Blue Falls escrita por Florels


Capítulo 33
Buraco Negro




Duas semanas se passaram sem que eu percebesse. Os dias amanheciam como todos os outros, eu nunca percebia quando pegava no sono, mas meu despertador insistia em anunciar todas as novas manhãs com fervor. Eu sempre o desligava com um movimento rápido e ia para a janela contemplar a aurora. O céu em geral ainda estava escuro, mas no horizonte dava de se ver tons avermelhados indicando um tímido sol nascente entre as montanhas. Quando ia para a janela que dava para os fundos, ver Leonard sentado no banco sob a árvore curva havia se tornado comum. Aparentemente, só eu o via. Ele sempre acenava sarcasticamente, isso quando não aparecia pela casa em momentos inconvenientes fazendo seus comentários ácidos. Pelo visto seria minha nova rotina.
No banho eu ainda me surpreendia enchendo as mãos de shampoo ou condicionador, me perguntando aonde colocaria aquilo tudo. Não seria tão fácil se habituar com algo novo que fora o mesmo por uma vida inteira. Adquiri o novo hábito de servir meu café em um copo antigo da Starbucks e ir bebendo pelo caminho. Eu não fui para a escola a semana toda. Já não me sentia mais com cabeça para assistir aulas sobre conteúdos aparentemente tão frívolos. Sentia como se uma nova camada do mundo estivesse sendo-me revelada, e desperdiçar tempo com conhecimentos mecânicos e abstratos não me valiam de nada agora. Passava em uma pequena loja de conveniências a cada dois dias, onde comprava uma nova carteira de cigarros antes de matar a manhã pela cidade até a hora de ir para casa. Eu não via Zac desde a noite em que tudo me foi revelado.

A vida seguia nesse ritmo. Era uma quinta feira, e voltando para casa depois de uma manhã lendo na biblioteca, o tempo começou a fechar. O céu azul pálido dava lugar a nuvens escuras e opressoras, que me fizeram apressar o passo pelo caminho. O vento começou a soprar forte, e meus cabelos, agora leves, voavam contra meus olhos. Chegando na minha rua, passei em frente à pequena casa rosada, cujas luminárias do jardim já haviam acendido com a súbita escuridão do dia. Era a casa daquele senhor de cabelos grisalhos, que reconhecera Zac na noite de halloween. Uma pequena chama de curiosidade começou a inflamar dentro de mim, junto ao insigh iminente de ir falar com ele para obter informações. Corri até a casa e subi a escadinha que levava até a varanda de entrada. Apertei a campainha ao lado da porta que soou musicalmente.

–Olá? – o senhor respondeu ao abrir a porta interna.

–Olá! Eu moro na casa do final da rua – eu disse, apontando para a direção – e vim aqui certa vez no halloween, você não deve se lembrar...

–Você... Você veio com seus amigos aqui pedir doces, certo? – ele disse. – Minha memória nunca falha.

Sorri ao ver que ele se recordou. Ele então abriu a porta externa de vidro e me convidou para entrar.

–Então você é uma Dubrowsky – ele comentou enquanto eu me acomodava em um sofá da sala.

–Sim senhor – respondi com um sorriso.

A lareira estava acesa e dava um ar aconchegante ao pequeno cômodo, onde havia dois sofás antigos muito macios e uma mesinha central de madeira repleta de fotos. O papel de parede florido era levemente mofado, e havia uma prateleira com diversos troféus e medalhas dispostos ao lado de um retrato de um jovem sorridente levantando um deles.

–Meu nome é Antonie Parks, a propósito – ele sorriu de volta.

–Então Sr. Parks, eu vim apenas lhe fazer uma visita rápida. Queria fazer umas perguntas sobre aquele meu amigo daquela noite, que o Sr alegou se conhecer...

Sr. Parks pareceu pensar um pouco, e ergueu as sobrancelhas quando pareceu se recordar. Antes de responder, fez uma pausa para buscar as palavras certas.

