O Segredo da Lua escrita por F L Silva


Capítulo 8
Capítulo 8 - Tormento Interior




Quando Théo voltou a abrir os olhos, estava sendo deitado delicadamente pelos braços de Kalleo na cama. Havia pouca luz no quarto ― que apenas vinha do corredor no lado de fora ―, mas Théo conseguia vislumbrar o estonteante rosto de Kalleo com o queixo quadrado e perfeitamente delineado. Os olhos estavam estranhamente azuis e carregavam uma expressão de ternura e assombro. Pela intensidade do olhar, Théo achou que podia se perder dentro deles como se mergulhasse nas ondas devastadoras do oceano.

Ela sabia que a causa daquele olhar era pelo ocorrido da noite. A situação na qual Kalleo o encontrou junto com Toby no banheiro ― isso definia exatamente o porquê do assombro em seus olhos. A ternura ligada à compaixão era pelo fato de Théo ter sido apenas uma vítima sem condições de reagir ao que Toby lhe fazia, estando a mercê dele, em estado de quase inconsciência.

A respiração de Théo se mantinha calma e lenta. Ele estava quase dormindo, tentava lutar contra as pálpebras pesadas que ameaçavam fechar-se e absorvê-lo para a escuridão.

Kalleo se abaixou na cama de Théo, retirando seu tênis, deixando-o apenas com as meias. Depois o cobriu com o cobertor até o queixo. Todo o processo sendo realizado com os olhos sobre Théo, verificando se ele expressava algum sintoma de que, talvez, estivesse prestes a vomitar novamente. Ficando novamente de pé, deu uma última olhada para Théo e virou-se de costas, já se encaminhando para a porta, quando, de repente, Théo o agarrou pelo braço. A sensação de medo de ficar sozinho ― sem ele ― lhe amedrontando como um pesadelo que sempre visualizava ao fechar os olhos.

― Não vá ― murmurou, a voz falhando, sentindo a boca ficando dormente. Sua mão ainda segurava o braço de Kalleo. Sentia uma formicação se espalhando por seu braço.  A mesma formicação que sentira na primeira vez que o tocou, e em todas as outras desde então. Será que ele sentia o mesmo? ― Fica...

― Tá bem ― concordou Kalleo, olhando penosamente para Théo na cama. Quando este o soltou, foi até a porta do quarto e a fechou. Depois voltou para perto da cama e se sentou no canto, perto da cabeceira, com as pernas esticadas ao lado de Théo.

Endireitando-se na cama, um arrepio perpassou pela pele de Théo, os pelos de seu corpo se erriçando. Sentia uma leve camada elétrica no ar, como se estivesse somente em volta de Kalleo e ele. Na mesma hora olhou para o garoto, procurando em seus olhos algum sinal de demonstração para o que Théo sentia. Seu peito secou rigidamente quando percebeu que Kalleo encarava seriamente algum ponto a frente da cama, na cômoda perto da porta.

― Está melhor? ― perguntou ele, voltando o olhar para Théo, comprimindo os lábios.

Théo apenas assentiu com a cabeça, sentindo novamente seus olhos pesando. Queria se manter acordado. Queria ficar ali, com Kalleo, olhando para ele. Mas não estava conseguindo, por mais esforço que fizesse.

― Pode dormir ― sussurrou Kalleo, afagando o seu cabelo com a mão. O toque causando outra onda frenética de arrepios no garoto. Era reconfortante. Ele se sentia como se estivesse sendo tocado por um anjo.

Lentamente, mas hesitante, Théo fechou os olhos, odiando eternamente o momento que iria acordar e se ver sozinho naquele quarto.

* * *

Já se passava do meio-dia quando Théo acordou.

Ele percebeu o horário assim que abriu os olhos e viu todo o quarto iluminado pela luz do sol. Tomando consciência de que já estava tarde e atrasado para a aula, sentou-se rapidamente na cama. Sua visão girou no mesmo momento, com uma pontada de dor na nuca.

Era domingo, lembrou-se. Não tinha aula.

Voltando a se deitar na cama, fechou novamente os olhos. Achou que tinha dormido tanto que já acordara atrasado na segunda-feira. Não que imaginou que tivesse passado um dia todo dormindo como na vez em que ficou desacordado na enfermaria. Álcool não derrubava ninguém assim, derrubava?

