Blue Falls escrita por Florels


Capítulo 38
Banimento




Voltei para casa com o passo apressado, ainda sem entender direito do que aquela mulher estranha da casa estranha havia chamado Laurie. Quando a ponte de meu bairro entrou em meu campo de visão, alguém de longe passava por ela vindo em minha direção. Mas tive a impressão de que seja lá quem fosse não quisesse ser visto, pois ao me notar, colocou o capuz do casaco escuro e deu meia volta, seguindo pela trilha da floresta. A silhueta longa e o casaco escuro me remeteram ao dia em que encontrei Oliver na chuva, naquele mesmo ponto, com um jeito muito suspeito. Senti os pelos de meus braços se arrepiarem sob o suéter.

Já em casa, tudo estava vazio, como sempre naquele horário. Bem, nem tudo, pois eu sabia que nunca estava ali sozinha realmente. Parei diante de minha cozinha relembrando a cena de meu sonho, analisando como embora o local fosse o mesmo, tudo parecia diferente. O silêncio era ensurdecedor. Em vez do ar quente de verão vindo das janelas, o inverno se aproximava cada vez mais em meio aos uivos do vento. Me recostei na mesma parede a qual Zac se encostou, e me sentei, visualizando como tudo deve ter sido na perspectiva dele. Ele iria voltar? Eu iria vê-lo novamente? Valia a pena arriscar minha segurança e a da minha família por uma esperança egoísta? Peguei a sacolinha vermelha em minhas mãos.

–Zac? – chamei, com voz trêmula.

Minha voz ecoou no silêncio do cômodo. Ouvi o portão ranger lá fora com o vento, mas já não era novidade as coisas se mexerem sozinhas por ali nos últimos tempos. Através da janela o sol afundava no horizonte, pintando as nuvens de dourado, rosa e púrpura. Fitei o papel do feitiço em minhas mãos. Decididamente, me levantei para pegar uma faca na gaveta da cozinha, velas, e ir até o jardim de trás.

Lá me sentei na raiz da enorme árvore curva, e comecei a picar as ervas sobre o próprio pano no qual elas vieram, colocando junto algumas flores silvestres recém colhidas que cresciam por ali. O sol pintou as nuvens de laranja e sangue. Por fim, piquei a raiz de ginseng que liberou um aroma agradável no ar. Aproximava-se as cinco horas da tarde e já começava a escurecer, indicando a proximidade iminente do inverno. Fitei a faca em minhas mãos por um tempo, olhando meu reflexo na lâmina. Virei-a levemente, refletindo os arredores às minhas costas em sua superfície. Com um movimento rápido, dei um corte na ponta de meu dedo anelar, mordendo meus lábios enquanto o fazia.

O sangue jorrou devagar, aos poucos ganhando vida e um volume suficiente para que pingasse silenciosamente por entre as ervas. O vermelho vivo parecia hipnótico, a ponto de me fazer perder a noção de tempo e espaço por alguns minutos a fim de apenas contemplar a magnitude daquilo. Por algum motivo era como se aquele derramamento fosse sagrado.

Quando finalmente desviei o olhar daquela contemplação, vi refletido na faca uma silhueta conhecida em pé às minhas costas.

–Você gosta de abordagens indiretas – falei secamente.

Mesmo sem me virar, pude sentir Leonard sorrir cinicamente. Ele deu alguns passos contornando onde eu estava e se sentou em minha frente com certa distância, como se houvesse uma esfera em torno de mim que não permitisse entrada. A luz se extinguiu e a escuridão chegou enquanto ali ainda estávamos, em silêncio. Com um movimento leve, ele passou a mão direita sobre as velas, que se acenderam. Talvez fosse a luz crepitante das chamas em seu rosto, ou eu já havia me habituado à sua presença, mas ele parecia assustadoramente vivo naquele momento.

–Você está pronta para isso? – perguntou ele.

–Como se eu fosse estar – respondi secamente, e ele voltou a sorrir.

–Mas você não tem a sabedoria da Tradição, como espera que isso se conceba? – perguntou, com uma voz e expressão ingênua como se atuasse.

–Creio que não seja o primordial – disse enquanto pegava o feitiço em minhas mãos, que absorveu os resquícios de sangue que ainda haviam em meus dedos e, em seguida, voltou a sua cor como se nada tivesse acontecido.

Leonard viu e pareceu compreender tudo, talvez ainda mais além daquela situação.

–O garoto Wingfield...

–O que você sabe dele? – indaguei.

Leonard arqueou as sobrancelhas, o que poderia significar muitas coisas.

