Issues escrita por Ana Hel Black


Capítulo 6
Sexta Parte





Estava tudo bem. Cheguei na escola cedo na manhã seguinte, queria mais tempo para conversar com a guria. E ela estava lá. E realmente, nada de errado, como eu esperava, aconteceu. Foi um dia de aula normal, só um ou outro comentário, mas seria estranho se não tivesse. O outro dia também foi assim e depois também. Foi assim até quase duas semanas. Agora eu tinha até alguém que voluntariamente queria ser meu par nos trabalhos e não ligava em andar comigo e... Ah, estou querendo enganar a quem? Certo melhoraram algumas coisas, até no ambiente doméstico, agora que meu pai estava trabalhando numa oficina e não tinha mais tempo para ficar em casa sendo legal comigo. É que...Eu não conseguia deixar de... me sentir triste, inútil, vazio... Acordar no meio da noite parecendo que as paredes gritavam e gritavam, falando de quem eu nunca seria e só parava com um monte de comprimidos coloridos que com certeza não deviam ser misturados. Aí rodava tudo e ficava quieto. Eu passava mal e dormia, chegava na escola feito um zumbi para encontrar um par de olhos prateados e muito abertos que de alguma forma me faziam sentir melhor. Feito uma droga diurna, que fosse quase tão forte quanto as noturnas. Talvez isso fosse capaz de embaralhar de vez meu cérebro, aí pronto, quem sabe acabasse? – Vocês não imaginam o quão doentio eu vejo a mim mesmo nessa época. Eu gostaria muito de poder voltar no tempo e dar uns chutes naquele garoto que eu fui. Ah é, eu mudei sim, talvez tenha conseguido melhorar alguma coisa, mas não foi fácil... E é por isso, por isso que conto minha história, assim, retorno à narrativa e desculpo-me pela interrupção.



O quarto da ◊ era muito bonito. Aliás a casa toda dela era muito linda, era em um tipo de condomínio, daqueles bem grandes, mas fazia sentido, afinal a mãe dela era uma empresária bem sucedida, alguma coisa assim, que nem havia percebido que a filha saira de uma excelente escola particular e se matriculado em um colégio estadual frequentado por uns mauricinhos que não conseguiam passar de ano em um lugar decente, ou por babacas filhos de perdedores que nem eu. Tinha alguma coisa muito agressiva nessas histórias todas, não acha? Deixei pra lá meus pensamentos e voltei a atenção ao quarto: era bem amplo e iluminado, com almofadas de cores fortes, tipo abóbora, verde-ácido e violeta. Uma parede era forrada com desenhos, a outra com uma coleção de bonequinhos, "figuras de ação", livros e vários CDs. O tapete dela era felpudo, verde com fiozinhos prateados e o ambiente era muito organizado e cheirava a um lugar aconchegante, se é que dá para explicar isso. A gente se encostou nas almofadas e ela ligou o aparelho de som. Disse que queria mostrar um albúm novo. Quando os dois primeiros acordes soaram, eu arregalei os olhos para ela. "Cê 'tá me tirando" Ela fez que não e explicou que chegou ontem, de um primo dela que morava nos states. "E tem mais, Jon... olha só". Ela estendeu pra mim uma fita k7 que ela havia gravado no mesmo dia que recebera o Issues. "Mas sem ficar ouvindo, pra gente ouvir juntos pela primeira vez". Eu disse obrigado. O que mais podia fazer? Comecei agitar a cabeça no ritmo da música. Ela faz uma exclamação muito engraçada, algum barulho ou algo assim e falou que eu ficava igualzinho ao JD quando fazia isso. Isso o que, menina? Aí ela tentou imitar e era muito engraçado, pois os cabelos castanhos claro dela estavam soltos e voava tudo na cara dela, parecia um bichinho esquisito. Então fiz que nem ela. Fechei os olhos, tentando pegar acorde por acorde.



