O Olho Vermelho escrita por Igor L S C Oliveira


Capítulo 93
Titã de Sangue




Primeiro Andar do Pandemonium, “Mundo de Pedra”...

PARA O LESTE OU PARA O OESTE, NÃO FAZIA DIFERENÇA. Para onde quer que alguém decidisse olhar, o vermelho fresco do sangue ainda quente de Duke era visível por todos os lados. No chão, nas paredes, nas colunas e nos destroços.

E, principalmente, no seu corpo quebrado.

– Mas que... merda... – a voz ofegante do Titã veio do centro de uma grande cratera no meio do salão, uma das várias marcas de destruição que o monstro no qual Bertold havia se transformado tinha deixado com seus ataques. Seu braço humano estava retorcido de forma nauseante, passando a impressão de que cada osso dentro dele havia sido quebrado em migalhas e forçando qualquer um que o olhasse a se perguntar exatamente como ele ainda se mantinha preso ao corpo de Duke. Sua perna esquerda tinha uma fratura exposta que praticamente expulsava todo o seu osso para fora do membro, misturando vermelho ao branco de forma doentia. Seu queixo tinha marcas aonde três das garras de Bertold haviam rasgado e arrancado carne, deixando uma ferida que sangrava loucamente sobre o peito de Duke. De muitas formas, era admirável que o Titã simplesmente conseguisse se manter consciente depois de tudo aquilo, mas isso não era tudo. Como o mover dos dedos da sua mão esquerda ou o tremer de sua perna direita sugeriam, Duke ainda tinha ao menos um pouco de luta no seu interior.

Isso dito, seu oponente não era alguém que podia ser derrotado por apenas “um pouco de luta”.

A besta surgiu do nada, ambos os seus pés se cravando ao lado do torso de Duke, posicionada bem acima dele, já “olhando” direto nos seus olhos com aquela expressão medonha que ela tinha. Os dentes de Duke rangeram ao ver o rosto da criatura, frustrado e irritado por sua própria estupidez. Maldição, eu podia ter acabado com isso a tanto tempo. Se eu tivesse sido apenas um pouco mais inteligente e dado um fim a esse merda quando eu tive a chance, eu não estaria passando por tudo isso agora. Estava tão irritado com seu oponente quanto consigo mesmo pela burrice que havia cometido, mas arrependimentos não iriam lhe fazer favor nenhum ali.

A garra direita de Bertold fechou-se ao redor de seu rosto, cobrindo seus olhos enquanto sentia seu corpo sendo erguido no ar pelo monstro, fácil como se ele pesasse tanto quanto uma pluma. Um momento depois sentiu o primeiro impacto, o primeiro soco do monstro direto na boca do seu estômago. O golpe fez com que seu corpo se curvasse e com que sangue fosse cuspido dos seus lábios, mas não teve nem tempo para sentir a dor direito antes que outro soco lhe atingisse no mesmo lugar, seguido por um terceiro. E quarto. E quinto.

Não demorou para que perdesse a conta, ou que a dor fosse tão grande e constante que simplesmente não conseguia diferenciar um golpe do outro. Cada pancada fazia com que seu corpo tremesse, com que seus olhos se arregalassem e com que seu sangue fluísse livremente. Merda.... Tentava juntar um pouco de força para tentar reagir de alguma forma, mas fazer isso enquanto levava golpes tão poderosos um atrás do outro era praticamente uma missão impossível. Se isso continuar assim... esse merda vai acabar me matando. Eu vou realmente morrer se as coisas continuarem desse jeito. Aquele pensamento era revoltante, não só pelo fato de que estaria morrendo por razões estúpidas, mas também porque estaria se provando um grande inútil com isso. Maldição, todos os outros treinaram, todos eles estão lutando. Kastor, Hozar, Bryen, Teigra, Kyanna, Anabeth, até mesmo aquele maguinho de merda do Shell! Eu não posso ser derrotado assim tão facilmente! Não sem nem ao menos derrotar um oponente para eles!

