Escola de Guardiões escrita por Tynn


Capítulo 23
Capítulo 20 - Bruxaria




Eu pensei em oferecer ajuda a Jorge, mas ele não precisava. O rapaz parecia carregar uma boneca de pano enquanto corria, a diferença era que a boneca não parava de falar. Quando digo em boneca, estou me referindo a Lúcia. Ela contou sobre como o diretor fez uma reunião de emergência assim que viu um portal sendo aberto para Nallük, supondo que alguma coisa errada havia acontecido. As equipes 5 e 8 estavam disponíveis e tinham experiência suficiente para fazer parte da missão.

– Na verdade, acho que o diretor não teve muita opção com relação à Pâmela. Ela ameaçou arranhar as paredes da escola com o chakram caso não fosse convocada para a missão. Aquela lá não gira muito bem da cabeça, mas é uma ótima amiga! Você só não pode irritar ela. Como eu sou bastante legal, e poucos se irritam comigo, acho que eu e Pâmela seremos best friends! – A mutante falava.

Ela tinha vários arranhões nos braços e hematomas nas pernas, além de parecer exausta. Só então percebi o motivo. Inúmeros soldados estavam pendurados nos telhados do castelo, na muralha ou nas barracas; em qualquer canto que desse para pendurar uma armadura (ou cueca) e deixá-lo desesperado. Era assim que Lúcia lutava afinal, deixando os inimigos em condições constrangedoras e desconfortáveis. Juro que acabei de ver a cueca de um soldado rasgar e ele cair em cima de uma carroça.

À medida que chegávamos mais perto do portal, mais meu coração ficava acelerado. Pude ver o estrago ao redor: homens feridos no chão, com suas armaduras quebradas ou estilhaçadas. Várias mulheres procuravam seus maridos para consolá-los, tentando leva-los para dentro do castelo. Aquela cena não era habitual em um campo de batalha. Parecia que muitos homens não queriam fazer parte daquilo, desistindo da luta após a primeira queda.

– Eles não sabem o motivo da batalha. São homens comuns, forçados a lutar pela ameaça da rainha. Às vezes, não é preciso poderes mágicos para manipular as pessoas – Natália comentou ao observar meu olhar inconformado.

Perto do portal, Mariana estava deitada no chão, com um ferimento grave na barriga. A parede de cristal não existia mais, provavelmente se desfez quando a curandeira foi atingida. Pude vê-la curvada enquanto Guilherme, o guerreiro caladão, ficava ao seu lado, bradando a espada contra um inimigo desajeitado. Eu corri até o inimigo e o derrubei com a parte cega da minha espada, em seguida pisei na lâmina do oponente para então fazer a minha melhor careta de raiva (que ficou bizarra). Com a ponta da espada, tirei o elmo do rapaz e vi um garoto de uns 18 anos, choramingando.

– Dê o fora daqui! – Eu avisei. Ninguém podia mexer com meus amigos.

– A rainha disse que mataria todas as mulheres caso nós falhássemos, mas ninguém disse que precisávamos matar crianças! – Ele respondeu.

– A rainha é uma impostora, logo a verdadeira Samyra irá voltar. Agora saia daqui antes que eu peça para minha amiga prender sua cueca no telhado!

Ele conseguiu manter-se de pé e saiu correndo para o outro lado. Eu me virei e percebi que Guilherme possuía um corte profundo na perna direita. Ele sentou-se no chão. O seu sobretudo preto estava sujo, com manchas de sangue misturadas a barro e areia. Ele apoiou o corpo na espada, a respiração ofegante.

– Você está bem? – Eu perguntei.

– Estou. Eu posso aguentar um pouco... – O rapaz tentou se levantar, mas a perna falhou e ele caiu com um estalo. Vi que o garoto tinha se cortado na testa também. – Eu sei que consigo!

– Não se esforce tanto assim. Vocês conseguiram acabar com os guerreiros da feiticeira. Sério, vocês foram os heróis.

– Isso não é nada. Eles avisaram que a bruxa pretende convocar outras de sua espécie. Ela trará de volta as antigas bruxas, que há muitos anos foram derrotadas, mas que voltarão à vida.

Eu tentei me manter calmo, só que era impossível. A ideia de ter que lutar contra várias bruxas me deixava bastante aflito, principalmente porque uma delas seria a minha própria mãe.

