O Segredo da Lua escrita por F L Silva


Capítulo 10
Capítulo 10 - Trajetos Opostos




― Por onde andou ontem à noite? ― indagou Zoe enquanto Théo e ela saíam do refeitório, na quarta-feira depois do almoço, indo em direção ao prédio de aulas. ― Passei no seu quarto ontem, mas depois de uns três minutos esmurrando sua porta percebi você que não estava lá.

Théo ajeitou o nó de sua gravata enquanto atravessava o saguão principal. Olhou diretamente para o corredor onde levava para o carvalho, lembrando-se do ocorrido na noite anterior. Não tinha contado para a amiga o que tinha acontecido, sobre Bryan e Josh tê-lo encurralado e Kalleo ter aparecido ― de novo ― salvando-o no último minuto. Mas, diferente das outras vezes, essa teve algo a mais. Enquanto discutia com Kalleo sobre o que tinha de errado na mudança de comportamento dele, Kalleo o beijara, pegando-o totalmente de surpresa. Théo não esperava por essa atitude dele. Esperaria qualquer coisa, menos aquilo...

Mas... o que tinha significado aquele beijo? Que, talvez, Kalleo gostasse dele assim como ele? Era confuso, e Théo queria poder comentar com Zoe, perguntar sua opinião sobre o fato, porém ele se sentia na obrigação de não contar para ninguém. Não ainda.

Pensar no beijo fazia transcorrer uma chama por todo seu corpo, deixando-o quente e absorto na lembrança. Zoe precisou abanar a mão na frente de seu rosto para trazê-lo de volta a realidade.

Aloooô ― cantarolou franzindo o semblante. ― Está sempre viajando no mundo da lua, assim? Qualquer hora vai se chocar contra uma parede.

― Estava apenas dando uma volta pelo campus ― respondeu indiferente a pergunta feita por Zoe, observando a multidão de alunos se dispersando no corredor e seguindo para suas salas. Seu olhar vagava de um aluno para outro sem buscar ninguém em específico.

― Nunca lhe falaram sobre não andar sozinho por aí à noite? ― repreendeu. ― Principalmente aqui. Você vive num reformatório com dezenas de delinquentes-psicopatas-suicidas, ou se esqueceu?

Théo não lhe deu ouvidos, estava concentrado demais em seus pensamentos sobre Kalleo para prestar atenção ao que Zoe falava. Enquanto ela continuava a falar do seu lado, eles seguiram para a aula de geografia, passando pela porta aberta da sala, onde sobre ela havia uma placa com o nome SR. AUSTIN talhada em letras douradas.

A sala estava ocupada por metade dos alunos, vários deles amontoados perto da janela. Um casal, cuja garota estava com a lateral da cabeça raspada, estava se beijando no fundo da sala e os outros a volta não pareciam dar a mínima importância. Théo se sentou na carteira em que o professor Austin lhe designara na semana passada: a quarta carteira da terceira fileira contando da esquerda. Zoe sentou-se na fila ao lado, uma carteira mais atrás.

― Geralmente, eu acho um saco não podermos sentar onde quisermos. ― Théo levantou o rosto e viu Juan parado a sua frente, jogando a mochila na carteira ao seu lado. ― Mas, particularmente nessa aula, além da de História, claro, eu gosto desse sistema rígido de lugar permanente.

Théo também concordava com ele. Não gostava nem um pouco desse sistema, principalmente quando era nas aulas de física, quando tinha que sentar ao lado de um garoto que passava quase toda a aula dormindo. Mas não era o fato do garoto dormir que irritava Théo, e sim pelo fato dele roncar. Um ronco baixo que não era auditivo pelo professor, mas estridente o suficiente para irritar os nervos de quem estivesse perto o suficiente para ouvir.

― Por quê?

― Porque eu sento do seu lado ― respondeu ele, como se fosse óbvio.

Théo sentiu seu rosto corar, encabulado com o que Juan falara. Sabia que não havia muito sentindo, que Juan é quem deveria estar enrubescido pelo que falara, mas ao contrário de Théo, ele sorria de maneira... maliciosa? Não, não era possível. Ele estava realmente flertando com Théo?

Reconhecer flerte nunca fora seu forte.

― Também acho isso um saco ― intrometeu-se Zoe, aparecendo de súbito ao lado de Juan, vindo ao socorro de Théo. Com certeza a garota ouviu o que Juan acabara de falar e, por isso, veio ao seu auxílio, salvando-o da situação vexatória. ― Tipo, por que diabos não nos deixar sentar onde quisermos? Seria muito mais fácil, já que o propósito desse lugar ― e gesticulou para tudo a sua volta ― é nos reformar para nos colocar de volta a nossa vida monótona e entediante lá fora. Então o mais correto seria nos dar o livre arbítrio.