Esse pensamento ateou fogo no seu coração e lhe impulsionou a fechar sua mão esquerda em um punho com tudo, ignorando por um momento toda a dor e as dificuldades que tinha. Ergueu-a em preparação para desferir um golpe, e foi nesse momento que a garra de Bertold o largou, permitindo que ele pudesse ver o rosto da criatura de novo, apenas um instante antes que o braço dela desferisse um soco muito mais forte que os anteriores, abrindo um buraco pelo estômago de Duke até emergir do outro lado tingido de vermelho.

Num piscar de olhos, toda a força que o pensamento havia lhe dado foi perdida, e o corpo de Duke meio que desabou sobre o braço de seu oponente sem nem se aguentar mais de pé. Sangue encheu a sua boca, mas Duke estava tão fraco que não tinha forças nem sequer para cuspi-lo, conseguindo apenas ficar com os lábios meio abertos, deixando que ele escorresse até o chão. Seus olhos estavam brancos, desfocados e desprovidos de qualquer tipo de brilho, e quando o monstro puxou violentamente seu braço de Duke, levando consigo sangue e tripas, o corpo do Titã foi de cara ao chão sem que ele pudesse fazer nada.

E ao ver aquilo, a besta rugiu em glória vitoriosa.

Frio... cara, que frio dos diabos.... Sabia que iria ir direto para o inferno graças a tudo que fez na sua vida, mas não havia imaginado que aquilo seria o suficiente para manda-lo direto para o Cocytos. Dizem que um dos sinais da falta de sangue é um frio assim, não é? Um frio que você não consegue afastar... um tipo de frio que você continuaria a sentir mesmo se deitasse do lado de uma fogueira. O mais irônico era que, por muito tempo, havia imaginado que iria morrer de forma similar a essa. Claro, a sua teoria antes era que seria apunhalado numa briga após ficar bêbado algum dia, que morreria num beco escuro ou num terreno baldio qualquer, mas de qualquer forma, essa seria uma morte por perda de sangue. É irônico pensar que depois de tanto tempo e depois de me convencer de que eu talvez pudesse mudar um pouco o meu destino e ter uma vida um pouco mais digna, a minha morte será tão parecida com o que eu havia imaginado. Como humor negro, aquilo era hilário.

Mas era também algo que Duke não podia aceitar de forma alguma, e foi exatamente por isso que seus olhos se abriram e ganharam vida de novo, mesmo com todos os danos que ele havia sofrido.

Eu não vou morrer aqui. Não assim, não agora! Com seu braço de aço ele empurrou seu corpo para cima, e quando viu que isso não seria o suficiente, usou seus poderes para fazer com que o próprio sangue que corria de suas feridas se deslocasse para o seu braço humano. O viscoso líquido vermelho pareceu coagular entre si ao ar livre, assumindo uma forma sólida que lembrava filos ou vinhas e enroscando-se ao redor do braço de Duke como uma espécie de suporte, forçando-o a voltar a assumir sua postura correta e dando-lhe firmeza o suficiente para que o Titã pudesse o usar como apoio. Eu tenho uma dívida para com Kastor. Aquele bastardo pode ser um imenso idiota, mas é graças a que eu possuo alguma coisa que vale a pena nessa merda de mundo. Meus bens, meus amigos, minha própria determinação em continuar a viver... eu devo tudo àquele tolo! E enquanto eu não pagar a dívida que tenho com ele, EU NÃO VOU MORRER!

A criatura pisou em sua cabeça, tentando forçar seu crânio de volta ao chão, mas Duke resistiu e só fez sorrir. Mesmo sem poder olhar para ela, ele conseguia ver a surpresa da criatura em sua mente, e isso apenas fez com que ele se sentisse ainda mais energético.

