Issues escrita por Ana Hel Black


Capítulo 3
Terceira Parte






"Ôo, aberração! Vem cá!"


 


Eu virei para ver quem estava me chamando, mas não havia sido comigo. Eram o Rato, o Dinho e mais uns caras de outro ano, parados no extremo oposto do corredor que dava para o pátio implicando com outra pessoa que provavelmente tentava passar por eles. Ao mesmo tempo em que me senti aliviado por não ser comigo, me veio uma sensação estranha, como se quem quer que fosse estivesse tomando meu lugar de alvo favorito. Moleque estúpido que era, para ficar enciumado de ter alguém que não eu recebendo atenção, mesmo que um tipo completamente cruel de atenção. Foi só por um minuto, porque eles perceberam que eu estava olhando. Um baixinho disse alguma coisa para os outros e eles começaram rir.



Abaixei a cabeça e continuei meu caminho contrário a eles: não queria mesmo ir para o pátio, ia ser melhor fazer hora na portaria até eles saírem de lá.



Achei que eles iam falar alguma coisa, alguma ofensa, mas continuaram rindo, entretidos com quem quer que estivessem infernizando. Idiotas. Resmunguei qualquer coisa e passei pelo portão que separava o corredor da portaria. Era um portão de ferro, cinza, coberto de cartazes. Eu adorava matar o tempo de intervalo na portaria, quase nunca havia alguém por lá e o bedel me ignorava por completo. Era ótimo, eu me jogava num banco velho e passava todo o intervalo em companhia dos meus músicos favoritos... Eles que eram caras legais!



Uma gritaria sem tamanho atravessou o corredor, emergi do meu mundo cinzento e cheio de riffs distorcidos. Movido por repentina curiosidade, levantei e espiei pelo portão. Os caras estavam rindo compulsivamente de uma figurinha parada na frente deles, com as mãos na cintura, tentando a todo custo sobrepor os risos histéricos.



“Vocês não deveriam fazer isso, coitado. Ele é menor que vocês e...” ◊ falava, mas era interrompida por algum deles fazendo um barulho grosseiro. Aos poucos pessoas iam se juntando em volta, meio entretidas. De fato, era cruelmente engraçado uma menininha daquele tamanho, tentando por moral num bando de marmanjos todos com o dobro da altura dela. Ligeiramente enjoado (não tinha outro sentimento possível diante de uma cena tão estúpida) cruzei o portão e me aproximei da multidão. Todos estavam comentando de como ◊ era estranha, feia e abusada de se meter com os grandalhões manda-chuvas da escola. Senti muita pena dela, me deu uma vontade enorme de puxar ela dali e dizer pra não fazer isso nunca mais, mas... Eu era um covarde escroto e fiquei parado, enquanto ela defendia um moleque da sexta série que já tinha sumido no meio do povo. O inspetor de alunos apareceu, atraído pela aglomeração cada vez maior e começou a debandar o povo até que só sobraram eu, meio escondido por um armário quebrado encostado no corredor, Dinho e os amigos dele e a ◊, agora com os braços cruzados na frente do corpo e uma expressão injuriada, fios castanho-claros soltando do nó de cabelo que ela fazia no alto da cabeça.



“O que estava acontecendo?” perguntou o inspetor, desconfiado. Os moleques ficaram quietos, então a tampinha puxou um bocado de ar e começou a explicar que eles estavam aborrecendo um garotinho da sexta série e não deixavam ele passar do pátio para o corredor, aí ela foi até lá e disse para eles pararem, então como eles simplesmente riram, ela começou a falar um monte para eles, o que não adiantou em nada porque eles deveriam ter algum problema de ouvido ou cérebro. Eu ri com a conclusão dela. Se eu dissesse isso para um daqueles caras eu ia no mínimo levar um murro no nariz, mas acredito que eles não fariam isso com uma menina de um metro e meio, ainda mais na frente do inspetor.



Quando questionados se era verdade o que ◊ tinha dito, eles todos olharam para o chão ou para os lados. Rato murmurou alguma coisa que eles estavam brincando, ao que foi arremedado por um “não me pareceu brincadeira”. Mal podia acreditar: ela estava lá a pouco mais de duas semanas e já tinha feito o time de basquete baixar a cabeça e sair devagar para o pátio, sob um olhar feio do inspetor. O inspetor esperou que eles sumissem, então contou para ela que nenhum funcionário conseguia controlar os “garotos” e que eles praticamente mandavam na escola e que se não fosse uma instituição estadual, já tinham expulsado eles de lá e avisou que era bom ela tomar cuidado, que eles podiam querer se vingar da garota por ter repreendido eles na frente da escola inteira. Deu um tapinha de apoio nas costas dela e voltou para seu posto próximo ao portão, não sem antes me lançar um olhar desconfiado, quando passou por mim, encostado na lateral do armário.



A garota ficou parada no meio do corredor, então andou onde eu estava. “Oi” Foi tudo o que ela disse. Eu respondi e perguntei se estava tudo bem, ela sorriu pra mim, com aquele olhos prateados faiscando como se fossem irreais. Disse que ela foi ótima pondo moral naqueles idiotas e que realmente não teve graça nenhuma. Ela sorriu de novo e deu de ombros, enquanto voltávamos juntos para a sala. Perguntei se ela queria ouvir músicas e botei o walkman na mão dela, falei que ela podia ficar com ele até o fim da aula e "dane-se a bateria", que hoje ela merecia muito mais.