Issues escrita por Ana Hel Black


Capítulo 7
Sétima Parte




 

 

Não sei quantas vezes toquei a campainha até uma empregada de expressão carrancuda atender a porta. A casa de ◊. Perguntei dela: precisava ter voltado da viagem! Ouvi vozes abafadas vindo dos fundos, ou talvez do alto das escadas e antes que a empregada voltasse, ◊ veio correndo e jogando os braços em torno do meu pescoço. "Cheguei ontem a noite" Ela parecia um pouco menos cinzenta que o normal. Ela me encarou. "Você decididamente não está bem" Então ela me puxou para dentro da casa dela e foi me arrastando para o andar de cima sob o olhar aturdido da empregada. Sentamos nas almofadas coloridas e eu devia ter uma expressão fixa e vazia, de quem olha pra nenhum lugar especifico. Ela não fez nada, se não esperar. Então eu contei tudo. Exatamente todas as palavras que aqui reproduzi sobre minha vida. Minha família, a escola, o problema com drogas, depressão, apatia e que tinha acabado de saber sobre a morte de minha mãe - não eram coisas agradáveis ou bonitas, mas ela ouviu tudo pacientemente até que eu dissesse "e então estou aqui".

 

Ficamos em silêncio por algum tempo. Escorreguei alguns centímetros pelo chão e acabei meio que deitado, como se estivesse em um divã. Ela continuava abraçando os joelhos e olhando para fora da janela. "Sabe... Acho que deveríamos ir amanhã no cemitério da cidade" Assim, do nada. E o pior é que fazia sentido. "Acha mesmo?" Levantei. Ela fez que sim. Algo estranho me ocorreu. Estranho demais, o suficiente para saber que era bobagem, mas arrisquei do mesmo jeito. "Quem era a garota daquele desenho de antes de você ir viajar?" ◊ arrancava fiapinhos do tapete. "Minha irmã". Mas ela não quis falar sobre isso.

 

***

 

Chuva significava ruas enlameadas. E pátios escorregadios. Coisas com as quais tinha uma relativa má experiência. Mas fora em um dia como esse que eu conhecera ◊, então dias chuvosos e enlameados não me pareciam mais tão ruins assim. E chovia naquela tarde em que eu e ◊ fomos ao cemitério municipal procurar por... Eu, talvez por causa do palpite tão incisivo dela, apenas decidira ver onde minha falecida mãe fora enterrada. Trazia uma singela flor vermelha nas mãos. Eu não sabia bem que tipo de flor levar, mas acabei escolhendo um vermelha e bonita, que talvez ela tivesse gostado de ganhar caso estivesse viva. Como ◊ disse que estava muito bom, não devia ter escolhido errado.

 

O cemitério era grande, devia ocupar o espaço de quase um quarteirão e tinha tantos túmulos que não conseguia imaginar como fossem caber mais pessoas - na verdade pensei nisso depois - naquele momento apenas caminhava em silêncio por entre as lápides, olhando os nomes dos sepultados. Dei a ◊ um documento meu com o nome da minha mãe, para que ela também pudesse procurar. Não nos afastávamos muito: não que tivéssemos medo, mas o fato de ser um local onde guardávamos nossos mortos fazia com que houvesse uma certa atmosfera opressora. O silêncio imenso explicava o porque de chamarem a morte de "o repouso eterno". E eu começava a pensar coisas a respeito disso, coisas as quais não deveria dar atenção, mesmo que não soubesse explicar exatamente o porque.

 

"Nada, nada" "Nem um pouquinho?" "É... Mas estou mais leve" Aí ela sorriu, dando-se por satisfeita. Inegavelmente esquisita. E era verdade o que eu falava: não mudara em muito minha revolta quando encontramos o sepulcro correto. Estava escrito com letras em relevo "amada filha" e tinha o nome e as datas. Eu risquei "mamãe" embaixo da inscrição. Talvez alguém veja e apague. Talvez vejam e entendam. A flor ficou sobre a lápide. E sim, eu me sentia mais leve, uma inquietação com meu próprio ser fora acalmada. Por mais que ainda me revoltasse a situação, eu havia dado uma flor para minha mãe, pra a memória dela, que fosse. E isso bastava para silenciar parte do tormento.

 

 



Notas finais do capítulo

Então, carissimos leitores, agora irá levar mais um tempo para atualizações (ou não) porque aí termina a porção previamente escrita da história e eu ando com um ligeiro bloqueio.

Obrigada pela atenção e pelos reviews lindos! Estou sentindo que vale a pena escrever :)