O Olho Vermelho escrita por Igor L S C Oliveira


Capítulo 112
Zona da Morte




Primeiro Andar Subterrâneo do Pandemonium, “Terra das Bestas”

 

— DESTRUIDOR DE MUNDOS!

O grito veio poderoso no momento em que Soulcairn lançou seu golpe carregado contra o corpo de Ezequiel, enquanto em resposta a isso o cadáver do Terror dos Dragões moveu um dos seus próprios punhos contra ele. Os golpes bateram de frente, e o estrondo de força proporcionado por aquilo foi capaz de fazer com que rachaduras se abrissem por todo o chão, pelas paredes e pelo teto da sala onde estavam. O solo sobre o qual os dois pisavam se manteve firme, mas todo o resto ao redor disso afundou de uma única vez, criando um anel de destruição que tinha aqueles dois guerreiros em seu centro. Era visível para qualquer um que olhasse a força que os dois monstros estavam colocando por trás dos seus golpes, mas por mais que se esforçassem, nenhum deles conseguia obter vantagem sobre o outro. Não demorou muito para que ambos acabassem sendo isolados simultaneamente pelas suas forças, lançados para longe e aterrissando no chão, um de cada lado da circunferência do anel.

— Incrível... – murmurou Soulcairn, com fumaça saindo do seu punho ainda fechado e erguido. – O “Destruidor de Mundos” foi capaz de derrotar imediatamente aquele mercenário de aço do Olho Vermelho durante a Batalha do Salão Cinzento, mas Ezequiel consegue pará-lo... com apenas um soco normal? – A expressão no rosto do velho cavaleiro misturava uma certa admiração por aquela força com uma frustração imensa. – Eu suponho que isso é de se esperar de um dos líderes do Salão Cinzento, mas ainda assim... a distância entre nós é tão grande?

— Não faça pouco de si mesmo, Soul! – disse Odin, mesmo enquanto se protegia de um ataque. A lança de Gwynevere havia se movido contra ele, cercada por luz sólida de forma a fazer com que ela tivesse uma aparência laminada, e sabendo que ele não tinha como esperar se esquivar de um ataque como esse, o que Odin havia feito tinha sido contra-atacar com um dos seus próprios ataques. O braço dele disputava com a lança dela naquele exato momento, lutando pelo triunfo. – Lembre-se do seu treinamento. Lembre-se dos ensinamentos do Herói. Lembre-se do seu poder! A sua Aloeiris, Carga... ela é possivelmente uma das Aloeiris mais poderosas que um guerreiro pode ter! Não se esqueça disso!

Um sorriso cansado ganhou os lábios velhos de Soulcairn ao ouvir aquilo. Heh... eu não preciso que você me lembre das minhas próprias habilidades, seu velho idiota. Mas você tem toda a razão. A Carga permitia que seus golpes não tivessem uma força física, mas sim trouxessem um dano sempre crescente. Esse último golpe teve uma carga de sessenta e quatro. Isso significava que se eu atingir um golpe a mais para a Carga ao invés de lançar o dano de uma vez, eu serei capaz de lançar um ataque com uma carga de cento e vinte e oito. Isso muda completamente o jogo.

Fechou seu punho, decidido, e avançou em direção a Ezequiel de novo... mas não conseguiu dar mais do que alguns passos antes de um crânio de animal surgir subitamente em sua frente, avançando contra seu rosto.

Foi puro instinto que fez com que ele jogasse a cabeça para o lado, conseguindo evitar por pouco a investida da criatura. Assim que se recuperou da surpresa desse ataque, Soulcairn moveu seu punho contra aquele crânio na tentativa de quebra-lo em pedaços, mas passou longe de acertar qualquer coisa; aquilo podia ser apenas um crânio, mas ele conseguia se mover bem agilmente, evitando o golpe de Soulcairn facilmente. Grunhiu e rangeu os dentes em resposta a isso, mas não teve a chance de fazer muito, pois logo em seguida três outros crânios vieram contra ele, de três direções diferentes. O primeiro tentou rasgar a sua garganta com seus dentes, enquanto o segundo tentou abocanhar a sua perna. Conseguiu evitar os dois de alguma forma, apenas bem a tempo de ver uma esfera de energia vermelha terminando de ser criada na boca de outro dos crânios. Ah, merda! Saltou para o lado rapidamente, e foi só por muito pouco que conseguiu evitar o golpe, saindo com a barra da calça queimada devido a energia corrompida de seu oponente...

E, sem perceber, indo direto em direção a Ezequiel ao fazer aquilo.

