Jedis e Padawans – Diferentes Tons de Cinza escrita por MarcosFLuder


Capítulo 7
O laço compartilhado


Notas iniciais do capítulo

Postando o capítulo. Creio que devo me estender um pouco a respeito da figura de Abeloth. Meu conhecimento desse personagem é bem limitado, basicamente foi o que tive de informações de canais como o do Norton Domingues. Como não é um personagem canônico, pelo menos ainda, me sinto livre para construí-lo do jeito que entendo ser melhor para a história. Por tudo que vi sobre a personagem, a primeira questão é admitir que dei uma nerfada na personagem, pois esta seria extremamente mais poderosa do que é mostrado nessa fanfic. Enfim, espero que quem esteja lendo essa fanfic, e já tenha lido alguma história sobre Abeloth nos Legends, não fique chateado comigo. No mais, espero que quem esteja lendo continue gostando da história.



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PLANETA PERIDEA

UM ANO E OITO MESES ANTES DO TEMPO PRESENTE

 

Sabine sentia a vida esvaindo-se dela a cada segundo. A morte tornando-se presente a cada tentativa frustrada de buscar um ar que lhe era negado. Seus pés acima do chão, seu corpo mantido no ar, como um fantoche nas mãos de seu manipulador. Sua garganta sendo esmagada por mãos invisíveis, mas muito poderosas. Ela ouvia a voz de sua Mestra, mas esta parecia distante, quase inaudível. Uma escuridão começava a surgir diante dela, quase como uma mortalha fúnebre sendo usada para cobrir todo o seu corpo. Ela já estava quase abandonando-se ao seu destino quando a voz de sua Mestra soou, dessa vez bem audível, não em seus ouvidos, mas em sua própria mente.

 

“Sabine, ouça-me Sabine” – a voz de Ahsoka dando-lhe novas forças – “use sua ligação com Shin, tente chegar até ela”.

 

Sabine Wren nunca deixou de ser uma lutadora. Mesmo em seus momentos mais baixos, nas suas derrotas e fracassos, ela nunca se permitiu desistir. O breve segundo em que isso quase aconteceu foi deixado de lado e ela deu tudo de si para se conectar com a Força. Era através dessa conexão que ela buscava chegar até Shin, até o laço compartilhado que descobriu ter com ela recentemente. O tempo pareceu parar para a mandaloriana, a falta de ar cada vez mais sentida não impedindo que a conexão fosse feita. Na vastidão escura em que se encontrava agora ela podia gritar por Shin, caminhando mesmo que às cegas, em busca daquela que era a sua única chance de salvação.

O medo da morte sempre esteve presente na vida de Shin Hati. Desde a infância, na primeira vez que a Força se manifestou nela. Ela via o medo no olhar das pessoas se transmutar em diferentes sentimentos. Havia o ódio pelo que era desconhecido, mas a ganância também se fazia presente, mesmo entre os que tinham a obrigação parental de protegê-la. As lembranças vinham aos montes, tanto tempo depois de terem sido enterradas em seu inconsciente. Um casal que devia ter sido seus pais entregando-a para as sinistras figuras de vermelho. O desespero dela em ser levada a força, soando em ouvidos surdos aos seus apelos. A dor que sentiu durante o ritual surgia diante dela como se estivesse passando por toda aquela agonia de novo. Dessa vez, no entanto, não havia a figura salvadora de Baylan Skoll para resgatá-la. O sofrimento parecia infindável, a agonia se estendia até muito além do que lembrava. Tudo isso até que uma voz começava a soar de muito longe, um grito pelo seu nome que ela reconheceu assim que o ouviu da primeira vez.

Sabine continuava gritando o nome de Shin pela vastidão escura onde continuava andando. Não havia uma direção definida, mas apenas o desespero dela por fazer contato, por encontrar sua antiga inimiga. Aos poucos a vastidão escura começava a ser iluminada. Um caminho surgia diante da jovem mandaloriana. Uma visão longínqua se formava, de alguém que ela reconheceu de imediato. Ao mesmo tempo, novas visões surgiam também. Imagens que ela não poderia ter visto pessoalmente, mas pareciam ter sido tiradas de sua mente, como se lembranças suas fossem. A agonia de seu mundo. A Noite das Mil Lágrimas se desenrolando na sua frente, como se ela as tivesse presenciado pessoalmente, como se as tivesse vivido em sua integridade, tal como aconteceu com o restante de sua família, de seu clã. Ela viu sua mãe, pai e irmão morrendo na sua frente, com todos lhe perguntando porque ela não estava lá com eles.

