A Hospedeira - Coração Deserto escrita por Laís, Rain


Capítulo 18
Confronto




So break yourself against my stones
And spit your pity in my soul
You never needed any help
You sold me out to save yourself
And I won't listen to your shame
You ran away - you're all the same
Angels lie to keep control...
My love was punished long ago
(Snuff - Slipknot)

 

POV — Logan

Algumas horas tinham se passado desde o momento em que Jeb tinha desaparecido com Estrela. Era a sensação mais torturante e estranha do mundo: impotência. Tudo o que eu podia fazer era esperar e imaginar mil cenários possíveis para as próximas horas.

No mais sombrio deles, os humanos revoltavam-se contra Estrela e, mesmo com John em seu ventre, eles não se importariam, destruindo à sua maneira selvagem os únicos seres com os quais já me importei. Eles viriam atrás de mim a seguir, quem sabe tendo matado Jeb e rompido qualquer trégua. Eu os deixaria me matarem, não conseguiria mesmo continuar vivendo depois disso, mas eu levaria alguns deles comigo.

Meu sangue ferveu com essa imagem. Estrela tinha razão, havia muita violência dentro de mim. Era preciso controlá-la, mantê-la adormecida. O quanto fosse possível.

Desviei-me então para outro cenário. Um tão desolador quanto este deserto, incômodo como o calor que me queimava, enfraquecendo meu corpo e embrulhando meu estômago. Ainda assim, era menos pior do que o anterior. Pelo menos nesse, Estrela e John ficavam vivos. Eu é que era descartado de sua história.

Nesta versão, Ian veria Estrela e se apaixonaria por ela. Era provável, não era? Ela ocupava o corpo que ele amava, que pertencia a ele pelas formas humanas de amar. Ela carregava um filho dele... Seria tudo tão simples. Estrela viria até mim implorando por perdão e para que eu não revelasse o paradeiro de seus humanos. E eu não o revelaria. Tampouco a perdoaria, porém. Mesmo assim, eu iria embora garantindo-lhe que ninguém mais saberia de seu esconderijo, e eles então viveriam felizes para sempre.

Pelo menos até o momento em que eu arranjasse uma nova hospedeira para Peg e viéssemos juntos reivindicar nosso lugar nesse mundo distorcido.

Minha nossa! Meu hospedeiro se lembrava do que era uma novela e eu estava parecendo um personagem de uma. Mas já que estávamos no reino da ficção, eu podia imaginar ainda outro cenário. Um bem mais agradável para mim, embora não o fosse para Estrela.

Os humanos não a aceitariam, eles destruiriam seus frágeis sentimentos deixando claro que jamais a amariam, porque ela não era Peg, não era um deles. Ela se lembraria então do quanto eu a amo e de como sempre a protegi. Então esperaria que eles dormissem e, na calada da noite, fugiria e viria para mim, profundamente arrependida por ter me abandonado para vir até aqui. Nós partiríamos em alta velocidade e iríamos viver em outro lugar, quem sabe em outro país, onde criaríamos John como se fosse nosso filho. E eu nunca mais ouviria falar em Ian novamente.

Agora, esse era um bom desfecho! Era também o menos provável, já que nada nunca era fácil para mim. A espera estava me deixando louco e o sol e o calor eram atordoantes, mas não o suficiente para embotar meus instintos.

Às minhas costas, pude ouvir passos na areia. Não achei que fosse Jeb, porque ele não precisaria se esgueirar, não teria motivos para isso. Os passos pareciam mais pesados também, a respiração entrecortada denotava ansiedade.

Movi lentamente minha mão até que ela alcançasse a faca que eu tinha mantido por perto, convenientemente oculta no interior de uma jaqueta com que eu forrava o chão. Bem, eu não estava descumprindo meu trato com Jeb. Ele não tinha dito nada sobre armas brancas.