"Aqui" Ela disse. "São meus desenhos" Ela deus três passos passando a ponta dos dedos pelo trecho de parede coberto com sulfite e chanson. Eram realmente pequenas obras de arte: ela usava lápis para retratos, nanquim, aquarela. Retratavam cenas de desespero, criaturas estranhas, fadas esmagadas como flores prensadas entre as páginas de um livro. Eu gostava da arte dela. Daquelas pessoas fantasmagóricas. Era como se fossem ilustrações do que havia em minha mente, alguma bobeira adolescente assim... Mas é, eu nunca vou esquecer dos desenhos de ◊, ela era realmente boa naquilo. Eu falei pra ela que eu gostava, que não sabia de onde ela tinha tanta imaginação para criar aqueles personagens. Foi então que eu notei, por um ínfimo espaço de tempo, o sorriso dela desapareceu. Aí ela fez aquela cara "aérea" de sempre e disse que tinha um desenho para mim. Éramos nós dois. Só que no desenho agente parecia bem mais decente que na realidade e parecia haver uma iluminação em torno da gente e envolta aquelas criaturas assustadoras como se tivessem com medo de nós. Eu sorri e apontei um deles. Disse que era a cara do Boi. A minha amiga jogou a cabeça pra trás e gargalhou pra valer. Então eu comecei a rir. Não do desenho, nem dela, apesar de ser engraçadissímo como ela se sacudia inteira, abraçando o próprio corpo e quase caindo no chão sem parar um segundo com aquela risada esquisita, algo como "hiahiahiahahaha". Segurei os ombros dela. "Ei, pare com isso, sua doida". Ela arquejou e jogou os braços em torno do meu pescoço, ainda rindo. Eu a abracei e apertei bem forte, enroscando os dedos na cabeleira cinzenta dela. Repentinamente ela era um ser extremamente importante e eu não podia deixá-la sumir por aí. No dia seguinte e depois e depois mal tive vontade de me drogar. Meu corpo pedia, mas minha cabeça dizia que não, que agora não precisava, que tinha um ponto de apoio para que não precisasse fugir. Será que eu estava confiando demais naquela coisa pequenina que aparecera do nada em minha vida? Eu confesso que a minha preocupação naquele momento foi de estar me apaixonando por ela. Era esquisito e não me parecia certo. ◊ não era uma pessoa para se apaixonar. Eu não me via andando de mãos dadas e a beijando. Não tinha nada haver com ela ser pequena e feia, sabe... É que... por vezes eu ficava pensando se eu não tinha me chapado demais e ela era uma amiguinha imaginária que evaporaria a qualquer instante. Ou se.. Ah, cara...! Era errado. Só isso. Ela era pequenina e frágil e era minha amiga. E o que eu sentia era exatamente uma mistura de querer protegê-la – sim, porque os babacas do colégio olhavam muito feio e talvez estivessem planejando se vingar daquele dia – e de tê-la como um tipo de farol, uma presença que me envolvia o suficiente para querer ficar sóbrio. Com isso, precisava mais de algo?



Eu 'tava ouvindo a fita do Issues pela sei-lá-que-ésima vez. Muito bom. Realmente... As pessoas ultimamente ouviam músicas por ouvir, não faziam questão de se envolver emocionalmente com elas e cada vez mais tudo era lixo comercial. Eu achava tão estúpido. De como um trabalho artístico de alguém podia se tornar algo vazio e descartável. Comentei isso com ◊ e ela concordou, meio distraída. Ela parecia mais distante do que nunca. Como não disse nada, resolvi perguntar se estava tudo bem. "Aham" e não foi além disso. Ela estava desenhando uma garota muito linda. Mas havia algo de errado, acho que no olhar da personagem: parecia meio vidrado, cadavérico...



"Ah, que saco" Gritei pra porta fechada do quarto - Em um feriado prolongado eu geralmente teria procurado algum conhecido da rua para irmos em algum show, mas ◊ tinha ido viajar e eu não tinha a menor vontade de ir a lugar algum. - Era meu pai chamando. Agora ele queria que eu ajudasse a puxar a fiação do carro. "Essa merda não vai funcionar mesmo" Reclamei enquanto encaminhava-me para a frente da nossa casa. Ele me repreendeu pelo palavrão e mandou segurar uns fios soltos pelo motor enquanto ele conferia as ligações. Havia um motivo para estar ali, ele tinha alguma coisa a dizer.



Não era verdade. A primeira coisa quando ele disse aquilo foi não acreditar, me revoltar. Fazia tanto tempo, mas eu sentia muito, muito mesmo - porque agora era definitivo: minha mãe estava morta. Meu pai percebeu o quanto eu fiquei abalado e numa rara demonstração de afeto, deu alguns tapinhas nas minhas costas. "Ela não tinha culpa de ser uma pessoa decente no meio daquela família" Ele não podia dizer essas coisas, não agora, depois que ela havia morrido, dizer que mamãe não era culpada por se sentir mal de ter rompido com a família ao casar-se com um cara que eles não aceitavam! Por que ele não pode entender antes? Que ela gostava deles, apesar de tudo? Que ele tinha que tê-la ajudado em fazê-los aceitar? Mas agora ela havia morrido em um acidente doméstico estúpido ou seja lá a justificativa que deram e só nos avisaram depois das cerimônias fúnebres. Eu tinha raiva deles por não terem me deixado ter uma família normal. E estava com muita raiva de meu pai, por ter sido tão passivo e agora toda esperança que eu tinha de ao menos vê-la de novo...



Notas finais do capítulo

Notas Finais: Oh, coisas estão acontecendo...

Pessoas, agradeço MUITO MESMO pelos comentários. Essa é minha historinha mais lida e isso me faz contente quanto minha capacidade de escrita