 

“Ignore essas imagens, Sabine” – era a voz de Ahsoka de novo em sua mente – “é Abeloth tentando se alimentar da sua culpa e do seu sofrimento”. “Concentre-se em Shin, na ligação de vocês duas”.

 

“Eu não consigo, Ahsoka” – Sabine ouve sua própria voz dentro de sua mente – “Era para eu estar lá com eles”.

 

“Tenho certeza de que nenhum deles, nem sua mãe, pai, ou seu irmão, quereriam isso, Sabine” – a voz de Ahsoka soando muito confortadora na mente da jovem mandaloriana – “Você consegue Padawan, eu confio em você”.

 

As lágrimas ainda caiam abundantes pelo rosto de Sabine, mas ela seguiu os conselhos de sua Mestra. Sua mente deixou de lado as lembranças que não eram suas e se concentrou no que realmente se lembrava de seu irmão, pai e sua mãe. Uma lembrança de infância veio à sua mente, Tristan ensinando-a no uso do blaster, ambos fazendo isso escondidos dos pais, numa cumplicidade que trouxe um sorriso ao rosto úmido de lágrimas da jovem mandaloriana. Ela se lembrou dos constantes abraços do seu pai. De sua mãe, veio a memória da vez em que teve sua vida salva por ela, do olhar de aprovação que viu naqueles olhos frequentemente tão frios, um olhar que Sabine sempre buscou ver. Ela se fortaleceu nessas lembranças e voltou a chamar por Shin, gritando o seu nome até finalmente vislumbrar a figura inconfundível diante dela.

 

“Shin, por favor Shin” – voz de Sabine ganha um tom de agonia agora – “não a deixe fazer isso comigo, por favor”.

 

PLANETA LOTHAL – TEMPO PRESENTE

 

A visão de Abeloth era assustadora para as duas jovens. O rosto tinha um aspecto indefinido, como se fosse opaco, mas a horrenda fileira de dentes atraia o olhar, mesmo causando um horror até quase a ânsia de vômito, em Sabine e Shin. Elas se mantinham juntas, os corpos colados, as mãos ainda entrelaçadas. A risada da criatura ecoando nelas como um som de morte. Lembranças vindo à mente delas, de seus piores momentos, dos medos mais presentes, dos temores mais escondidos. Ambas sabiam que Abeloth se alimentava disso, se deleitava em qualquer sofrimento que poderia causar. Suas mentes se uniram na Força, seus pensamentos buscando expulsar a influência maligna que queria controlá-las.

 

— “Crianças tolas, acham mesmo que podem me enfrentar?”.

 

— “Nós podemos e vamos” – a voz de Sabine procura emular uma segurança que ela não sente de verdade – “você não vai controlar as nossas vidas, sua desgraçada”.

 

“Quanto mais próximas vocês duas ficam, mais eu me fortaleço” – a voz de Abeloth soa provocativa na mente das duas mulheres.

 

— “É isso que você quer nos fazer acreditar” – é Shin quem fala agora – “nos manter separadas para nos atacar melhor. Não vamos cair nessa de novo”.

 

— “Acha que eu não sei porque você preferiu ir embora?” – Abeloth dirige sua fala à Shin – “você tem medo do abandono, que ela te deixe como todos a deixaram antes. Você teme ser mais uma na longa fila de escolhas erradas dela” – a mesma voz se dirige a Sabine agora – “e você a deixou partir porque tem inveja dela, do seu poder, da sua conexão com a Força. No fundo você acha que ela seria uma Padawan muito melhor para a sua Mestra”.

 

“Cala a boca, sua maldita” – como se tivessem combinado, Sabine e Shin gritam juntas. A conexão delas com Abeloth sendo cortada de imediato. Ambas interrompem os seus respectivos estados meditativos, não sem antes sentirem o eco da risada maligna de Abeloth em suas mentes.

