Blue Falls escrita por Florels


Capítulo 27
Samhain: Parte II


Notas iniciais do capítulo

PRIMEIRAMENTE, fiz uma playlist para a história com as músicas que me inspiram a escrevê-la, quem quiser ouvir pra se inspirar e entrar no clima de Blue Falls, ta aí:
http://hypster.com/playlists/user/florels?7102248
Dá pra vocês acharem bastante referências aí da historia, pois como eu disse também uso músicas como inspiração. Enfim, boa leitura!



Nathan nos deixou de carro em minha casa e seguiu para o centro para se encontrar com Stan e Izzy. Iríamos nos arrumar e seguir a pé para o festival logo em seguida.

Quando abri o portão, não havia nenhum carro na garagem. Procurei as chaves da porta perdidas em minha mochila, enquanto Abby, Zac e Laurie foram para o jardim de trás passar o tempo. Estava escuro e a luminária gótica que pendia na varanda de entrada não era a melhor iluminação para o momento. Quando finalmente a encontrei, abri a porta e o silêncio foi agonizante. Chamei por papai e Johnny, mas ninguém respondeu, eu estava sozinha. A luz da luminária dos fundos fazia sombras medonhas nas janelas, e fui acendendo as luzes uma por uma conforme ia passando pela sala e subindo as escadas.

Chegando ao corredor de meu quarto encontrei porta entreaberta, quando sempre a deixo fechada. Segurando a respiração, a empurrei lentamente, mas não vi nada de estranho. Adentrei e acendi a luz, soltando a respiração e me sentindo idiota por ter medo de algo que nem eu mesma sabia o que poderia ser. Olhei pela janela e no banco de pedra sob a árvore curva do jardim de trás estava sentada Laurie, conversando com Zac que andava de um lado para outro inquieto. Queria saber o que tanto conversavam. Antes que eu me perguntasse sobre Abby, ela bateu na porta.

–J, vamos nos arrumar? – perguntou ela.

Levei um susto com sua voz repentina interrompendo o silêncio, e só então me lembrei de que ela nunca havia estado ali dentro. Refleti sua audácia.

–Pode ser, você vai usar alguma fantasia ou o que? – perguntei, lembrando-me repentinamente de que não tinha uma roupa adequada pra situação.

–Ah sim, eu trouxe isso aqui olha – disse colocando sua mochila no chão, e tirando de lá um vestido de noiva manchado de vermelho. – Eu o encontrei no bosque certo dia.

Estreitei os olhos, pegando o vestido em minhas mãos. Que tipo de pessoa encontra um vestido no bosque? Analisei as manchas, que pareciam sangue.

–Abby! Isso pode ser até prova de um crime ou algo do tipo – exclamei assustada.

–Justamente! – disse com seu olhar animado e maníaco. – Isso torna tudo mais real J.

Revirei os olhos. Dava de se esperar qualquer coisa dela.

–E você, o que irá usar? – perguntou ainda animada.

–Não faço ideia.

–Ué, não vai usar esse vestido aí na sua cama? – e foi quando segui seu olhar e vi sob minha cama um vestido preto e uma capa vermelha.

Tive um arrepio súbito. Balancei a cabeça afastando pensamentos absurdos, só podia ter sido coisa de papai.

–Quer saber, vou usar esse mesmo – respondi.

Quando terminei de me arrumar, desci as escadas segurando a barra da capa vermelha em minhas mãos. Tudo serviu em mim perfeitamente. O vestido era longo e negro, com babados em seu comprimento dando certo volume. A cintura era acentuada com um espartilho, e as mangas longas abriam nas pontas. O busto tinha um decote generoso, o qual eu havia tentado disfarçar puxando-o para cima. A capa de veludo vermelho dava o toque final, nela havia uma touca atrás e um laço no pescoço. Eu havia passado meu batom cor de sangue, que dava um ar vampiresco ao meu visual.

Enquanto eu chaveada a porta principal, ouvi gritos vindos dos fundos e corri para ver o que estava acontecendo. Chegando lá, Abby estava gritando e chorando, a maquiagem preta de seus olhos escorrendo sob sua pele de porcelana.

–Eu não acredito! Não acredito que você ia me deixar pra sempre assim! – ela gritava.

Zac estava sentado no chão, tapando os ouvidos e balbuciando algo em completo frenesi. Laurie tentava apaziguar as coisas, mas Abby não se deixava tocar. Ela estava descontrolada. Foi então que eu perguntei o que estava acontecendo, e todos olharam para mim. Zac pareceu sair de seu transe ao me olhar e levou a mão à boca. Por um segundo foi como se nada estivesse acontecendo.

–Como você tá bonita – ele disse, enquanto Laurie me olhava sem reação.

Um segundo depois, Abby pareceu se dar conta da situação, como se tudo tivesse feito sentido em sua cabeça.

–Foi ela não foi? Aposto que desistiu de partir por causa dela – disse ela chutando Zac.

