Estrada para o outro lado escrita por slytherina


Capítulo 2
Quatro meses


Notas iniciais do capítulo

"Não queria te ver assim. Quero a tua força como era antes. O que tens é só teu, e de nada vale fugir, e não sentir mais nada." Andrea Doria - Legião Urbana




A ida até a clínica gratuita não foi fácil. Novamente a paranóia de nunca informar o verdadeiro nome os atanazava, mas em se tratando de atendimento médico, tiveram que ser francos e honestos. A coisa desandou quando a recepcionista exigiu a presença do pai, mas após muita reclamação por parte de Dean, Sam conseguiu ser atendido pelo médico de plantão.

Na hora do exame físico, mais dor de cabeça. Como explicar os arranhões nos braços de Sam? ("Foi um lobisomem, doutor.") E o hematoma antigo nas costas de seu irmão mais novo? ( "Uma aparição agarrou Sam pela perna e o atirou longe.") Dean foi salvo de seu mutismo desajeitado, pelo raciocínio rápido e cara de pau de Sam: "Ah, eu caí da escada, e o cachorro do vizinho me arranhou." Entretanto, Dean teve que agüentar os olhares atravessados que o médico lhe dirigia de vez em quando. ("O que? Você acha que eu espanquei meu irmão mais novo?")

Após o exame físico tiveram que ir ao laboratório dar amostra de sangue. E mais uma vez tiveram que esperar pacientemente que alguém os chamasse para entregar o resultado.

Sam adormeceu com a cabeça recostada no ombro de Dean, e este se espantou por ver seu irmão tão fraco e vulnerável assim. Ele não via a hora de dar o remédio certo para Sam, para que ele melhorasse. Não haveria de ser nada grave. Em dois tempos, seu irmão estaria curado. Ele se certificaria disso.

"Sam Winchester." A enfermeira chamou.

Dean sacudiu Sam para acordá-lo. "Sam! Acorde! Chegou a nossa vez!"

Sam sobressaltou-se e ficou de pé sobre pernas bambas. Foi preciso que Dean o amparasse pela cintura, para que ele pudesse recuperar o equilíbrio.

"Dean?"

"Estou aqui, Sammy! Estou bem aqui! Não te deixarei cair."

Eles se dirigiram até a enfermeira para receber o exame, mas ela não entregou. Ela preferiu conduzi-los de volta ao consultório médico. "O doutor explicará sobre a doença. Conversem com ele."

Dean teve vontade de arrancar o papel da mão daquela mulher, pois afinal aquele exame pertencia a seu irmão, e ela não tinha o direito de sonegar informações. Por outro lado, se a doença encontrada fosse algo obscuro, com um nome quilométrico, que não significasse absolutamente nada para ele, seria melhor que o médico lhe explicasse o que era aquilo.

"Eu gostaria de dar o diagnóstico da forma mais suave e menos traumática possível, mas não há como evitar o choque que vocês terão. Então falarei francamente. Sam, seu exame deu negativo para várias doenças, mas deu positivo para uma só."

"Pare de fazer drama, Doutor. Diga logo o que meu irmão tem." Dean rosnou com cara enfezada.

"Sam, seu exame deu positivo para HIV."

O silêncio que se seguiu parecia não ter fim. O médico ficou encarando os dois irmãos, esperando pela revolta, negação e acusações.

"… o que foi que o senhor disse?" Dean perguntou num fio de voz.

Sam estava tão chocado que ficou de boca aberta sem falar nada. Os olhos fixos no médico. Então lentamente, foi como se ele afundasse em areia movediça, à medida que suas pernas bambeavam e ele procurou sentar-se na maca de exame do consultório médico. Não mais olhava para o médico, mas para um ponto vazio na parede.

Dean o observava em sua letargia, mas não deixava de fitar o médico também. "Alguma coisa está errada, doutor. Meu irmão não pode ter essa doença. Ele só tem 15 anos, e não é viciado, nem gay, e ele nem ao menos tem namorada. Boto a minha mão no fogo como ele ainda é virgem." Dean encarava o médico com um misto de chacota, bom humor e uma ponta de desespero. Ele tinha certeza que o médico tinha se enganado ... será?