Era apenas uma garantia. Eu não pretendia realmente machucar ninguém, mas tampouco pretendia ficar à mercê dos humanos. Virei-me ligeiramente, apenas o suficiente para ver que havia alguém a alguns metros. Um homem. Ainda sem me levantar, sobre os ombros, eu disse:

— Estou aqui em paz, humano. Não quero fazer mal a ninguém. Mas não estou indefeso, como você pode ver. Você está armado?

Ele, quem quer que fosse, não respondeu, o que era apenas uma confirmação sem palavras da minha suspeita: ele tinha vindo me matar. Há que se admirar um homem que não mente para seu adversário.

— Não vim aqui brigar com você, Buscador – ele disse, para minha surpresa. — Mas também não estou indefeso, se quer saber. O que eu quero, porém, é simples. É só você não me criar problemas e sairemos ambos ilesos daqui. Devolva. Minha. Mulher.

Ian.

Mesmo sem vê-lo, reconheci-o de imediato. Essa solicitação tinha apenas um possível portador. Tudo o que eu menos queria era ter que vê-lo neste momento, mas as coisas que eu queria estavam fugindo de meu controle rápido demais ultimamente.

Senti a lâmina fria e reluzente em minhas mãos, contemplando as implicações desastrosas de ser Ian quem estaria do outro lado deste confronto. Se ele tivesse realmente vindo para me matar e estivesse munido de uma arma de fogo, talvez a mesma Glock com que fui ferido da última vez, a faca de nada adiantaria. Antes que eu pudesse chegar perto o suficiente para fazer algum estrago, estaria morto ou seriamente ferido.

Se ele não tivesse uma arma de fogo, entretanto, a situação não seria muito melhor, pois embora ele dissesse que não tinha intenção de me matar, quando me reconhecesse o confronto entre nós seria inevitável. Eu não queria realmente matar ninguém, eu era uma Alma antes de tudo, mas algo dentro de mim borbulhava quando se tratava de Ian. Eu podia imaginar os olhos de Estrela para ele enquanto ele tocava a pele que era minha, enquanto ele recebia o amor que deveria ser meu.

Meus olhos escureceram e eu podia facilmente imaginar a lâmina afiada atravessando a carne dele e seu sangue tingindo o chão em que pisávamos. Podia imaginar também como me sentiria quando esse furor passasse e eu voltasse a mim, vendo que tirei a vida de alguém e deixei a violência que mora em meu hospedeiro, e que ele tinha passado a vida tentando domar, ficar irreversivelmente fora de controle. Podia imaginar o olhar de Estrela para mim quando visse que eu tinha o sangue de Ian em minhas mãos.

Então larguei a faca, jogando-a longe num movimento exagerado e barulhento para que ele percebesse que aquela era uma proposta de paz. Ou o mais próximo que eu chegaria de uma. Eu me levantei e me virei para ele, esperando seu reconhecimento, mas esse pareceu não vir. Não sei por que, mas o fato de Ian não saber que fui quem tirou tudo o que ele tinha me irritou. Eu queria que ele soubesse que eu era capaz de fazê-lo sofrer tanto quanto ele me fazia.

— Por que você fez isso? – ele perguntou, sem mudar a expressão. – Por que se livrou da sua arma?

— Eu fiz um acordo com Jeb. E fiz também uma promessa a Estrela. Ela me fez jurar que jamais machucaria você novamente, Ian. Devia mesmo ter imaginado que você viria. Você demorou um pouco.

Ele largou a arma que trazia também, respondendo ao meu gesto de paz. A Glock, como eu suspeitava, foi colocada no chão sinalizando que se houvesse um combate, ele seria honesto e limpo.

— Como você sabe quem eu sou?

— Estrela me falou sobre você. Você é a pedra no meu sapato, a razão pela qual ela não pode me amar.

Uma expressão estranha de reconhecimento passou pelo rosto dele. E também um sentimento que não cabia bem nas lembranças que eu tinha dos rostos humanos, uma expressão bem mais comuns às Almas: compaixão.

— Compreendo. Eu sou seu Jared – ele disse, dando uma espécie de risada amarga.

— Eu não sei do que você está falando. Quem é Jared?