― Não mesmo ― riu Juan, não se importando nem um pouco com a chegada repentina de Zoe na conversa. ― Se tivéssemos direito a ele, isso aqui não seria chamado de reformatório. Seria apenas uma escola qualquer.

― Só acho que existem outros métodos de nos reformar ― retrucou Zoe ― que não tirem o direito de fazermos nossas próprias escolhas.

― Mas é exatamente isso o que o sistema da São Diego quer. Transformar-nos em máquinas que os obedeçam, seguindo suas regras. Querem que sejamos, de certa parte, manipulados facilmente.

Théo apenas olhava de um para o outro, sem saber ao certo o que fazer. Eles pareciam estarem quase brigando, cada um defendendo seu ponto de vista. Quando se viraram para Théo, esperando que ele dissesse algo, ele apenas deu de ombros e disse:

― Quê? Não me metam nisso! ― exclamou, divertindo-se. ― Mas se querem saber minha opinião, acho que foi exatamente por causa do nosso livre arbítrio que viemos parar aqui.

Bingo! ― exclamou Juan, exibindo seu sorriso torto como se fosse o vitorioso na discussão.

Por trás dos garotos, a atenção de Théo foi subitamente atraída para a porta de entrada da sala. Era como se estivesse preso num transe. Nem sequer ouvia o que Zoe dizia, contestando.

Kalleo entrava na sala de aula junto com Nico, exibindo um grande sorriso despreocupado, causado por alguma coisa que o amigo lhe dissera. Assim que seus olhos cruzaram com os de Théo, ele assumiu uma expressão carrancuda, virando o rosto automaticamente.

Théo se empertigou na cadeira, sentindo uma vontade aplacadora de ir falar com ele, mas se controlando para não o fazer. Desde ontem, depois de Kalleo tê-lo beijado e ido embora, Théo voltou para seu quarto e ficou convencendo a si mesmo de que não valia mais a pena. Que Kalleo tinha algum problema e que isso não tinha nada a ver com Théo. O beijo tinha lhe dado uma súbita esperança, mas ela acabou segundos depois com o comportamento repentino e brusco de Kalleo. E se fosse para ser assim sempre que se encontravam, Théo preferia se afastar.

Ele gostaria que Kalleo lhe contasse o que estava acontecendo. Que, em vez de ser grosso e afastá-lo, contasse a verdade. Talvez com Théo sabendo do motivo, ficaria mais fácil para ele mesmo aceitar isso. Apesar de tudo, Théo gostava de Kalleo. Claro que gostava, não podia negar para si próprio, mesmo sabendo que agora mais que nunca seria impossível satisfazer o desejo abrasador de estar com ele. Seu coração acelerava toda vez que o via. Ele ansiava por sua presença de maneira totalmente indireta, pegando Théo totalmente de surpresa. Ele não conhecia muito bem Kalleo, mas sentia que se ele lhe desse uma chance, ele conseguiria.

Kalleo só não estava disposta a abrir uma brecha na porta para ele poder passar.

Théo sentiu o gosto de sangue em sua boca, mal se dando conta de que estava mordendo o lábio inferior com força.

O Prof. Austin chegou e todo o burburinho que rondava a sala cessou imediatamente. Juan e Zoe sentaram-se em seus lugares, e Théo continuou com os olhos fixos nele.

Kalleo e Nico se sentaram nas carteiras ao lado da janela, um ao lado do outro. Eles ainda conversavam entre si, mas Théo percebeu que Kalleo estava inflexível, ainda com as feições rígidas.

Então era isso que Théo causava a ele? Irritação?

Logo a aula começou e Théo tentou se esforçar ao máximo para prestar atenção, pois seu pensamento era facilmente desviado para Kalleo sentado a três fileiras a sua direita. Mal sabia do que o professor falava a frente da sala, gesticulando e rabiscando na lousa. Em todo o momento, Théo percebeu que a atenção de Kalleo estava voltada para o professor, não se distraindo por um segundo. Mal chegava a piscar. Parecia estar preso num devaneio profundo.

Uma pequena bolinha de papel amassada caiu na mesa de Théo, atraindo sua atenção. Logo olhou para o professor, esperando que ele tivesse visto e estivesse pronto para lhe dar uma bronca, mas ele transparecia não ter notado nada.

Psiiii.