"Nós fizemos e refizemos o exame, para que não houvesse dúvidas. Seu irmão tem o vírus do HIV, e pelos sintomas apresentados, ele já apresenta AIDS." O médico falou benevolente.

"Como assim? Qual a diferença?" Dean perguntou confuso, começando a suar e procurando se apoiar na maca de exame, também.

"Uma pessoa pode contrair o vírus e conviver com ele anos a fio, sem nenhum sintoma e sem desenvolver nenhuma doença. Após algum tempo, essa pessoa passa a apresentar a Síndrome da deficiência imunológica, que é a característica da AIDS. Então essa pessoa apresenta vários sintomas e contrai diversas doenças, que não contrairia, se tivesse o sistema imunológico forte e atuante. A essas situações chamamos soropositividade, quando não há sintomas, e portador da AIDS, quando a pessoa já desenvolve sinais e sintomas."

"O senhor quer dizer que ... meu irmão é soropositivo há tempos? E que nunca percebemos nada?" Dean perguntou ainda espantado e confuso.

"Simplificando tudo, sim. Mas isso difere de pessoa para pessoa. Posso apenas garantir que ele entrou em contato com o vírus há mais de quatro meses, pois esse é o tempo, em média, para o sangue reagir à presença do vírus. Embora alguns exames já detectam a presença do vírus, um mês depois do contágio."

"Quatro meses?" Dean arremedava o médico, passando a mão no rosto, ainda confuso e sem conseguir acreditar em nada daquilo. Ele se segurou com força na maca de exames, enquanto olhava para Sam, como se a desafiá-lo a negar tudo aquilo. Sam parecia alheio a sua presença, como se estivesse sonhando com os olhos abertos.

"E ... e eu também posso ter essa doença, doutor?" Dean perguntou nervoso.

"Você pode fazer o teste, Dean. Ele é gratuito e confidencial. Ninguém saberá que você fez o teste e qual foi o resultado. O mesmo serve para Sam."

"E ... as formas ... as formas de contrair essa doença ...?" Dean perguntou gaguejando, visivelmente desnorteado.

"Existem muitas propagandas e panfletos por aí explicando isso, mas o básico é: sexo sem proteção, compartilhamento de seringas e agulhas, principalmente em viciados, transfusão de sangue, e ferimentos com material contaminado. E no caso das mulheres, há o risco de transmitirem a doença para seus filhos, por ocasião da gravidez, parto e amamentação. A enfermeira lhe fornecerá diversos panfletos e folders explicando tudo isso. Conviver com uma pessoa com AIDS não transmite a doença. Segurar a mão, amparar e abraçar uma pessoa com AIDS não transmite a doença. Seu irmão ainda é o mesmo de sempre, agora com HIV."

Dean suspirou e resolveu se calar, enquanto digeria tudo que o médico lhe falou. Um movimento ao seu lado o alertou. Sam pulara da maca.

"Quanto tempo eu tenho de vida, doutor? Eu sei que essa doença não tem cura." Sam perguntou sério e abatido.

"Temos pacientes aidéticos vivos, sob nossa supervisão, há vinte anos. Como a doença é nova e novos remédios estão sendo desenvolvidos, é difícil fazer uma projeção além disso. É a mesma previsão de tempo de vida para diabéticos, enfisematosos, ou outra doença crônica que exija tratamento contínuo e cuidado constante."

"O senhor quer dizer que terei que tomar remédios pelo resto da minha vida?"

"Sim."

"Onde podemos pegar o remédio, doutor?" Dean se adiantou, também pulando da maca.

"Seu irmão tomará o coquetel de remédios, Dean, mas não agora. Primeiro ele fará exames específicos para AIDS, que nos informará como está seu sistema imunológico e a quantidade de vírus em seu corpo. Isso é necessário para acompanharmos a ação do remédio no corpo dele." O médico rabiscou alguns papéis e chamou a enfermeira pelo interfone. "Acompanhem a enfermeira. Ela irá agendar esses exames. E rapazes, tenham confiança no tratamento. Tudo ficará bem."

A enfermeira entrou e convidou os rapazes a lhe acompanhar. Dean parecia ferido no âmago do seu ser, mal sustentando a cabeça, enquanto que Sam seguia em passos firmes e cabeça ereta, como se estivesse sendo levado ao cadafalso.



Notas finais do capítulo

Editado em 09/01/16.



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