Estrada para o outro lado escrita por slytherina


Capítulo 5
Fuga


Notas iniciais do capítulo

"Viajamos sete léguas, por entre abismos e florestas. Por Deus nunca me vi tão só, é a própria fé o que destrói. Estes são dias desleais." Metal contra as nuvens - Legião Urbana




Sam saiu de casa cedo naquela noite. Decidira-se, ao ver a estranheza no rosto de seu irmão mais velho, quando lhe implorara que não contasse a ninguém sobre sua doença; e foi como se Dean não o reconhecesse mais, e ele fosse indigno daquela família.

Tristeza, abandono, rejeição. Além da culpa por ter AIDS. Sentia que Dean sempre lhe atiraria na cara, que ele era um aidético. Um maldito com uma doença maldita, cujo sangue era uma ameaça de morte.

Sam não chorara mais. O errado era ele, e mais ninguém. E só ele poderia consertar aquela situação. Arrumara a mochila com algumas peças de roupa e seu livro favorito. Tinha algum dinheiro guardado para comprar roupas novas para a formatura, mas em vista da situação atual, ele não mais se formaria. Como ele poderia voltar a estudar e falar com seus colegas novamente, agora que sabia que tinha uma doença incurável, que todos associavam com vidas desregradas e viciosas? Se seus colegas na escola soubessem que ele era um aidético, iriam tratá-lo como Dean o fizera, com raiva, desprezo e nojo. Ele não agüentaria passar por isso de novo.

Vestiu suas habituais duas blusas, mais um casaco e as botinas. Pegou a mochila e desceu as escadas. Procurou por Dean para despedir-se, mas seu irmão estava caído no canto da sala, bêbado, grunhindo alguma coisa em seu torpor alcoólico. Ele não estava em condições de dialogar. Sam voltou ao quarto. Pegou uma folha do caderno escolar e escreveu uma carta de despedida. Tentou parecer cordato e resignado. Sabia que era a última vez que escreveria para seu irmão e teve vontade de chorar.

"Para Dean" escreveu sobre o papel dobrado. Deu uma última olhada em seu quarto, lembrando-se de quantas vezes lamentara ser pobre e não ter uma família normal como todo mundo. Como ele se arrependia disso agora. Sua família era perfeita e eles sempre tomavam conta uns dos outros. Passaram fome algumas vezes, é verdade, mas sempre foram muito unidos e leais, nunca abandonavam os seus, mesmo passando por cima de tudo e de todos. E era isso que Sam estava fazendo agora, abandonando seu lar, mas o fazia por uma boa razão. Afinal, ele não viveria mesmo muito tempo. Ao menos pouparia sua família de viver ao lado dele até o triste fim.

Sam saiu de casa a pé. Caminhou até a rodoviária e comprou uma passagem para a cidade vizinha. Teve sorte que havia um ônibus saindo em alguns minutos. Não tinha fome, nem sede. Embarcou no ônibus e agasalhou-se bem. Estava frio, mas isso até o ajudaria a adormecer mais rápido. Quem sabe até sonhasse com um lugar bom e feliz, quando ele ainda não era doente?

Sam despertou ao ser sacudido por estranhos. O ônibus havia chegado à parada final, e já era de manhã. Ele usou um banheiro público para suas necessidades e higiene íntima, e foi muito escrupuloso em limpar tudo, antes de sair. Tomou uma xícara de café com pão e depois foi para a rua, observar tudo e todos, sem ter realmente nenhum lugar para ir.

Caminhou pela maioria das ruas daquela cidadezinha, e em alguns lugares pediu emprego, mas não conseguiu nada. Perguntou pelo abrigo para sem-teto e resolveu passar o dia próximo àquele prédio, para não perder um lugar à noite.

A noite chegou e ele realmente não havia feito nada de produtivo. Talvez sair de casa não tenha sido uma boa idéia afinal. A vontade de voltar pra casa começou a ruminar no seu ser. Quando a noite começou a cair, ele foi para a fila do abrigo para sem-teto.