A equipe 8 tinha feito um belo estrago com os guardas, contudo os aliados estavam em uma situação deplorável. Jorge caminhou até nós e deixou Lúcia ao lado de Mariana.

Depois de alguns minutos catando flechas perdidas no chão, Natália nos alcançou. Ela conseguiu colecionar oito setas em péssimos estados, mas parecia estar satisfeita com a colheita. Ela colocou o material na aljava para sentar-se ao lado das companheiras feridas. As mãos da curandeira começaram a se mexer ao redor do corpo de Mariana, a mais ferida dos três.

– Não faça isso – a pequena implorou, segurando as mãos de Natália. – Você deve estar exausta, precisa usar o seu campo de força para proteger o portal. Os ataques ainda não terminaram.

Ela olhou para mim e eu assenti. Era a coisa mais racional a fazer, apesar de meus sentimentos dizerem o contrário. A curandeira caminhou até o portal. Jorge começou a carregar os membros da equipe 8 para perto do portal, pois só assim Natália conseguiria fazer um campo de força para proteger tanto o portal quando aos nossos aliados.

Eu respirei aliviado, pegando a espada para procurar por algum guerreiro que ainda estivesse de pé, mas levei um susto ao ver Pâmela correndo na minha direção como uma louca. Eu pensei que ela iria me abraçar ou perguntar amigavelmente como estava o seu irmão quando me visse depois de tanto tempo. Em vez disso, o chakram dela voou em minha direção. Eu me abaixei rápido e logo levei uma joelhada na barriga, um soco no rosto e fui ao chão, com Pâmela apontando o seu chakram no meu pescoço.

– Onde está o meu irmão? Cadê ele?

– Ele está no aposento dentro do castelo. Existe um mago, chamado Luc, cuidando dele. Você não precisa arrancar a minha cabeça!

– E como ele está? Me diga!

A manipuladora estava fora de si. Eu percebi que Jorge ainda carregava Mariana cuidadosamente. Ele estava sendo cauteloso para não magoar o ferimento dela, por isso não viu que eu estava prestes a ficar igual ao Nick-quase-sem-cabeça. Aquela situação era no mínimo embaraçosa.

– Ele não está muito bem. – Eu fiz uma pausa. Não poderia mentir para Pâmela, era melhor contar tudo de uma vez. – Zeca está cego. Sinto muito.

As veias na testa de Pâmela se dilataram. Ela fez uma expressão de dor e bateu os chakrans contra o chão, a centímetros do meu cabelo. Ela continuou dando vários golpes no solo, enquanto lágrimas escorriam de seus olhos. De repente, um brutamonte segurou a barriga dela e a puxou para longe de mim.

– Me deixe em paz, Betão! Aquele filho da mãe acabou com a minha vida! Com a vida do meu irmão. – Ela chorava enquanto tentava se desvencilhar do bárbaro careca, membro da equipe 5. Ele a levou para um lugar distante de onde eu estava.

– Tudo bem, camarada? – Leandro sentou-se ao meu lado. Ele tinha um olho roxo e se tremia como se estivesse com frio. – Ela vai superar isso.

– Valeu, cara – eu me levantei, ajudando-o a fazer o mesmo. – O que aconteceu com você?

– Relaxe, é de boa eu ficar assim quando passo muito tempo na forma de animal. É como se meu corpo estivesse tentando se transformar em um urso ou um poddle ou uma barata. Enfim, ele fica tremendo como uma batedeira. Não é maneiro, meu?

Eu me impressionava com o otimismo de Leandro, pois ele continuava sorrindo mesmo quando as coisas pareciam realmente complicadas. Eu o ajudei a andar até onde Natália protegia os outros membros feridos, pedindo para que o rapaz descansasse. Ele fechou os olhos e roncou na mesma hora. Todos nós rimos daquela situação.

Mas a alegria durou pouco, já que Natália apontou para o alto e estendeu seu campo de força em volta dos feridos e do portal. Só então me dei conta do quanto estávamos ferrados.

Uma mancha negra no céu voava em nossa direção, fazendo todos os cidadãos fecharem as janelas do castelo. Escutamos risadas maléficas vindas de lá, mesmo estando a uma distância considerável. As risadas eram estridentes e traiçoeiras, viajando pelo azul escuro da noite.