Viu o punho do zumbi vindo em sua direção apenas um instante antes que ele lhe atingisse em cheio na boca do estômago com uma força tão monstruosa que fez com que o corpo de Soulcairn se curvasse enquanto ele ainda estava no ar, vomitando sangue com tanta violência que poderia muito bem estar vomitando as suas próprias tripas. Foi isolado direto contra a parede da sala pela força daquele golpe, quebrando uma grossa camada de pedra e aterrissando no chão apenas a tempo para que os destroços caíssem sobre ele em seguida.

— Tsc, tsc, tsc... sabe, cada vez mais eu tenho a sensação de que vocês se esquecem que eu estou aqui – comentou Hashmaul, balançando desconsolado a cabeça de um lado para o outro enquanto suas caveiras dançavam ao redor dele, sentado sobre os tentáculos de duas delas, usando-os como uma espécie de assento improvisado. – Claro, isso deve ser apenas uma impressão, porque seria realmente estúpido da parte de vocês se esquecerem do grande eu, não é?

— Calado, seu covarde! – Resmungou Soulcairn, cuspindo um bocado de sangue da boca enquanto tentava se reerguer, com veias de irritação visíveis e saltitantes em sua testa. – Você está só aí, escondido, observando... por quanto tempo você pretende continuar assim?! Por quanto tempo você pretende ficar de longe como um espectador?! Você é um guerreiro, não é?! Então venha para a luta!

— Eu sou um mago Soulcairn, e não um mago guerreiro – corrigiu Hashmaul – e de qualquer forma, eu também não sou estúpido. Por que eu deveria me envolver nessa luta sem necessidade? Vocês não veem que a situação está completamente ao meu favor? Ezequiel e Gwynevere são mais do que o suficiente para bater de frente com vocês dois, ao ponto em que eu posso ficar relaxando aqui tranquilamente sem ter preocupação alguma. E o melhor: como zumbis, esses dois são imortais, o que significa que vocês não irão vencer não importa o quanto tentem. E mesmo partindo do princípio de que por algum motivo vocês conseguissem derrotar esses dois, o esforço envolvido nisso iria lhes deixar cansados demais para serem alguma ameaça para mim. A essa altura, um sopro com um pouco mais de força provavelmente seria o suficiente para jogar os dois ao chão. – A provocação fez com que grunhisse e rangesse os dentes em fúria, mas apesar de tudo segurou a sua língua, por nada mais do que o fato de que isso provavelmente era verdade. Por mais que eu odeie admitir isso, Hashmaul é poderoso. Poderoso demais para que tenhamos condições de derrota-lo depois de passar por uma luta contra pessoas do nível de Ezequiel e Gwynevere. E... por mil diabos, eu detesto isso, mas não tenho a menor ideia de como devo esperar derrotar um zumbi. Parece que não importa o quanto eu bata nele, ele não sofre dano nenhum. — Heh, essa sua expressão pensativa me diz os seus pensamentos como se você estivesse os lendo em voz alta, Soulcairn. Você está vendo ela, não está? A verdade nas minhas palavras. Vocês não têm como ganhar essa luta, e você sabe bem disso. Honestamente, a essa altura o que vocês deviam fazer é cair de joelhos e implorar por clemên-

O discurso arrogante de Hashmaul teve que ser interrompido naquele momento, pois foi nesse instante que o som de pedra sendo quebrada foi ouvido pela sala, uma fração de segundos antes que uma ponta vermelha de lança emergisse do chão entre os pés de Hashmaul, avançando direto contra o crânio do Profano. O sorriso coalhou no rosto de Hashmaul no momento em que ele viu aquilo, e o mago rapidamente buscou reagir e jogou seu corpo para trás na tentativa de se esquivar daquele golpe, mas isso foi muito pouco, muito tarde. Ele conseguiu evitar que seu crânio fosse perfurado pela lança, mas a ponta dela ainda deixou uma marca da sua bochecha até a sua testa, passando pelo seu olho direito em meio a isso e rasgando-o ao meio. Assim que ele conseguiu se afastar uma das primeiras coisas que Hashmaul fez foi levar uma mão até o olho ferido, tampando-o como se esperasse curá-lo com aquilo, mas Soulcairn lembrava-se das habilidades dele. Por mais que fosse um grande mago negro e um necromante terrível, Hashmaul não era particularmente bom em magias de cura, e agora ele sentia o peso disso. Um mago habilidoso em magias de cura podia até mesmo reconstruir um olho ferido se fosse algo tão recente assim, mas para um filho das trevas como Hashmaul, seu olho era história.

— Mas quem... QUEM OUSA?! — Pela primeira vez, Hashmaul demonstrou fúria real e incontrolável. Seu berro ecoou pela sala, quase como se fizesse com que ela estremecesse, e com seu olho restante ele olhou para cada ponto da sala, em busca do responsável por aquilo. – Seu rato... seu maldito rato imundo! Eu irei arrancar suas tripas e dá-las de comida aos porcos! Apareça, verme insolente! APAREÇA! Eu lhe farei sofrer pela ousadia!

