A Casa de Espelhos escrita por Asas de Prata


Capítulo 2
Aviso de Cozinheira


Notas iniciais do capítulo

O capítulo saiu antes pois estava curiosa para saber o que achariam do suspense que vai começar.



O sol se põe e pinta o céu com listras largas de coral e preto. Sarah e o resto dos funcionários estão servindo a mesa na varanda. Estou sentada a beira da piscina, com os pés dentro da água. Já estou há horas esperando Evan subir os degraus, mas ele não aparece.

Mamãe e Mathew ainda estão em suas espreguiçadeiras, apesar de Mathew ter largado seu livro e eles agora discutirem em tons de voz apressados e intensos. Eu bloqueio os dois, como sempre faço quando brigam, tentando em vez disso me concentrar no barulho do mar. Sempre dizem que ele parece o interior de uma concha, mas para mim parece as batidas de um coração, com seu ritmo estável e pulsante e a suave corrente de águas como a corrente de sangue nas veias. Segurando uma pilha de guardanapos dobrados, Sarah se inclina por cima da sacada e diz:

— Serão quatro ou três para o jantar?

— Quatro.

— Não estou vendo seu irmão postiço aqui — observa Sarah.

— Ele está na praia — explico a ela. — Mas vai voltar a tempo.

Sarah diz alguma coisa para si mesma em voz baixa, parece ser algo como: “Eles não voltam”. Antes de eu ter chance de perguntar o que ela quis dizer, a mulher se vira e volta a arrumar a mesa.

Jantamos em silêncio. Nada de cabra dessa vez, apenas pimentões recheados e um tipo de peixe com limão. Na metade da refeição, Evan se junta a nós, deslizando silenciosamente para o seu lugar como se esperando que ninguém o notasse.

Mathew congela com seu garfo na metade do caminho até a boca.

— E você, onde esteve?

Evan encara seu prato fixamente. Não está mais com o bermudão de praia, percebo, e sim uma bermuda nova e uma camiseta velha. Ele parece muito... limpo.

— Estava ajudando a vizinha a consertar o carro. Ela disse que se eu conseguisse fazê-lo ligar de novo, deixaria a gente pegar seu barco emprestado para ir aonde quisesse.

— Foi muito gentil da sua parte — comentou minha mãe, depois se vira para Mathew. — Não foi gentil da parte dele, querido?

Mathew responde grunhindo com a boca cheia de peixe:

— Não sei por que ela achou que você entenderia alguma coisa sobre consertar carros. Você é só uma criança.

Evan fica vermelho, mas não diz nada, concentrando-se, em vez disso, em espetar o garfo na comida do prato.

Minha mãe olha de novo para Mathew:

— Então, estive pensando que amanhã talvez possamos dar uma volta em Black River.

— Aquela cidade por onde passamos no caminho para cá? — Mathew parte um pedaço de pão pela metade. — Parecia um lixão, Bianka.

— Aparentemente tem um mercado lá todo fim de semana, com pessoas vendendo coisas de todos os cantos. E você pode passear de barco pelo rio, ver os crocodilos... — A voz de minha mãe vai sumindo com o olhar gélido que recebeu de Mathew. — Achei que podia ser um programa em família. Algo divertido.

— Divertido? – repete Mathew. — Eu não vim até aqui, Bianka, para comprar artesanato barato e ficar olhando um tronco flutuante que algum guia turístico idiota alega ser um crocodilo.

— Mas, Mathew... — Minha mãe tenta tocar sua mão e acidentalmente derruba a tigela de salada de frutas ao lado do prato dele.

Mathew levanta num salto, xingando, mesmo que não tenha caído nenhuma fruta nele. Minha mãe parece constrangida.

— Sinto muito...

Ele não responde. Fica olhando friamente os restos de salada de fruta nos ladrilhos sob seus pés.

— Olha essa sujeira.

— Mathew. — À beira das lágrimas, minha mãe fica de joelhos, catando com os dedos os pedaços escorregadios de frutas e vidro quebrado. Pergunto-me onde estão os empregados, mas parecem estar esperando para se aproximarem, avaliando a gravidade da situação.

— Mamãe, não faça isso — digo, mas ela me ignora.

Ela se cortou com o vidro, o sangue agora pingando na sujeira de frutas esmagadas e suco derramado pelo chão. Olho para Evan, imaginando se ele dirá alguma coisa. Ele sempre gostou da minha mãe, ou pelo menos era o que eu achava. Mas ele encara seu prato e evita olhar para mim.

Naquela noite fico deitada em minha cama de dossel, encarando o teto. A rede de mosquitos, branca como o véu de uma noiva, balança com a brisa suave do ar-condicionado. Posso ouvir a voz de Mathew do outro lado da parede se elevando e diminuindo como uma onda à medida que ele fica mais furioso. A voz de minha mãe oferece uma débil resposta aos gritos: enquanto a voz dele sobe, a dela fica mais e mais baixa.

Observo um besouro verde brilhante andando pelas paredes de estuque, suas patas procurando delicadamente algo para tocar.