— Parece que ela não te conta tudo, afinal, não é? – A compaixão desaparecera rapidamente, dando lugar ao ar provocador. – Deve ser porque ela sabe que não pode confiar inteiramente em alguém como você.

Aquilo me deixou furioso. Quem ele pensava que era para questionar as razões de Estrela, quando tudo o que ela estava fazendo era proteger esses malditos humanos? Mais do que tudo, aquilo me deixou furioso porque era verdade. No entanto, não era direito dele falar sobre aquela verdade, sobre a minha relação com Estrela.

— E o que você sabe sobre mim, humano arrogante? Você nem sequer me reconheceu.

— Nós já nos encontramos antes?

— Ah, sim. Talvez você não se lembre porque estava ocupado demais se escondendo enquanto sua mulher lutava pela vida – disse eu, enquanto dobrava meus dedos na forma de uma arma e os apontava para ele imitando um disparo.

Eu sabia que aquela era uma declaração de guerra, mas era algo irreversível naquele ponto e eu próprio já não podia mais controlar a fúria que fervia dentro de mim. Ela tinha que explodir em algum lugar, mesmo que fosse apenas em palavras. Mas a ira dele, como era típico dos humanos, explodiu de forma bem mais violenta.

Ian rompeu a distância entre nós num bote quase felino, rápido demais para que eu pudesse desviar. Suas mãos seguraram a parte de trás de meu pescoço, desequilibrando-me para frente, em direção ao seu joelho.

Quase que por instinto, coloquei uma de minhas mãos em seu rosto para afastá-lo. Isso me deu tempo de, com a outra mão, segurar seu joelho e aproveitar sua própria força para desequilibrá-lo, jogando-o para trás.

Teria sido um bom movimento se ele não estivesse ainda segurando meu pescoço, o que fez com que eu também tombasse junto com ele. Embora eu estivesse em posição vantajosa, o fato de ele ser bem maior do que eu, além de estar positivamente fora de si, cobrou seu preço. Sua mão esquerda posicionou-se em meu ombro direito, enquanto a outra me pegou logo abaixo das costelas no lado oposto, girando-me no ar numa espécie de alavanca.

Num instante, era ele que estava sobre mim e, antes que pudesse evitar, um soco forte fez meu olho latejar como se quisesse pular para fora. Eu coloquei meus braços sobre o rosto para defender os socos que vieram a seguir, mas o impacto daquele primeiro também tinha feito minha nuca bater com certa força no chão e eu fiquei tonto.

A sensação era familiar a este corpo, acostumado à dor, mas a raiva que se seguiu a isso era ainda mais, tornando-se quase parte de meus músculos. Eu tinha prometido a Estrela que não machucaria seus humanos, mas eu não tinha prometido a ela nada sobre deixá-los me fazer de saco de pancadas.

Ele estava sentado sobre minhas pernas, prendendo-me com seu peso no chão, o que impossibilitava qualquer movimento de meus membros inferiores. Mas com uma das mãos eu agarrei seu pescoço e o empurrei para trás, usando meu outro braço para empurrar seu tronco. Usando o máximo de minha força para levantar seu corpo de cima de mim, consegui livrar minhas pernas, colocando meu pé direito ao lado de seu joelho esquerdo, forçando-o a se desequilibrar. Com o outro pé, empurrei seu quadril, usando meus braços e pernas como alavanca para jogar todo nosso peso para o lado direito, girando-nos novamente.

A dor em meu rosto e em minha nuca me fez oscilar, mas meus músculos inundados de adrenalina e de ódio garantiram-me a força para aplicar-lhe uma gravata, passando um de meus braços por baixo e outro por cima de seu pescoço, travando-o sob meu peso.

Com as mãos livres, ele tentou se soltar, mas isso só fazia com que eu forçasse mais meu peso sobre sua garganta. Protegi meu próprio rosto mantendo-o abaixado ao lado de sua cabeça, mas, ainda assim, ele conseguiu acertar minha têmpora. Isso piorou minha dor, mas a pancada não foi suficientemente forte, já que seu ar estava acabando.