— É bem-vindo para tentar – a voz feminina que disse aquilo era uma que Soulcairn reconhecia bem, e ouvi-la fez com que um sorriso surgisse em seu rosto. Então, ela conseguiu, hein? Seu único olho moveu-se na direção da qual vinha a voz, e com esse ele viu a aproximação calma de Titânia, caminhando com desenvoltura em direção a eles enquanto trazia Gáe Bolg em uma das mãos, metade da lança às suas costas enquanto a outra metade se erguia a sua frente. Ela estava ferida, conseguia ver faixas empapadas de sangue cobrindo a sua barriga, mas pela forma como ela ignorava a ferida, isso poderia muito bem não ser mais do que a picada de um mosquito. – Ouvi rumores sobre você, Profano. E pelo que vi eu pude confirmar as minhas suspeitas: você não tem o necessário para me matar.

— Titânia?! – O grito surpreso de Odin fez com que o velho cavaleiro perdesse a atenção por um momento, e Gwynevere não perdeu essa chance. Sua lança sobrepujou o braço-espada de Odin, jogando-o para trás e abrindo caminho direto ao rosto do cavaleiro, e Odin teve que reagir apressadamente para que seu crânio não fosse cortado em dois. Ele jogou sua cabeça para trás, de forma não muito diferente ao que Hashmaul havia feito, e tal como no caso do Profano, isso o salvou da maior parte do dano, embora não de todo ele. A lança de Gwynevere ainda foi capaz de criar um longo corte horizontal que foi de uma bochecha a outra, cortando através do nariz de Odin, fazendo com que jatos vermelhos esguichassem do rosto do cavaleiro e com que ele praguejasse em dor. Sangue escorreu dos olhos da cavaleira morta como se fossem lágrimas vermelhas, mas ainda assim ela girou sua lança novamente em direção a ele... mas dessa vez, a lâmina dourada pela luz concentrada nela foi parada por uma lança vermelha como sangue, empunhada pela filha da falecida.

— O que você está fazendo, Gwyn? – Emoção não era algo que ressoava na maioria das palavras de Titânia, ao menos não qualquer emoção que não fosse raiva ou aborrecimento. Mas naquelas palavras havia mais do que isso. “Gwyn” era um apelido pessoal de Gwynevere, um nome pelo qual apenas os mais íntimos amigos dela ousavam lhe chamar, e apenas em privado. Soulcairn sempre soube que Titânia provavelmente a chamava por esse nome, considerando o quão próximas elas eram uma da outra, mas essa foi a primeira vez que de fato testemunhou isso, e a tristeza e o sentimento puro por trás das palavras lhe chocaram, ainda que apenas por um momento. – Esse é Odin que você está atacando. Você não me disse que ele era o homem que você mais respeitava, “o cavaleiro de coração puro que levará o Salão a sua Era Dourada”? Por que você está o atacando?

— Porque ela é uma marionete minha agora, pirralha – respondeu Hashmaul, mostrando um sorriso maldoso enquanto continuava a cobrir metade do seu rosto com uma de suas mãos. – Talvez uma pirralha como você não entenda isso, mas permita-me explicar: Gwynevere morreu, e agora que a revivi como um zumbi, ela é um brinquedi-

Calado, você! — A exclamação furiosa de Titânia veio de forma tão súbita que até mesmo Hashmaul foi surpreendido, recuando um pouco quando o olhar furioso de Titânia caiu sobre ele. – Eu conheço Gwyn, e muito bem! Eu sei a mulher que ela é, e eu sei que é impossível que alguém como você a controle totalmente! – O olho de Titânia moveu-se novamente para Gwynevere, fitando direto nos olhos mortos da mulher que havia sido como uma mãe para ela, e quando ela voltou a falar, sua voz veio acompanhada do mesmo sentimento de antes. – O fato da sua lança estar envolvida por essa luz deixa claro que a sua alma ainda está aí. E se a sua alma ainda está ai, então ao menos uma pequena parte de você está viva, por mais que ele possa estar tentando te manter sobre controle. Reaja, Gwyn! Não se deixe ser controlada por ele! Você realmente pretende deixar que um verme como esse lhe coloque contra os seus amigos? Porque a Gwynevere que eu sempre admirei nunca deixaria algo assim acontecer!

