A Casa de Espelhos escrita por Asas de Prata


Capítulo 3
Ela não é uma boa mulher


Notas iniciais do capítulo

Estou muito animada com essa fanfic...
Tanto que vou postar o terceiro capítulo no mesmo dia do segundo (o.o) pena que o quarto só vai sair no fim de semana, né??



De manhã, assim que acordo, vejo Evan dormindo no sofá da sala. Ele ainda está sem camisa e enroscado numa posição desconfortável, com o braço embaixo da cabeça. Sob seus olhos há marcas que parecem hematomas. Ele se mexe quando entro e se senta lentamente, piscando, como se não me reconhecesse. Não se parece nada com alguém que passou o dia anterior relaxando no mar.

— Evan? — pergunto. — Evan, você está bem? — Sento-me ao lado dele no sofá. Posso sentir o calor irradiando como febre de sua pele exposta.— Aconteceu alguma coisa ontem?

Seus olhos são como bolinhas de gude azuis.

— Foi ótimo — responde ele, sua voz soando mecânica como a de um boneco. — Foi um ótimo dia.

Encostada no corrimão da varanda, observo Evan descendo o atalho até a praia, virando à direita e andando na direção da casa de vidros que mais parecem espelhos. O portão se abre quando ele o toca, e ele desaparece do lado de dentro. Eu olho em volta. Mathew saiu, provavelmente rumo ao campo de golfe, e minha mãe está lendo um livro na espreguiçadeira ao lado da piscina. Enfio os pés no chinelo de dedo e desço o atalho também.

A areia está quente o bastante para queimar meus pés através das solas finas dos calçados. Vou andando vacilante até chegar ao portão da casa de espelhos, então, subitamente, o calor desaparece e a areia fica gelada. O portão está fechado. Pelas grades vejo o jardim selvagem e abundante, com sua diversidade de flores, a maior parte plantada em grandes urnas de pedra de estilo antigo. Posso distinguir outras coisas ali também, agora estou olhando mais de perto: pedaços do que parecia ser vidros na verdade são realmente espelhos, grandes cacos posicionados pela areia, como se a Sra. Palmer tivesse esperanças de fazer crescer uma árvore de espelhos naquele chão hostil.

Faço menção de tocar a maçaneta do portão e simplesmente me dou conta de que não há maçaneta. Há uma fechadura, mas nenhuma maçaneta, e as barras do portão estão cobertas por pedaços de espelhos. Eles refletem meu próprio rosto pálido e ansioso enquanto espio, esperando ver o que está acontecendo na casa, mas, como da outra vez, as cortinas estão fechadas tampando as janelas. Seguro as barras e tento puxar o portão para abri-lo, mas os pedaços recortados dos espelhos cortam as palmas de minhas mãos, e, quando as afasto, estão sangrando.

O portão nem se mexe.

Novamente em casa, vou até a cozinha para lavar as mãos. Observo as linhas rosadas de meu sangue misturadas à água descerem num redemoinho pelo ralo. Quando me viro, vejo Jason parado na soleira da porta me olhando. Ele me entrega uma caixa de Band-Aids sem dizer nem uma palavra.

Evan aparece para jantar dessa vez, mas ele mal come. Suas olheiras parecem ter sido pintadas. Minha mãe diz a ele para tomar cuidado e não pegar sol demais.

Toda noite quando vou para meu quarto, o edredom foi dobrado, os lençóis, esticados, e os travesseiros, afofados. As janelas estão firmemente fechadas, não deixando entrar nem um pouco do úmido ar noturno; em vez disso, o ar-condicionado murmura, refrescando o quarto até ele quase congelar.

Deitada na cama, me pergunto se Evan está em seu quarto agora, deitado sob as cobertas, olhando pro teto, pensando em mim assim como estou pensando nele. Ou talvez ele esteja se perguntando quando a gritaria vai recomeçar. Ou pode estar apenas olhando o espaço, fixamente e sem expressão, da mesma maneira como estava durante o jantar.

A tensão começou logo depois do noivado. Mathew não sorria tanto quanto antes. Estava distante. Eu podia sentir sua raiva como se fosse calor que emana de um forno aberto. Minha mãe rodeava-o como uma borboleta, tentando agradá-lo, fazê-lo sorrir novamente. Eu detestava aquilo. Não conseguia perceber se Evan também se sentia como eu. Não no começo.

Uma noite estava na biblioteca jogando Kingdom Hearts 3 com ele, apertando os botões com força, como se estivesse socando alguém. Evan estava ganhando de mim mesmo assim.

Então subitamente, o barulho começou — os gritos, a voz de minha mãe ficando chorosa, e a de Mathew, furiosa —, mais alto que os sons do jogo e gritos do Xbox. Evan largou seu controle com um baque e foi bater à porta. Quando voltou e olhou para mim, estava respirando com dificuldade.

“ Eu o odeio.” Falou. “Eu o odeio.”

Eu não disse nada. Estava pensando em como ele parecera pálido aquele dia na porta da garagem, quando Mathew bateu na janela do carro. Como parecera assustado. Só que eu não tinha certeza se era o rosto dele que eu estava imaginando agora — o olhar de medo dele ou o da minha mãe.

“Não achei que alguém pudesse se casar com ele”, disse Evan. “Não achei que sua mãe aceitaria. Se soubesse...”