"Quantos anos você tem rapaz?" A mulher gorda e de cara enrugada lhe perguntou na entrada do prédio.

Sem saber qual a resposta certa, Sam resolveu falar a verdade, ao menos dessa vez. "15 anos, senhora."

"Sinto muito, o abrigo para adolescentes fica do outro lado da cidade. Este aqui é só para adultos. Saia da fila."

"O que? Mas, mas eu não vou conseguir chegar a tempo para entrar nesse outro abrigo."

"Não vai mesmo. Lá é muito concorrido."

"Eu, eu não posso dormir na rua."

"Devia ter pensado nisso antes de fugir de casa. O próximo?"

Sam foi empurrado para fora da fila, e um homem com as roupas rasgadas e sujas ocupou seu lugar, sendo prontamente aceito no abrigo.

"Senhora, por favor, só por essa noite, me deixe dormir aqui." Sam insistiu.

"Não misturamos menores com adultos, pois sempre há problemas legais. Sinto muito, garoto." A mulher falou seca.

Sam ficou boquiaberto e admirou a fila enorme de mendigos andrajosos, pessoas abatidas, envelhecidas e olhar distante.

"Está certo. Eles merecem mais do que eu. Talvez se voltar pra rodoviária, eu fique seguro para passar a noite." Sam pensou.

Ele voltou ao ponto de partida e sentou-se no banco de espera. Usou o lavatório. Comeu bolachas. Bebeu água. Ficou sonolento, e resolveu deitar-se no banco da rodoviária, para tirar uma soneca, firmemente agarrado a sua mochila. As pessoas passavam por ele e balançavam a cabeça, como se ele fosse um exemplo de tudo de ruim que havia com os jovens atualmente.

Sam sentiu uma pressão no ombro, como se alguém quisesse levantá-lo. Abriu os olhos sonolentos para ver um homem mais velho, com a barba por fazer, mordendo os lábios, enquanto o fitava atentamente.

"Me dê um trocado aí, garoto!" O homem grunhiu.

Sam observou o ambiente ao redor. Estava sozinho. Sem ônibus, sem passageiros, sem policiais. Até o guichê de vender passagens parecia abandonado. O que ele poderia fazer? Só havia um lugar por onde escapar. O homem era um sem-teto. Parecia viciado ou alcoólatra. Não tinha arma visível, mas devia ao menos ter um canivete escondido. Ele era de estatura média e tinha o abdômen protuberante. Sam poderia vencê-lo numa luta. Ou pelo menos, o Sam do ano passado poderia, porque com o vírus no seu organismo, Sam tornara-se fraco e molenga. Mas isso era questão de vida ou morte. Ele poderia dar dinheiro para o homem, mas ninguém lhe garantia que ele iria parar por aí.

"Você ouviu o que eu disse garoto? Me dê uma grana, pois eu preciso tomar umas." O homem abaixou-se até ficar cara a cara com Sam, falando mais alto como se ele fosse surdo.

"Hã?" Sam perguntou, movido mais pelo pânico, do que por ignorância.

Quando o homem abriu a boca para falar novamente, Sam usou sua mochila para empurrá-lo, fazendo-o cair sentado no chão. Sam aproveitou a deixa para sair em desabalada carreira para fora da rodoviária. Ele rezava mentalmente para não desmaiar. Entrou na primeira lanchonete que viu aberta. A garçonete o olhou curiosa.

"Por favor, tem um homem estranho me perseguindo. Acho que ele quer me roubar." Sam falou sem fôlego.

Como se esperando uma deixa, o barbudo barrigudo entrou na lanchonete. "Você, garoto, venha aqui."

"Eu acho que não." Um homem negro, mais velho e encorpado, puxou uma escopeta de trás do balcão e a apontou para o barbudo. "Pra fora da minha lanchonete. Agora!"

O barbudo ergueu as mãos e deu uma última olhadela em Sam, antes de escapulir dali.

Sam arriou-se em um dos bancos acolchoados da lanchonete, e sentiu as forças lhe faltando. Tudo virou um breu, e ele lamentou profundamente ter saído de casa.





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