Issues escrita por Ana Hel Black


Capítulo 5
Quinta Parte




Vou parar minha história para contar sobre minha mãe: ela casou com meu pai sem muito consentimento da família dela – que por sinal nos ignora completamente – aí eu nasci bem pouco tempo depois e seria tudo bem, só que minha mãe não aguentou muito tempo, todos achando que ela estava completamente errada de estar com o maior “sem eira nem beira” da região. Parece um engraçado clichê novelesco? Não foi: ela desenvolveu severos sintomas de depressão, aí a minha avó simplesmente levou ela, eles tinham dinheiro suficiente para pagar um lugar em que pudessem escondê-la e eu fiquei com meu pai. Foi o pior período da minha vida. Não tínhamos nada, nada mesmo e eu tinha uns dois anos e não fazia ideia do que estava acontecendo e me falavam “sua mãe morreu”. Aí logo meu pai arranjou outra mulher, tão desenganada quanto ele, mas naquela época ela tinha um empreguinho de datilógrafa num escritório e deu para aguentar. Mas eu queria minha mãe - ela era bonita, delicada e se importava comigo, eu lembro disso, muito bem – não uma bruxa viciada em qualquer coisa que fosse vendida apenas sob prescrição médica e que mal olhava para mim. Quando eu já tinha uns dez anos, comecei a ir na casa dos meus avós, para saber que fora feito da minha mãe, mas sempre batiam o portão na minha cara. Meu pai sempre disse que ela havia nos deixado, pois não valíamos nada para eles. Depois, achei que meu pai dizia isso pois se sentia muito ressentido e guardava muito rancor do que acontecera, principalmente de terem me largado com ele. Eu não me importava com que ele achava, na verdade, mas eu sabia o que acontecera e por mais que meu pai falasse que ela nos abandonou, eu sabia, sabia mesmo que foi desse jeito que eu contei. Por conta disso sempre que eu e “papai” discutíamos, era um tipo de duelo entre o rancor dele e meu filete de esperança. – Tudo explicado, acho que posso voltar para a narrativa.



“O que? Vai me trancar num hospício? Você deixou que a levassem, por que não faz o mesmo comigo?” Eu queria que meu pai ficasse bravo, me xingasse, me mandasse embora, qualquer coisa, sempre que ele falava ‘sua mãe isso e aquilo’ como se ela, que nem estava presente a quase quinze anos, fosse a causa de todos os nossos problemas. Só que dessa vez ele permaneceu calmo, limpando a graxa dos dedos num pedaço de estopa. “Se você for fraco que nem ela, vai mesmo perder o rumo.” “Que rumo? Não o seu rumo?” Eu ironizei. Ele desceu um tapa no meio da minha cara. Eu cruzei a porta de casa, atravessei a cozinha e a sala, sem dizer nada à minha curiosa madrasta e me tranquei no quarto. Todos os palavrões passando pela minha cabeça. Peguei os fones de ouvido e deixei o volume do rádio no último, então puxei uma caixinha de papelão escondida sob a bagunça eterna que havia debaixo de minha cama e engoli duas cápsulas que nem sabia de que eram. Me joguei na cama e fechei os olhos, o orgulho seriamente ferido.