Eu mantinha o golpe frouxo apenas o suficiente para que ele não sufocasse, mas se ele continuasse a se contorcer, em breve desmaiaria. Se isso acontecesse, seria difícil alegar que estava apenas me defendendo e o trato com Jeb estaria desfeito de vez.

— Acalme-se! – ordenei. – Pare de se mexer ou você vai desmaiar.

Ele me socou novamente, dessa vez no rim. Apesar de não ter sido uma pancada muito forte, ela fez com que eu ofegasse, perdendo um pouco de meu próprio ar e afrouxando meu aperto em seu pescoço.

— Você roubou tudo o que eu tinha! – disse ele, com voz estrangulada.

— Não, Ian. Você perdeu tudo o que tinha! Mas agora Estrela trouxe tudo de volta pra você e eu é que estou perdendo tudo o que tenho.

— Encontre uma hospedeira para a sua mulher e leve-a daqui. Eu não ligo! Eu só quero a minha mulher e meu filho de volta!

O quê?

— Estrela te disse que devolveria a hospedeira? Ela disse a você que isso seria possível?

— Ela não precisa dizer nada. Nós já fizemos isso antes. Peg nos ensinou, porque, ao contrário de você e sua namoradinha, ela não queria ficar com nada que não lhe pertencesse.

Tudo ficou preto de repente e eu me levantei, soltando-o. Se Peg fez isso, se ela traiu sua própria espécie revelando o único segredo que protegíamos a qualquer custo, então Estrela sabia o que os humanos fariam quando ela chegasse aqui. E mesmo assim ela veio. Ela estava disposta a entregar-se a esses carniceiros. Quem sabe se eles saberiam a forma certa de fazê-lo ou se a matariam no processo? Quem sabe o que eles fariam com ela quando a extraíssem de sua hospedeira, mesmo que a tivessem retirado inteira?

— Ela veio aqui para se entregar! – exclamei, atônito. – Eu pensei que ela tivesse vindo porque queria viver com você. Nunca entendi a insistência dela em ter Peg sempre por perto. Como eu pude ser tão idiota? Peregrina é uma traidora!

— Cuidado com o que fala! – disse Ian, massageando a própria garganta. Aparentemente, ele estava ciente de que tinha acabado de me dar o golpe mais forte de todos, por isso não estava mais tentando me socar.

— Como Estrela está se sentindo com tudo isso? Quanto a perder John e... não ficar ao seu lado?

— Eu não sei. Não a vi. Eu não consegui.

— VOCÊ O QUÊ? – gritei, furioso.

Era a minha vez de perder o controle. Eu imaginei a dor dela com a rejeição dele. Imaginei o quanto eu queria estar com ela e em tudo que eu estava sacrificando para impedir que ela sofresse. Enquanto ela fazia tudo por alguém que não era nem capaz de lhe dizer “obrigado”. Aquilo foi demais para mim.

— Eu não posso ir vê-la. Tem ideia de como seria para mim ver outra pessoa no corpo de Peg, carregando nosso filho? Eu não quero conhece-la!

— Você. Não. Quer?

Tudo o que eu estava segurando escapou do meu controle, como se as barragens de uma imensa represa tivessem cedido. Parti para cima dele, cego de ódio. Pelo visto nossa briga não tinha acabado. Meu corpo todo foi impulsionado para frente num soco que desembocou com toda a minha força no rosto dele. O impacto fez com que ele cambaleasse para trás e aproveitei para socá-lo outra vez, no estômago. Eu estava absolutamente fora de controle quando ouvi o clique de uma arma em minha cabeça.

— Pensei que podia confiar em você, Logan – disse a voz de Jeb, enquanto eu parava o próximo golpe no ar.

Quando me virei para ele, entretanto, ele viu meu estado, o sangue que descia de um corte em meu supercílio causado pelo soco que tinha deixado meu olho inchado.

— Vejo que minha parte do trato também foi descumprida, não é, Ian? Quando vocês, garotos, vão aprender que quem manda aqui sou eu?