Pela lógica, palavras não deveriam fazer nada a um zumbi... mas esse obviamente não era o caso ali, pois as que Titânia disse foram o bastante para fazer com Gwynevere chorasse ainda mais sangue. A expressão em seu rosto havia se mostrado morta e infeliz por todo aquele tempo, mas naquele momento ela se tornou uma de angústia completa, dolorida como se Gwynevere estivesse sendo torturada da pior forma possível. Então, uma parte dela realmente ainda está presa nesse corpo, não é? Já suspeitava disso há algum tempo, mas ter uma suspeita e uma confirmação eram coisas muito diferentes, e tinha de admitir... por mais que a mulher fosse lhe matar caso soubesse disso, ver Gwynevere naquele estado, ainda mais tendo um conhecimento desses, era algo que fazia com que Soulcairn tivesse uma dó imensa dela. Ela fez tanta coisa... desde que eu e Odin a trouxemos das Ilhas de Valenford ela já passou por tanta coisa, superou tantos desafios, se esforçou além de tantos limites... Uma mulher como aquela não merecia um destino como aquele, e saber disso fazia com que Soul se sentisse ainda mais determinado. Ela não merece esse destino, e por isso eu irei negá-lo. Hashmaul é o culpado pelo estado atual dela, o que significa que se eu mata-lo, ela terá o descanso que merece.

Mas aparentemente Soulcairn não era o único que havia raciocinado daquela forma, e aparentemente ele também estava subestimando um pouco a força interna de um dos líderes do Salão Cinzento, pois no momento em que ele dobrou suas pernas e se preparou para avançar contra Hashmaul, ele viu Gwynevere girar nos calcanhares e mover sua lança contra o Profano. A luz que havia sido concentrada na ponta dela para reforçar seus ataques foi disparada de uma vez como um projétil, e ao ganhar o ar, ela adquiriu a velocidade da luz. Hashmaul não teve chance alguma de reagir; ele mal teve tempo para compreender o que havia acontecido antes que o projétil de luz disparado pela cavaleira morta atravessasse o ponto entre seu ombro direito e seu peito, criando um buraco de pelo menos quinze centímetros de diâmetro do qual subiu fumaça, causando uma dor tão intensa que o Profano foi forçado aos seus joelhos de imediato, mordendo seus dentes com tanta força para não gritar que Soul pode ver alguns de seus dentes começarem a se quebrar e sangue escorrer da sua gengiva.

Nem bem Hashmaul havia caído de joelhos e Gwynevere avançou contra ele a toda velocidade, brandindo sua lança com todas as forças enquanto sangue continuava a escorrer dos seus olhos, mas a expressão em seu rosto havia mudado. Ao invés da expressão angustiada que tinha antes, ela agora exibia uma expressão determinada, decidida... e essa determinação parecia contagiante. No momento em que ela havia lançado o seu ataque contra o Profano, Ezequiel havia avançado contra Soul, e o Ascendente já estava preparado para se esquivar quando os movimentos do Terror dos Dragões pararam de uma vez. Seu corpo congelou onde estava, fixo como se fosse esculpido em pedra por um momento, até que subitamente ele começou a se virar. A expressão morta em seu rosto se transformou em uma de determinação como a de Gwynevere, e sangue começou a escorrer pelos seus olhos no momento em que ele também por fim avançou, investindo contra Hashmaul enquanto jogava seus punhos para trás.

— Impossível...! – Murmurou Hashmaul enquanto cobria um dos olhos e lutava suportar a dor da nova ferida. – Esses dois... eles estão sobrepujando o meu controle?!

Seus crânios avançaram contra ambos os zumbis, mas Gwynevere evitou facilmente o que foi em sua direção, enquanto Ezequiel despedaçou o que veio contra ele com um único bom soco. Isso... isso é... Palavras faltavam a Soulcairn para descrever como se sentia ao ver aqueles dois reagindo, investindo contra o que os escravizou.

— Ingratos... INGRATOS! — O berro de Hashmaul ecoou pela sala. Mesmo enquanto os dois zumbis avançavam contra ele, tudo que o Profano fez foi se erguer, trazendo uma fúria em seu olho remanescente que parecia o que você veria em estátuas de Deuses violentos. – Eu lhes agraciei com uma segunda vida! Eu lhes dei a chance de me servirem em glória, fazerem muito mais do que qualquer conquista que tenham obtido em suas vidas patéticas! E vocês se viram contra mim? Ousam me desafiar?! RATOS! Isso é o que vocês são! RATOS INGRATOS, TODOS VOCÊS!

