A Hospedeira - Coração Deserto escrita por Laís, Rain


Capítulo 19
Verdade




Never really said too much
Afraid it wouldn't be enough
Just try to keep my spirits up
When there's no point in grieving
Doesn't matter anyway
Words could never make me stay
Words will never take my place
When you know I'm leaving
(Light on - David Cook)

 

POV – Estrela

— Hmm... Estrela...? Eu posso entrar? – Ouvi a voz hesitante de Mel na porta do hospital.

Meus olhos lacrimejaram involuntariamente. Eu estava habituada a ouvir essa voz apenas nas minhas lembranças, nos meus sonhos. Ouvi-la tão perto de mim, sabendo que sua dona realmente estava aqui, era algo que eu tinha tido pouco tempo ainda para registrar. Não podia ser verdade que eu tinha realmente conseguido.

— Sim, Mel... Ahn, Melanie – respondi, a voz embargada igualmente desconcertada.

Eu tinha Mel como minha irmã, herdei de Peregrina mais do que afeto por ela. Herdara também parte de sua mente. Peregrina compartilhara o corpo de Melanie com ela, seus pensamentos e sua atitude também, e eu sentia como se a conhecesse mais do que a mim mesma, mas era claro que ela não sentia o mesmo.

Ela entrou no quarto, dando um sorriso forçado para Doc, que remexia em algumas caixas em um buraco-armário ao lado da sua mesa, e para mim. Sua expressão era indecifrável, como ela faz – como todos os Stryder fazem – quando quer esconder o que está pensando, quando não quer que saibam o que está sentindo. Tomei como um mau sinal.

— Você está bem? – ela perguntou, mas seus olhos voaram para Doc.

— Sim, Estrela está bem – respondeu ele. – Apenas um pouco desidratada. Ela precisa ingerir líquidos com frequência nas próximas horas. As feridas da insolação vão se curar com o tempo, mas seria bem mais rápido se tivéssemos algum Curar – ele murmurou em tom desolado.

— Tudo bem – disse eu, inesperadamente. Não queria me sentir mais culpada ainda, até por privar Doc dos seus medicamentos milagrosos reservados aos moradores das cavernas. – Eu estou bem. Apenas com sede. — E eu estava. Sentia como se minha garganta estivesse com tantas bolhas quanto minha pele. Mas, ao mesmo tempo, sentia-me enjoada demais no momento para conseguir engolir alguma coisa.

— Claro – murmurou Doc, balançando a cabeça, constrangido. – Eu devia saber disso. Melanie? Pode ficar com ela enquanto eu vou à cozinha pegar um pouco de água? Não seria prudente deixá-la sozinha.

— Hmm, sim. Fico com Estrela.

Não questionei ou me impus. Melanie não voltaria aqui se não tivesse algo realmente importante para dizer. Assisti a Doc deixando uns papéis velhos de lado e atravessando a sala apressadamente, me lançando um último olhar clínico.

Incrível como seu humor nunca ficava recoberto de ódio por mais de meia hora. Para quem há minutos eu achava que me odiava mortalmente, agora ele estava atencioso como seria com qualquer outro enfermo, tratando de mim. Meus olhos ficaram marejados novamente. E eu nem me importava com o fato de que provavelmente o pior seria quando todos saíssem daquela linha: “Ah, a Alminha estúpida trouxe a nossa outra de volta! Vamos dar a ela segurança até conseguirmos que ela nos devolva o que queremos, então a jogaremos dentro de um criotanque, despachada para um planeta da galáxia mais próxima!”

Mel veio até o lado do meu catre, subitamente interessada na ferrugem das beiradas de ferro. Sua boca estava crispada e ela parecia pensar no melhor jeito para dizer algo.

— Melanie? Você quer me dizer alguma coisa? – indaguei, não gostava de protelações, por pior que fosse o que viesse depois delas.

Ela arrastou o catre à minha frente para mais perto e se sentou, suspirando.

— Estrela, você sabe que o fato de você ter chegado aqui com Peg viva mudou completamente... Tudo. Todos aqui dentro, os que mais sofriam com a perda dela... E os poucos que sabem que você está aqui... Bem... Certamente não há como eles ficarem muito felizes com a ausência dela. – Ela fez uma pequena pausa, os lábios se curvaram um pouquinho para baixo. – Então, você sabe quem sofreria mais com tudo isso.

É claro que eu sabia. Meu coração bateu em palpitações rápidas com a percepção, e uma parte de mim simplesmente não queria ouvir o que Melanie tinha a dizer.

— O que está tentando dizer? – perguntei mesmo assim, minha voz soando estrangulada.

— Bom, Estrela... É o Ian. – Ela olhou para o lado, então grunhiu. Parecia aborrecida e, de certa forma, brava. O resto da frase veio num jorro zangado. – Nós contamos sobre você para ele, e... Ian não quer vir!

Ian não quer vir.

As palavras rodaram na minha cabeça como vespas. Mas não foi o meu cérebro que elas picaram – apesar deste também ter aumentado o ritmo latejante —, foi o meu coração. Apertando-se e repuxando-se, encolhendo-se. Era assim que eu sentia meu peito. Simplesmente minúsculo. Porque a única pessoa que o completava, simplesmente não queria me ver. E não havia palavras para isso.

— Olha... Por favor, desculpe-me – Mel murmurou, e eu pensei ter visto seus olhos brilharem com lágrimas.

— Desculpar você? – consegui perguntar, sufocada. – Pelo que, exatamente?