— Ah, qual é, Jeb! Você não pode ter acreditado que Mel não me contaria sobre o Buscador fazendo Peg de refém. E muito menos que eu não faria nada a respeito!

— O que eu sei é que você devia ter confiado em mim e respeitado as regras de minha casa. Já te dei passes livres demais, O’Shea!

— Desculpe, Jeb. Você tem razão. Eu simplesmente não pensei.

— Pois pense da próxima vez. Agora vocês estão aí quebrados e sangrando e não temos Curar ou Corta Dor o suficiente para os dois, principalmente porque Estrela vai precisar do pouco que temos se ela e Logan concordarem em fazer a extração – disse Jeb, incluindo-me na decisão e frisando meu nome, o que me deixou estranhamente orgulhoso.

Se eles concordarem? – perguntou Ian, indignado.

— Se eles concordarem – repetiu Jeb. – Você sabe que não é assim que fazemos as coisas por aqui, filho. Nós não forçamos as pessoas a entregarem suas vidas em nossas mãos.

— Mas Peg tem direito de viver! Ela tem direito de conhecer nosso filho.

— Mas quem o carregou até agora foi Estrela. Ela também precisa ser considerada.

— Estrela não é mãe dele, Jeb.

Eu estava tentando ficar quieto em respeito a Jeb, mas aquilo foi demais para mim.

— É assim que você fala, então? Ela é mãe dele, sim. Até agora fomos nós que cuidamos dele, sonhamos com ele e zelamos por sua vida dentro do ventre dela. Depois de tudo o que ela fez? Ela abriu mão de nosso futuro, fugiu de mim e quase morreu tentando fazer o que era certo pra você. E você nem mesmo pôde olhá-la nos olhos? Você nem sequer esteve no mesmo lugar que ela? Será que você sabe o quanto a está torturando?

— Eu... não tinha pensado por esse lado. Não pretendia fazê-la sofrer. Só me importei com Peg.

— Sei. Você nem considerou que ela tivesse sentimentos, não é? – bradei irritado.

— Escute aqui! Não me acuse das coisas sem saber.

— E não é o que você está fazendo comigo e com Estrela? Eu nem ligo para o que você pensa, mas ela passou dois meses chorando por você.

— Sinto muito. Estou cansado de tanta dor. Eu só queria acabar logo com isso. Mas não quero ver ninguém mais sofrer.

— Então por que é tão difícil ser um pouco gentil com ela?

— Simplesmente, Buscador, porque eu acordei hoje achando que a mulher que eu amo estava morta. E agora, horas depois, descubro que ela não está, mas que está fora de seu próprio corpo, que há outra no lugar dela. Essa outra carrega nosso filho, um filho que nem eu nem a mãe dele sabíamos que existia. Essa moça em questão, uma total desconhecida para mim, tem em suas mãos tudo aquilo que mais me importa, mas ela tem também um namorado maluco que está escondendo o criotanque de nós, porque não quer abrir mão do corpo e do filho que pertencem a Peg. Esse maluco é, por acaso, aquele que eu acreditava ser o assassino de Peregrina. Estão bons pra você esses motivos por que eu não consegui levar os sentimentos dos outros em consideração?

— Então deixe-me falar um pouco da minha situação. A garota por quem estou apaixonado também está grávida. Mas veja só que coisa: o filho não é meu. Nem dela! No entanto, nós dois o amamos. Eu. O cara que nunca amou ninguém na vida. Eu. Alguém que considerava os humanos uma espécie abjeta, sem o menor respeito por seu mundo e em hipótese alguma digna de confiança. Apenas uma doença a ser erradicada. Mas há dois meses, quando eu estava apenas cumprindo minha obrigação, essa louca entrou na minha vida. Algumas semanas depois, estou eu aqui, inundado por emoções humanas e confiando meu destino e o daquela que eu amo à espécie que eu costumava desprezar. E o pior? Essa maluca por quem estou apaixonado está tentando devolver sua hospedeira pra essa outra maluca que entregou a vocês a única arma que vocês teriam contra a nossa espécie. Você ainda acha que é o cara mais confuso aqui?