 

Sabine e Shin sentem grande dificuldade de respirar, seus corpos estão tremendo, os corações batendo em ritmo acelerado. Os olhares de ambas voltados uma para a outra. Aos poucos as duas jovens vão se acalmando. O silêncio entre elas se mantém, nenhuma das duas com coragem para abordar o que lhes fora dito por Abeloth. Elas sabem que é um erro evitar a conversa. Foi muito às duras penas que aprenderam isso em Peridea, durante o tempo em que foram obrigadas a conviver naquele lugar. O pensamento de chamar Ahsoka surgiu em ambas, mas logo foi descartado. Elas precisavam enfrentar isso sozinhas.

 

— Você sente mesmo inveja de mim? – Shin faz essa pergunta quase que sussurrando – você temia mesmo que Ahsoka a deixasse por mim?

 

— É claro que eu tenho inveja de você, da sua capacidade de se conectar com a Força – Sabine dá um suspiro – sobre a Ahsoka me trocar por você, em minha cabeça eu sei que é bobagem, mas havia sim um medo escondido, bem ali no fundo.

 

— Abeloth usa isso contra nós – Shin coloca a mão no ombro de Sabine – o único jeito de combatê-la é sendo absolutamente honestas uma com a outra.

 

— Sobre isso eu… hã… eu... tenho estado... com alguém. Creio que você logo conhecerá o Arlo – um rubor surge no rosto de Sabine, ela evita olhar para Shin – eu não…

 

— Você não me deve nenhuma explicação sobre isso, Sabine – há um ar de serenidade no rosto de Shin, ela até tenta sorrir.

 

— Abeloth vai tentar usar isso contra você – Sabine volta a olhar para Shin.

 

— Deixe a desgraçada tentar – a mandalorina nota a determinação no rosto de Shin – vamos enfrentá-la juntas. Ahsoka também nos ajudará. Foi assim em Peridea, será assim aqui também.

 

PLANETA PERIDEA

UM ANO E OITO MESES ANTES DO TEMPO PRESENTE

 

Ver o olhar de dor e agonia de Sabine só fez aumentar o desespero de Shin. Mas o desespero é um péssimo aliado. Todas as lições que aprendera com Baylan vinham a sua mente feito ondas. Entender que as emoções são partes de nós, jamais negá-las, mas nunca permitir também que elas nos dominem, em vez disso, sempre usando-as em nosso benefício. Jamais reprimir as emoções, como a velha ordem recomendava, mas sempre fazer delas uma ferramenta. Shin focou em tudo isso. Na vastidão escura onde se encontrava, ela buscava uma saída, que sabia, era se conectar com a Força. Nunca em sua vida ela sentiu tanta necessidade de fazê-lo, nunca em sua vida ela se esforçou tanto para buscar essa conexão. Um sentimento que estava lá, mas que ela não queria reconhecer como seu, o medo que toma conta dela, de nunca mais ver Sabine Wren outra vez. Ela toma esse medo em suas mãos e faz dele a arma que irá libertá-la.

Sabine continuava sentindo a vida se esvaindo dela a cada segundo. A conexão com Shin sumindo enquanto sente a escuridão envolvendo-a cada vez mais. Ainda assim, ela não ia desistir. A mandaloriana lutaria enquanto ainda houvesse um sopro de vida nela. Ela já não lutava mais contra o aperto de Abeloth em sua garganta. Toda a sua energia estava concentrada em manter o contato com Shin. Parecia apenas uma questão de segundos agora, os últimos vestígios de vida deixando-a de vez. Foi então que ela sentiu algo, o aperto em sua garganta diminuir, seus pés tocando novamente o chão. Seu olhar se volta para figura diante dela. A visão horrenda da fileira de dentes ainda estava lá, mas havia algo diferente no olhar. Sabine desaba no chão, sentindo o ar voltado para ela, seu corpo em convulsão, tentando recuperar-se da agonia a que foi submetido.