Théo olhou para trás, e viu Zoe gesticulando para pegar a bolinha de papel. Desdobrando o papel sobre o colo, longe da vista de qualquer um a volta, leu o bilhete:

 

Qual é a do Juan e você???

Você não me contou nada!

Terei que por um gravador em você para ficar sabendo dos garotos que estão a fim de você?!

 

Por trás daquelas palavras, Théo podia sentir o tom autoritário de Zoe exigindo que lhe contasse tudo. No verso do papel, ele escreveu a resposta, dizendo claramente que não havia nada entre Juan e ele para lhe contar. Ele era apenas seu amigo.

Amassando o papel em uma bolinha malfeita, olhou para o professor, esperando que estivesse distraído para arremessar novamente para Zoe.

Minutos depois, a bolinha voltou a cair em sua mesa.

 

Você não me engana, Théo Ângelo! Depois quero saber de tudo.

E cuidado ao jogar a bolinha de papel! Tenho certeza de que K. estava observando.

 

A atenção de Théo voltou-se novamente para Kalleo. No momento em que virou-se para ele, flagrou o garoto olhando-o de volta. Não se demorou dois segundos para Kalleo desviar novamente o olhar e fixar-se na vista para fora da janela.

― Théo? ― chamou o professor na frente da sala. Todos os alunos, inclusive aqueles que estavam dormindo nos fundos, se voltaram para olhar para o garoto. ― Espero que esse bilhete em suas mãos, que a sua colega Zoe lhe passou, diga a respeito ao conteúdo da aula.

― S-sim, professor ― gaguejou Théo, sendo pego de surpresa.

― Então poderia compartilhar com toda a turma?

Engolindo em seco, Théo se levantou da carteira. A mente disparada a mil. Se não inventasse alguma coisa rápido, estaria em sérios apuros. Provavelmente outra detenção.

Olhando para o quadro negro atrás do professor, leu em letras cursivas A DIVISÃO DOS CONTINENTES. Théo pensou em alguma coisa para dizer em relação ao conteúdo, tentando se lembrar de algo que ouvira na sua antiga escola.

― Bom... ― começou, sentindo as mãos suando. Não gostava de ser o centro das atenções. Mas, entre todos os alunos, Théo percebeu com amargura que um deles não o observava. E era justamente aquele que ele mais ansiava. ― Zoe apenas estava dizendo que achava errado o fato da Eurásia ter sido dividida em dois continentes distintos: Europa e Ásia. Pois, como a lei dos continentes diz, toda terra cercada por oceano e mares é um único continente.

O Prof. Austin assentiu, e Théo voltou a se sentar, desejando desesperadamente para desviarem o olhar dele.

― É isso mesmo, Zoe? ― O professor se dirigiu para ela. Zoe apenas concordou. ― Então devo lhe dizer que a Eurásia foi dividida por diversos fatores. Entre eles são: a cultura, costumes, religião etc.

E voltou a se dirigir a toda a turma.

Théo respirou fundo e olhou cautelosamente para Zoe. Ela partilhava do mesmo alívio que ele. Com os lábios, ela gesticulou um “Essa foi por pouco”.

* * *

Quando as aulas enfim terminaram naquele dia, Théo sentia-se exausto, desejando mais que nunca por sua cama, no seu quarto vazio e deprimente, porém, de certa forma, acolhedor. Já estava se acostumando as paredes brancas e sem vida e o chão frio sob seus pés.

No pátio do prédio dos dormitórios, se despediu de Zoe e subiu as escadas oposta a garota, se encaminhando para seu quarto. A única coisa que tinha em mente era se jogar debaixo dos lençóis da cama e dormir durante dias. Estava cansado físico e emocionalmente. E, além de tudo, de ser tratado como um ninguém.

Parando em frente à porta do seu quarto com o número 92 talhado em letras  duradas, estava procurando pela chave no bolso interno da mochila quando a porta se abriu inesperadamente.

O coração de Théo pulou com a percepção de quem estava ali dentro, esperando pacientemente ― pelo menos, era o que demonstrava ― por ele. Kalleo estava parado a alguns centímetros de Théo, o encarando fixamente com os olhos azuis penetrantes. Por um momento, Théo achou que estivesse no quarto errado, mas logo voltou a si quando viu suas coisas em cima da mesinha de centro.

Empertigando-se, disse pausadamente:

― O que está fazendo aqui?

― Vir falar com você ― respondeu Kalleo, como se fosse óbvio o motivo de sua visita em seu quarto.