–Temos muito em comum, minha cara. Ele anseia o poder, como eu um dia ansiei, embora seja um pouco mais passional do que admita. Ele tem grandes capacidades, mas carrega um grande agouro nas costas.

O questionei com os olhos, incitando-o a continuar.

–Ele já lhe contou sua história, o modo amaldiçoado o qual foi concebido e todo aquele melodrama creio eu, certo? Pois bem, digamos que ele seja inclinado a ter uma pontinha... sádica, quem saiba? Como eu. Tomemos por exemplo a telecinese.

E enquanto falava, os castiçais das velas começaram a flutuar lentamente, os quais levitaram até a altura de nossos olhos.

–O controle do espírito sobre a matéria nunca foi bem visto. Você já deve ter ouvido nas histórias, fantasmas do bem não movem objetos ou aparecem em tabuleiros ouija. E esta é uma capacidade que só pode ser desenvolvida pelos que têm esse dom em suas veias, o que, acredite, é por muitos visto como uma maldição – enfatizou arregalando os olhos, no mesmo momento em que as velas tornaram bruscamente ao chão.

–Você só quer me assutar, e por algum motivo me afastar de Oliver.

–Oh não querida, é apenas uma exposição de fatos. Não estou denegrindo o garoto Wingfield de maneira alguma, pelo contrário, embora as famas adversas que tenhamos recebido durante os tempos, nós Tenebris somos na verdade muito ligados à união de forças. Não que eu me sinta preso às velhas leis, mas nossa holística sabe que embora você seja livre para agir da forma que achar melhor, você não está agindo num vácuo. Cada ato seu irá gerar repercussões e um bruxo deve estar pronto para aceitar a responsabilidade pelas consequências de seus feitos. Dessa forma, preferimos manter o equilíbrio com nossos companheiros.

–Se bem que não me parece que você seja o melhor exemplo de bom samaritano que a tradição tenha a oferecer... – disse estreitando os olhos, lembrando-me de todos os atos egoístas que ele constantemente fazia.

–Eu nunca disse que era.

–Mas você prega a boa convivência com seus companheiros, o que dizer da maneira com a qual tratou Oli aquele dia na casa dele?

–E quem lhe garante que aquilo não era apenas uma consequência dos atos dele? – Insinuou.

Dei os ombros. Só então me lembrei do que estava fazendo, e provavelmente Leonard já havia entendido, e estava ali me tentando a mudar de ideia de alguma maneira implícita. Peguei então o feitiço em minhas mãos, analisando as palavras em latim.

–Quer mesmo se livrar de minha humilde presença? – perguntou ele. – Saiba que isso não me aniquila, apenas do seu quarto talvez ou com sorte sua casa, mas eu ainda poderei lhe acompanhar por onde quer que você vá.

Ignorei sua fala, e comecei a traçar um círculo mágico.

–Na antiga bruxaria, esses simbolismos eram desprezados – ele disse ao se levantar dando um passo para trás, observando tudo com uma postura elegante. – A Terra por si só já é sagrada, e nós somos uma continuidade dela, por que consagrar uma área delimitada quando você já faz parte do todo?

Ainda sem o fitar nos olhos, me ajoelhei no centro do círculo e tomei fôlego para proclamar as palavras. Mas antes que minha voz saísse, Leonard interrompeu com tom pretensioso:

–Tudo bem, digamos que hipoteticamente por algum motivo adverso você de fato queira se livrar de minha presença. Mas, e o garoto Walker? E quando ele voltar a lhe procurar em sua janela?

Minha respiração se acelerou e as palavras se afundaram na garganta, assim como minha voz. Ele tinha razão, eu não queria me livrar de Zachary. Eu só queria paz. Mas definitivamente não seria paz o que eu obteria se colocasse o talismã em meu quarto e ficasse paranoica o resto do tempo acreditando que Zac não voltaria por conta daquilo.

Olhei para cima. Era uma rara noite de céu limpo, e a ausência da luz do luar parecia enaltecer o brilho das estrelas. Vozes do meu último sonho subitamente começaram a ecoar em minha cabeça, assim como fragmentos de memória de momentos que vivi junto à Zac. As coisas que eu costumava reprimir durante o dia, e a noite dançavam diante meus olhos.

–Zachary! – Gritei fitando o bosque, como um último ato desesperado.

Mas apenas o eco de minha voz e silêncio se seguiram. Leonard me fitava ainda parado em seu posto de observação.

–Pobre garota, parece que ele não irá aparecer.

