Anjo da Água escrita por Chris Lima


Capítulo 8
Capítulo 7


Notas iniciais do capítulo

Então, pessoal, eu para compactar o tamanho da fic, eu juntei os capítulos pequenos em um só, então esse capítulo era os antigos Capítulos 7 e 8



A menina acordou.

Apesar de ter dormido a noite toda, seu corpo estava cansado. Revirou-se na cama tentando encontrar alguma posição confortável o suficiente para voltar a dormir, mas ela sabia que não poderia fazer isso.

Todos sempre acordavam muito cedo naquele local e ela deveria seguir esse ritual. Então ela decidiu se levantar.

Lá fora, o dia já tinha clareado e todos estavam agitados, como de costume. Jordi e Eurípedes conversavam quando um guarda chegou correndo ao encontro deles. Ele parecia assustado e ao mesmo tempo absorto.

— Senhores, senhores – falou o guarda, ele suava abundantemente e precisou de alguns instantes para recuperar o fôlego – temos notícias da visita ao templo.

— Pois não, diga a boa nova! – respondeu Jordi.

— Houve uma previsão.

— E isso é bom?

— Ainda não sabemos, meu senhor – respondeu o guerreiro – ela está escrita aqui – o guarda entregou um papiro enrolado a Eurípedes – os afortunados se lembraram de có! Como se a mensagem estivesse impregnando em suas mentes!

— O que ela diz?

— Algo acontecerá na Lua Viva – respondeu o guerreiro.

— Dê-me aqui – falou Melchior.

Ele leu tudo que estava escrito em voz alta, palavra por palavra. Foi preciso reler algumas vezes, mas mesmo assim, ele não conseguia digerir facilmente aquilo. Seria mesmo verdade o que estava escrito? Ele estava absorto, o que mais faltava para aquele dia terminar da pior forma possível? Perder os dedos como Jordi ou perder os seus amados companheiros como Eurípedes?

— Será mesmo verdade, Jordi? – Perguntou Melchior, na mesma tentativa de entender aquele presságio.

— Eu não sei, meu irmão, eu não sei.

Eles estavam pensando na vinda do criador, qual seria a explicação mais plausível para esse profecia? Caso isso aconteça, eles não saberiam o que fazer. Como tratar uma divindade na terra? Eles os reconheceriam? Perceberiam a presença?

Esperavam que sim.

— Quando será a era da Lua Viva? – Perguntou Melchior.

— Daqui a 10 anos – Respondeu Jordi.

Melchior suspirou aliviado, ainda havia dez anos para eles se prepararem para essas mudanças. Precisavam agradar os deuses mais do que nunca, se quisessem continuar na situação que se encontravam agora. Eles não queriam entrar em uma decadência maior da que estavam.

— Nós temos de fazer algo em relação a aquela pessoa, pois Mosheh está em coma e temo que ele não acorde tão cedo – ele se referia à Sachiel, uma vez que ela se tornara problema deles após a chegada do damaso da água.

Enquanto eles falavam, Sachiel os espiava. Com muito cuidado e curiosidade, ela escutava cada palavra que aqueles homens falavam. Por algum motivo, ela se sentiu confortável com a leitura da profecia.  Isso ocorreu, pois talvez os deuses quisessem falar algo para ela. É, deveria ser, só poderia ser isso.

Isso era bastante maldoso, mas ela agradecia constantemente por esse tal Mosheh estar em coma e ela não iniciar aquele processo de tortura que era domar a água. Sachiel não queria fazer aquilo, nunca mais. Depois daquele incidente, seu corpo se desgastou completamente, a sensação era horrível.

— Ora, ora – uma voz soou atrás dela.

Sachiel se virou e o dono da voz era Uri. Ele estava parado próximo à garota com os braços cruzados e o mesmo sorriso do dia que cortou o seu cabelo ruivo. A garota estava temerosa e mal conseguia respirar.

— Espionar é crime, principalmente se são os nossos tutores – Uri continuou – o que você faria com um delinquente, Andreas? Ó grande imperador, diga-nos.

Andreas arqueou sua sobrancelha. Outro garoto sussurrou nos ouvidos do futuro imperador e ele balançou a cabeça indicando dúvida.

— Não vale soprar, Sion – falou Uri.

Sion era um dos prodígios que dominavam a terra. Esse garoto possuía os olhos castanhos e os cabelos escuros. Diferentemente dos outros dois, ele era mais baixo que Sachiel e, assim como seu irmão gêmeo, também era mais gordos que todos os prodígios, fato que se tornava mais visível por causa de sua barriga proeminente.

Andreas ficou em silêncio, talvez ele estivesse pensando em algo bastante cruel, mas Anemone, o quarto garoto que cercava a menina, se adiantou, pois parecia impaciente e inquieto.

— Deixa que eu decido, Andreas – falou Anemone, um dos prodígio do vento.