Ian e Jeb ficaram me olhando boquiabertos, avaliando-me de forma diferente agora que sabiam como eu me sentia. Parece que não se podia subestimar as palavras aqui. E eu que nunca achei que elas teriam grande valor!

— Tudo bem, rapazes. A terapia de grupo foi... interessante. Mas agora vamos voltar a ser homens práticos – disse Jeb, encerrando o silêncio constrangido. – Ian, você vai voltar lá para dentro e mostrar um pouco de respeito a Estrela.

Ian abaixou-se para recolher a arma largada no chão, mas Jeb interrompeu seu movimento, encostando de leve o cano do rifle no ombro dele.

— Está pensando que eu nasci ontem, filho? Deixe essa arma aí onde está.

— Qual é, Jeb? Você acha que eu vou fazer alguma loucura? Eu já estou bem.

— Sei, nada como umas pancadas pra fazer vocês sossegarem, não é? Mas eu não cometo o mesmo erro duas vezes. O que me leva a você, Buscador. Vou esquecer temporariamente que você descumpriu nosso trato, porque eu conheço meus garotos. Sei que foi Ian quem começou tudo isso, mas numa próxima vez vou esquecer que sou um cara de bem, está me ouvindo?

— Sim, estou ouvindo. Não vou descumprir minha palavra.

Ele assentiu sério, mas satisfeito, e eu gostei da sensação. Qualquer coisa nele fazia com que eu não ousasse contrariá-lo. Nunca aceitei ser mandado ou controlado por ninguém, mas eu respeitava um homem como Jeb. Algo me dizia que havia dentro dele revoluções parecidas com as que havia dentro de mim. Era ele quem cuidava da ordem entre seus humanos, de uma maneira similar ao que eu fazia na minha espécie. Além disso, eu gostava do jeito que ele me defendia, algo que meu hospedeiro nunca soube como era. Portanto, era uma emoção nova. Na verdade, eu acho que estava começando a gostar dele.

— Então agora que estamos resolvidos, você vai ficar mais um pouco aqui, até preparamos as pessoas para o fato de que há um Buscador entre nós. Mas eu vou ficar com você para impedir que algo assim – ele apontou descuidadamente para mim e depois para Ian, imundos de areia e de sangue – volte a acontecer.

— Até quando vou ter que ficar do lado de fora? – questionei, ansioso por ver Estrela.

— Até Estrela estar suficientemente bem para passar por um tribunal e todo mundo se acostumar com... Bem, com as novidades.

— Como é?

— Ouviremos o que você e ela têm a dizer em seu favor e diremos o que pensamos sobre você fazer nossa Peg de refém. Não vou mentir, Logan. Não acho que você vai angariar muita simpatia.

— Não me importo. Por que me importaria?

— Porque Estrela quer ficar conosco e se você quer ficar com ela.... Faça as contas!

Ficar aqui?

Contemplei chocado a possibilidade. Eu já tinha proposto algo assim a Estrela, mas foi num momento de desespero. Eu nunca pensei realmente que isso fosse possível.

Ian cuspiu um pouco de sangue que tinha se acumulado em sua boca, deixando claro com seu gesto depreciativo que não aprovava esses arranjos. O que me deixou ainda mais tentado a considerar seriamente a possibilidade. Jeb olhou para mim de forma inquiridora:

— E então, Buscador, o que me diz? Vai lutar por seu lugar entre nós ou não?



Notas finais do capítulo

Olá, queridas.
Espero que vocês tenham gostado, mas que tenham sofrido tanto quanto eu ao ver meus amores se batendo.
Um agradecimento especial ao Marlon, que me ajudou a "coreografar" parte dessa luta. E outro ao Thiago, que foi meu "sparring" e me ajudou a testar o que funcionaria ou não.
Se algum dia um de vocês ler isso, saibam que esse capítulo é dedicado a vocês.
E o agradecimento e a dedicatória mais especial, porque vem de nós duas, Rain e Laís, é para Kálita Borel, por sua linda recomendação. Obrigada, querida. Esse capítulo é também pra você.