Álcool...

De repente, lhe veio à tona na cabeça, como um turbilhão de lembranças, tudo que fizera na noite anterior. A festa no dormitório do Key, a conversa estranha com Megan enquanto bebia ― àquela altura, ele já estava bêbado ―, depois ao sair para ir ao banheiro no corredor quando sentiu que ia vomitar e Toby o seguindo, para lhe ajudar. E, logo em seguida, Toby tentando agarrá-lo a força e Kalleo aparecendo no último segundo para salvá-lo.

Ai. Meu. Deus.

Théo cobriu o rosto com as mãos. Queria poder enfiar a cabeça num buraco e nunca mais tirá-la de lá. Se olhasse para seu reflexo no espelho agora, com certeza veria suas bochechas coradas de vergonha. Mal acreditava no que tinha acontecido na noite anterior. Seria possível que tudo isso tivesse acontecido? Ou talvez tivesse sido apenas um sonho? Um sonho bastante ruim e agonizante e ao mesmo tempo delirante e encantador ― claro, essa última parte se referia a aparição repentina de Kalleo, como o príncipe encantado montado no seu cavalo branco.

Um gosto amargo surgiu em sua boca ao relembrar o que acontecera no banheiro, quando Toby o beijou. Ele tinha sido capaz de fazer isso mesmo? Théo nunca percebera no seu colega de quarto uma reação de que talvez pudesse gostar de homens. Mas talvez ele só tenha feito o que fez por estar sobre efeito do álcool. Mas se fosse ou não, com certeza esse seria o argumento de defesa dele.

Depois, Kalleo aparecera no banheiro do nada, tirando Toby de perto dele, e partindo pra cima, socando-o. Théo não viu a cena com muitos detalhes, pois no mesmo momento virou-se para vomitar no chão. O álcool e a situação vexatória com Toby prendendo-o contra a parede foi o suficiente para fazer seu estômago se revirar. Lembrava-se que quando estava voltando para o quarto e quase desmaiara, e, repentinamente, Kalleo o pegou pelos braços. Aqueles braços fortes e delineados... Théo fechou os olhos. Como queria estar naqueles braços, mas em outra situação senão aquela.

Novamente ele se sentiu envergonhado. Realmente teve coragem de pedir para que Kalleo ficasse no quarto com ele? A incredulidade transpassou por seus olhos. Nunca, em sã consciência, teria pedido aquilo para ele. E o mais estranho de tudo era: Kalleo ficou. Théo se perguntou se o motivo teria sido pena, por tudo o que aconteceu consigo. Que talvez quisesse se certificar que nada mais aconteceria com ele até dormir, ou... ele ficou com Théo por que gostava dele.

Théo balançou a cabeça, dispersando o pensando. Era lógico que Kalleo não gostava dele. Com certeza Kalleo apenas o via como um amigo, igual a todos que tinha a sua volta. Além do mais, ele namorava a Megan, e provavelmente irão voltar. E Théo os viu próximos demais na tarde anterior. Lembrar-se disso lhe causou uma pequena pontada de dor no peito.

Olhando para a cama ao lado, surpreendeu-se ao vê-la arrumada, sem nenhum tênis ou cueca jogada por cima. Estranho. Toby devia ter aparecido enquanto Théo ainda estava dormido, feito o que tinha que fazer, arrumado a cama e saído. Ele mal ficava no quarto. Théo sempre sentiu que o quarto era só dele e que Toby era só um visitante que aparecia para lhe ver. Mas um visitante que aparecia a qualquer hora, quando quisesse, e sem avisar, pegando-o totalmente de surpresa, como na vez em que flagrou Théo só de toalha no quarto.

A mochila de Toby também não estava ao lado da cômoda, como ele sempre deixava. Franzindo o cenho em incompreensão, Théo se levantou. A vertigem o forçou novamente a se sentar na cama. Sua cabeça doía muito.

Ressaca. Essa era a definição para o que sentia naquele momento.

Indo até a cômoda de Toby, abriu-a e ficou ligeiramente surpreso. Estava vazia. Todas as gavetas. Não continha nenhuma peça de roupa. No banheiro também. Nenhum vestígio de que Toby um dia estivera ali.