Uma onda de energia corrompida emanou do corpo de Hashmaul, forçando os dois zumbis a pararem seu avanço e fazendo com que até mesmo pessoas como Odin, Soulcairn e Titânia tivessem que firmar seus pés para que não fossem lançados pelos ares. A energia era rubra, e no momento em que ela tocou a pele de Soulcairn o cavaleiro sentiu como se estivesse sendo drenado, como se um pouco da sua vida tivesse sido sugada. Olhou ao redor e viu que não era apenas ele; as carcaças de bestas mortas que estavam não muito longe foram reduzidas a esqueletos por essa energia, e as próprias pedras pareceram envelhecer, algumas se tornando farelo e fazendo com que toda aquela sala parecesse subitamente bem mais instável. Tch... então, ele finalmente decidiu começar a lutar a sério, é? Lembrava-se daquilo de anos atrás, e lembrava-se do quão perigosa era essa habilidade.

— Como aquele que lhes concedeu a vida em primeiro lugar, eu poderia mata-los agora mesmo se eu quisesse, Gwynevere e Ezequiel. Mas isso seria bom demais para lixo como vocês. – As palavras de Hashmaul soaram mais calmas e controladas agora, mas nem por isso menos intimidadoras. De certa forma, a calma com a qual ele falava e a ameaça na sombra de cada palavra fazia com que ele parecesse ainda mais temível do que antes. – Lixo como vocês que cospe na minha cara depois de terem uma chance como a que eu lhes dei não merece simplesmente voltar ao seu descanso. Eu irei primeiro me aproveitar do fato de serem imortais enquanto zumbis para matar todos os malditos cavaleiros aqui diante dos seus olhos, e depois eu irei rasgar seus corpos em pedaços e lhes fazer implorar antes de lhes tirar a vida de novo. Vocês querem lutar com os cavaleiros? Então muito bem. Lutem!

Ele fez aquela declaração, e logo em seguida o seu corpo explodiu de dentro para fora, deixando apenas uma névoa vermelha no lugar onde ele antes estava. Titânia ergueu uma sobrancelha em confusão ao ver aquilo, mas isso era natural; era a primeira vez que ela lidava com as habilidades estranhas de Hashmaul, e a confusão que ela sentia era a mesma que haviam sentido quando o enfrentaram pela primeira vez. Então, mesmo depois de tantos anos o seu trunfo continua a ser o mesmo... para um mago tão temido e supostamente poderoso, você não é alguém com muita criatividade, é, Hashmaul? A névoa que o corpo do Profano havia deixado para trás se expandiu rapidamente, começando a envolver toda a sala em uma cortina vermelha como o sangue, criando o que Soulcairn sabia ser uma cúpula na qual os poderes de Hashmaul estariam em seu ponto máximo. Hum... em geral eu diria que a melhor coisa a fazer em uma situação como essa é tentar correr para evitar essa cúpula, mas... estamos em uma área fechada, o que significa que é muito mais fácil para ele nos prender nela do que para nós escaparmos. E ainda temos que considerar que existem outros aqui, pessoas que não conhecem o estilo de luta e as habilidades de Hashmaul. Se elas fossem envolvidas por essa cúpula, teríamos grandes problemas. Naquela situação em particular, a melhor forma de enfrentar seu oponente era ficando firme onde estavam e bater de frente com ele.

— Titânia! – Disse Odin subitamente, sua voz cortando através dos pensamentos de Soulcairn e fazendo com que a atenção dele fosse toda para o seu rival. – A sua presença aqui significa que a Joia foi destruída, correto? Onde estão os outros?

— A mercenária, Coralina, seguiu para o Primeiro Andar sob as minhas ordens, levando consigo o cavaleiro Dayun, que foi nocauteado durante a batalha. Os cavaleiros Vaen e Chappa... eles... eles morreram em serviço, senhor. Sinto muito.

— Mortos... eu já imaginava que teríamos mais perdas aqui, mas ainda assim... essa maldita guerra está tomando muitas vidas. – A expressão solene e a voz severa de Odin deixavam os sentimentos dele em reação aquilo ainda mais claros, apesar de que não havia dúvida sobre eles em primeiro lugar. Ele estava irritado e frustrado e provavelmente não queria nada mais do que ir direto ao topo do Pandemonium e cortar a cabeça de Balak pessoalmente, mas sabia que não podia fazer isso enquanto alguém tão perigoso quanto Hashmaul continuava de pé, e por isso ele tinha em mente algo diferente. – Lamentaremos as mortes deles depois, mas por hora, temos coisas mais importantes nas quais nos focar. Titânia, quero que você suba para os próximos andares e organize todos os cavaleiros e mercenários que ainda estão de pé, entendeu? Não em um avanço, mas em uma defesa. Formem defesas firmes nos andares tomados por nós, e se preparem.