Não vamos até Black River de manhã, claro. Mathew leva seu livro para a piscina e se senta na sombra, carrancudo. Minha mãe fica em casa, de óculos escuros e um grande chapéu sombreando seu rosto, mas mesmo com os óculos ainda posso ver que seus olhos estão inchados.

Evan não levanta até o meio-dia, e quando o faz, sai do quarto bocejando, usando shorts de surfe e chinelos. Seu cabelo parece estar mais claro que antes, como se o sol já tivesse tirado um pouco de sua cor. Estou deitada na rede da varanda com uma revista aberta no colo, mas quando o vejo, deixo-a de lado e vou até ele, abaixando a voz conforme me aproximo.

— Dormiu bem essa noite? — pergunto, esperando que ele consiga ler a pergunta oculta em meus olhos, imaginando se escutou as mesmas coisas que eu.

— Sim. — Ele não está lendo meus olhos; os dele, azuis, se voltam para todos os cantos com nervosismo. Talvez ele esteja imaginando se estão nos observando, se estão falando sobre como ficamos perto demais um do outro, falando baixo demais. Mas não. Eles não percebem nada. Nunca perceberam.

Havia encontrado Mathew algumas vezes antes de minha mãe finalmente me levar na casa dele, mas aquela tinha sido a primeira vez em que percebi como estavam namorando sério. Mathew ainda tentava nos impressionar naquela época. Ainda achava que valia a pena conquistar a minha simpatia. Ele vinha até nossa casa de terno, com um buquê de flores para minha mãe e alguma coisa para mim — sempre coisas idiotas e inapropriadas, como uma presilha brilhante ou um CD de música pop ruim. Era como se ele achasse que todas as adolescentes fossem iguais e gostassem das mesmas coisas, mas ele estava tentando, minha mãe dizia, e, além disso, não sabia nada sobre garotas — tinha apenas um filho. Mesmo sabendo disso, mesmo sabendo que Mathew tinha um filho da minha idade, eu nunca havia pensado muito nele até aquela noite, quando minha mãe me apressou pelo caminho iluminado até a porta da frente da casa de Mathew e tocou a campainha, sorrindo nervosa para mim o tempo todo.

Foi quando Evan abriu a porta. Ele sorriu ao me ver. “Oi”, disse. “Você deve ser a Amy.” Fiquei parada ali nos degraus sem dizer nem uma palavra. Estava surpresa, como se tivesse caído de um galho alto de uma árvore e batido com força no chão, sem fôlego. Não era possível que esse garoto, que eu ficava olhando todo o dia na escola, cujos movimentos eu havia decorado — o jeito como ele tirava o cabelo dos olhos ou mexia no relógio quando estava entediado —, fosse filho de Mathew. Não era possível que o chato, antipático e pálido do Mathew tivesse um filho assim.

Nem me importei por Evan não ter me reconhecido. Não liguei por ele parecer não ter se dado conta de que estudávamos na mesma escola.

— Vai descer para a praia? — pergunta ele agora. — Vou com você.

Dou de ombros. Não há mesmo como impedi-lo.

— Tá bom.

Na varanda há cestas de toalhas de praia, coloridas como balas. Evan enrola uma nos ombros enquanto descemos o caminho cheio de areia de praia. Ela mais uma vez está deserta, a areia vazia se estendendo até sumir. Parece um anúncio de algum destino de lua de mel, algum lugar onde se pode ficar aos beijos na praia sem ninguém por perto espiando.

Estendemos nossas toalhas e nos deitamos, eu de barriga para baixo e Evan de frente para o sol. Ele está com um livro aberto sobre a barriga, “O Destino Bate à Sua Porta”, acho, apesar de não conseguir ler o título todo. Fiquei surpresa quando descobri que Evan ama ler. Nunca imaginaria que um garoto com a aparência dele poderia ter interesses além de talvez esportes e garotas, assim como nunca imaginaria que ele teria tempo para uma garota magrela e não popular, que usa meias descombinadas e camisetas de garoto porque não sabia o que usar na verdade.

Mas descobri que estava errada. Evan teve tempo para mim. O tipo de tempo que significava horas juntos na biblioteca de Mathew, conversando ou jogando videogame na televisão de tela grande. O tipo de tempo que significava que ele até acenava para mim no corredor às vezes, mesmo quando outras pessoas estavam vendo. O tipo de tempo que significava que, nas terças à noite, quando jantávamos na casa de Mathew, ele me buscava do lado de fora da escola em seu carro, com o motor ligado e a porta do carona ligeiramente aberta, esperando. Por mim.

Eu deslizava no assento e sorria para ele. “Obrigada por me esperar.” Ele se debruçava por cima de mim e fechava a porta. “Sem problemas.”

A vermelhidão atrás do seu pescoço enquanto se inclinava para virar as chaves na ignição mostrava que Evan também percebia o quão perto eu estava sentada dele.

Uma vez ficamos tão envolvidos numa conversa, que, mesmo depois de termos estacionado na casa dele, não saímos do carro e ficamos simplesmente sentados na entrada, nossas vozes se misturando com a música dos alto-falantes.