Confuso, Théo voltou a sentar-se na cama. O que tinha acontecido? Para onde Toby teria ido? Será que foi transferido para outro quarto? Mas, por que seria?... A cor fugiu do rosto de Théo, deixando-o branco como papel. Seria possível que já sabiam do ocorrido entre eles da noite anterior, e isso acarretou a saída dele do quarto? Seria possível que todos no instituto já sabiam do que tinha acontecido?...

Não. Isso não podia ter acontecido. Não deve. Não queria nem pensar no que aconteceria a seguir. Todos os alunos da escola lhe zoando, tirando sarro de sua cara. Sendo alvo de piadinhas ridículas. Recebendo bilhetinhos na aula com ofensas. Não. Isso era demais. Já tinha passado por uma situação parecida com essa, quando tinha nove anos de idade. Acidentalmente, após muito esperar na sala de aula, tinha urinado na roupa. Não muito, apenas o suficiente para transparecer o feito na calça. Quando os outros perceberam, passaram a lhe chamar de mijão todas as vezes que em que o viam, rindo de sua cara, o menosprezando. As outras crianças mal chegavam perto dele. Ele se sentia como o chiclete mascado jogado no chão que ninguém gostava de se aproximar. Tudo isso levou a seus pais lhe transferirem de escola. Foi a solução mais coerente que encontraram.

Tirando uma muda de roupa da cômoda, jogo-a sobre a cama, se apressando para se arrumar.  Tinha que sair o quanto antes e descobrir o que tinha acontecido com seu colega de quarto.

* * *

― Eu ainda não consigo acreditar! ― exclamava Zoe, num sussurro alto ao lado de Théo, os olhos verdes quase saltando das órbitas de incredulidade.

― Mas foi o que aconteceu ― assegurava Théo, sussurrando de volta. Depois que saíra do prédio dos dormitórios, rodara todo o instituto atrás de Zoe. Ela era a pessoa mais indicada ― e que tinha mais afinidade ― para lhe fornecer as respostas sobre as perguntas que ele tinha a fazer. Quando por fim a encontrara, ela estava na biblioteca, lendo um grande e volumoso livro cujo nome ele não chegara a ver. Quando avistou Théo, foi logo interrogando onde ele tinha passado a noite.

― Mas... mas... por que você deixou ele te beijar?

Théo tinha contado tudo o que aconteceu na noite anterior, desde a festa até o momento em que Toby tinha lhe beijado a força. Deixara de fora a parte em que Kalleo apareceu para lhe socorrer. Não sabia ao certo se contaria ou não para ela. Não que não tivesse confiança na garota ― pois tinha ―, mas por que ele tinha um momento somente de Kalleo e ele, que apenas ambos tinham compartilhado. E o que é mantido em segredo é muito mais precioso.

― Eu não queria! ― cuspiu Théo, cerrando os dentes de raiva ao se lembrar da noite anterior. ― Não tinha forças para me mover, ele estava me prendendo contra a parede! ― defendeu-se.

― Não sei por que você não retribuiu o beijo ― falou Zoe, olhando para as unhas pintadas de vermelho escarlate. Théo olhou para ela, inquisitivo. ― Toby é lindo. E gostoso. Muitas garotas iriam querer ficar com ele.

― Não acredito que você falou isso. Eca! ― Théo fez careta de nojo, como se fosse vomitar. Zoe só podia estar zoando com a cara dele.

― Eu ficaria com ele numa boa ― ela deu de ombros, encarando Théo seriamente. Théo esperou cinco segundos esperando que a amiga abrisse um sorriso e fala-se “brincadeirinha!”, mas isso não aconteceu. ― Ele parece ter pau grande.

― Você é louca!

― E você achou que eu era o quê? Estou num reformatório, querido ― desdenhou, como se fosse óbvio. ― Olhe onde estamos. Vivemos ao redor de loucos. Loucas de diferentes graus, claro. Mas entre todos os loucos, você pode escolher os que valem a pena. E, pra mim, o gostoso do Toby vale. Transaria loucamente com ele.

― Esquece o que falei. ― Théo balançou a cabeça, tentado a rir, mas se segurando. ― Você não é louca. É psicopata.

― A-há. Achei que nunca ia descobrir. ― Ela riu, maliciosamente. ― Mas continue: o que você fez para sair dos braços de Toby?

Baixando o rosto, olhou para seu tênis de cano alto.

