A Raposa escrita por Miss Weirdo


Capítulo 3
Capítulo 3


Notas iniciais do capítulo

VOLTEI COM MAIS UM CAPÍTULO DE TORTURA EMOCIONAL PARA O TOMEH =D
Gente, eu queria agradecer por todos os comentários lindinhos e a MP da CatsMellark me ameaçando (apesar dessa parte não ter sido assim tão positiva). Eu amo responder o que vocês me mandam, seus fofos :3



Eu fui avisado. Eu realmente fui.

Depois daquele jantar cheio de revelações, todos voltaram a me tratar normalmente - ou seja, como um nada - como se eu não fosse morrer no dia seguinte. Eles desmontaram a mesa, e Cabeça levou todos os pratos para o que era a cozinha, logo abaixo da estrutura que eu sabia que era onde ficava o leme.

Eles se movimentavam depressa, fazendo nada e tudo ao mesmo tempo. Alguns começaram a ir para o quarto, e eu fiquei sem saber o que fazer. Eu não ia passar minha última noite dormindo. Fui para a borda do navio e debrucei-me.

— Ei, Tomeh - Tobias se aproximou - todo mundo passou por esse teste, cara, relaxa.

— Olha o seu tamanho - balancei a cabeça - você é bem maior que eu, e ainda assim é o menor de todos. Eu sei lutar com espadas, mas nunca fui bom, eu sei dar conta de alguém do meu tamanho.

— Eu era como você quando eu cheguei - ele falou - assustado. Quando me deram a notícia no jantar eu quase surtei. Mas eu consegui passar - ele deu de ombros - e quando Batata chegou foi a mesma coisa, dessa vez eu vi alguém passar pelo mesmo que eu.

— Você acha que eu tenho alguma chance?

— Ora essa, como eu vou saber? Te conheci faz uma hora, cara - ele debochou.

— Eu não sou bom na luta corpo a corpo - sussurrei - e eu não quero morrer.

— E no que você é bom? - Tobias indagou.

— Eu sou inteligente - ponderei - minha cabeça funciona rápido.

— Então use isso a seu favor! - ele deu um soco em meu ombro, o que doeu, e tive que conter um gemido - mas, quer saber? Estou falando demais. Eu vou dormir.

E, com isso, se foi.

Respirei fundo. “Use isso a seu favor”… Como que eu usaria minha inteligência numa luta onde a única coisa que me seria concedida era uma espada?

Os únicos barulhos a serem ouvidos, depois de todos terem ido dormir, eram o das ondas, a minha respiração e os rangidos do leme, comandado por algum dos marujos que eu ainda não tinha conhecido.

Apoiei os cotovelos naquela pequena base de madeira e esfreguei meu rosto com as mãos. Era impossível ficar calmo sabendo que, pela manhã, meu corpo sem vida poderia estar sendo jogado para fora daquele navio.

Uma ideia passou pela minha cabeça. Se estávamos indo para a Fronteira de Maragua, e do ponto em que meu antigo navio se encontrava, não devíamos estar longe da Península Norte de Abaur. Eu era um bom nadador, se eu pulasse, seguisse as constelações, conseguiria chegar.

Me animei com a ideia, podia dar errado? Podia, mas com certeza era melhor do que ter meu coração arrancado por um braço mecânico.

Para não criar suspeitas em quem comandava o leme, andei vagarosamente a procura da prancha. Eu já tinha visto mais ou menos tudo, e sabia que ela não estava no convés inferior, o que me indicava que provavelmente a encontraria perto do quarto da Fox.

Subi os degraus silenciosamente, não sendo notado, e vi ali, a estrutura de madeira de provavelmente dois metros, pendendo para fora. Olhei o céu e confirmei que deveria seguir na direção sul - basicamente eu pularia e nadaria para a frente. Me apoiei e fiz força para cima, com cuidado para não deixar o objeto ranger. Muito bom, tudo ia exatamente como o planejado, até que olhei para baixo.

Inferno, era muito alto.

Meu estômago embrulhou imediatamente, e eu me segurei para ter certeza de que não iria cair, e fechei os olhos com força, respirando fundo.

— Ande, pule logo - alguém debochou. Virei o rosto, assustado. Ela estava encostada na porta aberta, segurando um lampião. Os cabelos ruivos presos em um coque no alto de sua cabeça, um roupão fino e os pés descalços.

— O que faz aqui? - perguntei.

