Kitty's Pride escrita por Bree


Capítulo 14
Uma relação amistosa




Audrey então deu um passo na direção do primo e acertou-lhe o ombro com um tapa. Sebastian pareceu despertar e olhou para a prima de forma questionadora.

— Acaso pensa que está em uma casa de festas de Munique? – Inqueriu a jovem, visivelmente chateada. – Se mamãe tivesse visto isso, ela estaria morta.

— Não me repreenda, Audrey. Não aconteceu nada demais. – Disse Sebastian, remexendo no próprio cabelo. Aquela era reação quase automática, entranhar os dedos em seu cabelo claro era sua forma de demonstrar nervosismo. 

— Nada? Por muito menos contato que este famílias forçaram um casamento. Pretende assustar Kitty? – Questionou a prima.

— De forma alguma. – Respondeu ele, começando o trajeto até a porta da frente.

— Mas está conseguindo. Gosto da personalidade dela, quero tê-la por perto. Devia concentrar-se em Georgiana como mamãe pediu e parar de tentar afugentar uma moça tão adorável. – Murmurou Audrey, deixando Sebastian levemente irritado.

— Não estou disposto a cortejar Georgiana. Sua mãe terá que arrumar outra ocupação que não acabar com a minha vida de solteiro. – Respondeu o homem. Para alguém cuja vida era mantida em grande parte pela fortuna de Sebastian, a tia se empenhava muito para conseguir-lhe uma esposa. – Além disso, a Srta. Bennet não é adorável.

— Não deixe que a Sra. Amanda ouça isso. – Disse a prima. – E trata-se sim de uma moça encantadora.

— Kitty Bennet é como um lince, Audrey. Bela e inteligente, mas com um prazer estranho em atacar e repreender as pessoas. E o pior é que ela faz isso com aquele lindo par de olhos. Ninguém consegue ser adorável assim. Tem minha palavra de que não quero assustá-la, mas não posso prometer evitar escandaliza-la para expô-la ao seu próprio julgamento.

— Veja os absurdos que fala! Mal conheceu a Srta. Bennet. – Disse a moça, pouco antes de entrarem na casa.

— Vi o suficiente para afirmar que se trata de uma donzela orgulhosa e severa. Isso me basta por hora. – Disse Sebastian, dando as costas para a revolta de Audrey.

Na carruagem que seguia para Goldenshaw, Kitty ainda tinha o rosto vermelho. Que pensariam dela se soubessem que havia permitido tal liberdade? Estaria marcada, sem dúvida. Seu consolo era saber que não havia testemunhas além de Audrey, que (se Deus permitisse) saberia ser discreta. Jane, é claro, quis saber tudo sobre o chá. Kitty lhe contou o que pôde, dando atenção ao fato de terem preparado uma mesa mil vezes mais elegante que o necessário. O jantar foi tranquilo, embora Bingley ainda parecesse triste com a situação da irmã. Amava muito Charlotte e isso, pensou Kitty, poderia ser sua perdição. No dia seguinte, ainda bem cedo, Jane pediu que a carruagem fosse preparada para uma ida até o povoado de Eyre. O lugar ficava a poucas milhas, o suficiente para ir andando, mas era vontade da Sra. Bingley levar os filhos. Kitty foi persuadida a ir com ela, sob a desculpa de ter a oportunidade de conhecer o escritório de Albert Walters. Sacolejaram em meio a uma conversa animada, acompanhados pela babá das crianças. Quando chegaram as ruas de Eyre, foram cumprimentadas por quase todos os pedestres, como de costume. Os Bingley eram extremamente benquistos na região, tanto por sua fortuna quanto por seu comportamento amável. Kitty estava pensativa e limitou-se a sorrir, não havia tido uma noite completa de sono, pois, por mais que tentasse negar, as lembranças da aproximação de Sebastian lhe perturbavam.

A primeira parada da pequena comitiva foi no açougue local. Jane fez encomendas para toda a semana e fez questão de dar uma gorjeta generosa, como sempre fazia. Kitty achava o costume um exagero, mas não disse nada. Partiram então para a loja de tecidos, um prédio decrepito que escondia lindos cortes da mais fina seda. O dono se apressou para reverenciar as damas e prometeu mostrar-lhes o melhor que tinha. Enquanto Jane escolhia o tecido para os novos vestidos de Margo, Kitty aproveitou para escapulir e tomar o caminho do escritório do amigo. Não foi difícil encontrar o local, pois havia sido indicado com uma grande e feia placa amarela. Certamente escolhida por Lady Walters. Para surpresa e quase morte de Kitty, Albert estava do lado de fora, conversando contente com as mãos pousadas na cintura, acompanhado por ninguém menos que Sebastian Höwedes. Kitty pensou em recuar e voltar para junto da irmã, mas antes que pudesse dar o segundo passo, foi flagrada por Albert.

— Srta. Kitty! Que surpresa agradável! – Disse o amigo, e não houve caminho senão seguir na direção dos dois cavalheiros. Kitty engoliu em seco, já que a menção do seu nome tinha feito Sebastian se virar na direção dela com um sorriso cortês e suspeito.

— Albert! Estava justamente procurando por seu escritório. Como pôde esconder a novidade por tanto tempo? – Disse ela ao se aproximar, mantendo com muito custo a serenidade e a dignidade da dama respeitável que era. – Sr. Höwedes, que bom vê-lo novamente.