Ele apareceu ― disse, num sussurro tão baixo que achou que Zoe não tinha ouvido.

Aimeudeusdoceujesusmariajosé ― o queixo dela caiu dramaticamente. ― Você está falando dele? De Kalleo? Ele apareceu e te salvou?! ― Àquela altura, a garota estava quase gritando na biblioteca.

Do outro lado do corredor, a bibliotecária que estava arrumando uns livros na prateleira, se virou para eles e sibilou um “shhh” para ficarem de boca calada.

― Sim, foi ele ― assentiu Théo, sentindo suas bochechas corarem. Engolindo em seco, ele decidiu contar tudo que acontecera depois que Kalleo apareceu até o momento em que Théo dormiu. Quando terminou, Zoe o encarava embasbacada. Parecia uma criancinha ao ouvir o final de um conto de fadas, feliz pela princesa ter ficado com o príncipe encantando.

― Parece cena de novela. O vilão tenta agarrar a mocinha indefesa a força, e, de repente, do nada, aparece o galã gostosão-tudo-de-bom e a salva. ― Os olhos de Zoe brilhavam ao imaginar a cena. ― E depois, claro, transam até não aguentarem mais.

― Cala a boca ― grasnou Théo, encabulado. ― Você só pensa em sexo?

― Estou presa aqui há anos sem transar. Você acha que é fácil aguentar a tensão?

― Não vou dizer nada.

― Diz isso agora, que está aqui só há algumas semanas. Quero ver daqui a uns meses quando estiver subindo pelas paredes com fogo no rabo. Meudeus, chega a ser sufocante!

Ooooiii! ― cantarolou uma garota de cabelos pretos, aparecendo subitamente do nada, sorrindo de orelha a orelha enquanto balançava a mão no ar em saudação.

― Falando em sexo, chegou transante do internato ― desdenhou Zoe, revirando os olhos. Depois disse para Théo: ― Essa é a Vicki, minha colega de quarto.

― Transante, não ― negou a garota. ― Lei da Branca de Neve, apenas. Por que ter um se posso ter sete?

― No seu caso, todos.

Théo avaliou a garota parada em pé diante deles. Tinha os cabelos curtos repicados, do tipo que se corta desajeitadamente com uma navalha. Lábios grossos e enormes olhos castanhos que não se fixavam em nenhum ponto específico, sempre olhando ao redor. Vestia uma saia ligeiramente curta e seus seios estavam quase saltando para fora da camiseta sem mangas. Ela era linda e ao mesmo tempo carregava um ar de alienada.

― Eu conheço você ― falou Théo, recordando-se que já vira a garota. ― Te vi na festa no quarto de Key. Você estava no banheiro...

E sua voz morreu, não querendo articular o que vira em voz alta.

― Chupando ele? ― exclamou Vicki, sorrindo abertamente. ― É, foi legal. Ele tem um pauzããão.

Mooorta ― murmurou Zoe, prendendo o riso. Théo fez o mesmo. ― A Vicki sabe, praticamente, o tamanho de todos os pintos dos garotos do instituto.

― Quase todos ― corrigiu a garota. ― Faltam alguns ainda, que estão na minha lista. Como o Jake, Lucca, Luan ― ela começou a contar nos dedos, enquanto citava ―, o baitola do Caio. Ah, Kalleo também! E você. ― Ela apontou para Théo. ― Que tal irmos ali ao banheiro, hein?

― Kalleo e Théo você pode desistir ― disse Zoe. ― Eles são zona proibida.

Vicki revirou os olhos.

― Que seja. Mas quando a lista tiver completa, eles não irão me escapar. ― E piscou o olho para Théo, se afastando da mesa, enquanto rebolava ao andar.

― E isso é o que chamamos de maníaca por sexo ― comentou Zoe.

― Ela tem algum problema?

― Todos. Ela toma remédio todos os dias na enfermaria. Ela é legal, uma boa companheira de quarto, mas devo admitir que tenho medo de abrir a porta e me deparar com a cena dela e outros dois fazendo ménage à tróis.

― Pelo menos, alguém aqui transa.

― Agora voltando ao assunto anterior... Você conseguiu ficar com o Kalleo?

― Claro que não. Se tivesse, teria te contado ― afirmou Théo, seriamente. ― Além do mais, não acho que ele goste de garotos...

