O Segredo da Lua escrita por F L Silva


Capítulo 9
Capítulo 9 - Cavando Fundo




Na segunda-feira de manhã, Théo se arrastou pesadamente para fora da cama, caminhando fragilmente em direção ao banheiro. Depois de ter tomado banho e vestido o uniforme preto e desprezível do instituto, deixando a gravata frouxa no pescoço, encarou-se no espelho. Seus olhos que geralmente eram de um castanho mel, quase dourado, estavam mais para um amarelo-queimado, opaco e sem vida, com traços vermelhos a sua volta. Parecia que andara chorando ou que estava de ressaca após uma longa noite de festa. Era isso o que qualquer pessoa pensaria, mas não foi o que realmente aconteceu. Ele simplesmente passou a noite em claro, se revirando na cama sem conseguir dormir, se perguntando o que tinha acontecido com Kalleo para tratá-lo daquela maneira. Ele se sentia magoado. Sentia que não merecia passar por aquilo.

Não, sem ao menos saber o motivo.

Saindo para o frio da manhã num dia de inverno, Théo caminhou vagarosamente rumo ao prédio onde eram ministradas as aulas. Não se importou quando passou em frente ao refeitório lotado de alunos; apenas seguiu caminho. Não estava com fome. No almoço, provavelmente, tentaria colocar algo para dentro do estômago. Mas não agora. Agora ele se encontrava aflito demais para conseguir engolir algo.

Parou em frente à sala da Sra. Morelo, encarando a porta e pensando em tudo que tinha acontecido. Há exatamente uma semana ele chegara naquela nova escola onde mal conhecia, onde não sabia o que o esperava e, mesmo assim, acabou vivendo coisas que não esperava. Boas e ruins. Caíra na frente de todos no refeitório com seu jantar sobre o corpo. Conheceu Kalleo ao lhe ajudar a se limpar naquela noite. Depois conhecera o Juan naquela mesma sala diante dele, onde ficou em detenção por estar conversando com ele, e Juan ― mesmo não tendo ficado de detenção ― apareceu para lhe ajudar. Muitas coisas aconteceram ao longo daquela semana. E Théo sentia que essa não seria diferente.

Sentando-se na mesma carteira que sentara na aula passada, ele esperou pacientemente a professora e os alunos chegarem. Lentamente, um a um, a sala foi se enchendo aos poucos. Théo mal percebia, estava apenas fixando o olhar sobre sua mesa. Fazia esforço para não se lembrar da noite passada, quando estava com Kalleo. A forma como ele falava com Théo, fria e grossa e ao mesmo tempo vacilante, lhe causava arrepios por todo o corpo. Mas não os arrepios elétricos que sentia quando estava na presença dele; estes eram diferentes. Eram de medo. Não sabia o que estava acontecendo, mas queria descobrir. Queria ver Kalleo para perguntar o porquê de ele tê-lo tratado assim.

― Théo. Oi ― chamou alguém, o tirando de seu devaneio. Olhando para sua direta, Théo assentiu quando Juan ocupou a carteira ao seu lado. Seu cabelo dourado não estava mais caindo sobre a testa como o vira da última vez; estava mais curto e repicado, lhe dando uma aparência mais jovial e exótica. Parecia um surfista saído da capa de alguma revista. Por um momento, Théo se perguntou como ele fizera para cortar o cabelo, mas logo lhe passou pela sua cabeça que fora ele mesmo quem cortara. ― Como tem passado?

― Bem ― respondeu, percebendo que Juan se referia ao dia em que fora boleado por Bryan na quadra. Desde aquele dia, Théo não o tinha visto mais.

Debruçando-se sobre Théo, Juan tocou na lateral de sua cabeça, pegando-o de surpresa e desprevino com aquele toque. Como da vez que Juan o tocara na quadra, Théo sentiu novamente o calor que emanava da mão do amigo. Quente como um forno.

― Nenhum sinal de febre. ― Ele riu, recuando para sua cadeira. ― Nenhum dano grave.

― Ficou preocupado com o risco de demência? ― desdenhou Théo, tentando não soar grosseiro, dando um leve sorriso amarelo. Juan estava tentando ser legal com ele, mas aquele não era o momento certo para Théo. Não se sentia aberto para piadas matinais. Mas não queria ser rude, cortando assunto com Juan.

― Claro. ― Ele deu de ombros. ― Eu não ia gostar de trocar você sempre que sujasse as calças como um bebê chorão.

― Não seria tão ruim assim voltar no tempo assim.

― Por que, não? ― quis saber Juan, de repente interessado.