Levei uma das mãos até a orelha para empurrar para trás uma mecha de cabelo solta, mas os dedos de Evan já estavam lá — hesitantes e gentis em minha pele. “Amy”, ele disse quando me calei. “Você sabe...”

A janela do carro estremeceu quando Mathew bateu nela chamando “Evan.”

Evan abaixou o vidro. “Estacione o carro na garagem”, foi tudo o que Mathew dissera, mas um olhar no rosto pálido de Evan era o bastante para saber que o momento havia acabado.

— Evan.

Por um momento acho que é a voz da minha mãe e eu me sento, procurando por ela ao redor. Mas a praia ainda está deserta. Evan também está sentado, e eu sigo seu olhar até a Sra. Palmer, a mulher da casa cor-de-rosa, parada em seu portão aberto pela metade. Ela está longe demais para eu ter realmente escutado sua voz, e ainda assim poderia jurar que ouvi, como se ela tivesse falado no meu ouvido. Está usando um vestido cor-de-rosa comprido neste dia, quase da mesma cor que sua casa, sua frente única deixando os ombros bronzeados à mostra. Está de óculos escuros.

Evan fica de pé, apanhando sua toalha. A areia brilha em suas costas e ombros como uma camada de açúcar.

— Vejo você depois, Amy.

Torço o pescoço para olhar para ele.

— Mas aonde você vai?

— Anne disse que, como a ajudei com o carro, podíamos usar seu barco hoje. — Ele parece perceber o jeito como o estou encarando, porque acrescenta: — Eu a levaria, mas só cabem duas pessoas no barco.

Não digo nada e ele se vira, aliviado, penso, por eu não ter feito um rebuliço. Eu o observo andar até a casa, e, quando ele passa pelo portão e Anne o fecha atrás dele, o sol parece refletir em todos os pedaços de vidro que decoram a fachada, como se estivessem explodindo. Fecho os olhos diante dos reflexos.

Sem mais nada para fazer, ando de um lado para o outro da praia, tirando fotos com a câmera digital cor-de-rosa que Mathew me deu de presente na época que ainda tentava me agradar. Jamais quis ter uma câmera, mas me divirto com ela agora, tirando fotos de pedaços de vidro perto do oceano, dos cascos de barcos de pesca desertos, da remota linha escura do horizonte. Palavras que alguém escreveu na areia molhada na beira do oceano, já se apagando com a água. Um cavalo-marinho tentando respirar. Eu o jogo outra vez no mar.

No caminho de volta para casa, paro e olho a água. O barco de Anne está lá, movimentando-se com as ondas, sua vela branca como um dente-de-leão contra o céu azul-escuro. Apesar de conseguir distinguir apenas os contornos de duas figuras que imagino serem pessoas, uma coisa é clara: Evan estava mentindo. Definitivamente cabiam mais de duas pessoas naquele barco.

Minha mãe fica em silêncio durante o jantar, empurrando a comida com o garfo. Mathew ignora a nós duas, resmungando para si mesmo enquanto fatia a carne de porco em seu prato. Demora um pouco para ele perceber que Evan não está ali. Quando ele pergunta sobre seu paradeiro, respondo que o filho dele está no quarto com dor de cabeça. Não sei por que estou encobertando Evan. Talvez apenas não queira ouvir ainda mais gritaria.

Mesmo horas depois do jantar, o ar ainda tem cheiro de carne de porco e temperos. Fico deitada na rede, olhando as estrelas. O ar é pesado, abafado pelo calor, apesar de já estar escuro. Os insetos zumbem cansados, batendo as asas nas sombras. De algum lugar distante, consigo ouvir música roçando: reggae alto e pulsante. Olho de volta para o mar, imaginando se verei um barco navegando pela água cor de safira, mas vejo apenas um reflexo achatado da lua.

— Gostaria de um pouco de água, senhorita?

É Sarah, seu rosto ao luar parecendo uma máscara esculpida. Ela estende um copo para mim, gelado e cheio de gotas em volta. Eu o aceito e o encosto na lateral do rosto.

— Obrigada.

— Onde está seu irmão?

— Em algum canto, na praia.

— Ele está com aquela senhora. — Os olhos dela brilham sob o luar. — A senhora Palmer.

— Acho que sim. Isso. — Afasto um mosquito do meu joelho; ele deixa uma gotícula de sangue para trás, como um pequeno rubi.

— Não devia deixá-lo com ela. Ela é perigosa.

— Como assim “perigosa”?

Sarah afasta o olhar.

— Ela não é uma boa mulher. Gosta dos fortes e dos jovens bonitos. Ela os pega, e eles nunca mais voltam. Devia mantê-lo longe dela se quiser ficar com ele.

Ficar com ele?

— E como vou fazer isso?

Sarah não diz nada.

— Não sei por que está pedindo a mim para fazer alguma coisa a respeito, de qualquer maneira — digo a ela.

Ela olha em direção à casa. Minha mãe e Mathew já foram para a cama; as luzes estão apagadas, exceto a da varanda.

— Porque — responde ela — ninguém mais fará.



Notas finais do capítulo

Espero que tenha gostado do capítulo.



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