— O que faço aqui? - ela repetiu - Tomeh, eu não sei se você não entendeu, então vou falar novamente. Eu mando nesse navio, eu ando por onde eu quero na hora que eu quero, e não devo explicações a ninguém. Mas, já você… - me olhou de cima abaixo, com incredulidade - enquanto pisar sobre este convés, deve me obedecer. Eu estou ordenando que você pule desta maldita prancha.

Não sabia o que fazer.

— Ainda por cima é um covarde - revirou os olhos - foge da luta e foge de sua própria fuga. Se bem que nós dois sabemos que você morreria no mar.

— Eu sei que estamos perto de Abaur, sei me guiar pelas estrelas.

— Ora essa, pule então!

— Eu não tenho escolha - expliquei-me, sem saber o porquê.

— Nós sempre temos uma escolha - ela falou, e me fitou.

Ficamos em silêncio, nos encarando. O que eu tinha na cabeça? Ela estava certa, eu com certeza morreria no mar, eu não tinha ideia da distância real, apenas da relevância cartográfica. O desespero estava atrapalhando meus pensamentos, e quase me levou a tomar uma medida drástica. Balancei a cabeça decepcionado, eu era melhor que aquilo, pois havia dito a Tobias que me gabava de minha inteligência há menos de uma hora e já estava prestes a cometer uma estupidez.

— Terei de desacatar sua ordem, Capitã - falei, colocando meus pés no convés novamente - eu não pularei. E amanhã, escolha o marujo que for, me verá lutar - afirmei, dando um passo em sua direção, e encarando seus olhos, tentando transmitir toda a certeza que eu tinha naquele exato instante por meio do olhar - e se for para eu cair, eu cairei com honra.

— Estamos no mar - ela debochou, revirando os olhos - não há honra no mar.

— A honra não está nas coisas, e sim nas pessoas - pendi um pouco a cabeça, dizendo sarcasticamente, mas de maneira quase imperceptível - Você não tem honra, Sea Fox?

Aquele momento, que teria de tudo para ter dado muito errado - onde eu estava com a cabeça ao desafiar a capitã de 12 homens que poderiam me esmagar com o polegar? Na verdade, aquela menina mesmo era uma assassina -, acabou terminando com a ruiva arqueando as sobrancelhas, dando um sorriso de canto de boca e fechando a porta do corredor.

Fiquei olhando a porta por mais uns instantes, mais por não ter o que fazer mesmo do que por qualquer outro motivo - o sono não viria, deitado na rede, respirando o mesmo ar confinado que um dos homens que poderia me matar no dia seguinte.

Com passos vagarosos, deixei aquele lugar, indo para a ponta da lança novamente. Fechei os olhos e deixei as gotas de água molharem meu rosto, e quando já tinha me cansado dos diversos pensamentos indo e vindo, sentei-me no chão, de costas para aquela ponta, tendo a visão - ou pseudo-visão, já que não podia ver nada - do resto do navio. As pernas esticadas, as mãos procurando por nada específico em meus bolsos vazios. Eu tinha o costume de deixar coisas desconexas neles, para em momentos monótonos eu poder encontrar alguma relação entre eles. Não era o caso naquela hora.

Minha cabeça estava uma bela bagunça, o que é compreensível. Mas o problema todo não era a luta do dia seguinte, e sim o que ela estava causando em mim, a ansiedade, a dor no estômago, sensação de que deveria estar fazendo diversas coisas naquele exato momento, mas ao mesmo tempo impotência. Joguei a cabeça para trás e esfreguei os olhos com as pontas dos dedos. O cansaço estava acabando comigo, e o fato de todos aqueles pensamentos estarem em minha mente - pois acredite, quando você acha que vai morrer você pode ficar bem confuso - estava me torturando. E o pior, o que mais voltava a minha mente era minha infância.

Por mais que eu sacudisse a cabeça, respirasse fundo, tentasse ocupar meus pensamentos com outras memórias, tudo o que eu me lembrava era dos gritos da minha mãe, não de raiva, não de desespero, e sim por todos aquelas almas perdidas.

Juntei os joelhos ao meu peito e os abracei, encostando o queixo em sua extremidade. Encarei por um tempo as diversas cordas que iam do chão ao topo do navio, prendendo uma rede segurando caixas, perguntando-me o que teria lá. Me sentindo desprotegido e vulnerável, fechei os olhos finalmente, ouvindo diversas vozes em minha cabeça. Com o balanço suave das ondas, acabei dormindo.



Notas finais do capítulo

Gostaram? Querem me bater? Podem me ameaçar por MP também gente, a vida tem dessas.



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