― Humm... ― Théo pensou por um momento, ponderando se contaria ou não um de seus maiores medos de quando criança. Juan estava com os olhos verdes como esmeraldas sobre ele, queimando-o com o olhar; os lábios levemente repuxados num sorriso torto, instigando-o a contar. Estalando a língua, ele confessou: ― Não gosto de envelhecer.

― Como? ― grasnou Juan, achando que não tinha ouvido direito.

― Isso mesmo que você ouviu. ― Théo deu de ombros, olhando para frente da sala no exato momento em que a Prof.ª Morelo entrava na sala. ― Sofro da Síndrome de Peter Pan. Desde criança tenho medo de envelhecer e, acredite, minha mãe já me pegou chorando pelos cantos por causa disso. Eu... ― ele engoliu em seco, recordando-se da cena ― não queria chegar a certa idade em que não poderia mais fazer as coisas que fazia quando criança...

― Como o quê? ― perguntou Juan, seriamente. Théo olhou para ele, esperando encontrá-lo a beira do riso como as pessoas geralmente se portavam diante desse assunto, mas ele não demonstrava nenhum sinal de deboche. Somente o encarava seriamente, esperando que Théo desse continuidade.

― Correr, brincar, você sabe. Coisas que só crianças fazem com o sorriso inocente que elas carregam no rosto, sem se importar com os problemas à volta. Apenas... sendo livres. Tá legal, agora você pode rir de mim.

― E por que eu iria rir de você? ― Juan franziu o cenho. ― Isso não é uma coisa tão longe da realidade. É plausível. Muitos partilham desse seu medo, porém, é uma coisa que de uma forma ou de outra irá acontecer. É fato que todos um dia iremos envelhecer.

Théo assentiu, olhando para a mesa rabiscada de caneta.

― Achei que você tinha medo de envelhecer por que não queria ficar com a pele enrugada. Ou que seu pinto não ficasse mais duro. ― Ele riu de sua própria piada. ― Ou até mesmo por que, depois de morto, não queira ser comido pela terra, ou estar debaixo dela.

― Não, não. ― Théo forçou um sorriso.

― E como sempre, você me surpreende. Realmente você é um garoto diferente da maioria. Quase de ouro.

Agora Théo riu de verdade, mesmo que ironicamente. Lembrava-se de quando sua mãe dizia a mesma coisa sempre que ele fazia ou falava algo que a surpreendia.

Logo a aula começou e a conversa cessou. Não queria novamente ficar de detenção, e ainda percebia a professora lhe lançando um olhar de desprezo. Mesmo enquanto o tempo passava, Théo virava-se furtivamente à sua direita, apenas para flagrar Juan lhe observando.

E percebeu, com espanto, durante todo o momento em que ficou conversando com Juan, que não tinha sequer pensado em Kalleo.

* * *

Ao meio-dia, Théo estava sentado no refeitório úmido, pintado de um branco desbotado e sem vida ao lado de Zoe. Mastigava seu bife bem passado ― até demais ― lentamente, vagando o olhar por todo o perímetro, quando finalmente pousou na mesa onde vira Kalleo pela primeira vez. E, novamente, lá estava ele, sentado ao lado de Megan. Ela estava grudada nele, quase sentando em seu colo. E sorria sempre que falava algo que Théo não conseguia ouvir. Kalleo apenas respondia e voltava a comer. De vez em quando ele se virava para falar com outro garoto que estava ao seu lado, quase do mesmo tamanho dele. Tinha cabelos castanhos e lábios carnudos. Théo o conhecia da aula de química. O garoto se chamava Nico. Théo também o tinha visto no dia que chegara a São Diego, ao lado de Kalleo, naquela mesma mesa, assim como a outra garota de cabelos negros que também estava sentada na mesa. Théo ela faziam a aula de química juntos. Ela se chamava Emily.

Théo também notou a presença de Bryan na mesa. Ele comia freneticamente, mal dando espaço para conversa. Desde o “acidente” na quarto, ele ainda não tinha se aproximado de Théo ― e que assim continuasse. Pelas expressões no rosto de Bryan, ele não estava muito acomodado sentado naquela mesa. Certamente pela presença de Kalleo. Théo soube por Zoe que eles brigaram feio no dia que ele ficou inconsciente. Talvez seja apenas por isso.

Por um breve instante, enquanto Théo encarava a mesa ao longe, o olhar de Kalleo cruzou com o seu, mas ele logo o desviou. Era o olhar de quem via algum bêbado na rua, gritando com uma garrafa na mão, mas não lhe dava atenção.

O estômago de Théo se embrulhou. Kalleo ainda o estava ignorando.