— Preparar? Para quê? – A cavaleira olhou para a névoa vermelha que cercava a sala ao dizer aquilo, apertando sua mão ao redor de Gáe Bolg com um pouco mais de firmeza. – Eu não sou boba, Odin. Eu não sei qual é a habilidade desse idiota que estamos enfrentando, mas eu sei que ele não se explodiu ou coisa do tipo. Ele ainda deve estar aqui para nos enfrentar, e chuto que essa névoa seja a chave para isso.

— Você não está enganada, mas isso não é algo com o qual você deve se preocupar – declarou firmemente o cavaleiro negro, inflexível. – Hashmaul é um oponente nosso, Titânia. Eu e os outros já lutamos com ele, conhecemos o seu modo de agir e os seus poderes. Ele é alguém que nós devemos enfrentar, e sem você. Você tem deveres além daqui. Ou vai me dizer que não notou? – Aquilo chamou a atenção de Soulcairn. Moveu seu olho para os dois ao ouvir aquilo, e viu que Odin e Titânia estavam trocando um olhar de entendimento naquele momento, indicando que ambos sabiam do que estavam falando. Mas... do que raios eles estão falando? Notar o quê? — O poder que está chegando está cada vez mais e mais perto, e isso significa que a pessoa que exerce esse poder está se aproximando. É importante que eu me junte a batalha para derrotarmos ele, mas estarei ocupado demais lidando com Hashmaul por enquanto para fazer isso. Então precisarei que você cuide das coisas por mim. Crie linhas defensivas e faça o seu melhor. Atrase esse homem tanto quanto possível, o suficiente para que eu possa terminar as coisas aqui e cuidar dele. Entendeu?

— Eu... eu entendo a teoria por trás disso tudo, mas ainda assim, você não pode apenas esperar que eu vá embora e deixe vocês sozinhos contra Hash-

— Vá logo, Titânia! Não temos tempo a perder! – A voz que disse isso não foi a voz severa de Odin, mas sim uma voz feminina que, embora fosse severa, também conseguia ser de certa forma quente. O olho de Titânia se arregalou ao ouvi-la, e o rosto dela se virou imediatamente na direção de Gwynevere, a Filha do Sol, que falava com ela enquanto mantinha-se atenta a névoa, preparada para reagir a qualquer coisa que pudesse vir contra ela. – Eu lhe treinei para ser mais do que uma guerreira, não é? Eu lhe treinei para ser, além de uma guerreira, um soldado. E a não ser que elas sejam estúpidas, um bom soldado segue as ordens do seu superior. Faça o que Odin ordenou.

Por um momento ainda pareceu que ela estava disposta a discutir aquilo, mas quando foi abrir a boca ela pensou melhor e acabou apenas balançando a cabeça em concordância. Por um momento pensou ter visto lágrimas começarem a surgir no olho remanescente de Titânia, mas não teve tempo de se certificar se aquilo era verdade pois ela logo girou nos calcanhares e disparou de uma vez na direção das escadarias.

Um trajeto que, naquele momento, estava coberto pela névoa.

— Ratos patéticos... vocês acham que deixarei que façam algo assim?! – A voz de Hashmaul veio de todas as direções em um som etéreo, fora desse mundo, como se fosse a própria névoa falando com eles. A névoa vermelha começou a se concentrar no caminho pelo qual Titânia tinha de seguir de forma perceptível após o soar daquelas palavras, mas ele não teve a chance de tentar de fato pará-la: no momento em que a névoa começou a se concentrar, o brilho de uma luz forte a dissipou em todas as direções, abrindo um pequeno túnel de luz pelo qual a cavaleira avançou, sem parar ou se virar para trás por um momento sequer, até fazer seu caminho para fora daquela sala.

— Você acha que eu deixarei que você faça algo contra ela?! – A fúria na voz de Gwynevere foi tão terrível que Soulcairn sentiu um arrepio correr pela sua espinha ao ouvi-la. Os olhos da loira foram para cima, e pela expressão que ela tinha neles, era como se estivesse encarando Hashmaul diretamente com isso. – Titânia é a minha filha, Hashmaul. Morta ou não, eu nunca irei deixar que um ser imundo como você faça mal a ela!

— Tch, então foi isso que fez com que você conseguisse quebrar o controle? A determinação em não ferir ela? Patético. E eu que tinha achado que vocês tinham ao menos um pouco de força de vontade para fazerem algo sozinhos. – A voz de Hashmaul falava aquilo em um tom desapontado, como se isso realmente o deixasse desapontado. – Bom, não se preocupe, Gwynevere. Eu me certificarei de costurar esse seu corpo depois que eu te rasgar em pedaços. Irei aperfeiçoar minha técnica e descobrir onde foi que errei, e então irei fazer com que você fique torturando essa sua “filha” até que ela seja pura sangue. Até me certificarei de captura-la viva para tirar o máximo disso! Sou um homem muito bondoso, não concorda?