– Isso não vai funcionar mais, sua aberração de merda! – Seu sangue envolveu sua perna esquerda da mesma forma que havia envolvido seu braço humano, rearranjando sua fratura e servindo como uma espécie de fixadores externos que faziam com que mesmo uma perna tão ferrada como aquela funcionasse como se fosse nova. Usou da força que ter sua perna de volta lhe dava para se de uma vez, erguendo a perna de Bertold no ar e fazendo com que o monstro vacilasse para trás com passos incertos. Firmou ambas as suas pernas no chão com força para formar uma base sólida e esticou ambos os seus braços para a direita e esquerda, sentindo seus ossos e músculos estalarem com o movimento. Ainda sentia dor, mas de alguma forma conseguia suportá-la como se ela não fosse nada agora, e isso permitia que Duke pudesse abrir um largo sorriso em seu rosto. – De agora em diante, esses seus ataques não vão funcionar! Foi mal, aberração, mas você vacilou feio. Você deveria ter me matado antes, quando teve a chance. Agora que eu me lembrei que não posso me dar ao luxo de morrer... hahaha, você está tão fodido!

O monstro apenas fez “olhar” para ele com uma expressão quase que confusa em seu rosto bestial, enquanto Duke por sua vez dobrou seu corpo até que pudesse tocar o chão com o maior dos dedos da sua mão esquerda... ou, melhor dizendo, até que pudesse tocar o seu sangue no chão. Isso vai ser um pouco arriscado, refletiu Duke, mesmo enquanto deixava sua mana fluir pelo seu corpo para o seu sangue, fazendo com que o líquido começasse a borbulhar como se estivesse fervendo. Eu ainda não domino totalmente essa habilidade. O máximo que posso fazer dela é um revestimento de um braço ou coisa do tipo enquanto mantenho o controle de mim mesmo. Mas nada menos do que uma armadura de corpo inteiro vai servir para que eu derrote esse bosta. Isso certamente significaria que ele ficaria fora de controle, regredindo a um estado quase tão bestial quanto o de Bertold havia assumido, mas não tinha muitas alternativas além disso. Bom, olhando pelo lado bom, não tem ninguém por perto. Se for olhar por esse lado, é improvável que eu acabe ferindo um aliado enquanto descontrolado. Eu mesmo assim não gosto do pensamento de ir tão baixo ao ponto de me tornar uma besta, mas por mil infernos, isso é melhor do que ser despedaçado. De qualquer forma, tinha que tomar uma decisão rápido; o monstro ainda parecia surpreso pela sua recuperação, e isso estava lhe comprando algum tempo enquanto ele ficava olhando pra Duke daquela forma embasbacada, mas aquilo não ia durar muito.

Respirou fundo, fechou seus olhos, e pôs a mão na massa.

Metamorfose: Trabalhos de Sangue! – Ao seu comando, todo o sangue que havia sido derramado veio a ele. Todo o seu sangue espalhado pelo ambiente ganhou vida e veio até Duke, seja por terra ou ar, e foi se concentrando ao redor do Titã. Ainda em forma líquida, o sangue foi cercando Duke em uma espécie de esfera vermelha, girando em uma intensidade tão grande que parecia até que o mercenário estava no olho de um pequeno ciclone vermelho, e cada segundo que passava aquela esfera ia encolhendo mais e mais, se tornando mais compacta ao corpo de Duke. Seu oponente não podia ver aquilo, mas dentro dela, o próprio Duke começava a se modificar. Seu corpo começava a se transformar: suas feridas se fechavam completamente como se nunca tivessem existido, e seus dedos se alongavam a ponto de se tornarem garras afiadas como uma navalha. Suas pernas e braços também se alongavam um pouco, tornando-se desproporcionalmente grandes em relação ao resto do seu corpo, e os dentes de Duke se transformavam em presas como as de um animal selvagem, de um grande predador que rasgava couro e ossos com eles. Todas essas mudanças eram causadas pelo sangue no interior do seu corpo, que reagia com o externo como se ambos fossem apenas um, para dar a Duke o máximo de poder possível. – Titã de Sangue!