― O que está olhando? ― perguntou Zoe, seguindo o olhar de Théo. ― Ah, já entendi. ― E lançou um olhar de “Eu sei de tudo” para Théo. Ele apenas baixou os olhos para o prato e enfiou mais um pedaço duro de bife na boca, mastigando rudemente.

― A vadia da Megan se joga igual uma prostituta pra cima dele. Ela devia carregar uma plaquinha com os dizeres “sexo grátis”!... Ou pelo menos com o preço de vinte reais, já que ninguém pagaria mais que isso, tendo a Vicki como opção gratuita.

Théo bufou, mal se importando com o comentário maldoso que Zoe fizera.

Oh, oh ― soltou Zoe, torcendo a boca. ― O que tá pegando?

― Nada ― cortou Théo, não se importando nem um pouco a maneira grosseira com que falou. Não estava a fim de desenrolar uma conversa com Zoe. Sentia-se muito amargo para isso, e que talvez pudesse ferir a amiga com seus comentários.

― Conta logo, Théo ― pressionou a garota com veemência.

― Já disse que nada!

E olhando para o outro lado, Théo reparou quando uma figura com capuz saiu pela porta do refeitório. Por um momento, Théo achou que era um aluno qualquer, mas logo percebeu quem era quando viu sua jeans rasgada. Toby. Apenas ele usava a calça com um rasgo em cada joelho.

Sem pensar no que exatamente estava fazendo, levantou-se de um salto e o seguiu para fora das portas duplas. Toby estava se encaminhando em direção as sombras das árvores entre os prédios da zona sul e oeste, no qual, em seu primeiro dia no instituto, Théo vira vários alunos sentados. Ficava perto do estacionamento.

― Ei! ― gritou, tentando acompanhar Toby, que permanecia andando. Não parecia ter ouvido Théo gritando. Mas se ouviu, não deu atenção. ― Toby, espera! ― gritou mais uma vez.

Dessa vez, Toby parou e se virou na direção de Théo. O capuz ainda cobria o rosto, sombreando-o.

― O que você quer? ― perguntou ele, a voz vacilante.

― Quero falar com você ― disse Théo, se aproximando.

― Apenas diga o que quer falar e vá embora ― rosnou, sem rodeios.

Era plausível na voz de Toby que ele estava com raiva de Théo, e ele não o culpava. Mas assim como ele, Théo também estava com raiva dele. Toby tentara se aproveitar dele em um momento de fraqueza e contra sua vontade!

Théo parou por um momento, se perguntando por que tinha saído do refeitório, seguindo Toby, até que se lembrou: queria confrontá-lo para saber o que tinha acontecido para ele sair do quarto que dividiam.

― O que o fez sair do quarto?

Toby riu ao mesmo tempo em que bufou em desdém.

― Só pode estar de brincadeira. ― E se virou, voltando a se encaminhar para perto do estacionamento de carro dos professores.

― Espera. ― Théo se aproximou dele, puxando-o pelo braço. Foi então que perto o suficiente de Toby, ele viu o roxeado em volta de seu olho esquerdo, causado pelo soco dado por Kalleo naquela noite dentro do banheiro.

Engolindo em seco, Théo se afastou.

Toby tirou o capuz do casaco que usava por cima da camisa de botão do uniforme escolar, deixando a amostra todo seu rosto. Não era só o contorno do olho roxo que marcava seu rosto, mas também um corte no lábio superior.

― O que foi? Surpreso com o que seu amiguinho fez? ― desdenhou, sorrindo ironicamente.

Inspirando, Théo recompondo-se. Toby mereceu aquilo, não tinha por que sentir pena dele.

― Apenas responda minha pergunta.

― Ah, quer saber o porquê que eu sair do quarto que dividíamos? Tá aí uma pergunta que eu não sei responder. ― Ele deu de ombros. ― Tudo que sei é que, quando voltei para o quarto, a diretora Sabrina já estava me esperando na porta. E ali mesmo, sem me explicar o porquê, apenas disse que eu estava indo para outro quarto.

― Ela... ela... ― balbuciou Théo, sem compreender.

― Ela não disse mais nada. Só isso mesmo. ― Toby chutou um punhado de grama no chão. ― Sabe, acho que isso tem dedo do seu querido amiguinho.

Théo não entendia. Estava confuso. Kalleo teria contado a Sabrina o que aconteceu? Mas... por que assim ela não convocou os dois na diretoria na manhã seguinte? Ele estava infringindo as regras do reformatório, assim como todos os outros que estavam na festa. Inclusive Kalleo. Se a diretora realmente soubesse de tudo, estariam de castigo, sendo punidos. E não há como Kalleo ter contado apenas metade do ocorrido sem a diretora tê-lo bombardeado de perguntas querendo saber de todos os detalhes. Mas... E se não foi ele? E se Kalleo não falou nada? Théo não sabia como a diretora acabara sabendo. Mas teria sido realmente por isso? Pelo ocorrido no banheiro? Théo queria ver o Kalleo e perguntar diretamente se ele contou algo, mas logo ficou desanimado com essa opção. Kalleo mal estava encarando-o. Não tinha como manter uma conversa com ele, lhe perguntando isso, quando da última vez que se viram, Kalleo praticamente o expulsou. E Théo nem ao menos sabia o motivo.