— Você é um verme asqueroso, isso é o que você é – retrucou a Filha do Sol, mostrando uma careta furiosa. – Tantos anos passaram e você continua tão covarde quanto antes. Usando os corpos dos mortos para lutar por você enquanto se esconde atrás deles e fica fazendo gracinhas como uma criança sedenta por atenção... é vergonhoso que eu tenha sido traga de volta para lutar por alguém como você.

— A vergonha de termos sidos escravos da sua magia negra é algo que irá pesar para sempre em nossas almas – murmurou Ezequiel, dando um passo destemido para frente enquanto mantinha seus olhos na névoa. – Como mortos, nunca teremos a chance de lavar essa mancha, mas ao menos podemos tentar compensar um pouco do mal que causamos.

— Odin, Soulcairn... me desculpem. Me desculpem por ter sido fraca ao ponto de deixar que um verme como este me colocasse contra vocês. – As palavras de Gwynevere foram sinceras, vindas da alma. Enquanto ela falava, ela também concentrava sua luz na lança que empunhava, fazendo com que a ponta dela brilhasse em dourado. – Eu nunca vou poder me desculpar o suficiente por ter erguido minha lança contra vocês, então, por favor, ao menos permitam que eu faça um pouco para lhes ajudar. Fiquem para trás, os dois. Eu e Ezequiel iremos nos certificar de arrancar a cabeça de Hashmaul.

— Claro, como se fossemos deixar a parte divertida para vocês assim tão fácil – resmungou Soulcairn, avançando na direção deles, abrindo e fechando sua mão e flexionando levemente seu braço em preparação para o que estava prestes a vir a seguir. – Em primeiro lugar, vocês não têm que se desculpar por nada! Vocês são cavaleiros do Salão Cinzento, líderes corajosos que literalmente deram a vida em prol da defesa dos nossos companheiros e ideais! Se alguém deve pedir desculpas aqui, estes somos nós, porque fomos nós que falhamos a vocês ao deixar que seus corpos caíssem nas mãos de alguém como esse covarde, então não ousem agir como se vocês fossem os culpados por isso!

— E além disso, você deve estar louca se acha que iremos realmente só “ficar para trás”, Gwyn – completou Odin, deixando que sua energia fluísse para seus braços, envolvendo ambos em lâminas espirituais que eram quase invisíveis ao olho humano. Essas coisas não são tão fortes quanto Excalibur, mas vão me servir aqui. Ele não podia se dar ao luxo de usar uma técnica que demorava tanto tempo para ser preparada como Excalibur contra alguém como Hashmaul, até porque um homem como aquele nunca iria se deixar ser atingido por uma técnica como essa. – Hashmaul é um oponente nosso, tanto quanto seu. Na verdade, essa é a nossa chance perfeita de concertar o nosso erro. Matar o que deveríamos ter matado anos atrás.

— Ah, por favor. Eu não sei se fico abismado com a estupidez de vocês em achar que tem alguma chance contra mim, ou se fico enojado com todo esse papo sentimental barato. Provavelmente ambos. – A voz de Hashmaul soou novamente juntamente com o começo do exercer do seu poder. A névoa vermelha do mago já havia coberto toda a sala em sua cúpula a essa altura, e isso deu a chance para que partículas dessa névoa pudessem vir de todas as direções, se concentrando em um único ponto diretamente à frente dos quatro cavaleiros. Diante dos seis pares de olhos a névoa começou a tomar forma física e sólida, começou a criar pernas vermelhas que iam se desenvolvendo mais e mais a cada minuto que passava em um corpo completo. – Vocês se esqueceram? Da última vez que me enfrentaram vocês eram em cinco, e Azel, que é exatamente o que não está aqui, teve que salvar suas vidas inúteis de novo e de novo. E mesmo assim vocês não conseguiram me matar. Acham mesmo que vão conseguir fazer isso agora?

Um cheiro podre preencheu toda a sala, atacando as narinas dos humanos com uma intensidade que fazia com que até mesmo guerreiros experientes como Odin e Soulcairn se sentissem enojados como se fossem capazes de vomitar tudo que comeram no chão. Não era só o cheiro que era um problema, no entanto. Além dele eles também sentiam outra coisa: medo. Um medo que aquela criatura conseguia criar que era natural e irracional, um erro que humanos eram simplesmente incapazes de negar ou controlar. O máximo que podiam fazer era continuar a lutar enquanto sustentados pela sua própria determinação e mentes treinadas, mas isso também não era nada fácil. Miasma, compreendeu Odin de imediato, o cheiro da morte. Fazia anos desde a última vez que teve de lidar com um cheiro como aquele, e mesmo nos dias atuais, compreendia facilmente o porquê daquilo ser tão perigoso. Isso é mais do que apenas um cheiro. Se você não tiver autocontrole e uma boa dose de fortitude mental, você vai quebrar diante disso. Odin e Soulcairn eram capazes de suportar aquilo o suficiente para lutar, mas um homem despreparado... um desses estaria provavelmente caído em posição fetal no chão, chorando rios de lágrimas e tremendo como se estivesse tendo uma convulsão.