–Ah, o suposto Walker? O que posso lhe responder, querida? – disse com a voz terna de um avô.

–Você se lembra dele? Isto é, do garoto que você achou que era meu amigo – eu disse, contendo a ansiedade.

–Claro que me lembro – ele disse com um ar desconfiado. – Os Walker eram muito queridos pela vizinhança, embora o filho deles, Zachary, nem tanto. Garoto rebelde, aprontava demais...

Assenti com a cabeça, querendo que ele continuasse. Sem mais respostas, perguntei:

–E o que aconteceu com ele?

Sr Parks respirou fundo e começou a falar, medindo palavras novamente.

–Ele se foi minha querida, por volta do começo da década de 90, as datas nunca me são claras. Ele era muito jovem, provavelmente da sua idade. Pobre alma – ele então fez uma pausa antes de prosseguir. - Quando veio era apenas um garoto vivaz que aprontava, mas com o tempo passou a trilhar caminhos errados. Era tudo muito abafado, os Walker mantinham as aparências numa fachada em que mesmo se tudo estivesse desmoronando por trás daqueles muros da antiga casa vitoriana, nada era comentado. Casa que aliás, é onde você mora certo? – ele disse levantando as sobrancelhas novamente, como se tivesse dado conta disso só agora.

–É sim. E para onde eles foram quando ele morreu? – perguntei mudando logo de assunto, fazendo Sr. Parks criar uma expressão desconfiada novamente.

–Eles retornaram para Bloomfield, de onde vieram, mas nunca tive seu endereço. Se bem que eles não queriam mais nenhuma lembrança dessa cidade, quem dirá contatos – concluiu.

Fiquei pensativa.

–Mas por que as perguntas? – ele quebrou o silêncio.

–Era só por curiosidade mesmo senhor, obrigada – comecei a dizer, já me levantando em direção à porta.

Ele então se levantou também e me acompanhou até a saída. Mas quando agradeci e me virei para ir embora, ele segurou meu braço e disse, sussurrando:

–Eu sei que não foram perguntas por mera curiosidade. Aquele era mesmo Zachary, não é? Já vi muitas coisas nessa cidade, acredite.

E então ele se despediu e entrou. Fiquei ali paralisada por alguns segundos analisando o que me acabara de ser dito. Já na rua, peguei meu celular e fiz uma ligação.

–Alô, Oliver? – perguntei.

–J! O que foi? – disse preocupado, era a primeira vez em que eu o ligava.

–Quero que me encontre na ponte do meu bairro. Vamos até o cemitério da cidade.

Cerca de quinze minutos depois nos encontramos na ponte. Entrei em seu carro e larguei minha mochila no banco de trás.

–Para onde vamos, my lady? – ele perguntou forçando a voz, o que me fez rir. Dei um abraço apertado de olá nele.

–Nosso destino será o cemitério – respondi com um tom de terror dissimulado.

Ele acenou positivamente com a cabeça e fez uma saudação militar, enquanto eu ainda ria. Em alguns minutos estávamos no centro da cidade, seguindo para a zona oeste. Passando o Masefield, percorremos a estrada enquanto eu observava para memorizar o caminho. Eu nunca havia estado por lá. Em certo ponto após alguns edifícios, uma enorme praça verde se estendia por quase uma quadra. Nos fundos dela ficava uma enorme igreja em estilo gótico, com torres imponentes. Do seu lado esquerdo haviam portões pretos igualmente imponentes e detalhados com a escritura “cemitério” forjada na grade. Oli estacionou ali na frente da praça e seguimos a pé. As árvores eram muito altas e escuras, encobertas por musgos e ervas pendentes. Havia bancos sob a sombra destas, que também tinham musgo em boa parte deles. A praça era escura e úmida, e tinha caminhos ladrilhados tortuosos: um em direção à igreja e outro em direção ao cemitério. Seguimos o segundo.

–O que viemos fazer, exatamente? – Oli perguntou-me.

–Quero ver o túmulo de Zac – falei.

