Estrada para o outro lado escrita por slytherina


Capítulo 3
Um completo desconhecido


Notas iniciais do capítulo

"Nos deram espelhos e vimos um mundo doente. Tentei chorar e não consegui." Índios - Legião Urbana




Tudo passou num turbilhão, como se estivessem bêbados, rodopiando em uma cidade cinética, sem nada para lhes apoiar o corpo, e tivessem que se manter em movimento, para não irem ao chão, sob o peso daquela revelação. Dean precisava urgentemente de uma dose de um bom uísque, talvez uma dose dupla. Ele se sentia naufragar, e inconscientemente segurou o braço de Sam para amparar-se. Ele se assustou ao perceber que Sam se apoiou nele pesadamente. Será que ele iria desmaiar de novo?

"Sam? Você está se sentindo bem?"

"Estou! Só um pouco nauseado. Gostaria de dormir e não acordar mais. Talvez dormir e acordar ano passado, quando eu ainda tinha um futuro."

"Não fale assim, meu irmão. O doutor disse que essa doença é como diabetes, que você pode viver com isso por muitos anos. Você apenas vai ter que se habituar a tomar os remédios." Dean falou com voz firme, embora sentisse um aperto na garganta.

Eles chegaram até o Impala e foram pra casa no que lhes pareceu a viagem mais longa de suas vidas. Ao chegarem na casa alugada, Dean foi direto para a garrafa de bebida e serviu-se generosamente.

"Merda!" Dean xingou.

Sam sentou-se pesadamente no sofá antigo, roto e manchado da área da TV. Ele virou-se temeroso para o irmão, com medo que o mesmo estivesse furioso.

"Papai vai ficar bravo comigo. Como eu pude deixar isso acontecer contigo, Sam? Como ... como eu não consegui te proteger disso?" Dean limpou asperamente as lágrimas que começaram a escorrer livremente por seu rosto.

"Você não teve culpa nenhuma, Dean. Fui eu quem pisou na bola."

"O que você está me dizendo?"

"Fui eu quem fez besteira. Eu fiz ... sexo sem camisinha. Eu sabia que tinha que ... bem, agora não adianta mais, não é mesmo?"

"Como é que é essa estória? Eu quero saber de tudo. Vamos, desembucha."

"Eu, eu saí com uns amigos meus e fomos até um barzinho, à noite, e..."

"E como você saiu à noite, sem que eu soubesse? Sim, porque eu nunca te deixaria sair sozinho por aí."

"Eu menti. Disse que iria estudar na casa de um amigo e que iria dormir por lá. Isso foi ano passado."

Dean estava estupefato e bravo. Bebeu mais um pouco enquanto esperava o resto da estória. Como Sam se demorou a continuar e resolveu bancar o garoto tímido e encabulado, olhando para o chão de tacos manchados da sala, Dean se enfureceu.

"Continue, Sam, eu estou esperando."

"Bem, é ... eu conheci um homem. Ele ... ele me levou para o hotel dele e ... aconteceu." Sam falou envergonhado, com a cabeça baixa, e os olhos encobertos pela franja, tentando manter a voz firme e audível, mas aquilo era uma tortura.

"...o que? Você está me dizendo que foi estuprado?"

"Não, não. Foi consensual. Ele não me forçou a nada e até me deu um dinheiro." Sam ainda levantou os olhos só uma vez, mas a visão do rosto raivoso e incrédulo de seu irmão mais velho, o fez abaixá-los rapidamente.

"Você, você se prostituiu? É isso que está me dizendo, Sam?" Dean se aproximou vagarosamente do irmão mais novo, que agora se encolhia o mais que podia no sofá.

"Não! Eu não fiz isso. Foi só uma vez, e eu nem pedi o dinheiro. O homem deu porque quis."

Dean não podia acreditar no que estava escutando. Sem pensar no que fazia, ele agarrou Sam pelo colarinho e o socou na cara, fazendo com que seu irmão caísse de qualquer jeito no sofá. Sangue escorreu do canto da boca de Sam, e Dean caiu em si do que havia feito. Ele olhou para o próprio punho e não viu nenhum ferimento ali, mesmo assim se dirigiu a pia da cozinha e lavou as mãos com bastante sabão.