Eu deveria tê-lo forçado a acabar aquela frase, penso agora, rolando de um lado para o outro na cama. Quando toco embaixo do travesseiro, minha mão encontra alguma coisa: um pedaço de metal grande, duro e gelado. Minha mão se fecha em volta dele; eu o puxo e olho. É uma chave, feita de metal escuro comum e de cabo de metal retorcido. Ela brilha sem graça na luz da lua.

Acordo ainda segurando a chave. Tomo banho no chuveiro lá de fora, usando meu maiô, olhando as ondas do oceano enquanto passo shampoo no cabelo. Posso ver minha mãe e Mathew na piscina. Os dois estão lendo, em espreguiçadeiras colocadas lado a lado. Minha mãe usa uma viseira colorida de plástico que faz seu rosto parecer azul. Ela está de frente para Mathew e sua voz é alta e animada, mas o rosto dele está enfiado no livro e ele não responde. Era como se ela nem estivesse lá.

A areia queima meus pés através dos chinelos, mas não tenho mais nada para calçar. Aguento a dor até que o chão fique gelado mais uma vez do lado de fora da casa da Sra. Palmer. É quase meio-dia, o sol está a pino, e sinto como se ele fosse um prego afiado atravessando as camadas do céu até alcançar a pele atrás de meu pescoço. Gotas de suor escorrem para dentro do meu maiô enquanto encaixo a chave na fechadura do portão, girando e forçando até escutar o som.

Click.

O portão se abre e piso no jardim. Com cuidado vou abrindo caminho pelos cacos de vidro que saem da areia. Apenas um deles seria o bastante para decepar um dedo se eu o pisasse. Mal olho para a casa antes de alcançá-la. O cor-de-rosa é ainda mais forte visto de perto e a casa é feita de estuque liso e comum, um padrão de rosas visível num mosaico de azulejos na parede. Uma rosa branca está pintada na porta da frente, mas não vou até ela. Em vez disso, deslizo para a lateral da casa, me sentindo uma ladra, uma intrusa. Vejo a Sra. Palmer em minha mente, seus óculos escuros com os olhos de uma mosca, e engulo com dificuldade, com a garganta seca.

Há uma janela ligeiramente aberta do outro lado da casa, apenas um pouco, um pedaço de cortina esvoaçando como uma bandeira para fora no ar parado. Ergo-me na ponta dos pés, subo num rodapé para ficar ainda mais alta, e espio pela cortina para dentro do cômodo.

É uma sala de estar, com mobílias modernas e simples, nada como os luxuosos móveis tropicais de nossa casa. Uma mesinha de centro, um sofá vermelho, um buquê de flores em um vaso vermelho combinando com o sofá, uma TV com a tela empoeirada como se raramente fosse usada. Um quadro pendurado na parede acima do sofá, mas está ao contrário, como se alguém tivesse virado a figura para a parede.

Evan está deitado no sofá. Parece estar dormindo, seu braço caído, os dedos tocando levemente o chão. O cabelo em seu rosto balança suavemente quando ele respira, como algas marinhas numa correnteza.

Escuto um farfalhar. A Sra. Palmer entra na sala carregando uma bebida. Tem gelo e algumas rodelas de limão. Parece uma tônica, um dos drinques favoritos de Mathew. Ela o coloca sobre a mesa e se vira para olhar para Evan. Está usando uma saída de praia branca e leve por cima de um biquíni preto, e óculos de sol. Quem usa óculos de sol em casa? E saltos altos com biquíni? Seus pés devem doer, penso, enquanto ela se debruça sobre Evan. Meu estômago se revira quando ela puxa o cabelo dele para trás e se inclina, sua boca sobre a dele, e fico esperando para vê-los se beijando.

Mas ela não o beija. Fica onde está, pairando, parecendo uma abelha numa flor. Seu cabelo loiro cai atrás dele como um lençol dourado, chego a pensar em como gostaria de ter um cabelo daqueles, e então a vejo franzindo os lábios quase prestes a assobiar. A boca de Evan também se abre, apesar de seus olhos continuarem fechados. Seu peito está se elevando e baixando rapidamente agora, do mesmo modo que faria se ele estivesse correndo. Vejo sua mão se fechar. Uma coisa clara e delicada parecida com fumaça sobe da boca de Evan; parece que ele está soltando uma nuvem de dentes-de-leão.

A Sra. Palmer se endireita e vira o quadro pendurado na parede. É um espelho, com a superfície estranhamente embaçada. Ela volta a olhar para Evan. A fumaça branca subindo de sua boca virou uma pluma, e, enquanto ela sobe, a superfície do espelho começa a brilhar suavemente. Ela se inclina sobre Evan mais uma vez...

Minhas mãos escorregam do parapeito da janela. Eu caio, meu tornozelo torcendo sob meu peso, me derrubando no chão. Minha respiração sai num soluço.

— Quem está ai? — Escuto a Sra. Palmer perguntar, sua voz estranhamente grossa. — Tem alguém ai?

Saio correndo.

Meu coração está acelerado, e as solas dos meus pés queimando quando chego em casa. Entro na cozinha pela porta dos fundos, pelo lado de casa onde flores empoeiradas crescem na sombra. Sarah não aparece; a cozinha está vazia, os pratos e a louça, empilhados num pano de prato colorido ao lado da pia. Abro a água e lavo as mãos empoeiradas. Meu coração continua acelerado.

Ela não é uma boa mulher. Ela gosta dos fortes e dos jovens bonitos. Ela os pega, e eles nunca mais voltam.



Notas finais do capítulo

Espero que tenham gostado desse capítulo (E do suspense que recém começou).