― Como você entrou no meu quarto? ― Théo tentou não se distrair olhando para Kalleo, sua beleza esmagadoramente deslumbrante. Tinha que ser firme. Tinha jurado para si mesmo não cair mais no encanto do garoto.

― Isso não importa ― ele deu de ombros, andando pelo quarto.

― Claro que importa ― interveio, secamente. ― Você está no meu quarto, onde só eu tenho a chave.

Théo já sentia o sangue subir a cabeça. Estava começando a ficar irritado. Odiava o modo como Kalleo desviava de suas perguntas, dando pouca importância.

― Eu... ― começou a dizer o garoto, novamente parando a frente de Théo. Não exibia mais as feições duras e rígidas como antes, demonstrando irritação. Por um momento, parecia ter voltado a ser o velho Kalleo que Théo conhecera nos primeiros dias na São Diego. ― Vir lhe trazer isto.

Até aquele momento, Théo não tinha reparado no seu exemplar de Morte Súbita nas mãos do garoto até ele lhe estender.

― Terminei de ler faz alguns dias, mas não tive a oportunidade de lhe devolver. ― Em sua voz tinha um leve tom de desculpas. Théo ficou confuso por um momento. O que estava acontecendo exatamente?

A suas costas, a porta se fechou com o vento que serpentava pelo corredor.

― O.K. ― Théo pegou o livro de suas mãos, tomando todo o cuidado para não encostar-se a sua pele. Sabia a sensação que lhe causaria por todo o corpo e queria evitar o contato. ― Agora pode ir embora ― falou bruscamente, querendo que Kalleo se afastasse dele. Já o tinha atormentado demais.

Kalleo hesitou por um momento, declarando visivelmente que ainda não queria ir embora. Engolindo em seco, olhou por todo o quarto e disse:

― Podemos ir dar uma volta? ― sugeriu.

― Não ― cortou automaticamente. Não ia sair para qualquer outro lugar com ele. Nem ao menos queria conversar. Já tinha passado toda a vontade de querer saber o que acontecia com ele. Agora, estava pouco se importando, mesmo que seu peito apertasse ao pensar isso.

― Me desculpa. Eu não... ― Kalleo falou, contraindo os lábios. ― Eu não queria que as coisas entre nós ficassem assim... Apenas queria... ― E suspirou, exasperado, passando a mão pelo cabelo e olhando para o teto. Ao olhar novamente para Théo, seus olhos pareciam estar marejados. ― Eu só queria te proteger.

― Me proteger do quê? ― Théo se contraiu, sentindo-se levemente culpado por Kalleo estar prestes a chorar. Talvez ele realmente tivesse um pouco de culpa, mas isso era resultado de como Kalleo o vinha tratando ao longo da semana. Mesmo que seu peito se abrisse como se as garras estivessem novamente lhe rasgando, ele não daria o braço a torcer. Iria se manter firme como tinha decidido.

― Você não entende, Théo ― cuspiu Kalleo, fungando levemente e endurecendo o queixo. Estava realmente prestes a chorar, os olhos, agora cinzentos, marejados com lágrimas a ponto de escorrerem por suas bochechas coradas. Era estranha a forma com que a cor de seus olhos oscilava de azul-claro para cinza de uma hora para outra.

― Esse é o problema! Eu nunca entendo. Mas não entendo por que você mesmo não me conta! ― retrucou Théo, largando a mochila no chão. ― E eu estou cansado disso tudo. De você, das suas atitudes egoístas, desse colégio. Eu não vejo a hora de finalmente ir embora daqui e nunca mais te ver!

Kalleo somente ouvia tudo, as mãos pendendo ao lado do corpo.

― Desde que cheguei aqui tem sido um verdadeiro inferno. E no começo, você chegou a me ajudar, me distraindo de tudo, mas vendo tudo o que aconteceu até agora, vejo de que nada adiantou ­­― vociferou Théo. ― Teria sido melhor você nunca ter chegado perto de mim. E, acima de tudo isso, eu lamento eternamente pelo fato de ter acabado por gostar de você. E não digo isso com vergonha alguma, por que ao dizer essas palavras, sinto apenas uma raiva pulsante saindo junto com elas...

― Théo...

― Não, me deixa continuar! ― retrucou o garoto, o rosto vermelho de raiva. ― Agora ao menos você vai me ouvir. Quando você me ajudou ontem à noite, por um momento, achei que você tinha voltado a si. Mas logo agiu bruscamente, me magoando de dentro pra fora. Dilacerando-me. E acredite: doeu. Pra ca-ra-lho. E ainda dói. Mas nada disso é comparado ao fato de você ter me beijado e me dito logo em seguida que nada daquilo tinha acontecido. Negando como um covarde.