“Eu sei que aconteceu alguma coisa, está na cara... E você sabe que não teria problema em me contar” Mas por mais que ◊ insistisse, eu passei a aula toda sem dizer uma palavra do que quer que fosse. Ela acabou desistindo, mas quando deveríamos nos despedir, cada um rumando para seu próprio caminho, ela simplesmente continuou andando comigo. Disse para ela que ainda tinha uma boa caminhada até minha casa, mas ela deu de ombros e continuou andando. Eu pensava em puxar algum assunto, mas não me vinham ideias de o que quer que fosse. Como ela também nada falava, permanecemos em silêncio, eu a olhando com o canto do olho a cada minuto. Era tão pequena e estranha! Cinzenta. Algo naqueles imensos olhos prateados guardavam uma tristeza profunda, ou não exatamente isso, mas um desapontamento com todas as pessoas que encontrava. Fiquei um tempo imaginando o que poderia ter acontecido com ela. Então ◊ parou e apontou para a vitrine de uma das várias lojinhas pelas quais passávamos em frente. Uma loja de discos. E na vitrine dos lançamentos estava uma cópia original do Issues, ainda no plastiquinho, esperando para ser comprada. Eu nem tinha um cd player em casa, mas me deu uma vontade enorme de ter o álbum, como peça de coleção mesmo. Entramos. Fui perguntar o preço, bem acima de minhas posses. A garota comentou que estava bem carinho e que seria até mais barato comprar um pelo correio, de uma loja gringa. Continuamos o caminho para minha casa falando de preços, da indústria fonográfica pilantra e que o Korn tinha umas músicas tirando sarro das gravadoras.



Então, do nada, ela me perguntou como era com meus pais. Respondi que morava com meu pai e minha madrasta, que minha mãe havia ido embora. Ela ficou muito séria e disse que se eu quisesse podia contar. Minhas auto-defesas, por mais que sofressem sérios abalos diante dos olhos dela, fizeram um esforço incrível e eu disse que não havia nada de errado. Talvez fosse hora de me abrir, talvez fosse, sim... Mas não, não era fácil, uma coisa é contar a mim mesmo várias vezes repetidas, ou confessar tudo com a voz mais robótica enquanto uma moça de ar eficiente bate letra por letra no teclado, totalmente diferente é dizer tudo, confiar as coisas que me abalam a uma criatura tão diferente e tão capaz de perceber o mundo – isso eu tinha que admitir, por mais estranha que a pequena parecesse, ela era decididamente esperta e por agora eu não desejava tê-la revirando meus pensamentos particulares.



Em silêncio chegamos à minha casa. Tive uma certa vergonha, na hora que apontei o portão da construção velha e suja. Ela tinha os olhos muito abertos, observando cada canto do barracão que era a garagem. Eu sabia que ela não fazia por falta de educação ou por achar um lugar "pobre" – era só curiosidade, não era? Pelo menos foi o que eu concluí quando ela atravessou o portão bem devagar e me encarou, sorrindo. Eu tive que sorrir também, meus sorrisos não eram dos melhores, mas... Perguntei se ela queria entrar e ela perguntou se não ia atrapalhar. Começava a achá-la muito "fofa", abanei a cabeça e indiquei o caminho. Passamos pela minha madrasta, até que foi engraçado – a velha ia começar a me xingar por ter entrado sem avisar, então viu a ◊ e mudou de expressão na hora. Perguntou se era minha namorada. Eu disse que era uma amiga e logo já havia sido convidada para o almoço. Perguntei do meu pai, acho que ela ficou com vergonha de dizer que ele estava procurando emprego e deu uma resposta bastante vaga. Dei de ombros e fui puxando a ◊ para o meu quarto, ao que ela acenou um "tchauzinho" muito simpático pra minha madrasta.



Só quando sentamos no tapete puído que ficava na frente da minha cama é que eu percebi: eu tinha levado uma garota pra o meu quarto. Não que eu nunca tivesse "ficado" com uma garota, mas eram umas garotas que eu esbarrava em algum show e coisas assim, sabe? E então tinha uma menininha ajoelhada no meu tapete, olhando dos posters na parede à bagunça milenar que espalhava-se do guarda-roupa para o chão. Tive vontade de me bater pelos pensamentos inadequados. A gente estava lá para, para... Abri minha mochila e tirei um amarrotado livro de química. Ela abriu um sorriso enorme, puxou o caderno da bolsa e sentou mais perto de mim, para a gente estudar. Mais tarde, depois do almoço, quando ela ia indo embora eu me senti muito bem por de repente ter uma amiga. Fui com ela até o portão e nos despedimos acenando. Ela disse "até amanhã" e foi embora saltitando. Eu fui dormir meio tarde, olhando para os desenhos pavorosos que ela tinha dado para mim.