Oli baixou o olhar.
Adentramos os portões negros e seguimos caminhando pelo gramado entre lápides e flores. Havia muitas estátuas pelo terreno, todas envelhecidas e com ervas crescendo em seus pés, que nutriam um ar abandonado à paisagem. Anjos, entidades, e um chafariz central davam uma beleza melancólica ao lugar. Nos fundos, o bosque escuro e denso fechava a paisagem, vendo-se por cima dele apenas as enormes montanhas que rodeavam a cidade.

–Estão por ordem de data – Oli comentou. - As datas crescem da direita para a esquerda, de cima para baixo.

Observei a lápide ao meu lado, cujo mármore estava aparentemente novo, e datava o ano atual. Seguimos para a direita, em uma diagonal para o Norte. Os anos foram diminuindo, até que chegamos à década de 90. O que mais chamava atenção naquela fila era um pequeno mausoléu de pedras negras. Quando me aproximei da plaquinha metálica da porta, indicava que ali descansava Sra. Parks e seu filho, Andrew Parks.

–O que foi J? – Oli perguntou enquanto eu lia a plaquinha.

–Acho que estes são parentes do meu vizinho – falei.

–Família Parks? – ele disse ao meu lado, lendo a plaquinha. – Foi um caso famoso este.

–Sério? – perguntei. – O que aconteceu?

–Parece que os dois foram queimados vivos. E pelo que me contaram havia suspeitas na época contra o Sr.Parks ser autor disso tudo.

Arqueei as sobrancelhas.

–Mas ele parece ser tão gentil e sei lá, inofensivo – comentei.

–Nada foi provado, então teoricamente ele é inocente. Mas você já deve ter estudado biologia, a natureza está cheia de armadilhas.

–O que quer dizer com isso?

Oli então olhou em volta e se aproximou do bosque, onde cresciam flores silvestres. Observou-as minuciosamente como se buscasse alguma específica, e então, com a rapidez de um animal que reconhece algo por instinto, encontrou o que procurava e fez sinal para que eu me aproximasse.

–Veja só – disse ele, apontando para uma planta baixa com delicadas flores violetas. – Sinta seu perfume. – ele encorajou.

Aproximei o rosto da delicada flor e senti seu aroma, agradável.

–Nada mau – eu disse.

–Ahh vamos lá J, você é melhor do que isso. O que você sente?

Lancei para ele um olhar desconfiado, mas voltei a cheirar a planta. Dessa vez descrevi em detalhes:

–É um aroma agradável, mas não suave, e sim... Selvagem.

–E o que ela te diz? – Oli estava com o rosto bem próximo ao meu agora.

–É como se ela me chamasse... Prove-me, deseje-me, parece tentar quem se aproxima.

Abri os olhos. Oliver estava de pé com um sorriso de lado, como quem confirma uma teoria.

Nightshade. Terrivelmente venenosa. Algumas porções das folhas ou das flores pode matar um adulto. No entanto, tentadora.

Arqueei as sobrancelhas e levantei os braços, em sinal de rendição. Deveríamos ter aprendido mais com a evolução.

Seguimos adiante, lendo lápide por lápide, quando finalmente chegamos a uma em que ervas haviam crescido na base e a pedra estava escurecida. Me agachei para ver melhor, e senti um aperto no peito ao ler “Zachary Walker 1975 – 1994”. Esfreguei a plaquinha prateada com os dedos para limpá-la um pouco, enquanto Oliver, em pé atrás de mim, me observava.

–Aparentemente ninguém a limpou faz certo tempo – ele disse.

Não respondi. Raspei com as unhas a camada de limo do metal da plaquinha e tirei as ervas que cresciam enroladas na base da lápide. Peguei um vaso de papoulas vermelhas que estava sobre um túmulo chamativo e robusto ali perto e coloquei-o em frente a lápide de Zac. Ao me levantar, fitei-a por alguns minutos.

–Flores roubadas? – Oli perguntou baixinho atrás de mim.

