Escola de Guardiões escrita por Tynn


Capítulo 24
Capítulo 21 - Dois lados




Eu senti meu coração pulsando rápido, em ritmo quase de frevo. Minhas mãos adquiriram um brilho prateado, passando para a espada de Éron que logo irradiou uma luz muito clara e sumiu, criando um portal atrás de mim. Eu vi o rosto horrorizado de Adiragram, como se ela estivesse encarando uma assombração. Olhei para trás e tive a mesma reação: lá estava a minha mãe, Margarida, flutuando com um vestido alvo e um sorriso simpático no rosto. Ela saiu de um portal branco que irradiava luz para todos os lados.

– Mãe? É você? – Eu pensei em correr para abraça-la, mas tive medo que ela se dissolvesse nos meus braços.

– Claro que sou eu, meu filho. – O corpo dela desceu ao chão. Reparei que estava descalça, como gostava de ficar em casa. – E aquela também é.

– Eu sou sua parte ruim, você quer dizer. – Adiragram respondeu rispidamente. Minha mãe, a iluminada, colocou-se entre mim e a bruxa horrenda. – Você resolveu que estava na hora de descartar todo o rancor, mágoa e ódio que existia dentro da doce Margarida e assim eu surgir. Uma pena que você morreu e eu não.

Minha cabeça girou. Eu tive a mesma sensação quando fui na primeira vez na montanha-russa, a diferença é que minha vida virou de ponta-cabeça de uma maneira bem mais radical. Então a minha mãe havia se dividido em duas? Uma parte boa e uma parte ruim?

– Eu precisei fazer isso, você sabe muito bem. – Margarida continuava calma. – Mas chegou a hora de você se redimir, Adiragram.

Adiragram, nome contrário ao de Margarida. Claro! Eu deveria ter percebido isso quando encontrei a feiticeira malvada. O problema é que sou um idiota nato. Quando me lembrei das cenas de minha mãe na infância, era Margarida a quem eu sentia falta. E ela veio por causa da minha habilidade maluca de abrir portais. Legal.

Ao redor, os esqueletos tinham se afastado de nós três. Parecia que a conversa era particular demais para eles. Betão estava desmaiado no chão; já a bruxa de olhos cinzentos, que tinha erguido o grandalhão, agora observava nossa conversa bastante interessada. Parecia que estava se preparando para o ataque. O mesmo acontecia com a velhota de nariz encurvado, que deixou Pâmela cuspindo gosma nojenta. Elas ficavam rodeando a gente, procurando nossos pontos fracos, nos analisando.

– Redimir de quê se só me resta a dor e o sofrimento? – Adiragram indagou, bufando. – Eu não tenho medo de assombração, principalmente quando sei que elas são fracas! Você vai me entregar esse menino aí porque ele poderá abrir o portal onde está o grande Yagnar! Não é mesmo?

Eu tentei me mexer, entretanto meus pés continuavam presos nas correntes negras de Adiragram. Gemidos de Jorge puderam ser ouvidos e percebi que o bárbaro estava apanhando feio das caveiras. Aquela cena me encheu de raiva, eu precisava fazer alguma coisa. Margarida, minha verdadeira mãe, olhou de relance para trás e observei a mão dela girando, como se torcesse o ar. As correntes negras se esfarelaram.

– Adiragram, eu peço desculpa pelo que eu fiz. Eu era jovem e precisava que você ficasse nesse mundo para eu poder ir ao Planeta Terra, encontrar meu verdadeiro amor. Contudo, você não precisa passar o resto da vida em sofrimento. Você sofre porque você faz os outros sofrerem. Não existe treva suprema sem um pouquinho de luz. Você não é só minha parte ruim, existe coisas boas também em você.

– Mentirosa! Você me fez assim! – As rugas no rosto de Adiragram ficaram mais evidentes. Ela respirou fundo e uma energia negra se formou em suas mãos. – Você não vai conseguir me enganar com esse papo furado.

– Você não precisa lutar contra mim. Somos uma só.

Eu fitei os olhos da feiticeira malvada. Aquilo era uma lágrima? Não pude ficar refletindo durante muito tempo porque Jorge gritou de dor e caiu no chão com um ferimento no ombro. E então a bola negra de Adiragram voou contra a minha mãe.

Eu corri para tentar protege-la, mas uma mão puxou o meu pé e eu comecei a ver tudo de cabeça para baixo. Pude ver Margarida erguendo os braços e uma luz branca aparecer em sua frente, brigando com a energia densa e pesada de Adiragram. Percebi que o duelo das duas estava apenas começando enquanto eu ficava cada vez mais distante do solo.