Foi então que ele se levantou e a agarrou pelos braços, enquanto ela lutava para se soltar.

–Escuta aqui, você não é minha dona ta ouvindo? – gritou ele.

Um silencio se seguiu com sua voz subitamente furiosa.

–Eu pensei que você seria no mínimo grato por tudo o que eu fiz! – ela disse um pouco depois, ainda chorando.

–Eu fui, mas Abby, você achou que eu ficaria em dívida com você pra sempre?

–Eu vou contar, eu vou contar pra ela – murmurou ela. –Eu não tenho mais obrigação de manter seu segredinho estúpido – disse ela se soltando, cuspindo as palavras.

–Não, você não vai – Laurie interviu, falando do mesmo jeito imperativo que havia falado antes na campina.

Abby bateu os pés e gritou de raiva, como se tivesse sido contrariada por uma autoridade. Subitamente, correu em direção à floresta, desaparecendo por entre as árvores, gritando coisas como “eu odeio vocês”.

Quando o som de sua voz desapareceu com a distância, nos entreolhamos.

–Mas que diabo aconteceu aqui? – perguntei, chocada.

–Acho que eu e Abby meio que terminamos – Zac disse, chutando as pedras próximas de seu pé – Eu sempre estrago tudo, é incrível.

–Gente, não vamos deixar isso estragar a noite – Laurie disse, com sua aura incrivelmente calma e tranquilizadora parecendo tomar conta do lugar, fazendo-me esquecer as outras perguntas que eu queria fazer.

Zac balançou a cabeça e colocou os cabelos para trás com as duas mãos, respirando fundo.

–Você ta certa, vamos pra praça ver o que tá havendo por lá – disse ele.

Seguimos a pé para o centro, Laurie tagarelava sobre como foi difícil organizar o festival quando de repente pareceu se dar conta do vestido que eu usava.

–Onde achou isso? – perguntou séria, analisando-o com o olhar.

–Acho que meu pai quem comprou, estava no meu quarto. – respondi naturalmente.

Ela pegou a capa de veludo e levou até o nariz.

–Mas que cheiro de cânfora, isso deve ser antigo! – seu tom parecia de alarme.

–Deve ser coisa de brechó – respondi rindo, mas ela pareceu não se convencer.

–Cuidado J, roupas de brechós trazem as antigas energias de seus donos.

Refleti suas palavras em silêncio. Zac ainda não havia dito nada.

Chegando à praça, as luzes e as inúmeras barraquinhas escuras davam um ar de terror ao local. Lanternas de abóboras estavam espalhadas pela grama, as pessoas fantasiadas tiravam fotos, e identifiquei diversos alunos do Masefield por ali. Ao fundo, tocava A Forest do The Cure, o que me fez imediatamente olhar para Laurie. Como se lesse meus pensamentos, ela sorriu fazendo uma expressão travessa. A música cessou e então foi anunciada no palco a banda do primo de Abby, cujos integrantes estavam vestidos de ternos pretos e usando maquiagem de caveira. Quando a guitarra pesada começou, notei a empolgação geral da plateia, que se aproximou do palco cantando em coro junto ao vocalista e seu tom tenor peculiar, quase dramático.

Em meio a isso, fui caminhando por entre as pessoas, e olhando as barraquinhas. Tinha de tudo, de comida à maquiagem e fantasia de última hora. Laurie comprou em uma loja um chapéu de bruxa, o que me fez rir lembrando as piadas de Stanley. De vez em quando alguém me parava para bater uma foto, elogiando minha roupa e perguntando o que era. Nem eu sabia definir de verdade.

Em uma das barraquinhas mais distantes do palco, uma cigana estava sentada na frente de uma mesinha redonda com uma bola de cristal.

–Ei garota, quer saber mais sobre você? – ela perguntou.

Olhei em volta, mas eu era a única com quem ela poderia estar falando. Dei os ombros, sempre gostava de desbancar esses falsários.

–Pode ser – disse, sentando-me na mesinha que ela estava.

Com um movimento rápido, ela puxou o cetim da barraquinha fechando a entrada, e olhou em meus olhos.

–Me dê sua mão esquerda, querida – ela disse, calmamente.

Quando eu o fiz, ela analisou minha palma cuidadosamente.

– Garota destemida – começou ela. – Você é cercada de coisas que a maioria não conseguiria lidar sem sua coragem.

–Sei – eu disse cética. Parecia algo genérico que ela diria a qualquer um.

–Não acredita não é? Aqui diz que você tem um gênio bastante cético – ela continuou, estreitando os olhos. – Mas algo irá mudar isso drasticamente. Veja sua linha da mente e da vida, elas são interrompidas, está vendo? – ela disse rapidamente, apontando para as falhas em minhas duas linhas.

–Estas falhas – ela continuou – quando aparecem juntas, representam que algo vai mudar sua vida profundamente, e isto mudará sua mente. Pode ser um acidente, uma descoberta, um acontecimento qualquer.