Tudo aquilo o estava atormentando-o, como um martelo se chocando contra sua cabeça. Não sabia as respostas para suas perguntas. Apenas ele poderia saber.

― Não pode ter sido ele ― murmurou Théo para si mesmo, piscando ao olhas para a copa das árvores ao longe, tentando imaginar como iria abordar Kalleo da próxima vez que o visse.

* * *

Théo estava decidido a bombardear Kalleo com as torrentes de perguntas que disparavam em sua mente. Logo depois de sua breve conversa com Toby perto do estacionamento, voltou correndo para o refeitório para ir direto falar com ele, mesmo sendo na presença de todos na mesa. Mas, infelizmente, Kalleo não estava mais lá. Durante todo o restante do dia Théo procurou por ele, mas não o achou em lugar algum. Era como se ele tivesse desaparecido no ar. Simplesmente ter virado fumaça.

No dia seguinte, na terça-feira, fez a mesma coisa. Andou por todos os corredores atento, a procura dele. No refeitório para o café da manhã e o almoço, ele sequer apareceu. Kalleo tinha o dom de desaparecer e aparecer abruptamente nos lugares. E isso irritava Théo incondicionalmente. Já estava ficando com raiva de andar por aí tentando encontrá-lo. Sentia-se como um gato a espreita de um rato que nunca dava as caras, mas sempre roubava um pedaço do queijo.

Nos dois últimos tempos de aula, na aula de artes, Théo achou que finalmente iria encontrá-lo na sala. Kalleo fazia a aula de artes junto com ele. Ele teria que estar lá. Théo chegou até mais cedo para esperar, para assim ter um pouco de tempo de falar com ele. Mas os minutos foram se arrastando, os alunos chegando, e logo a aula começou e nenhum sinal de Kalleo.

Théo estava profundamente irritado quando se jogou no sofá de couro descascado no saguão principal depois do jantar. Jogou os pés em cima da mesinha de centro e esfregou as têmporas com os dedos.

Tinha desistido de procurar por Kalleo. Não valia o esforço.

Que se dane, pensou.

Olhando em volta no saguão que ligava os quatro cantos do prédio, se deu conta de que estava sozinho. Aquele lugar sem nenhum outro aluno a vista era mais sombrio e assustador que o normal. O vento da noite fria vergastava os papéis de anuncio no velho mural empoeirado, quase caindo aos pedaços. Alguém fizera o favor de retirar as margaridas murchas dos vasos, mas não as substituíram por outras. O piso de linóleo estava sujo da poeira que era varrida para o saguão pela ventania lá fora. Se as lâmpadas fluorescentes sobre sua cabeça estivessem piscando assim como acontecia no corredor dos dormitórios, a cena seria igualmente a de um filme de terror psicótico.

Tentando relaxar no sofá desconfortável, ele tentou não pensar em Kalleo. Queria aliviar a inquietação que sentia. Já estava sentido a dor de cabeça lhe alcançando. Não queria passar mais uma noite se revirando na cama.

Quando estava vindo para o internato, sua mãe lhe dizia que nem tudo na São Diego seria ruim. Que, talvez, coisas boas pudessem acontecer com ele. No momento em que sua mãe dissera aquelas palavras ele simplesmente revirou os olhos, pouco convicto. Agora, ele entendia bem o que ela queria dizer. Que em meio a tempestade, uma luz poderia aparecer. E... teria sido Kalleo essa luz? De fato, ele ajudara Théo em seus primeiros dias. Mas depois, com o que vinha fazendo agora, estava mais o atormentando do que o ajudando. A luz se transformara em escuridão, deixando-lhe perdido no breu.

Não. Théo afastou Kalleo de seus pensamentos. Não queria mais saber dele, pouco se importava agora. Pelo menos, era o que tentava crer. Tinha procurado Kalleo por todos os lugares do campus, mas não o encontrara. Ele simplesmente não estava em lugar algum. O único lugar que ele não procurou foi no seu quarto, por que ele não sabia onde era...

De repente, Théo se lembrou. No domingo, depois que saíra da biblioteca, em baixo do grande carvalho. Théo o encontrara lá. Talvez fosse lá onde Kalleo estivera todo esse tempo. E ainda esteja...