As palavras eram cuspidas numa rapidez que Théo não sabia julgar se Kalleo compreendia ou não. Todo o momento, o outro garoto apenas o olhava desamparado, enquanto Théo se contraía em espasmos de raiva.

― Eu gosto de você ― sussurrou Kalleo, baixinho, engolindo em seco.

― O quê? ― Théo congelou sobre o piso úmido, seu estômago se embrulhando.

― Eu disse que gosto de você, Théo. ― A forma vacilante com que falava demonstrava claramente insegurança e medo.

Théo engoliu em seco, a mente disparada a mil. Turbilhões de pensamentos lhe atingindo.

― Quero que vá embora ― foi tudo o que conseguiu dizer, sentando-se na cama. As pernas estavam geladas como gelo. Temia cair no chão subitamente por causa da exaltação.

― Théo...

― Vá embora!

― Tudo bem... ― assentiu Kalleo, já se aproximando da porta.

Um tremor percorreu pelo corpo de Théo junto com um suspiro baixo que escapou de seus lábios. Sentiu doer a vontade avassaladora que sempre sentia na presença dele, de se inclinar e pressionar seus lábios contra os dele. Queria poder envolvê-lo em seus braços, sentir seu corpo contra o dele. Mas a tentação de esquecer todo o motivo dessa briga e apenas abraçá-lo não era maior que a raiva que percorria por suas veias.

― Espere ― Théo chamou de volta. Abriu a gaveta da cômoda e de lá tirou a camisa preta de Kalleo, que ele tinha lhe emprestado no seu primeiro dia de aula, quando o ajudou a se limpar no vestiário. ― Isso é seu.

Kalleo pegou a camisa, olhando-a por um breve momento, o olhar desamparado. Depois, saiu pela porta do quarto, fechando-a atrás de si.

* * *

Deitando-se na cama ainda vestido no uniforme escolar, Théo fechou os olhos e tentou preencher seus pensamentos com nada relacionando a Kalleo. Mas não era tão fácil assim, por mais esforço que fizesse. A intensidade dos olhos, as feições do seu rosto, a voz cálida e ardente, a pele quente e aconchegante. Tudo vagava pela mente dele a respeito de Kalleo. Que droga! Tudo o que ele queria naquele momento era desviar de toda a conexão que tinha com ele, e ao mesmo tempo, tudo o que seu subconsciente ansiava era pela presença de Kalleo.

Por um momento, começou a se perguntar se teria sido uma má ideia expulsar Kalleo de seu quarto, o rejeitando, assim como Kalleo fizera com ele. Sim! Foi preciso; ele afirmava para si mesmo, tentando se convencer.

Mas por que tinha recusado o pedido de desculpas de Kalleo? Ele se surpreendeu quando percebeu que a resposta para essa sua pergunta era um misto de receio e vingança. Queria em parte se vingar de Kalleo. Não ofensivamente, apenas mostrar que ele era independente, que não precisava de alguém. Que já era grande demais e podia arriscar. E que era perfeitamente capaz de entender as coisas. Não era nenhuma criancinha fácil de ser manipulado.

Kalleo tinha dito que também gostava dele, mas não tinha convencido Théo. Ele não acreditava nisso. E ao ouvir essas palavras sendo captadas por seus ouvidos, um desconforto se espalhou por seu estômago.

Théo ainda espumava de raiva quando horas depois Zoe bateu na porta de seu quarto, entrando sem esperar que ele a abrisse. Jogou-se na cama que antes pertencia a Toby e o encarou, deslizando os óculos de armação grossa para o topo do nariz.

― Ainda não trocou de roupa? ― questionou a garota, olhando para o uniforme amassado de Théo.

― Estava pensando... ― comentou Théo, olhando pela janela com grades, procurando um modo de como se vingar. Queria que fosse de maneira extravagante, mesmo que isso quisesse dizer que teriam que quebrar algumas regras do instituto.

― Em quê?

Théo ficou momentaneamente calado, mas logo tornou a falar:

― Zoe, você se importaria caso fosse parar na diretoria por algo excepcional que fizesse?

― Como assim, Théo? ― A garota sentou-se na cama, olhando-o confusa. ― O que tem em mente?

― Quando será a noite de apresentação do show de dublagem?

― Domingo à noite, por quê?

― Por que temos exatamente três dias para ensaiarmos para a nossa apresentação ― respondeu ele, um sorriso malicioso se espalhando por seus lábios.