A bruxa de olhos cinzentos dava gargalhadas enquanto me erguia no ar. Eu tentei atingi-la com a minha espada, mas ela tinha uma espécie de telecinese à la Jean Grey que me impedia de fazer qualquer outro movimento. Ao longe, o campo de força de Natália se desfez depois dela passar todo o tempo resistindo pela energia densa de uma bruxa e percebi o quanto estávamos ferrados. Até que as feiticeiras ficaram loucas.

A bruxa que me levitava soltou meu pé e eu quase quebrei o pescoço quando cai no chão. Ela começou a atacar o nada, como se existisse um monstro tentando atingi-la de alguma coisa. Eu já tinha visto isso antes e me senti aliviado por ter amigos tão especiais. Na porta do castelo, Samyra caminhava segurando o seu amuleto, fazendo ilusões as quais eu era impossível de enxergar, mas que estava deixando as bruxas neuróticas. As demais feiticeiras também lutavam contra seres invisíveis (com exceção de Adiragram que batalhava contra sua versão upgrade) e eu aproveitei a chance para atacar. Segurei a minha espada de Éron e atingi a bruxa que tentou me levar à lua, já que ela havia descido para matar um tatu-bola gigante (supôs). O mais estranho foi que ela virou pó no mesmo instante. Eu tomei um susto, contudo precisava me concentrar com o que ocorria ao redor.

Adiragram e Margarida continuavam a se digladiar com suas energias opostas; o rosto de Samyra mostrava sofrimento, ela não iria suportar por muito tempo. Corri para a bruxa ruiva, que criou os esqueletos, mas o exército morto-vivo não era afetado pelas ilusões e começaram a me atacar. Eu defendi um, outro, e consegui partir uns cinco ao meio. Quando cheguei perto o suficiente da feiticeira ruiva, o encanto de Samyra se desfez e a bruxa conseguiu se esquivar do golpe com uma gargalhada. Cinco, dez, vinte esqueletos apareceram sucessivamente. Eu girei a minha espada de um lado ao outro, mas era quase impossível dar conta de todos eles de uma vez. Samyra veio ao meu socorro com sua lança e começou a destruir os esqueletos. Eu vi a chance a correr atrás da ruiva tenebrosa, já que ela aproveitava para fugir de nós, até que eu senti o meu estômago revirar.

Uma dor de barriga aguda me atingiu. Tive dificuldade para respirar, o ambiente ficou mais escuro. A voz frenética da bruxa de nariz curvado atingiu meus tímpanos e ela tirou as unhas horrendas da minha barriga. Eu me curvei e comecei a cuspir uma gosma violeta. Ou era verde? Amarela? Não importa, eu estava fraco e sofria.

Um esqueleto me chutou. Cai no chão com um estouro, sem conseguir me mexer com tamanha dor. Samyra ainda lutava bravamente, Natália fazia o que podia para conter uma energia negra que era emanada por uma feiticeira; eu estava só. O primeiro corte surgiu no meu braço. Eu estava sendo atacado pelos esqueletos que não perdoaria um homem caído ao chão. Precisava ser forte para suportar, mas era impossível levantar com aquela dor. Cuspi um pouco mais de gosma e segurei a espada, inutilmente. Eu estava derramado no chão, sem forças, débil. A minha mãe ainda conversava com Adiragram enquanto as duas tentavam mostrar quem tinha mais força. Estou fraco... Derramado no chão... Derramado.

A espada de Éron começou a se dissolver. Ela parecia que estava se derretendo e por um momento eu fiquei com medo, mas percebi o que fazia. Estava se transformando em água, uma habilidade que nunca tinha usado antes. A água começou a se infiltrar nas falhas do solo, caminhando lentamente até a bruxa de nariz curvado, que tinha me deixado com cólicas infernais. A água estava viva; enroscou-se na perna dela e se transformou em gelo, com espinhos poderosos. A bruxa gritou furiosa e virou pó no mesmo instante. Toda a água no chão também ficou congelada, formando fileiras de espinhos (ou devo dizer estalagmites?) que destruíram grande parte dos esqueletos. Samyra aproveitou a chance e arremessou a lança na bruxa ruiva. Ela fez uma careta e explodiu em cinzas.

– Você está bem? – Samyra quis saber, me ajudando a levantar.