–Acho que ele iria preferir assim.

Saímos do cemitério e nos sentamos em um banco da praça deserta. Aquela região da cidade era um pouco vazia e remota, pelo menos naquela hora. Acendi um cigarro e fiquei observando a paisagem em silêncio.

–Está pensando no que? – Oli perguntou.

–Não consegue ler pensamentos também? – respondi irônica.

Oli revirou os olhos e deu um sorriso seco.

–E a escola? – ele puxou assunto novamente.

–Não sei – respondi. – Na verdade não vou há semanas.

–J, você está fumando pra caramba sabia? – ele disse com tom de repreensão.

Não respondi.

–E não está mais indo para as aulas. O que está acontecendo? – perguntou firme.

–Por que tudo tem que ter um motivo? – contestei de volta.

–Eu só estou preocupado com sua sanidade – ele disse. – As pessoas se preocupam com as outras, sabe. Não que você faça isso, mas as pessoas normais sim.

–O que você quer dizer com isso?

–Laurie veio perguntar sobre você. Seus amigos do Masefield estão preocupados. Eu fiquei preocupado. Você desapareceu duas semanas inteiras, sabia? E provavelmente nem se quer pensou nos outros! Quando me ligou achei que ia explicar alguma coisa, mas ao invés disso agiu como se nada tivesse acontecido e me queria só para ajudar a alcançar seu interesse – ele cuspiu as sentenças com certa raiva implícita.

–Peraí, desde quando devo explicações pra todo mundo? E se não queria vir podia dizer, não achei que pensasse que passar um tempo comigo significava que eu estava te usando.

–Ta vendo só, você tá sempre se desvencilhando das minhas perguntas fazendo novas – ele disse agora com um tom mais calmo.

Parei para pensar. Essa semana parecia um borrão na minha cabeça e eu realmente havia fumado mais nela do que desde que me mudei. O que estava acontecendo comigo? Era como se eu estivesse em um constante estado de inércia. Oli estava agora em minha frente, segurando meus ombros.

–J, o que está acontecendo com você? – perguntou com os olhos cinzas cravados em mim, olhos que pareciam ser impossíveis de enganar.

–Sinto falta de Zac – confessei. – Vir aqui foi uma maneira que encontrei de ficar mais perto dele. Hoje falei com o Sr. Parks sobre memórias dele, acho que no fundo só quero sentir que ele de fato existe...

Senti Oliver baixar os olhos e soltar meus ombros. Ele se levantou e deu alguns passos para trás. Vestia um suéter longo cinza sob a calça preta justa, que lhe dava o porte elegante de sempre. Sua postura, sempre impecável, o fazia parecer ainda mais alto.

–Zac está morto, Johanna... Você não. - ele disse, sem ânimo. - Por que se preocupar com os mortos, por que não vive sua vida?

Levantei-me e dei dois passos, ficando de frente para ele.

–Acho que não podemos escolher de quem gostamos, Oli. – eu disse, colocando as mãos nos bolsos e olhando para meus pés.

Ele esticou o braço e tocou meu maxilar com a ponta dos dedos, suavemente levantando meu rosto para que eu olhasse o seu. Sempre fui considerada uma garota alta, mas estar com ele fazia com que eu me sentisse incrivelmente pequena. Ele se inclinou para mim e disse baixinho:

–Infelizmente é verdade.

E então aproximou seus lábios dos meus, e com uma gentil persuasão fez com que eu fizesse o mesmo. Seus lábios eram pálidos como sua pele, levemente arroxeados e frios, provavelmente pela baixa temperatura que ali fazia. Seu beijo tinha uma atmosfera reservada, porém dominadora, assim como ele próprio. Quando finalmente abri os olhos, ele ainda me contemplava. Seu olhar parecia me manter presa em seu domínio, como um campo gravitacional. E naquele momento, eu sinceramente não me importava em ser um cometa, mesmo que em plena rota de colisão com um buraco negro.





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