Issues escrita por Ana Hel Black


Capítulo 4
Quarta Parte




Nos dias que se seguiram, eu passei a andar com ela e se querem saber de uma coisa, eu deveria ter feito isso antes. ◊ sempre chegava cedo e ficava sentada no “nosso” canto, lá no fundo da sala. Todo mundo já estava achando que eu estava ficando com ela, mas eu não me importava, agora tinha uma amiga e ela era uma garota tão inteligente e tão engraçada que eu estava até esquecendo de roubar coisas do armário de remédios da minha madrasta.



Passei a chegar cedo na escola, pra ter mais tempo para conversar com minha nova amiga. Ficávamos desenhando num dos vários cadernos dela. Ela desenhava bem, traço de cartunista – e fazia uns desenhos muito... Não sei dizer bem mas eram desenhos de criaturas monstruosas, disformes, entrelaçadas por um traço em comum, às vezes cercando uma pessoa encolhida num canto de parede. Outras vezes dividiam o papel com fadas etéreas, mas tinham sempre aquela aparência de alucinação e eram tão bem feitas que poderia dizer que não foram inventadas, e sim vistas. Chegava a ser impressionante como exerciam um magnetismo um tanto quanto sinistro sobre o observador.



Então alguém comentou alguma coisa completamente sem graça sobre “o viado e a lunática terem filhos para abrir um show de horrores” e a corrente que estabelecia com um dos desenhos se quebrou.



Respondi com um palavrão e voltei a conversar com ◊. Ela estava com uma série de desenhos novos, eram uma sequência. O primeiro era o olho de uma garota, aí o próximo mostrava boa parte do rosto dela, cheio de desespero. Então aparecia o que ela estava fazendo no terceiro: cortando os pulsos com uma faca de cozinha e o último dava pra ver que a personagem estava largada no chão de um quarto completamente revirado. Eu dei um sorrisinho, não que fosse engraçado, mas foi para comentar que ninguém conseguiria se matar cortando os pulsos, o que era, por sinal, uma ideia péssima. “Eu sei” ela respondeu, sem desviar os olhos das caricaturas dos caras do Korn que ela estava fazendo para mim. Então continuou, sem mudar o tom de voz. “Só se a pessoa souber onde cortar... Mas quase ninguém sabe, não prestam atenção na aula de biologia.” Puxa, ela deu uma grande utilidade pra aula de Biologia! Eu ri de novo, e ela riu também. Disse que estava brincando. Acho que era por esse tipo de coisa que eu a achava uma das coisas mais absurdas e legais que vagavam por aí.



Logo estava também voltando da escola para casa com ela, pelo menos metade do caminho era o mesmo. E a companhia dela era tão agradável que cheguei em casa completamente despreocupado aquele dia, até me sentindo “feliz”. Até sinto uma vontade de rir, dessa vez com ironia, ao lembrar do que houve em seguida.



Dei com meu pai insistindo no carro, pra variar. Não sei porque ele tentava todo santo dia fazer aquela carcaça pegar. Perguntei, mais para provocá-lo do que por real curiosidade, se ele tinha encontrado um emprego novo. Como resposta ele resmungou um “moleque desocupado” e disse que talvez conseguisse um bico em uma oficina no centro da cidade. “Que bom” eu comentei, me debruçando sobre o capô aberto, para dar uma olhada no motor. “E você, parou de roubar os remédios da sua madrasta?” Não respondi. Meu pai estava ainda muito aborrecido por causa da pequena overdose. Me afastei do carro e fui rumando para dentro de casa, mas meu pai segurou meu ombro. “Não está bom assim” Continuei mudo, estava achando um saco meu pai de repente começar a dar uma que tinha que conversar com o filho. Droga, ele nunca se importou mesmo! Então eu disse “Não está bom desde que a mãe foi embora.” Meu pai respirou fundo, para não brigar comigo, e sentou numa cadeira velha largada ao lado da porta. Disse que eu tinha que aceitar que minha mãe não poderia mais voltar e que eu tinha que tomar um rumo, pois já tinha dezesseis anos e ele não ia me sustentar para sempre. “Não enche, pai” Aí ele se indignou. “Você vai acabar que nem sua mãe” Daí fui eu quem me indignei.