Sachiel tentou correr, mas logo fora pega pelos quatro garotos que a carcaram minutos antes. Eles gargalhavam da pobre menina e a vendaram.

Ela tentava se livrar dos garotos, mas eles eram mais fortes e utilizavam os conhecimentos que tinham em dobradura para impedir que ela fugisse.

— Vamos, grite por socorro! – Falava Uri – Eu sei que você não é muda, isso é apenas um dos seus teatros para chamar mais atenção, sua imunda.

— Andreas, Uri! – Falou Sion – escondam essa garota, os damasos estão se aproximando!

 Assim que falaram isso, os dois se esconderam com a garota por trás de uma porta que eles nunca haviam entrado antes. Aquele local estava um pouco escuro, mas claro o suficiente para perceber que haviam muitos instrumentos de tortura.

Os dois se entreolharam tentando entender o que cada ferramenta fazia. Aquilo não era para a guerra, eles tinham certeza! A maioria dos objetos que estavam lá eram estáticos, não podiam ser carregados ou manuseados em movimento.

Uri pensou.

— Vamos testar essas ferramentas? – falou para Andreas, olhando para Sachiel.

A garota tentou gritar, mas Andreas logo tapou sua boca. O garoto careca retirou a venda de Sachiel para que ela também visse a sala e sussurrou:

— Essa sala será seu futuro! – Disse ele.

— Isso já é demais, Uri! – falou o futuro imperador.

Após esse pequeno desentendimento, Sion apareceu na porta e avisou que não tinha mais ninguém por perto e Uri colocou novamente a venda.

— Eu tive uma ideia – falou Anemone – vamos levá-la para o calabouço!

Assim fizeram.

Embora Sachiel tentasse de tudo para se libertar, os garotos que a seguravam eram fortes demais. Seu braço já estava vermelho de tanto eles apertarem para que ela parasse de se mexer. Em um momento ela até parou de andar, mas eles a arrastaram do mesmo jeito. Fato que apenas contribuiu para escoriar algumas partes de seus pés, devido o atrito com o chão.

Quando chegaram ao local, eles a empurraram e ao mesmo tempo em que caia escutava o som de uma porta metálica se fechando. Assim que tirou a venda, ela viu o local em que ela estava: um minúsculo lugar, mal iluminado e cheirando a mofo. Nas paredes era possível ver lodo e os quatro garotos estavam fora da cela, sorrindo.

Uri rodava a chave do cadeado em seus dedos e estava em pleno êxtase.

— Vamos, liberte-se! Você não é a preferida daqui? Os deuses não reservaram um grande futuro para você? – O careca falou.

— Se é tão diferente quanto pensas, faça isso! Você é a única mulher de todos os escolhidos, certamente sairá rapidamente daqui! – Completou Anemone.

Os garotos foram saindo um por um daquele local e o último foi Andreas. Ele parecia estar com bastante pena da garota. Sachiel se aproximou do gradeado de metal e fitou insistentemente o garoto.

Ele apenas abaixou os olhos e saiu.

☾☾☾

Fazia mais de quatro horas que Sachiel estava dentro daquele local. Ela pensava em diversas possibilidades de sair de lá, mas nenhuma era possível ou menos fantasiosa que sua imaginação. O que restava a ela era apenas esperar alguém sentir a sua falta para finalmente se livrar daquela cela.

Na maior parte do tempo, ela dormiu. Seus sonhos sempre eram os mesmos: sua antiga casa, sua mãe, seu irmão. Sua antiga vida. Como ela sentia saudades daquilo!

Quando acordava e percebia que era apenas um sonho, ela chorava. Um choro silencioso, sem espasmos ou escândalos. Aos poucos, ela estava aceitando sua realidade.

— Você consegue sair daqui – falou uma mulher.

Sachiel se espantou ao ouvir essa voz, procurou a origem e observou aquela mulher loira. Ela tinha a impressão de já tê-la visto em algum lugar, mas não lembrava.

A mulher sorriu, parecia que sabia exatamente o que Sachiel pensava. Então, a garota aproximou seu rosto à grade e viu as belas feições que essa desconhecida possuía.

— Sim, você já me viu antes – ela respondeu a feroz dúvida de Sachiel – meu nome é Rogata.

Embora as circunstâncias apontassem para que ela sentisse medo, Sachiel sentia apenas uma imensa tranquilidade.  Era como se aquelas outras vezes que a viu não seriam as únicas, ia além, muito além.

Mas a memória de Sachiel não contribuiu.

— Vamos, Sachiel, saia daqui.

A garota olhou ao redor daquela cela, procurou algum objeto pequeno que pudesse ser usado para quebrar o cadeado, mas a única coisa que via era apenas aquele lodo extremamente antigo, que ela repugnava.

— Vamos, Sachiel, saia daqui – a mulher repetiu.

 Por pouco a garota não a respondeu, mas sua voz já não estava mais acostumada a sair, então ela se calou novamente. Sua garganta estava fechada, aquela não era a hora certa para falar.