― Bobagem ― bufou a garota, revirando os olhos. ― Claro que gosta. Da pra perceber na maneira que te olha.

― E de que maneira ele me olha?

― Do tipo: quero te comer ― brincou, desatando a rir sozinha, mas logo se recompondo. ― Ele te olha como se te quisesse por perto. Como se dissesse: “Quero você pra mim”.

Quando Théo conheceu Zoe, ele a viu como uma garota certinha e autoritária. Agora, que julgava a conhecer melhor, a via como ela realmente era. Não conhecia seu lado brincalhão. Provavelmente, ela só mostrava esse seu lado quando realmente fazia amizade com a pessoa.

― Mas falando sério ― recompou-se ela. ― Acho que ele corta para os dois lados. Ele já namorou a Megan, e agora, parece estar afim de você.

― Tá, chega ― cortou Théo, encerrando o assunto. Não tinha sido para isso que ele tinha saído para procurar Zoe. ― Quero saber se você sabe algo a respeito de Toby.

Zoe franziu seu semblante, confusa. Com o dedo indicador, subiu seu óculos para o topo do nariz.

― Não. Por quê? Aconteceu algo?

― Quando acordei ― Théo suspirou ― não encontrei as coisas dele no quarto. Não tinha roupas, mochila, pertences, nada. Estava simplesmente vazio, se não fosse por minhas coisas. Foi como se ele tivesse desaparecido sem deixar rastros.

― Estranho ― murmurou Zoe, confusa. ― Talvez ele tenha sido trocado de quarto.

― Foi isso o que pensei, também. Mas por que ele teria sido trocado de quarto? Fiquei imaginando se alguém mais soube do que aconteceu ontem no banheiro, e, por causa disso, tenham mudado ele de quarto. E também que tenham saído por aí espalhando isso.

― Não ouvir ninguém comentando disso. E não acho que alguém mais saiba. Kalleo e Toby não sairiam espalhando isso por aí. Não quando a confusão envolve estar quebrando as regras do instituto. Se chegar aos ouvidos de Sabrina, a coisa realmente iria ficar preta para o lado dos três. E com a “coisa ficar preta” quero dizer que vocês iriam realmente estar ferrados, do tipo ir para a solitária.

Zoe tinha razão, pensou Théo. Ninguém iria comentar sobre o ocorrido pelo simples fato de que todos, até quem contar, estava quebrando as regras. Entretanto, Théo não se lembrava de mais ninguém por perto no momento em que toda a confusão aconteceu. Não tinha mais ninguém dentro do banheiro, em algum boxe, ou no lado de fora no corredor.

Mas sendo assim, por que Toby saiu do quarto que dividia com Théo?

* * *

Já era noite quando Théo saiu da biblioteca. Depois que Zoe tinha ido embora, o deixando sozinho, ele vagou por entre as estantes olhando os vários livros enfileirados, procurando algum que lhe interessasse. Vez ou outra retirava algum da prateleira e folheava as páginas amareladas. Quando deu por conta, já era noite e percebeu que a estadia na biblioteca tinha demorado mais do que imaginava. Não tinha planejado passar mais tempo do que o esperado com a conversa com Zoe. Mas o fato do que tinha acontecido na noite anterior, e sua percepção de que Toby havia deixado o quarto que compartilhavam, lhe causava desconforto e amargura só de pensar na encrenca que tinha se metido. Tinha se arrependido de ter ido naquela festa com Toby... Mas por outro lado, fazia-o se sentir estranhamente confortável como a noite havia terminado, pela repentina aparição de Kalleo no final, surgindo inesperadamente como sempre fazia.

Théo logo se viu perguntando-se, se caso pudesse voltar no tempo e ter optado por não ter ido àquela festa; será que ele teria evitado ir? Ficou surpreso consigo mesmo quando não soube a resposta, ficando indeciso. Em qualquer outro momento de sua vida, a resposta automática, sem pensar, teria sido sim. Ele teria evitado. Mas, dessa vez, tinha algo a mais em jogo. Tinha ele. Théo queria vê-lo. Não o tinha visto desde que dormira com Kalleo do seu lado. Ele provavelmente saiu de fininho do quarto assim que Théo dormiu, ou teria ficado mais um pouco? Provavelmente, não.

Balançando a cabeça, Théo saiu para a noite fria e úmida.