Eu puxei a minha espada, bradando-a de um lado ao outro na defensiva. Ao meu lado, Jorge segurava o seu tacape para atingir a cabeça do primeiro inimigo; Pâmela (bufando) se juntou a nós e segurou o seu par de chakram; Betão bateu suas soqueiras uma contra a outra. E as bruxas atacaram.

A primeira delas tinha os olhos cinzentos e unhas enormes, parecia aquelas bruxas de cinema, só faltava mesmo uma verruga no nariz. Ela voou até Betão e segurou o pescoço dele, apertando-o de uma forma que me deu falta de ar só de olhar. O grandalhão tentou atingi-la, mas a outra mão da bruxa fazia movimentos circulares que impedia os membros do bárbaro de agirem (numa espécie de bruxaria bizarra). Em seguida, a feiticeira começou a flutuar, elevando Betão a uma altura de 4 metros. Eu segurei a espada e corri na direção dela, mas esqueletos surgiram do chão e começaram a me atacar. Uma segunda bruxa, com os cabelos vermelhos, sorria para nós enquanto invocava um exército de caveiras. As caveiras nos atacavam com espadas enquanto eu precisava defender cada golpe, acertando a primeira e a vendo cair no chão como um saco de osso. Eram muitas e pareciam desengonçadas, sendo bastante frágeis.

Pâmela girou o chakram e destruiu quatro esqueletos de uma só vez. Ela fazia uma cara de raiva enquanto lutava contra aqueles seres sinistros, até ser atingida pelo ataque de uma bruxa, com nariz curvado, que cravou suas unhas na barriga dela. A manipuladora sentiu uma forte dor no estômago e começou a cuspir uma espécie de gosta roxa no chão. Por sorte, Jorge estava ao seu lado e a defendeu dos esqueletos que pretendiam se aproveitar daquela situação. Olhei para trás e vi que uma quarta bruxa tentava ultrapassar o campo de força de Natália, arremessando uma densa energia negra que começava a envolver a barreira mágica da curandeira. Percebi que todas as bruxas tinham a pele extremamente pálida, pareciam mais cadavéricas do que vivas. Eu girei a espada na horizontal para destruir mais uma penca de esqueletos, quando Adiragram pousou na minha frente, com seu vestido preto esvoaçante e os olhos sinistros.

Eu não hesitei em dar o primeiro golpe, tentando acertá-la com a minha espada, mas ela era mais rápida do que eu e se esquivou com facilidade. Eu ataquei novamente, sem sucesso - a bruxa conseguia se misturar na escuridão. Ela movimentou os braços para o lado e os esqueletos se afastaram de nós como se uma força os repelisse.

– Meu filho, você não precisa lutar contra mim. Nós somos uma família, devemos continuar unidos.

– Pare de ficar falando besteira! – Gritei, com mais um golpe ineficaz. Correntes saíram do chão e prenderam meus pés. – Isso não funcionou antes.

– Eu sei, mas agora eu só quero conversar. Diga-me que você aceita fazer parte do meu time de vencedores para se tornar um herói. És forte, podes lutar como um campeão! Por favor, filho...

– Não me chame assim! Você não...

– Eu não?

– Você não pode ser a minha mãe!

– Será que eu precisarei dar uma forcinha à sua memória? – Uma carga elétrica percorreu as correntes negras e subiu até minha cabeça. Nesse momento, tudo girou.

Eu senti meu cérebro doer. Era como se as lembranças da infância surgissem na minha mente. Eu me lembrei de mamãe me buscando na escola e dando um abraço; de quando eu estava aprendendo a escrever e ela vinha me ensinar a formar as letras: como puxar a perninha do “a” e continuar para o “b”... Aos poucos eu podia escrever “casa”, “bolo”, “sapato”. Minha mãe sorria para mim em cada momento, encorajando-me a aprender mais e mais.

Ela estava nos meus primeiros aniversários, de quando eu queria uma festa dos Power Ranger e ela apareceu com uma festa do Mickey Mouse. Ela cuidou de mim quando eu cai, passando remédio em meu joelho. Seu carinho me fazia muito bem. Lágrimas de saudade caíram dos meus olhos, enquanto eu me recordava de todos esses momentos, tão vivos dentro de meu cérebro.

Eu não vou atacar a minha própria mãe. Eu não posso fazer isso, é errado demais. Ela que cuidou de mim durante a minha primeira infância, foi a minha mãe que me ensinou o que é certo e errado. Eu a amo e sinto saudade. Por isso, devo ficar ao lado dela.