Levantando-se de um salto do sofá, Théo seguiu pelo saguão à direita, passando pelos banheiros que tivera que limpar na semana passada junto com Juan por ter ficado de detenção. Saindo do saguão, entrou num caminho estreito à esquerda, indo em direção ao carvalho. Agora ele sabia por que a área que carvalho ocupava era tão vazia. Só tinha duas maneiras de ir até lá: dando a voltar pela biblioteca ou passando pelo caminho longe e estreito, quase como um corredor, entre os prédios.

Théo adentrou no estreito corredor escuro, cada passo dado com cautela. Era mais frio que o normal, com o ar úmido e pesado a cada vez que respirava. Ele estava quase chegando ao outro lado quando uma sombra se projetou a sua frente. Parado diante dele, havia um homem com as mãos enfiadas nos bolsos da jeans. Não vestia o uniforme escolar, mas sim uma jaqueta de couro preta e jeans surrados. Por um momento, Théo achou que fosse Toby, seu ex-companheiro de quarto, mas logo se deu conta de que esse garoto era muito mais alto que ele.

Era Bryan.

Com um gosto amargo na boca, Théo recuou o passo, voltando pelo corredor. No mesmo instante paralisou, seus pés prendendo no chão como chumbo. Outro cara estava parado na outra extrema. Este estava vestido ainda no uniforme escolar, mas na cabeça usava uma touca preta, e, sob a luz que vinha do saguão, Théo conseguiu identificar traços de uma tatuagem no pescoço. No seu rosto, uma trilha de piercings descia de sua sobrancelha esquerda até os lábios finos.

Théo estava encurralado por ambos os lados. Não tinha como sair. O medo lhe atingiu como uma tapa na cara. E agora, o que faria? Com certeza Bryan estava ali para brigar com ele. E chamara um amigo para ajudá-lo.

― Ei, lindinho. Está perdido? ― zombou a voz de Bryan. Do outro lado do corredor, o cara tatuado riu.

― O que você quer? ― balbuciou Théo, o coração martelando no peito. Certamente deveria ter aprendido a não sair andando pelo instituto à noite. Olhando para o teto, buscou encontrar alguma câmera filmando tudo, mas não encontrou nenhuma.

Era isso. Estava perdido.

― O que eu quero? ― repetiu Bryan. ― Ah, eu quero muitas coisas. Principalmente sair daqui. Mas como isso é meio difícil no momento, terei que suprir minhas necessidades básicas com o que tenho ao meu alcance. E, nesse caso, eu quero socar a sua cara, até ver você desmaiado no chão ― articulou ameaçadoramente, as palavras chegando aos ouvidos de Théo como espadas cortando seus tímpanos.

― V-você não poderia... ― Théo recuou o passo. Sentia as pernas ligeiramente bambas e frias com o medo percorrendo dentro de si.

― Claro que posso. E vou. ― E foi se aproximando lentamente de Théo, diminuindo a distância entre eles. ― Como você já percebeu, aqui não tem câmeras. Ninguém vai saber.

― Irão, sim. Assim que me verem e eu disser que foi você!

― Isso se você estiver vivo para contar ― ele deu de ombros. ― Mas em todo o caso, vale a pena. ― E estalou os dedos, encarando-o ameaçadoramente.

Théo não sabia o que fazer. Não tinha a menor ideia de como escapar. Estava cercado de ambos os lados.

― Não entendo por que você tem tanta raiva de mim ― cuspiu Théo.

― Por quê? Ora essa! Você me fez passar o maior mico da minha vida na frente de todos no vestiário quando pôs cera de depilar em minha toalha.

Os olhos de Théo quase saltaram das órbitas. Como ele soubera que tinha sido ele?...

― Sim, eu sei ― confirmou o garoto, vendo a expressão no rosto de Théo. ― Alguém viu o que você fez e me contou.

A cabeça de Théo rodou. Seria possível que Kalleo o teria entregado?

― Agora você vai pagar preço... ― E foi para cima de Théo. No mesmo momento, Théo correu para trás, na direção do garoto de touca que fechava o outro lado. — Vem cá! Onde você pensa que vai? Não pode fugir de mim. ― brincou, agarrando Théo pelo pulso e girando-o.

Por simples reflexo, Théo virou-se encarando Bryan, o rosto a centímetros do seu, e ergueu o joelho, acertando bem entre as pernas dele. Com um grunhido, Bryan se encolheu. Uma careta de dor e raiva preenchendo todo seu rosto. No mesmo instante, o outro garoto a suas costas o agarrou por trás, prendendo suas mãos para trás. Théo tentou se desvencilhar, chutando e dando cotoveladas as cegas para trás, mas de nada adiantou.