"Se meu teste der positivo, ao menos saberei como peguei essa doença." Dean falou entredentes.

Sam começou a chorar e teve vergonha de si mesmo, por ser tão fraco. Ele percebeu que estava sangrando e entrou em pânico. Deu um pulo do sofá e correu para o banheiro para limpar o sangue de si mesmo. Encharcou-se todo e chorou amargamente. Ele finalmente virara uma aberração, uma bomba-relógio, cujo sangue era transmissor de doença, e seu próprio irmão o odiava, porque havia feito sexo com um estranho qualquer, e recebido dinheiro por isso, como uma reles prostituta. Teve nojo de si mesmo.

Olhou para a pia e viu que uma gota de sangue havia manchado o esmalte da pia. Foi tomado por uma compulsão. Pegou os frascos de alvejante e desinfetante e passou a limpar a pia e a torneira, como também o chão onde havia salpicado água. Quando acabou a limpeza estava sujo e molhado, mas ao menos não contaminaria ninguém por derramar seu sangue por aí.

Quando ele saiu do banheiro, Dean não estava mais em casa. Ele foi até o quarto e trocou de roupa. Reuniu suas roupas sujas, que eram lavadas apenas uma vez por semana, e foi lavá-las em separado das roupas da família. Talvez fosse um cuidado desnecessário, de acordo com o panfleto que lera, mas a sensação de sujeira e impureza era muito forte. Ele não queria contaminar o resto da família com a sua pessoa. Em meio aos atos automáticos e repetitivos de lavar a roupa na máquina, Sam arriou-se ao chão e recomeçou a chorar. Tinha pena de si mesmo e nostalgia por seus sonhos perdidos.

Mais tarde, quando sua roupa já estava na secadora, Sam foi à cozinha preparar um lanche. Deveria preparar um jantar para dois, uma vez que seu pai estava ausente, em mais uma caçada, mas um escrúpulo infundado o impediu de preparar comida para seu irmão também, como se suas mãos não fossem limpas o bastante para manusear alimentos. Sam estava à mesa, comendo um sanduíche, quando Dean chegou.

"Sam, você vai me dizer aqui e agora, o nome do desgraçado que o infectou com AIDS, porque eu vou matá-lo."

"Dean, você está descontrolado. Não está falando seriamente em ..."

"Não estou? Fui até a sua escola pegar o nome de seus colegas pra ..."

"Você não fez isso, me diga que você não fez isso."

"Infelizmente a secretária não me deu os nomes, mas tenho outros modos de obter informações. Eu vou saber o nome de um por um daqueles miseráveis, que levaram meu irmãozinho de 14 anos a um maldito bar, onde ele foi vítima de um pedófilo."

Sam levantou-se de sua cadeira e prostrou-se de joelhos diante de seu irmão mais velho, e juntou as mãos em súplica, com o rosto banhado em lágrimas.

"Dean, por favor, meu irmão, eu lhe imploro pra não contar a ninguém sobre minha doença. Meus colegas de classe nunca souberam o que aconteceu. Eles acharam que eu havia voltado pra casa. E aquele homem era um turista, ele nem mora nessa cidade. Eu nunca mais o vi novamente. Por favor, Dean, não me humilhe mais do que eu já me sinto humilhado. Por favor, Dean!" Sam chorava livremente agora.

Dean olhava para o irmão num misto de surpresa e compaixão. Há uns dias atrás ele já teria abraçado seu irmão caçula em um acolhedor e reconfortante abraço, mas agora ... ele não o reconhecia mais. Era apenas um tolo rapaz, burro o bastante para ter relações sem camisinha com um desconhecido, e contraído AIDS. Dean deu um passo pra trás. Ele não sabia o que fazer, mas ficar ali, em pé, diante de um rapazinho se debulhando em lágrimas, era demais para ele. Resolveu então procurar por sua garrafa de bebida.

Sam aos poucos parou de chorar e abraçou-se a si mesmo, até seus olhos ficarem secos.





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