Foi com grande alívio que Ahsoka viu Sabine no chão, ainda que se recuperando de sua quase morte. A conexão com sua Padawan lhe permitindo ver que a conexão dela com Shin salvou-lhe a vida. O alívio de Mestra de Sabine é breve. Um barulho de pedra rolando a faz perceber que Baylan se recuperou do golpe que sofreu. A togruta vê quando o homem imenso avança de novo para cima dela. A luta entre os dois Mestres Jedi é intensa. O som de seus sabres de luz se chocando reverberando pelo ar, junto com as faíscas do contato. Apesar de toda a sua agilidade e eficiência em combate, Ahsoka percebe que essa luta pode não acabar bem para ela. Baylan Skoll tem no mínimo o mesmo nível de habilidade e experiência de luta que Ahsoka, mas é muito mais forte. Se conectar com ele na Força é sua melhor chance.

 

— “Mate-a meu filho, mate de vez o último vestígio dos deuses de Mortis” – a voz de Abeloth na mente de Baylan tem um indiscutível tom de autoridade, mas não está mais sozinha agora.

 

— “Olhe para Shin, Baylan” – a voz de Ahsoka pode ser ouvida na mente do jedi caído agora – “veja o sofrimento que Abeloth está impondo a ela. Veja o que a sua aprendiz quase foi obrigada a fazer com Sabine”.

 

— “Não dê ouvidos a ela, meu filho, faça o que tem de ser feito” – a voz de Abeloth ainda tem um tom de autoridade, mas tanto Ahsoka quanto Baylan notam uma pequena vacilação.

 

— “Você percebeu também, não foi Baylan?” – Ahsoka retruca – “ela está com medo. Abeloth sabe das suas dúvidas. Shin é só um receptáculo para ela, mas Abeloth sabe que sua aprendiz é muito mais do que isso para você”.

 

A concentração de Ahsoka estava muito mais direcionada para evitar os golpes de Baylan, enquanto se focava em atingir sua mente. Ela sabia que era um plano arriscado, mas era a sua melhor chance. Ela também olhava para Sabine, esta aos poucos se recuperando, mas sendo também dominada por Abeloth. Era possível ver isso na sua postura passiva, apenas olhando a luta, o olhar inexpressivo e sem vida. Foi então que a viu sacando seu blaster e apontando para Ahsoka. Esta usou a Força para manter Baylan afastado, seu olhar voltado para sua Padawan, vendo o quanto ela tentava resistir.

 

— “Não resista Sabine, atire” – era a voz de Ahsoka na mente de sua Padawan. Foi apenas um segundo de confusão antes de Sabine atender o pedido de sua Mestra, o tiro do blaster sendo rebatido pelo sabre de luz de Ahsoka e atingindo Baylan em cheio no ombro.

 

Ver o resultado do seu tiro meio que tira Sabine Wren de seu transe. Ela guarda o seu blaster e se vira em direção a Shin. Deixando de lado o nojo que a visão da fileira de dentes lhe causava, ela vai em direção à sua antiga inimiga. É um movimento rápido e Sabine não sabe se foi por ter pego Abeloth de surpresa, ou se Shin, de alguma forma, conseguiu recuperar um certo controle. O fato é que a mandalorina não é jogada longe pelo poder da Força e consegue agarrar Shin, fixando-se direto nos olhos dela. Sabine deu tudo de si para fortalecer ao máximo a conexão com a outra jovem, deixando de lado tudo o que era dito em sua mente por Abeloth.

Ahsoka podia sentir a conexão entre Sabine e Shin. Não havia o que pudesse fazer por elas. Era uma luta que as duas teriam de enfrentar sozinhas. Ela viu Baylan levantando-se, ainda atordoado com o tiro de blaster. A Mestra de Sabine sente algo, uma conexão. Ela poderia aproveitar-se e atacá-lo. Em vez disso, tenta novamente se comunicar com ele através da Força. Ahsoka consegue ouvir a voz de Abeloth na mente do Jedi caído. Sua voz própria voz tentando se contrapor na mente dele. Ela o vê erguendo o seu sabre de luz, mas nada faz. Em vez disso ela dá um passo à frente, praticamente se oferecendo para o ataque dela. O sabre de Baylan permanece erguido e Ahsoka vê a súplica nos olhos dele. Ela sabe o que fazer. É apenas um movimento rápido e ela enfia seu sabre de luz perfurando o corpo de Baylan de um lado a outro.