O céu no lado de fora estava encoberto por densas camadas de nuvens escuras sobre todo o perímetro da São Diego. Uma leve chuva caía direto para o chão. A chuva estava ficando mais pesada, se chocando com força contra os telhados e as janelas e qualquer outra coisa que estivesse por seu alcance.

Rapidamente, gotículas de água escorreram pelo cabelo louro de Théo, indo direto para a ponta do seu nariz. Ele não tentou correr; gostava da chuva. Lembrava-se de quando criança, ao lado de seu amigo Will, quando corriam pelo campo de futebol, encharcando-se na chuva, pouco se importando se no dia seguinte acordariam resfriados. Pensar em seu amigo lhe causou um desconforto no estômago, como se um peso invisível o tivesse pressionando ali. Will. Parecia que se passaram meses desde que não falava com ele. Lembrava-se de quando se despediram, quando ele o encorajou a ser forte, e em como ele sempre ficou do seu lado, apoiando-o, assim como seus pais. Pensar neles também lhe causava dor. Não a dor física, mas a dor emocional. Um aperto no peito. Sempre antes de dormir, pensava neles, imaginando o que estariam fazendo, se estariam pensando em Théo, se estariam contando os dias para ele poder voltar para casa, ou se simplesmente estariam vivendo a vida deles como sempre foi, como se algum dia não tivessem tido Théo em suas vidas.

Reprimindo o pensamento, voltou à concentração para o chão aos seus pés. A grama já estava ensopada, e ele sentia a água fria encharcando seu tênis a cada poça que pisava. Não sabia exatamente para onde estava indo; simplesmente andava sem um rumo qualquer. Já deveria estar na hora do jantar, mas ele não sentia a menor fome, e tampouco queria voltar para seu quarto, agora frio e solitário com apenas ele de ocupante. Sem pensar, deu a volta e rumou para trás da biblioteca, passando pelas arquibancadas da quadra e virando à direta. Não sabia exatamente para onde estava indo, mas isso também não importava. Apenas queria se afastar, sentir-se o mais longe possível da conexão que tinha com aquela escola que o sufocava e o atormentava a cada dia mais que passava.

Théo acabou por sair no espaço que ficava entre o prédio norte e o leste. Um espaço que ele nunca tinha visto antes e, com certeza, muitos outros alunos também nem sabiam que aquele pequeno pedaço de terra existia. Era um lugar tranquilo, onde ninguém estava à vista.

Bem no centro do gramado alto havia uma enorme árvore, com algumas das grandes raízes para fora do subsolo. Um carvalho. Théo os conhecia, mesmo que tivesse visto poucos. Não conhecia muito de árvores, mas daquela, ele já ouvira falar. Com a chuva caindo mais espessa e o vento frio soprando levianamente, as folhas da árvore faziam uma grande barreira no chão, embaixo os galhos, onde a chuva não conseguia alcançar. Ali parecia um ótimo lugar para passar o tempo, se distanciar de tudo a sua volta. E, talvez, até esquecer o que tinha vivido nesses últimos dias.

Debaixo do carvalho, Théo se sentou na grama, não se importando com o chão molhado ensopando sua jeans. Os dedos de suas mãos estavam gelados e pálidos, assim como gelo. Ele estava com frio, mas não se importou. Naquele momento não se importava com nada ao seu redor. Apenas queria se afastar. Sentia-se como se um leão estivesse preso em seu peito, arranhando-o com suas garras afiadas, tentando sair dali, onde estava trancafiado.

Théo queria sair da São Diego, queria voltar para sua antiga vida, quando tudo que ele se preocupava era com as matérias que estavam atrasadas e os treinos de educação física. Ele se sentia reprimido naquele instituto. Se tivesse uma chance de sair escondido... será que fugiria? Ele não sabia. Não conseguia raciocinar direito. Sentia-se numa balança que nunca pendia para um lado; sempre preso ao meio.

Lentamente, junto com os fios de água que escorriam de seu cabelo através de seu rosto, lágrimas começaram a descer por sua face. Estava extravasando da forma mais fácil que conhecia. Sempre quando se sentia fragilizado, desmoronava-se em lágrimas. Isso costumava acontecer com frequência quando criança. Seus pais até lhe dizima que um dia ele iria acabar afogando-os com suas lágrimas.