— O prazer é todo meu, Srta. Bennet. – Respondeu, e apressou-se para capturar a mão de Kitty e depositar um respeitoso beijo sobre ela. Infelizmente, para Kitty, aquilo fez com que todo o acontecido no dia anterior voltasse a sua memória. Desejou imediatamente ter se lembrado de vestir as luvas.

— Oh, que maravilha. Já se conhecem! – Exclamou Albert, e Kitty desejou que ele não estivesse tão feliz com aquilo.

— Do baile. – Disseram Kitty e Sebastian ao mesmo tempo. A moça baixou os olhos, ligeiramente encabulada.

— Um soberbo baile, devo dizer. Me diverti como em poucas vezes desde a faculdade. Estava dizendo ao Sr. Höwedes que pretendemos retribuir o favor muito em breve. Mamãe quer eu defina meus horários, é claro. Mas feito isso poderemos repetir...

Albert continuou falando, mas Kitty não prestava verdadeiramente atenção, isso graças ao fato de Sebastian ter os olhos fixos nela, como se esperasse pelo menor vacilo, pelo menor sinal de fraqueza.

— Interessante. – Disse a jovem quando o amigo terminou.

— Mas vamos, vamos! Deixe-me apresentar a vocês meu ambiente de trabalho. – Pediu Albert, muito contente enquanto abria caminho para que Kitty entrasse primeiro. A garota estava ciente de cada passo que Sebastian dava atrás deles, e nada disposta a se virar para conferir. O ambiente era formado por dois andares, no primeiro havia um funcionário franzino que dava as boas-vindas aos clientes, e no segundo ficava o escritório propriamente dito. Kitty fez questão de deixar claro que adorara o lugar, e ressaltar o quão bem decorado havia sido.

— Exigência da minha mãe, é claro. – Disse o jovem, e Kitty sentiu que Sebastian ria por dentro. – E você, Sr. Höwedes, trabalha no ramo de tecidos? – Questionou Albert, muito amigável.

— Sim, ajudo meu tio a tocar os negócios. Um ramo concorrido hoje em dia, devo dizer. E, claro, geograficamente muito exigente. – Respondeu Sebastian, usando um tom formal que Kitty sabia ser fingido. – Invejo as pessoas que tem o prazer de se estabelecer. Desde minha adolescência não firmamos em uma única cidade.

— Talvez essa seja a hora, senhor. – Disse Albert. – Permita-me uma pergunta indiscreta, mas quantos anos tem?

— Não vejo nada de indiscreto nisso, Sr. Walters. Tenho vinte e seis anos, mas na maioria dos dias me sinto com mais de quarenta. – Respondeu Sebastian. Kitty não se atrevia a dizer nada.

— Um pequeno sacrifício para alguém que viaja e vê tanto, eu imagino. – Observou Albert, muito cortês.

— Podemos dizer que sim. – Respondeu Sebastian, e Kitty viu algo indescritível cruzar o olhar do alemão. Algo muito semelhante a tristeza.

— Bem, posso oferecer-lhes um chá? Por hora é tudo que temos aqui. – Segeriu Albert. – O Sr. Höwedes estava me dizendo que não possuem um advogado na Inglaterra. Para mim, é claro, será um prazer prestar meus serviços.

— Isso é ...maravilhoso, Albert. O início de uma carreira de sucesso. – Disse Kitty. – Quanto ao chá, terei de declinar. Jane me espera na loja de sapatos, não posso me atrasar. Mas voltarei sempre que possível.

— É muita bondade, Sr. Walters, mas terei que me guiar pelo que disse a Srta. Bennet. Volto depois para tratarmos de todas as formalidades, e mando um criado lhe trazer todos os papéis que temos conosco em Ottercrow. – Respondeu Sebastian. Albert parecia satisfeito demais com os novos clientes para reclamar da desfeita quanto ao chá. Os três tomaram a direção da saída e Sebastian se ofereceu para acompanhar a dama até a loja. Antes que Kitty tivesse a chance de recusar, o homem lhe estendeu o braço direito. A contragosto, se despediu de Albert e seguiu em silêncio com o novo vizinho.

— Um homem fascinante, o seu amigo. Um ótimo caçador e jogador de críquete, como ele mesmo me garantiu. Devo julgá-lo vaidoso? – Perguntou Sebastian, quando tomaram uma distância razoável. O estômago de Kitty revirava sem parar.

— Sua vaidade não está muito além do que é comum na maioria dos homens. – Respondeu Kitty, venenosa.

— Nossa! Eu pude sentir suas palavras como uma faca. Se queria me atingir, conseguiu. – Disse ele, dramático e sarcástico.

— Eu não deveria ter aceitado seu braço. – Resmungou Kitty.

— Acaso dei motivos para ser rechaçado assim? – Perguntou Sebastian, divertido, enquanto acenava para outros cavalheiros, todos muito interessados na proximidade entre ele e a jovem Bennet.

— Sabe muito bem o que fez. Abandonou seu lugar como um cavalheiro e foi...invasivo. – Respondeu ela, sentindo o rubor dominar seu rosto.

— Se fui leviano, peço desculpas. Não consigo, é claro, me recordar de tal momento. Estaria se referindo à quando lhe ajudei com a carruagem? Ou quando a senhorita deliberadamente se insinuou com o lenço durante o passeio? – Perguntou, pegando Kitty desprevenida.





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