— Vocês têm que entender, cavaleiros, que não importa o quanto teimem nisso, o resultado não vai mudar. Sua “filha” disse algo sobre eu não ter o necessário para a matar antes, Gwynevere. Bom, retorno isso para vocês, só que não movido por uma arrogância juvenil, mas com o pleno conhecimento das minhas e das suas habilidades. Vocês não têm o necessário para me matar. — O corpo de Hashmaul já estava formado quando ele dizia aquilo, e por isso a sua voz vinha agora dele. A criatura que a névoa vermelha havia criado era um ser de quatro metros e vinte de altura, com braços e pernas extremamente longos, notavelmente desproporcionais em relação ao resto do seu corpo. Seu rosto era todo constituído como se fosse uma máscara de prisioneiro, com vários buracos que não davam para nada mais do que poças negras, e sua boca em especial parecia como que coberta por uma focinheira, como se ele fosse algum tipo de besta louca que morderia qualquer um que chegasse perto. Ele não tinha dedos, mas sim garras longas que se estendiam por cerca de trinta centímetros, todas elas parecendo extremamente afiadas, como se pudessem cortar alguém em pedaços em um golpe. Não importa como olhasse para ele, a aparência daquela criatura não era nada que podia ser descrito por uma palavra que não fosse “aterrorizadora”. – Isso dito... mesmo se vocês tivessem o necessário, isso não faria diferença agora. Pois nesse mundo ou em outros, não existe um homem, Deus ou demônio que seja capaz de me derrotar quando estou no meu mundo! A Zona da Morte!



Notas finais do capítulo

Primeiro Andar – O Mundo de Pedra

Ylessa VS Piromaníaco (Vencedora: Ylessa)
Bokuto VS Shiva (Vencedor: Bokuto)
Soulcairn VS Kong (Vencedor: Soulcairn)
Duke VS Bertold (Vencedor: Duke)
Breath, Denis, Zetsuko e Blair VS Alcatraz e Zumbis (Vencedores: Quarteto)
Jane VS Cleus (Vencedor: Cleus)
Syd VS Cleus (Vencedor: Cleus)
Bokuto VS Cleus (Luta Interrompida)
Bokuto e Syd VS Ibur (Vencedores: Bokuto e Syd)

Segundo Andar – O Labirinto Eterno

Maoh VS Zaniark e Byron (Vencedor: Maoh)
Kyanna VS Steelex (Vencedora: Kyanna)
Teigra VS Behemoth (Vencedora: Teigra)
Mefisto VS Zumbi de Zephyr (Vencedor: Mefisto)
Hozar VS Reivjak (Vencedor: Hozar)
Enderthorn VS Octo Gall (Vencedor: Octo Gall)
Bryen VS Octo Gall (Vencedora: Bryen)
Goa VS Saber (Vencedora: Saber)
Anabeth VS Saber (Vencedora: Saber)
Cleus VS Saber (Em andamento)
Valery e Bryen VS Presas (Interrompida; Valery morta)
Senjur VS Presas (Vencedor: Presas)
Bryen e Enderthorn VS Presas (Vencedores: Bryen e Enderthorn)

Terceiro Andar – O Deserto de Ossos

Hozar VS Gunlamar (Luta Interrompida)
Trevor e Marco VS Gunlamar (Vencedores: Trevor e Marco)
Trevor e Marco VS Dokurei (Vencedor: Dokurei)
Ex, Cleus e Ylessa VS Dokurei (Em andamento)

Quarto Andar – A Catedral

Hozar VS Tristah (Em Andamento)

Quinto Andar – Elísio

Kastor, Ekhart e Shell VS Balak e o Anjo de Sangue (Fragmentada)
Kastor e Ekhart VS Balak (Em andamento)
Shell VS Anjo de Sangue (Vencedor: Shell)

Primeiro Andar Subterrâneo – Terra das Bestas

Odin, Soulcairn, Gwynevere e Ezequiel VS Hashmaul (Em Andamento)

Segundo Andar Subterrâneo – Terras Úmidas

Titânia, Vaen, Chappa e Dayun VS Retalhador (Vencedora: Titânia – Vaen e Chappa mortos, Dayun inconsciente)



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