― Seu desgraçado! ― berrou Bryan, se lançando contra Théo e lhe acertando um soco certeiro no estômago.

Théo se dobrou em dois, ainda preso pelo cara com piercings no rosto. Uma vontade avassaladora de vomitar lhe subiu pela garganta. Estava perdido na mão desses dois. Não era uma luta justa. E, além de tudo, estava com medo.

― Vai à merda ― rosnou entre os dentes, a raiva dominando-o. Queria socar Bryan com a mesma intensidade que fora esmurrado.

Théo desejou que alguém aparecesse para lhe ajudar, mas sabia que isso era impossível. Estava afastado demais do refeitório, onde os outros alunos estavam. Não tinha ninguém no saguão principal para ouvir eles ali. Ele estava completamente perdido.

― Vou lhe ensinar uma lição, fedelho ― cuspiu Bryan, e se lançou novamente para Théo. Num único movimento de escapatória que lhe passou pela cabeça, Théo jogou sua cabeça para trás, com a toda a força que pôde reunir, acertando em cheio o rosto do garoto que o prendia. Ele gritou, soltando Théo, cobrindo instantaneamente seu rosto. Isso foi o suficiente para Théo se desviar de Bryan e pular para a direta. Percebendo seu movimento, Bryan foi para a direta no mesmo momento em que Théo erguia o punho cerrado.

― ARGH! ― berrou o garoto de piercings.

Bryan era muito mais alto e forte que Théo e agarrou seu punho com facilidade no ar, jogando-o contra a parede e prendendo-o com seu corpo. O dejá vu da noite em que Toby o agarrou a força lhe veio à mente. Estava na mesma situação com Bryan.

― E agora, quem vai aparecer para te ajudar? ― rosnou, o rosto a centímetros do de Théo, vermelho como uma pimenta pela raiva que sentia.

Com o nojo e repulsa pulsando por dentro de seu corpo, Théo cuspiu na cara de Bryan. Não iria implorar por clemência, se era isso que o garoto esperava.

O rosto de Bryan se contorceu numa careta de fúria. Por baixo de seu corpo, Théo começou a se debater, tentando sair de debaixo dele.

Paf!

O mundo girou quando Bryan acertou um soco no seu queixo, deixando-o desnorteado.

Seu sangue esquentou e Théo sentiu as lágrimas se acumulando em seus olhos com a dor que sentia.

― Eu não sou como o Josh ― sussurrou Bryan, indicando o cara de piercing ao lado, com o nariz sangrando onde Théo o acertou. Seu hálito quente soprando contra o rosto de Théo, lhe provocando enjoo. ― Comigo, recebe o troco.

Desesperado, sem saber mais o que fazer, Théo fez a única coisa que lhe veio a mente, mesmo sabendo o que isso lhe acarretaria:

― SOCOOOORRO! ― gritou, sua voz reverberando pelas paredes do corredor, ecoando por toda a extensão.

Socorro! ― Josh imitou Théo, a voz carregada de desdém.  ― Alguém me ajude! Socorro!

― Pode gritar o quanto quiser ― riu Bryan. ― Ninguém vai te ouvir daqui.

Fechando os olhos, ele cerrou os punhos, recusando-se que as lágrimas escorrerem pelo rosto. Num minuto, os garotos estavam rindo e no outro Théo foi lançando para o chão quando foi acertado na bochecha esquerda.

Seu corpo tombou contra a parede, deixando-o tonto. Sua visão se embaralhou quando viu três formas acima de si lutando. Seus corpos eram apenas um borrão escuro como uma sombra perpassando rapidamente sobre a noite deserta; um desferindo socos contra o outro.

A vertigem alcançou Théo, e ele precisou apoiar sua cabeça no chão para não vomitar. Não conseguia ver perfeitamente o que acontecia a sua frente, mas conseguia perceber alguém lutando contra Josh e Bryan. E um minuto, Josh estava se jogando contra o garoto que aparecera abruptamente, e no seguindo estava recuando com a mão no rosto, coberta de sangue. No chão, o tintilar de prata alcançou os ouvidos de Théo por cima dos berros do garoto. Ele tinha arrancado seus piercings do rosto. Depois, o garoto que surgira a defesa de Théo se lançou contra Bryan, que já estava dobrado em dois com as mãos no estômago, e acertou com seu joelho bem no nariz dele, com certeza, quebrando-o.

No chão, tentando se levantar, Théo tossiu, pressionando as mãos conta o estômago que doía. Os garotos ainda brigavam, e era quase impossível distinguir quem era quem no breu da escuridão.