― Quem está aí? ― perguntou alguém acima de sua cabeça.

Desviando a atenção do ponto cego a sua frente que estava fitando sem perceber, Théo levantou-se de um salto, erguendo seu rosto para cima, além dos galhos do imenso carvalho. Não conseguia ver direito quem estava sentado num grande galho grosso; apenas enxergava uma sombra na penumbra.

Tinha achado que ninguém estaria ali, que nenhum outro aluno sabia da existência daquele grande carvalho. Mas se deu conta de que estava enganado.

Descendo do galho e pulando de um para o outro com uma grande habilidade, Kalleo pulou a sua frente como um felino saltando de um prédio, cheio de autoconfiança. Ele vestia jeans pretos justo, tênis de cano alto completamente molhados, e sobre a camiseta de algodão vestia um casaco de cor cinza, com o capuz cobrindo a cabeça. O contraste de sua pele pálida com os cabelos negros rebeldes que se projetavam para fora do capuz e os lábios de um rosado natural era surpreendente para um humano. Por um momento, a respiração de Théo vacilou. Não esperava encontrá-lo agora. E não com ele assim... totalmente bonito e atraente, mesmo estando molhado da chuva, enquanto Théo estava exorbitantemente um caco, como um gato molhado e assustado.

Lembrando-se que há pouco estivera chorando, esfregou a manga de seu suéter nos seus olhos, secando as lágrimas, esperando que Kalleo não percebesse. Se ele percebeu ou não, não pareceu se importar.

― Ah, é você ― disse Kalleo, demonstrando desconforto em sua voz, mas seus olhos dizendo ao contrário. Até cintilavam. ― Não espera vê-lo aqui.

Um pequeno calafrio transcorreu pelo corpo de Théo, mas não fora por causa do frio da chuva que ainda continuava a cair, mas sim pela maneira como o tom de voz de Kalleo falara com ele. Desprezo. Será que tinha sido realmente essa a intenção dele ou Théo apenas compreendeu errado? Será que o barulho do vento soprando os galhos finos e as folhas do carvalho estavam interferindo no entendimento ao que Kalleo dizia?

Engolindo em seco, ele disse:

― Então é aqui que você costuma ficar quando desaparece?

Por um momento, Théo achou que Kalleo iria sorrir e assentir, mas num último momento seu rosto se contorceu numa careta.

― Isso não é da sua conta ― rosnou, os olhos uma mistura de cinza com azul, fixos em Théo.

Théo se encolheu, não sabendo o que estava realmente acontecendo. Por que Kalleo o estava tratando assim? Ele tinha feito algo de errado?

― Eu fiz alguma coisa? ― murmurou ele, confuso, buscando compreensão nos olhos de Kalleo, mas apenas encontrando aqueles olhos olhando-o friamente, como Megan o olhara em frente aos vestiários.

Lentamente, Kalleo fechou os punhos, cerrando a mandíbula. Parecia estar com raiva. Parecia, não; estava com raiva.

― Além do fato de vir me perturbar aqui? ― respondeu com desdém, deixando claro que Théo não era bem vindo.

O que está acontecendo?, perguntou-se Théo. Estava aflito, não esperava esse comportamento de Kalleo. Respirando profundamente, reprimiu a vontade de sair correndo e começar a chorar.

― D-desculpe ― gaguejou, tentando não deixar a voz vacilar. ― Eu vou embora.

― Acho bom mesmo. ― Kalleo assentiu, ainda com os punhos cerrados.

Théo esperou por cinco segundos alguma outra atitude de Kalleo, que do nada ele gritasse dizendo que era brincadeira o que estava dizendo e que estava tudo bem, mas isso não aconteceu. Frustrado, e se sentindo humilhado, Théo virou nos calcanhares e começou a andar pelo mesmo lugar que viera, saindo novamente para baixo da chuva que agora caía abusivamente. No meio do caminho, se virou para olhar pra trás para apenas confirmar que Kalleo ainda estava lá, olhando para ele com as mesmas feições rígidas.

― Obrigado ― disse Théo, numa última tentativa.

― Pelo o quê? ― perguntou a voz fria de Kalleo, como uma espada cortando o ar.

― Por me ajudar ontem à noite.

Dando de ombros, Kalleo respondeu:

― Eu teria feito aquilo por qualquer coitado bêbado.





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