— Por isso. Por Ian. Eu sei como você deve estar se sentindo. — Ela engoliu em seco. — Porque eu já senti isso. E eu sei como dói. Ser ignorada pela pessoa que você ama, mesmo sem pedir por isso, mesmo sem ter culpa. Sem pedir que acontecesse. Peg passou por isso, eu a fiz passar por isso. Mas pelo menos não foi ideia dela atravessar um deserto para um lugar onde ela sabia que sofreria. Em compensação, você... foi você que a trouxe, foi você quem devolveu o filho deles. Por que você quis, ninguém a obrigou. E depois de tudo, ninguém nem mesmo te agradece. Nem mesmo pode ouvir da voz... – Ela parou de repente, a voz embargada.

Eu queria dizer-lhe que ninguém tinha culpa, que eu sabia exatamente para onde estava vindo e o que sentiria. Que mesmo se as memórias não me assombrassem todas as noites, eu acabaria vindo para cá de todo o jeito, o que provavelmente não seria mentira. Queria dizer que eu entendia Ian, e que não me importava com sua atitude.

Mas a verdade é que eu me importava. Muito. Isso estava marcando o meu coração a cada dolorosa batida.

Então, tudo que fiz foi virar meu rosto para o travesseiro sob minha cabeça e fazer uma coisa que eu estava tentando ser forte para evitar, que eu estava prometendo a mim mesma não fazer. Eu chorei.

Senti-me vazia. Uma dor profunda percorreu meu corpo como se estivesse se espalhando por mim através do meu sangue. Havia algo de muito errado no fato de que minha simples presença causasse tanto sofrimento entre aqueles que eu amava.

Em algum lugar, Ian estaria feliz por saber que Peg estava viva, surpreendido e orgulhoso pela existência de John, mas infeliz porque era eu quem estava aqui.

Agora mesmo, Mel usava o que talvez fosse o resto de suas forças para ser solidária comigo e me fazer sentir bem-vinda, confortável. Isso porque ela era grata. Grata por eu ter trazido Peg de volta, não por eu estar aqui, não por eu ser quem eu sou.

Doc se mostrara preocupado e cuidadoso, não só porque este é o corpo de Peg ou porque há um bebê que precisa de cuidados dentro de mim, mas porque é parte de sua natureza. Eu sou sua paciente, não sua amiga.

Jeb, Jamie, Jared, enfim, aqueles que eu considerava como se fossem minha família, estavam revolvendo suas mentes em busca de uma maneira de me encaixar em seus quadros mentais. Uma desconhecida que os amava. Nada mais do que isso. Como se uma vez reescrevendo suas convicções sobre o mundo para fazer caber uma Alma nele não fosse o suficiente.

Havia certamente bons sentimentos por mim. Havia gratidão, cuidado, consideração, ternura... Talvez um dia houvesse amizade. Mas isso era tudo o que eu poderia ter, o máximo que poderia almejar. E eu deveria ser grata. Mas simplesmente não era o suficiente. Eu queria amor.

Era dele que meu coração estava preenchido. De amor. De uma necessidade profunda e urgente dessas pessoas à minha volta. De um desespero incontido e insano por ouvir a voz de Ian chamando meu nome. Por um só sentimento que fosse dedicado a mim. Estrelas Refletidas no Gelo.

E esse sentimento existia, mas não era aqui que ele estava. Era em algum lugar lá fora, correndo perigo por mim. Dentro do coração despedaçado de uma Alma que eu abandonei para viver esta aventura insana, mas que mesmo assim, nunca me abandonou.

Involuntariamente, corri meus olhos pelo cômodo em busca do semblante que me dava conforto quando eu sentia medo. Ansiei em vão pelos braços que me acalmavam quando eu chorava. Revi mentalmente todas as vezes em que eu tinha acordado no meio da noite com um nó dentro de mim e Logan o tinha desfeito, afastando a dor com suas palavras, com a simples segurança que havia em sua voz de que tudo ia ficar bem. De que ele nunca iria embora. Não importava o quanto eu sofresse por Ian e o quanto esse sofrimento partisse seu coração. Como eu tinha sido injusta com ele! Como eu o tinha feito sofrer!

Mel segurou minha mão e depois acariciou meu rosto e meu cabelo, um gesto familiar e bem-vindo que eu reconhecia de minhas lembranças. Exceto que não eram minhas lembranças. As únicas lembranças que eram realmente minhas tinham apenas um protagonista. E ele não estava aqui. Tudo o que eu tinha feito era feri-lo. Eu o tinha deixado pra trás e me senti tremendamente só, tremendamente culpada ao perceber isso.

— Sinto muito, Estrela – disse Mel. – Ian só está... confuso. Eu acho. Foi assim com Jared também quando eu e Peregrina chegamos aqui. Mas ele pediu que eu dissesse que você é bem-vinda... Ele só não consegue dizer isso pra você agora. Mas você sabe... Você se lembra de como foi antes. Tudo vai melhorar.

— Tudo bem, Melanie. Eu entendo, na verdade. Não é como se eu não soubesse o que me esperava quando vim para cá. É só que imaginar como seria e viver esta realidade são coisas bem diferentes.

— Eu não sei o que dizer. Tenho certeza de que você sabe o quanto o que está fazendo é importante para nós. O quanto somos gratos. Mas eu sei também que isso não é suficiente.

— Não posso negar o bem que me faria uma mentira piedosa, Melanie. Mas acabo de me dar conta de que algo de verdade está esperando por mim lá fora. Eu só queria poder refazer certas coisas.

Eu só queria poder pedir perdão a Logan. Só queria que ele me dissesse que vai ficar tudo bem.

— Com licença – disse uma voz familiar que cortou o ar, atingindo meu coração em cheio. – Você tem um minuto para mim?



Notas finais do capítulo

Quem será?
É isso, lindas. Espero que gostem.