Aquelas palavras marcaram o fim da racionalidade de Duke, e o rugido que veio logo após elas indicou o começo do reinado da sua besta interior. O sangue que ainda o cercava foi absorvido do Titã de uma só vez, e foi quando isso aconteceu que o monstro que era Bertold pôde ver o monstro no qual Duke havia se transformado.

Olhos completamente brancos e brilhantes se destacaram em meio a uma máscara vermelha que cobria todo o rosto do Titã, sem deixar nada das suas feições originais a mostra. A boca de Duke se abriu e ele expirou por ela, e quando ele fez isso o que veio da sua garganta foi uma espécie de vapor avermelhado que fez com que os olhos de Duke brilhassem ainda mais intensamente por um momento. Seus dentes haviam se tornado grandes, quase grandes demais para a sua boca, com um par de presas como as de um javali na parte superior e inferior da sua arcaria – algo que fez com que o sorriso que selvagem que ele mostrou parecesse ainda mais bestial e intimidador. Seus braços e pernas havia crescido a uma proporção que fazia com que eles forem inegavelmente desproporcionais ao resto do corpo dele: membros longos e magros, com garras afiadas em seu fim que pareciam brilhar com a própria luz do sol, mesmo num lugar desprovido de luz solar. Todo o corpo do Titã havia sido revestido pelo que parecia ser uma armadura vermelha de camada extremamente fina, fina o suficiente para que parecesse que ela era literalmente parte do seu corpo, deixando que cada músculo de Duke ficasse bem claro e exposto, e isso, por sua vez, deixou claro que esses músculos haviam se expandido de forma a dar ao Titã uma aparência que de alguma forma conseguia ser ao mesmo tempo esguia e extremamente musculosa. Toda a sua postura era errática, e assim que ele começou a se mover, pode-se ver que o mesmo podia ser dito sobre os seus movimentos. Eles pareciam não seguir nenhum padrão, nenhum controle, sendo imprecisos e aleatórios e exagerados demais para serem associados até mesmo a um bêbado. Quando Duke retirou sua garra do chão e ergueu seu corpo até que ficasse de pé e olhasse para o teto, ficou claro que as modificações em seu corpo haviam também alterado a sua estrutura, fazendo com que ele se fizesse mais similar a um homem-bode do que o guerreiro que ele era.

Mas isso, claro, porquê agora aquele não era mais o reinado de Duke, mas sim o da sua besta interior.

Ele desapareceu num instante sem dar qualquer sinal, fazendo com o monstro que era Bertold se mostrasse confuso por apenas um momento antes que ele ressurgisse bem diante dele, girando uma de suas longas pernas em um chute potente. Um dos braços do monstro se ergueu para tentar bloquear o golpe, mas tanto esse braço quanto metade do crânio da criatura foram quebrados em pedaços pela força medonha daquele chute, arremessando o monstro longe como se ele não fosse nada. A criatura parecia ainda não ter nem sequer começado a entender exatamente o que estava acontecendo quando o Titã de Sangue fez seu caminho até ela enquanto ela ainda estava em meio ao ar, desferindo um chute no meio do estômago de Bertold que gerou uma onda de choque tão forte que o próprio chão abaixo dos dois foi quebrado em pedaços como resultado do ataque. O corpo do monstro foi arremessado até o teto em um instante com uma força que criou uma cratera enorme que ameaçava atravessar para o segundo andar... e nem bem essa criatura havia sido cravada no teto e Duke já a alcançava de novo, movendo suas pernas com tanta força e velocidade que ele parecia “chutar” o ar ao ponto de conseguir se mover livremente por ele como se estivesse subindo uma escada. Com um sorriso maníaco reluzente em seu rosto, Duke fechou uma mão ao redor do tornozelo da criatura antes que ela tivesse tempo de ter qualquer reação, para logo em seguida arremessa-la em direção ao chão brutalmente. O impacto de Bertold criou uma segunda cratera que fez com que a primeira parecesse brincadeira de criança, e o deslocamento de ar causado por esse impacto foi tão poderoso que destroços foram arremessados para todos os lados – tanto destroços de coisas que Bertold havia destruído em seus ataques quanto pedaços de algumas das colunas que ainda continuavam de pé, desmanchadas em pedaços pela mera onda de ar que o choque do golpe causou.