Na verdade, ela tinha medo de falar.

— Vamos, Sachiel, saia daqui! Você tem um dom, não o desperdice!

Ela novamente olhou para a cela, observou também o teto e procurou algo no corredor, mas não havia nada.

Nenhuma gota de água.

A mulher sorriu sem mostrar os dentes e balançou a cabeça negativamente, pois parecia estar decepcionada. Enquanto a garota girava ao redor de si mesma, os olhos de Rogata estavam vidrados no lodo. Eles eram nojentos, mas para aquela mulher tudo tinha um sentido, um porquê.

Mas para Sachiel, o mundo era apenas assustador.

— Você deveria falar comigo, estou aqui apenas para ajudar.

Sachiel olhou com desdenho e se sentou no chão, algumas lágrimas desceram de seus olhos. A garota jurava que nunca mais iria sair daquele local tenebroso. A única boa notícia era que nunca mais seria obrigada a ter que aguentar Uri ou os outros amigos dele.

Quando ela pensou naqueles garotos, sentiu ódio e insatisfação. Sua mente clamava por vingança, mas o que ela poderia fazer ali dentro? Deveria apenas rogar por sua vida que estava ameaçada, pois já estava com sede e sua barriga demonstrava alguns indícios de fome.

Morreria ali?

Talvez não, já passou por tantas situações que puseram em risco sua vida. Mas um dia ela teria que morrer, todos morrem, certo?

A maioria. E ela estava inclusa nessa maioria.

— Está pensando em sua morte? Não deveria pensar nisso, você é nova e eu estou aqui para te ajudar a se libertar, vamos, levante-se!

A garota se recusava a obedecê-la, tudo seria mais fácil se aquela mulher apenas abrisse aquela porta. Não havia nenhuma necessidade daquilo.

— Você não entende nada, não é mesmo? Olhe para as paredes, há lodo. Isso só se desenvolve em locais úmidos, querida. Vamos, dobre a água!

Certo, ela iria dobrar a água, mas do que iria adiantar? Por acaso conseguiria quebrar o cadeado? Dificilmente.

— Você já fez uma avalanche, está duvidando de seu potencial? – Falou a mulher.

Sachiel a olhou de forma séria. Queria esconder a vontade de sorrir por estar conversando mentalmente com alguém, sentia isso porque essa experiência era no mínimo estranha, mas muito divertida. Há tempo ela estava precisando de momentos assim, menos tensos.

Ela era apenas uma criança.

Seu rosto ficou menos franzido e seus olhos já esboçavam um pré-sorriso. A menina encarou aquela mulher que estava pedindo para ela repetir algo que fizera por acidente. Ela não conseguiria fazer aquilo e na verdade ela não queria. Sentia medo de conseguir domar a água e depois passar a ser obrigada a fazer mais coisas que não queria.

Se já estava ruim daquela forma, tudo ficaria muito pior.

— Você sabe que para sair daqui terá de fazer o que estou te pedindo, não é mesmo? – Rogata insistiu.

Sachiel não queria fazer aquilo, mas queria sair daquele local macabro. Para completar, ela não sabia por onde começar, quais eram os movimentos que deveria fazer ou o que ela deveria invocar.

— Não é difícil, pois basta você querer fazer isso.

A menina pensou no porquê daquela mulher não abrir logo aquele portão, dessa forma não estaria demorando tanto aquela conversa. Ela já estaria fora.

— Eu gosto de conversar – respondeu Rogata – vamos, Sachiel, tente!

“Tudo bem”, pensou Sachiel. Mas o que ela deveria fazer, caso conseguisse domar a água novamente?

— Você pode fazer uma chave, ou pode congelar o trinco até quebrar... Ah, são tantas possibilidades!

Sachiel respirou fundo.

Ela, na verdade, não sabia para onde olhar ou em que apontar, pois não visualizava de fato a água. Isso lhe deixava bastante confusa, mas apenas seguiu os conselhos de Rogata.

Elevou sua mão esquerda e tentou se concentrar bastante. Após isso, sua mão direita também subiu. Ela olhou para cima, na tentativa de espionar o resultado de seus movimentos.

Não havia nada.

— Pense em como você se sentiu quando seu irmão foi levado, os sentimentos são fundamentais nisso. Agora, escute isso que estou te falando e os siga, pois talvez eu nunca mais venha aqui – Rogata, que antes sorria, estava séria. Sachiel logo sentiu o clima ficar mais tenso e a mulher já não passava tanta confiança como antes.

— Sachiel?

A menina olhou para fora da cela até onde sua visão alcançava no corredor. Ao ver os cabelos pretos e cacheados seu coração se encheu de alegria.

Melchior sentiu sua falta e veio resgatar a garota, ao lado dele estava Alec. Ela se perguntou o motivo dele estar lá, mas isso logo saiu de sua mente, pois não demorou muito para ela pensar em Rogata.

Ela não estava mais naquele local.