A togruta vê o corpo de Baylan desabando diante dela. Um grito lancinante é ouvido, mas não é o de Baylan. As três mulheres acabam dobrando seus joelhos, suas mãos nos ouvidos, pois o grito parecia perfurar suas cabeças. Aos poucos o barulho cessou. O alívio tomou conta de todas. Sabine e Ahsoka olharam para Shin, ambas vendo suas feições normais, a horrenda fileira de dentes não mais visível. O alívio que Mestra e Padawan sentiram não durou muito, pois viram no rosto da outra jovem uma nova expressão de agonia. Shin deu um grito, diferente do grito anterior, pois era um grito perfeitamente humano. Sabine só precisou virar sua cabeça para entender o motivo.

 

— Mestre – Shin correu até onde estava o corpo de Baylan – não me deixe, Mestre, não me deixe – ela gritava, abraçada ao corpo de Baylan, seu gritos só cessando quando sentiu a mão acariciando o seu rosto.

 

— Shin, Shin – a voz de Baylan tinha um tom de agonia final, mas também passava um tom de alguém que recuperara o seu próprio arbítrio. Ele toca suavemente a trança padawan de Shin – sinto muito, Shin, por ter levado você a este caminho. Eu estava com tanta raiva… não fui capaz de ver…

 

— Não fale, Mestre, por favor, poupe suas forças – as lágrimas caiam abundantes do rosto de Shin.

 

— Em outros tempos haveria um ritual, palavras seriam ditas – ele continuava acariciando a trança padawan de Shin – só que esses tempos acabaram – mesmo em sua agonia, Baylan fez um movimento rápido, uma pequena faca sendo retirada de algum lugar de suas vestes. Ele cortou num único golpe a trança Padawan de Shin, com esta reagindo com um arregalar de olhos.

 

— O que… o… o que você fez, Mestre?

 

— Não me chame mais assim, nunca mais se refira a mim dessa forma – a voz de Baylan ganha um tom cada vez mais agonizante. Sabine procura se aproximar, mas é detida por um suave gesto de Ahsoka, ambas ficando alguns passos atrás de Mestre e aprendiz – diga o meu nome, diga o meu nome, Shin.

 

— Ba… Baylan – Shin pronuncia o nome dele entre muitas lágrimas.

 

— É assim que você deve se referir a mim daqui por diante – ele acaricia o rosto todo úmido de lágrimas de Shin – você fez por merecer essa conquista – a mão que acariciava o rosto se desloca agora para o ombro de Shin – foi uma honra, e uma imensa fonte de orgulho, ter sido o seu Mestre, Shin Hati.

 

A mão deslisa do ombro de Shin lentamente, passando pelo braço dela, até cair no chão. Baylan Skoll está morto e sua antiga padawan grita em desespero. É um sentimento de solidão e desamparo que toma conta dela, enquanto se debruça sobre o corpo de seu antigo Mestre. O choro se mantém forte. Próximo a ela, uma Sabine também começa a chorar, é um choro silencioso, lágrimas caindo discretas por seu rosto. Ainda hesitante, ela se aproxima de Shin. Sem capacidade de articular quaisquer palavras de consolo, tudo o que faz é colocar sua mão sobre o ombro da outra

mulher. A jovem mandaloriana sente o corpo de Shin enrijecer ao seu toque. Muito lentamente ela se põe de joelhos, se virando para encarar sua antiga inimiga. Mas é quando se vira um pouco mais e vê a figura de Ahsoka Tano diante dela, que a expressão no rosto de Shin muda.

 

— Você, você matou o meu Mestre – a voz de Shin ganha tom de fúria, com ela se levantando e sacando o seu sabre de luz em direção de Ahsoka.

 

— Ela não teve escolha, Shin – Sabine se volta para Ahsoka – fale com ela Ahsoka, fale com ela que você não teve escolha.

 

— Você queria matar o meu Mestre, sempre quis – a voz de Shin ganha um tom cada vez mais furioso – e você quer me matar também.

