um do outro, o desastre era iminente. Afastávamo-nos a tempo da desintegração.

— Estive com aquele que nos fez prisioneiros – revelei.

— Quem é?

— Não sei o que ele é, até pode não ser alguém… físico. Chama-se O’Sen Kram. Diz-te alguma coisa?

Ele pensou no nome que lhe dera. Ao pronunciá-lo, eu achava que me pudesse familiarizar mais com o som, mas continuava a não me fazer recordar de nada em particular sobre mim.

— Não… Nunca ouvi falar dele.

— Conhece-me.

— Ajudou-te com a amnésia?

— Nem por isso. Acho que fiquei ainda mais confusa… Mas conhece-me, de certeza. Foi ele que quis encontrar-se comigo depois de ter capturado a nossa nave. Falou-me de equilíbrio, do lado sombrio e da luz… Foi ele que te deixou… doente. Disse-me que comanda a Força.

— Hum… Difícil mas não inteiramente impossível.

— Então, ele falava a verdade? – Baixei o capuz e olhei-o por cima do ombro. Franzi uma sobrancelha.

Inesperadamente, ele sorriu-me.

— Eu fiquei… doente, não fiquei?

— Assustaste-me.

— Desculpa. O teu salvador não teve nunca a intenção de te deixar numa situação mais complicada do que aquela em que te encontrou.

— A nossa mensagem de socorro foi intercetada – acrescentei. – O que podemos fazer a seguir?

— Não temas. Existem outros meios.

— Que meios?

— Confio na minha irmã.

— A nave de O’Sen Kram está camuflada. Ninguém em Coruscant deve ter-se apercebido de que fomos capturados. Vão inventar a história de um acidente, vão forjar a tua morte.

Ele olhou para o teto, ocultando de mim a sua preocupação.

— Sim… Leia deve ter pensado isso quando deixou de me sentir…

— Ela deixou de te sentir?

— Quando fiquei doente.

— Estiveste quase… morto?

— Em suspensão. – Encarou-me sério. Agora já não se importava de me mostrar a sua preocupação. – Tu viste-me lá…

— Onde?

A porta da cela abriu-se e passaram dois soldados que se postaram de cada lado da entrada, guardando-a com as armas laser prontas a disparar, cingidas ao peito. A seguir entrou o capitão Revan, de mãos atrás das costas, com o sorriso malicioso que lhe era característico. Luke levantou-se, postando-se ligeiramente adiante de mim, que também me levantava, numa atitude protetora. Julgava que a proteção era desnecessária, tomando em consideração a experiência até ali naquela nave, mas devia ser o instinto a ditar-lhe que velasse sempre pelos mais fracos. 

— Cavaleiro Jedi, vejo que já recuperaste as tuas energias – observou o capitão Revan. – Tudo está a correr conforme previsto pelo mestre. Ela… – Olhou para mim e rasgou o sorriso. – Ela não resistiria a curar-te.

Fora uma armadilha! Tinham-nos colocado na mesma cela para que eu pudesse valer-lhe, recuperar Luke Skywalker e, deste modo, servi-lo numa bandeja a O’Sen Kram. O controlo absoluto pertencia-lhe e o senhor do trono negro não brincava com a situação, prevendo todas as hipóteses, antecipando-as, fazendo a jogada mais acertada que o deixaria sempre no lugar do vencedor. Mas tinha uma fraqueza, lembrei-me. O de não conseguir visualizar tudo o que era previsível no jogo. Haveria de acontecer essa falha, num qualquer momento ínfimo e seria aí que se cravaria o espinho envenenado…

— Levem-no! – ordenou o capitão aos soldados.

Luke voltou o pescoço e olhou para mim. Moveu os lábios e disse, em surdina:

— Não tenhas medo… voltarei.

Depois seguiu os dois soldados e saiu da cela. Dei um passo e o capitão Revan barrou-me o caminho.

— Tu ficas. Já viremos por ti, mais tarde…

— Para onde o levam? O que lhe vão fazer? – perguntei.

— A tua vez chegará. Não tenhas tanta pressa.

— Quando estivermos no sistema de Luyta?

A resposta foi um sorriso mais acentuado, em que o capitão Revan me mostrou a sua impecável dentadura branca. Depois deu meia volta e também ele saiu, fechando a porta da cela de paredes lisas cor de cinza.



Notas finais do capítulo

O reencontro de Luke Skywalker e Cleo foi breve, mas, pelo menos, serviu para que o cavaleiro Jedi tenha recuperado da sua doença.
Houve também um momento de ternura entre eles.
Aparentemente, as coisas continuam complicadas...

Próximo capítulo:
Uma possibilidade.



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