A briga acabou no instante em que Josh saiu correndo pelo corredor, deixando uma trilha de sangue a suas costas, e Bryan caindo no chão, gemendo baixinho.

― Venha ― disse uma voz cálida e rígida para Théo, ajudando-o a se levantar do chão. Passou seu braço direito pelo corpo do garoto e o ajudou a andar, indo no lado oposto do saguão principal.

Saindo do corredor, eles se depararam no gramado banhado à luz prateada da Lua cheia. O grande carvalho parecia brilhar como o mar à noite, sob a luminosidade do luar.

Théo não precisou olhar para o garoto que o ajudou para saber quem era. Sentia a leve camada de energia elétrica transcorrendo por seu corpo. Era sempre assim quando estava com ele. Tinha se acostumado.

Kalleo o encostou a parede do prédio da biblioteca, colocando ambas as mãos quentes e suadas sobre o rosto de Théo, examinando-o, com os lábios semicerrados e os olhos buscando vestígios de ferimentos.

O coração de Théo pulou, ameaçando sair pela boca. Sua respiração ficou profunda e pesada, lhe dificultando respirar com a aproximação de Kalleo. Olhando nos olhos cinzentos como a Lua, Théo esqueceu-se de quem era. Esqueceu o que estava fazendo na São Diego e o que acabara de acontecer no corredor. Esquecera-se de tudo a sua volta. Apenas estava fixado nele. Em Kalleo. Todo seu corpo sendo atraído o dele.

― Está doendo? ― perguntou Kalleo, apreensível, passando os dedos pelo queixo de Théo, onde Bryan lhe acertara um soco. Théo negou com a cabeça. Onde os dedos de Kalleo o tocavam, apenas sentia um leve formigar; nada de dor. ― Ainda bem. ― Ele suspirou, soltando a respiração que prendia, afastando-se de Théo. Ele não estava vestido no uniforme do instituto. Vestia jeans justos e uma camisa de botão preta por cima de uma camiseta branca. ― O que diabos estava fazendo andando por aqui sozinho a noite? ― esbravejou, a expressão no rosto se transformando numa carranca. ― Não sabe que não deve andar por aí a menos que procure confusão? Que, a proposito, foi o que achou!

Como uma tapa na cara, Théo percebeu com amargura que Kalleo estava agindo da mesma maneira que começara a agir com ele, desde que acordara no dia seguinte após a festa no quarto do Key. Frio e distante.

― E-eu... ― gaguejou Théo, atordoado. Kalleo voltou a ser rude novamente com ele, de uma hora para outra. Ainda agora parecia ter voltado a ser o mesmo que era quando chegou, até se enrijecer e torna-se ríspido. ― Eu não sabia. ― E encostou a mão no braço de Kalleo. Automaticamente, ele se contraiu e se afastou. ― Você está bem? Eles te machucaram? ― perguntou, lembrando-se de que há poucos minutos ele estivera brigando com dois outros garotos. Por sua causa. De novo.

― Eu estou bem ― ele respondeu, mecanicamente.

― Obrigado.

― Da próxima vez ― sibilou Kalleo, cerrando a mandíbula ―, não banque o idiota ao sair para dar um passeio noturno.

― Espera aí ― exclamou Théo, indignado, lembrando-se de que passara esses últimos dias atrás dele, para obter as respostas para as perguntas que tinha em sua mente. ― Por que está me tratando assim?

Kalleo apenas o olhou, sem dizer nada, e deu as costas.

― Ah, não. Você não vai. ― Théo o agarrou pelo braço, puxando-o para encará-lo. Kalleo podia ser maior que ele e tudo mais, mas dessa vez iria ouvi-lo. Ele estava irritado com Kalleo.

― Me larga ― rosnou Kalleo, os olhos perfurando-o, tentando lhe intimidar.

― Eu não sou nenhuma criancinha ― disse Théo, partindo para cima de Kalleo, que recuava o passo. ― Desde o dia em que cheguei aqui no internato, você tem sido meu amigo, me ajudando sempre que precisei. Até me arrastou para se vingar do que Bryan fez comigo naquele dia no refeitório. Disse-me coisas incentivadoras, e tem me feito me sentir importante. E desde domingo, quando me deixou no meu quarto, você tem sido totalmente indiferente comigo, sendo rude e me ignorando, sem motivo nenhum! ― dizia ele, as palavras sendo cuspida de sua boca rapidamente como uma onda varrendo a areia da praia. ― Você não era assim, e eu estou odiando conhecer esse seu lado. E se eu fiz algo que você não gostou, eu acho que eu tenho, ao menos, todo o direito de saber!

― Cala a boca ― murmurou Kalleo, engolindo em seco, trincando os dentes.