Enquanto tudo aquilo acontecia, a criatura ainda tentava compreender o primeiro golpe que havia sofrido. Gemidos de dor escaparam dela enquanto ela tentava se levantar de alguma forma, até mesmo uma besta como ela tendo dificuldades em se colocar de pé sem um braço e com um corpo tão quebrado como aquele. Ainda assim, de alguma forma, a criatura estava conseguindo fazer isso. Se através de alguma habilidade secreta, uma resistência descomunal ou pura teimosia, ninguém sabia dizer..., mas ela estava se reerguendo, e um urro de guerra foi o sinal que deu disso, um urro forte o suficiente para ecoar por todo o Mundo de Pedra...

.... Que se transformou em um gemido de dor quando Duke pulou do teto de volta contra ela, ajustando sua postura em meio ar de forma a cair com um pé esmagando a coluna da criatura, enquanto outro pisava bem em cima da nuca dela, forçando seu crânio de volta ao chão de imediato. E então, por cima do monstro, foi a vez do Titã de Sangue urrar, e o seu urro não ecoou apenas pelo Mundo de Pedra, mas ultrapassou todas as barreiras, todas as estruturas e as magias que atuavam no Pandemonium, e por um momento, todos na fortaleza voadora puderam ouvir a voz do Titã.

Ou, melhor dizendo... a voz da Besta de Sangue.

Com seus braços extralongos, foi fácil para a Besta de Sangue alcançar o monstro com suas mãos, mesmo com ele estando debaixo dos seus pés. Sua mão direita fechou-se ao redor do crânio da criatura, e ela estava começando a puxar a aberração para golpeá-la da mesma forma que a criatura havia lhe golpeado quando o corpo ainda tinha racionalidade quando os seus olhos brancos brilharam mais intensamente, e então o sorriso em seu rosto se tornou mais malévolo. A mão que segurava o crânio moveu-se para segurar o torso a partir do braço remanescente, enquanto a outra foi segurar a parte inferior do corpo do monstro a partir das suas pernas. Então, com ambas as mãos, a Besta de Sangue ergueu o Monstro da Força acima de sua cabeça facilmente, erguendo-o como se estivesse exibindo um troféu a uma plateia invisível.

E então seus olhos brilharam de novo, e de uma única vez ela puxou o monstro em direções contrárias com todas as forças, arrebentando a criatura em duas para logo em seguida esmagar as duas metades da sua carcaça brutalmente no chão, reduzindo tudo o que um dia havia sido Bertold do Olho Vermelho a nada mais do que pó, sem deixar um único pedaço de osso inteiro para contar a sua história.

Silêncio reinou após aquilo. Um silêncio tenso, cheio de expectativas. Não havia mais ninguém na sala, nem ninguém nas salas próximas, e a Besta de Sangue sabia disso. Mas sua sede não estava saciada. Aquilo não era um homem, não era um ser racional. Aquilo era Destruição, puro poder destrutivo que existia apenas para quebrar e matar, sem se importar com “o quê” ou “como”. E apenas esmagar um monstro como aquele com aquela facilidade estava longe de ser o suficiente para sacia-la.

Ela fungou, e depois aspirou com força, como se quisesse tomar todo o ar do mundo para si. O sorriso havia sumido do seu rosto, dado lugar a uma expressão aborrecida e impaciente, mas ele logo voltou a se mostrar quando a criatura captou os odores de outras presas. Um grupo de quatro – dois homens e duas mulheres, pelo que o seu olfato podia lhe dizer – caminhando em direção ao que servia como entrada e saída da fortaleza voadora. Pelo que havia podido identificar pelo cheiro um dos homens estava ferido e todos os quatro estavam cansados, mas a Besta de Sangue não podia se importar menos. Ela não queria uma luta justa ou excitante, mas apenas uma luta. Ela só queria matar, sem se importar com “o quê” ou “como”, e por isso ela imediatamente começou a fazer seu caminho em direção ao grupo, quase salivando diante da sua nova refeição.