– Eu estou sim. – A espada de Éron voltou a ser como era antes, na sua forma sólida como eu estava acostumado a usar. A dor sumiu com a morte das bruxas. – Por que elas estão virando pó? Voltarão ao tártaro?

– Eu não sei quem é tártaro, mas acho que não. – A rainha parecia preocupada, entretanto me deu uma breve explicação. – Essas bruxas já foram mortas há centenas de anos; existem lendas sobre elas. Adiragram resolveu invoca-las do mundo dos mortos para colocar os seus planos em ação. Por isso que elas viram pó quando nós a matamos.

E por isso que são tão pálidas, cadavéricas e não sabem falar uma palavra sequer a não ser gargalhar. E aquelas gargalhadas de bruxa mesmo. Acho que existe uma disciplina chamada “risada maléfica” na faculdade de bacharelado em bruxaria do mal.

Voltando à batalha, eu pensei em acudir Natália, contudo vi a minha mãe cair ao chão com um grito.

– Ajude-a! Eu matarei a bruxa que está duelando contra Natália. – Samyra avisou, correndo em direção à curandeira.

Eu corri para ajudar Margarida, que tinha hematomas nos braços e no pescoço. Adiragram estava a um passo de nós, criando uma bola de energia negra em suas mãos. Se aquilo tocasse mais uma vez na minha mãe boa, ela não suportaria.

– Não faça isso! – Eu fiquei ao lado de Margarida e brandi a espada. – Eu não entendi como você surgiu, mas não irá ganhar essa luta!

– Cala a boca, moleque. Você não tem o direito de falar assim. – A feiticeira tinha a voz embargada. Parecia sofrer com tudo aquilo. – Agora, saia da minha frente. Eu não quero te machucar.

– Porque ele também é seu filho! – Margarida levantou-se. – Porque você sente amor a ele, porque você ainda é uma pessoa como todos nós. Eu posso sentir sua raiva assim como você pode sentir a minha bondade. O mal não vive sem o bem.

– Pare de falar isso!

Adiragram arremessou a bola de energia na minha mãe, contudo eu pulei na frente dela. A energia negra atingiu a minha barriga e eu cai no chão, sentindo cada músculo do meu corpo doer. Era como se eu estivesse sendo espancado por cinquenta lutadores de MMA. Abri meus olhos com dificuldade para ver o rosto de pavor das duas mulheres. Elas pareciam perplexas com o que eu fiz. Margarida tocou no meu ombro direito e parte da energia negra passou para ela, fazendo-a gritar de dor. Logo alguém tocou no meu outro ombro. Era Adiragram, que começou a sofrer também. As duas compartilharam da minha dor e a coisa mais mágica do mundo aconteceu.

O brilho branco que Margarida irradiava começou a se mesclar com a aura negra de Adiragram, misturando-se como o encontro de rios turbulentos. As duas mulheres se juntaram, unindo-se em uma só. Ao final do processo, toda a energia negra se desfez, assim como a minha dor. Meu corpo estava sem hematomas e, na minha frente, Margarida/Adiragram sorria para mim. O mal não vive sem o bem, o bem não vive sem o mal.

– Obrigada, meu filho. – Mamãe falou sorridente. – O seu sacrifício mostrou que ainda tínhamos uma coisa em comum: nosso amor por você. E ele fez com que nós duas nos uníssemos novamente. Não é certo viver negligenciando a parte boa ou a parte ruim de nós mesmos.

– Você ficará aqui?

– Eu vim dos mundos celestes para te ajudar, querido. Você me convocou e eu apareci. Agora preciso retornar, infelizmente não faço mais parte do seu mundo. – Mamãe caminhou até mim e me entregou um anel prateado em formato de caveira. – Este era o anel que minha parte negra usava. Ele contém um fio de cabelo de Samyra e é a joia que amaldiçoa a rainha. Liberte-a.

– Eu farei isso. – Mamãe sorriu para mim e olhou demoradamente para meus olhos.

– Te amo, meu filho.

– Também te amo, mamãe.

Mamãe me deu um beijo na bochecha e flutuou, com seu vestido cinza-claro, para o portal branco, desaparecendo junto com o mesmo. Eu olhei ao redor e percebi que Samyra e Natália já tinham acabado com a bruxa que trazia problemas à curandeira. Elas ajudavam os feridos a se reerguerem. Eu posicionei o anel no chão e mirei-o com a minha espada.

– Você já era.

Quebrei-o com toda a minha raiva. Como resposta, uma força oposta me arremessou para uma barraca de madeira e eu bati a minha cabeça no chão, desmaiando.