― O quê? ― grasnou Théo, ridiculamente aflito. Ele estava a centímetros do rosto de Kalleo, cuspindo as palavras com a face corada de raiva. ― Calar a boca? Quem você pensa que é para me fazer calar a boca? Eu posso dizer o que me venha a calhar, por que ninguém manda em mim!

― Eu estava apenas ajudando um pobre coitado no seu primeiro dia de aula! ― rugiu Kalleo, o rosto contorcido numa expressão mesclada de raiva e amargura. ― Agora, larga do meu pé!

― Eu não acredito em você ― retrucou Théo depois de um momento digerindo o que ouvira. Um gosto amargo predominante na boca.

Kalleo apenas o olhava passivamente, os olhos perdidos.

― Você não sabe o que está dizendo ― murmurou o garoto, fechando os olhos. Quando os abriu, estavam frios. ― Vá embora.

― Não! Eu não vou embora! ― Théo voltou a berrar, os nervos a flor da pele. ― Você é bipolar. Não sabe o que quer. Você... Você é louco! ― E riu do que disse. Um riso histérico brotando de sua garganta. ― É por isso que está aqui. Você é louco!

― Vai embora, Théo! ― Dessa vez, Kalleo gritou, a raiva translúcida em seu rosto.

― Não, eu não vou! Já disse ― gritou de volta. Não iria ficar por baixo, ser submisso. Kalleo pode tê-lo ajudado várias vezes, mas agora o estava atormentando tanto quando Bryan, mesmo sendo de uma forma totalmente diferente. O sangue corria quente por suas veias. Seus tímpanos zumbiam com a exaltação. Nunca ficara tão estressado como agora. Estava a beira de um colapso nervoso. ― Argh! ― grunhiu em desespero, sentindo as lágrimas de ódio lhe encharcando os olhos. ― Não acredito que fui gostar de alguém como você!

Automaticamente os olhos de Kalleo seu arregalaram de espanto. Théo não se importou. Podia dizer tudo o que sentia e nem se importaria. Não valia mais a pena o esforço.

― Você é um idiota! ― cuspiu, dessa vez batendo com o punho no peito de Kalleo, que estava com as feições rígidas de raiva. ― Um babaca de merda, que não liga para o sentimento dos outros, só para si mesmo. Para o próprio nariz. O mundo não gira em torno de você, Kalleo! Você não é o centro das atenções! Você é humano como todos os outros! Você é...  ― E estava prestes a dar mais um soco no peito de Kalleo, quando este agarrou seu punho, prendendo-o. Num piscar de olhos, seus rostos estavam a menos de cinco centímetros de distância, um fitando o outro, e logo em seguida, seus lábios estavam juntos, um pressionado contra o outro com veemência. Théo não sabia direito o que estava acontecendo. Apenas sentia a pele e os músculos dele encostando-se aos seus e os lábios macios sendo pressionado contra sua boca. Lentamente, seus lábios se abriram, e ele deixou que a língua de Kalleo entrasse em sua boca, com uma intensidade e um desejo desesperado. Ambas as línguas se entrelaçando numa dança voraz e sensual. A carga elétrica percorreu por seus corpos, mais forte do que antes, e Théo tinha certeza que Kalleo podia sentir. Percebia, assim como ele, a formicação por todo seu corpo.

Estava em êxtase. E mais que tudo, ele estava perdido naquele beijo quente e apaixonante. Sentia o martelar do coração de Kalleo contra seu peito, batendo com a mesma intensidade que o seu. Sim, era ali onde Théo queria estar, desde que o vira pela primeira vez.

Tão rápido quanto começou, o beijo terminou e Kalleo se afastou abruptamente de Théo, cambaleando para trás. A respiração entrecortada e os olhos arregalados de espanto.

― Kalleo... ― murmurou Théo, aproximando-se do garoto. Kalleo recuou o passo, alarmado.

― Se afaste de mim ― disse ele, o corpo rígido se encostando ao tronco do carvalho. ­― Isso nunca aconteceu.

Théo não entendeu. O que ele estava fazendo? Tinha acabado de beijá-lo e já estava...

Ele sentiu seu peito se rasgando, como garras o arranhando de dentro para fora. Toda a sensação de êxtase que tivera segundos antes quando beijou Kalleo desaparecendo, deixando-o abandonado, frio e vazio.

― Não chegue mais perto de mim ― murmurou Kalleo, se recompondo e voltando à rigidez. ― Nunca mais. ― E deu as costas, saindo do gramado e indo em direção ao saguão principal, deixando Théo sozinho e desolado na noite fria, sob a luz prateada da Lua, com a mão sobre os lábios que Kalleo acabara de beijar.