Fechei os olhos, contendo qualquer princípio de lágrimas que pudesse ousar cair. Mais determinada do que nunca, peguei o papel em minhas mãos e proclamei os versos repetidamente como um mantra, sem falhar a voz:


Omni potentas dei potestatum Invoco
Expellere interpellatores tacet
Et tantum potentiae dominatur est meam
Et inimici distant

Depois de algumas repetições, senti uma fraqueza repentina, seguida de um calafrio que percorreu todo o meu corpo enquanto minha mente girava. Senti meus sentidos se apagarem, e a força de meu corpo se esvair pelas extremidades quando senti que caí onde estava, deitada. Quando voltei a abrir os olhos, Leonard já não estava mais ali. As velas estavam todas apagadas. Fechei o tecido envolvendo as ervas e dei um nó, deixando-o sobre as raízes da árvore para ali ficar durante a noite. Quando me virei novamente para guardar as coisas, uma das velas estava acesa, e tive a impressão de ouvir passos apressados na folhagem da floresta.

x x x x

Já em meu quarto, ouvi o ranger de portões e o carro de meu pai entrar, só então me dei conta de que ele havia passado a tarde toda fora. Meu irmão chegou logo em seguida, horário em que costumava voltar da universidade. Já de pijamas e banho tomado, desci as escadas e o cheiro de macarronada vindo da cozinha tomava conta da casa inteira.

–Vocês dois fazendo janta, o que aconteceu? - perguntei ao ver meu pai arrumando a mesa da sala de jantar, enquanto Johnny cortava tomates para uma salada na cozinha.

–Milagres acontecem não é mesmo? - meu pai disse orgulhoso, claramente se referindo à ajuda de meu irmão.

–Eu estou ouvindo isso, ein - gritou Johnny da cozinha, em meio a barulhos de torneira e talheres.

E então ele surgiu trazendo a salada em uma travessa.

–Alguém tem que fazer alguma coisa não é mesmo? - disse-me ironicamente.

–Se tivessem me chamado eu ajudaria.

Então ele jogou a toalha molhada que estava em seus ombros em mim e voltou apressado para a cozinha, enquanto eu o segui jogando a toalha de volta com violência. Rapidamente, Johnny encheu meio copo d'água e fez menção de que ia jogar em mim, o que me fez sair correndo dali enquanto ele me seguia rindo.

–Pelo amor de deus, quantos anos vocês têm? - Perguntou meu pai sentando à mesa e servindo-se, enquanto nossos gritos ecoavam pela casa em meio à perseguição. - Se alguém molhar algum móvel dessa casa e manchar minha madeira Vitoriana vai se ver comigo! - disse agora gritando, ainda em tom sarcástico.

x x x x

Mais tarde, de volta à meu quarto, arrumei minha mochila para o dia seguinte e me deitei. Durante aquele estado em que o sono ainda não se consolidou, mas você já não está mais completamente desperto, um zumbido começou em minha mente, e meus pensamentos se tornaram confusos e com interferências como uma rádio mal sintonizada. Então, dentre todas as vozes, havia uma baixinha, que parecia passar despercebida:

"Johanna".

Eu precisava logo pegar no sono, amanhã teria de acordar cedo e concluir o amuleto, teria o feitiço funcionado, aliás?

"Johanna".

E o que era aquilo que Aileen havia falado sobre Laurie? Sacerdotisa? Eu precisava pesquisar sobre aquilo, mas o dia havia sido tão cheio que essa ideia não me havia ocorrido. Eu iria fazê-lo no dia seguinte, deveria falar algo a ela, ou Oliver? Apesar que Oliver era uma questão à parte, e provavelmente desmereceria o que quer que fosse por subestimar Laurie.

"Johanna".

Leonard havia dito que Oliver era como ele, mas Leonard não era confiável. Oliver seria? Telecinese era realmente um mau augúrio? Mais um tópico para minha pesquisa, eu deveria recorrer ao setor de ciências ocultas da biblioteca ou...

"Johanna, você pode me ouvir?"

A voz então se sobressaiu às outras, mas ainda se encontrava enevoada no emaranhado de pensamentos. Foi então que um barulho de algo caindo em meu quarto me despertou bruscamente, e senti meu coração acelerar com o susto. Me sentei na cama e esfreguei os olhos voltando à realidade, enquanto as luzinhas da parede oposta ainda balançavam com a queda de seja lá o que fosse. Notei que havia algo faltando nela, desobstruindo a mancha escura da parede azul-turquesa.

Levantei-me, sentindo o chão frio aos meus pés, e silenciosamente fui até o outro lado. Havia papéis caídos próximo à parede, mas ao virá-los para cima ao recolher, meus batimentos voltaram a acelerar. Em minhas mãos trêmulas, estavam o autorretrato de Zac e o desenho que eu um dia fizera da silhueta de minha janela, o qual eu jamais havia colado em nenhum lugar.





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