Nem bem ela deu dois passos em direção a eles, entretanto, e um dos seus braços moveu-se subitamente com vontade própria, perfurando seu próprio peito sem hesitação e fazendo com que dor cruzasse o rosto da Besta pela primeira vez.

Nem pense nisso, sua besta de merda! – A voz soou mais grave e profunda e com um leve eco, como se seu dono estivesse falando do fundo de um poço, mas ela era impossível de não se reconhecer. A Besta começou a gemer de dor, principalmente quando o braço que havia perfurado o seu próprio peito começou a se retirar ainda por conta própria, e sem pensar duas vezes ela moveu seu outro braço para tentar segurar o primeiro no lugar, como se temesse o que ele podia fazer se o deixasse agir livremente. – O quê, planeja me parar?! Sua besta estúpida! Esse corpo é meu, esqueceu?! Eu mando nele! O que eu quiser que ele faça, ele fará, principalmente se isso significa impedir uma besta de merda como você faça tudo o que quer e coloque em perigo os meus companheiros! Eu definitivamente não vou deixar isso acontecer, sua merda estúpida!

Ignorando a mão que tentava detê-lo, o braço que havia perfurado o peito da Besta foi puxado para fora sem hesitação, levando consigo algo vermelho como sangue, fino mais ao mesmo tempo resistente como diamante. A armadura de sangue que cercava o corpo de Duke foi arrancada de uma única vez por ele, deixando seu corpo de verdade a mostra novamente.

Grunhidos de dor começaram a escapar dos lábios do Titã quando seu corpo começou a passar pelas alterações mais físicas daquilo, seus braços e pernas regredindo às suas condições normais de uma forma que não podia não ser dolorosa. A máscara de sangue sólido que cobria seu rosto se transformou novamente em líquido, escorrendo até pingar do seu queixo ao chão, e assim que se viu livre dela Duke moveu o olhar para as partes feridas de seu corpo. Hum. Parece... bom, observou ele, fechando sua mão humana para ver como ela funcionava e batendo seu pé esquerdo no chão para testá-lo. Essa transformação é problemática, mas se tem algo que eu devo dizer é que ela é bem útil. Quando usando-a parcialmente, Duke podia manipular seu próprio sangue para fazer “concertos temporários” em seu corpo que permitam que ele continuasse a lutar em situações nas quais já devia ter sido derrotado, e quando fazia uma transformação completa ele se curava por completo de qualquer ferida física, fazendo com que seu corpo ficasse perfeito. É uma pena que isso mexe tanto com o meu instinto ao ponto de colocar essa Besta a solta, mas mesmo assim... eu não posso negar a utilidade dessa transformação. Era como Soulcairn havia lhe avisado quando havia descoberto ela durante o seu treinamento; tinha que tomar cuidado e não podia usar uma habilidade como aquela enquanto perto de aliados, mas não podia de forma alguma desprezar algo tão útil em batalha.

Tch, ainda assim, não gosto do pensamento de depender de algo assim, pensou Duke, colocando suas mãos nos bolsos enquanto virava seu rosto para olhar para o lugar no qual estava enfrentando Bertold momentos atrás. Eu não me considero nenhum santo ou coisa do tipo, mas até mesmo para os meus padrões, essa coisa é bem brutal. Muito... selvagem. Não é algo do qual quero depender. Cuspiu pro lado e bufou, irritado por ter tido que recorrer a algo assim para vencer sua luta, e passo após passo, começou a fazer seu caminho em direção a sala da escadaria. Eu vou tentar ganhar minhas próximas lutas de agora em diante com a minha própria força, sem depender dessa habilidade idiota... embora, se for pelos outros, eu não vou hesitar em soltar a Besta contra vocês, Bastardos do Olho Vermelho.





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