–Compreendo – eu disse, segurando o riso.

Após alguns segundos analisando um pouco mais, ela parou e estremeceu.

–Johanna, cuidado – ela olhou no fundo dos meus olhos, séria. – Eu vejo morte aqui, eu vejo perigo. Você está perto de energias complexas, as quais podem terminar sugando a sua própria.

Do que aquela mulher estava falando? Como ela sabia meu nome?

–Tudo bem, acho que já ouvi o suficiente – falei, puxando minha mão de volta. – Quanto vai me cobrar?

–De você? – a cigana perguntou, cruzando os braços. – já tem problemas o suficiente minha querida, vá em paz. Não quero um centavo seu que possa me trazer essa energia.

Encarei-a por alguns segundos, quando ela enfim abriu o cetim e fez sinal para que eu me retirasse. Aquilo tinha sido bem estranho.

x x x x

–Onde você estava? – Laurie apareceu repentinamente.

–Uma cigana leu minha mão – eu disse ainda meio desnorteada pelo que ela havia me dito.

–Ah J, ignore o que te falaram, essas leituras são repletas de sensacionalismo – disse ela revirando os olhos.

Dei os ombros e seguimos andando pelo festival. A banda começou outra música, com certo tom de suspense. Foi então que vi três caras caminhando em nossa direção de cabeça baixa, vestindo uma capa preta com touca muito semelhante à que Abby e Zac haviam usado na floresta para me assustar. Um dos rapazes levantou o rosto e para minha surpresa, ele tinha olhos cinzentos e o maxilar acentuado inconfundível. Quando me viu, Oliver fez uma expressão de espanto forçada e acelerou o passo até mim.

–J, você está maravilhosa – disse ele com sua voz grave, me abraçando.

Ele estava cheirando a um perfume forte, amadeirado. Os outros dois rapazes nos olhavam passos atrás, com expressões impassíveis. Oli trazia seu livro misterioso sob o braço, e vi que Laurie não tirava os olhos dele.

–Ah, obrigada – respondi, enquanto ele ainda me segurava pela cintura.

Ele então tornou para junto dos outros rapazes, que me encaravam com olhares sérios por baixo da capa, e continuaram andando em direção à rua com passos silenciosos e rápidos.

A banda terminou seu show próximo das onze horas, e depois um grupo de música tradicional celta começou a se apresentar. Vi Stan e Izzy, que estavam fantasiados de elfos, e Nathan junto a eles um pouco cambaleante. Ao chegar mais perto percebi que os três cheiravam a álcool e me pediam doces enquanto riam até cair. Zac estava sentado no gramado próximo a algumas lanternas, observando o show e vendo as pessoas dançarem em duplas ao som da flauta. Juntei-me a ele, que estava mais quieto que de costume.

Por volta da uma hora da madrugada, avistei ao longe Oliver e os dois rapazes chegando à praça sorrateiramente como se não quisessem ser notados. Ele estava ofegante, como se tivesse vindo correndo. Percebi que Zac os seguia com o olhar também, franzindo o cenho. Aonde eles tinham ido para voltar daquele jeito? Pedir doces não parecia bem o perfil de Oliver. Subitamente, os três me olharam enquanto cochichavam entre si, o que me fez desviar o olhar por reflexo. Ou eu estava ficando paranoica, ou eles estavam falando sobre mim.

Antes que eu pudesse pensar em outra coisa, meu celular tocou, e reconheci o número de papai.

–Johanna?

–Pai! Por onde você anda? Cheguei em casa hoje e não tinha ninguém.

–Seu irmão provavelmente foi pra alguma farra de faculdade, mas eu me encontro numa situação mais delicada...

–Fala logo pai, assim você me deixa preocupada – falei. Zac olhava para mim acompanhando a conversa.

–J, eu dormi essa tarde pouco depois de seu irmão sair e acordei no meio da floresta, não faço ideia de onde eu estou – ele disse, com a tradicional imparcialidade de meu pai. Qualquer outra pessoa estaria em pânico.

–Meu deus, pai, to indo pra casa, a gente vai te achar – eu disse, ficando nervosa. Zac ajeitou a postura e pareceu preocupado também.

–Tudo bem, sem pânico J – ele disse.

Como se fosse eu quem devesse entrar em pânico.

–Estamos indo pai, não se preocupe, meus amigos conhecem a floresta, você deve estar em algum ponto atrás de casa. A propósito, adorei o vestido que você deixou na minha cama.

–Que vestido? Você está louca querida, não deixei vestido nenhum.

Um frio me percorreu a espinha, e eu deixei o celular cair no chão, boquiaberta.

–J, ta tudo bem? – Zac perguntou, segurando meus ombros.

–Temos que ir para minha casa agora, Zac.



Notas finais do capítulo

Desculpem-me ter que retalhar esse capítulo, é que ele acabou ficando grande demais pela necessidade de detalhes e da sequência de fatos. A parte III será postada em breve!



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