 

— Isso não é verdade Shin – Sabine se vira para Ahsoka, seus olhos tinham um ar suplicante, mas aos poucos a dúvida se insinua neles – isso é verdade, Ahsoka? Você sempre quis matar Baylan, e agora planeja matar a Shin?

 

Ashoka Tano nada disse, pois ela podia sentir o que estava por trás do apelo de Sabine. Ela encarou também a figura furiosa de Shin Hati, o sabre de luz apontado para a sua direção. O rosto de Shin tinha voltado ao seu aspecto normal. A horrenda fileira de dentes tinha desaparecido. No rosto de Sabine era possível ver uma expressão de grande confusão. Olhando para as duas Ahsoka viu, em sua ligação com a Força ela viu. Na ligação que se formou entre Sabine e Shin, ela viu. A raiva de Shin crescia dentro dela como uma bílis. Parte dessa raiva era dela, sem dúvida, produto do luto e do desamparo que devia estar sentindo, mas Ahsoka viu algo mais ali. Algo insidioso, presente e ao mesmo tempo escondido, maligno, algo que queria sua libertação. Ela viu Abeloth.

A pergunta de Sabine mal tem tempo de ser respondida, pois uma furiosa Shin Hati avança em direção a togruta. Ao contrário de Shin, a Mestra de Sabine não saca o seu sabre de luz. Com muita habilidade ela se desvia dos ataques de sua jovem oponente. Usando muito o seu poder da Força, ela mantém Shin afastada, seu sabre de luz sem condições de atingi-la. No entanto, Ahsoka sabe que não pode continuar lutando apenas defensivamente. E assim, após uma tentativa de Shin em atingi-la, a togruta aproveita uma brecha deixada por esse movimento e usa a Força, jogando Shin contra uma rocha, esta sentindo o golpe, ficando desorientada. Ahsoka mal tem tempo de se sentir aliviada, pois seus sentidos aguçados, desenvolvidos em inúmeras lutas, a faz se virar, apenas para ver uma assustada Sabine apontando o seu blaster para ela.

 

— Você está apontando uma arma para mim, Sabine. Outra vez você está apontando uma arma para a sua Mestra – a voz de Ahsoka procura passar uma sensação de tranquilidade para sua Padawan – de onde você acha que vem isso?

 

— O… o que quer dizer?

 

— Una-se a Shin na Força. Explore a ligação entre vocês duas – responde Ahsoka – é lá que estão as respostas.

 

Sabine olhou na direção de onde Shin estava, esta aos poucos se recuperando do golpe de Ahsoka. Ainda era possível ver a fúria no rosto de sua antiga inimiga. Foi com uma relutância que não imaginava ter que Sabine fez o que lhe foi dito por Ahsoka. Seu olhar fixado em Shin, recebendo o mesmo olhar de volta. As duas jovens se uniram na Força, ambas se encontrando juntas na ligação que haviam formado uma com a outra. Muito da fúria irracional de Shin, das estranhas dúvidas surgidas na mente de Sabine, se dissiparam quando se encontraram juntas na Força. De mãos dadas agora, ambas as jovens experimentavam uma relativa calma em suas mentes. Ao mesmo tempo, elas sentiam agora que não estavam sozinhas. O sentimento desagradável foi aos poucos se impondo a elas. A revelação da verdade sendo seguida de um choque para as duas.

Ambas as jovens voltaram ao mundo real de imediato. Sabine ainda se viu de blaster na mão, a arma continuava apontada na direção de Ahsoka. Ela guarda a arma com um crescente sentimento de embaraço, incapaz de olhar para a sua Mestra, preferindo se concentrar em Shin. Ela viu a antiga Padawan de Baylan Skoll desligar o seu sabre de luz, mas mantendo um estado de alerta em seu rosto. Sabine notou que Shin também evitava olhar para Ahsoka, ambas fixando seus olhares uma na outra. Essa atitude é quebrada pela própria Shin, que recua um passo, olhando em outra direção. Sabine olha para a mesma direção, vendo sua Mestra mais próxima de Shin, oferecendo-lhe a mão. É como se o tempo tivesse voltado atrás, o mesmo gesto de Ahsoka, acompanhado de uma Shin fugindo em sua montaria. Dessa vez, entretanto, Sabine não fez menção de ir atrás dela, seu olhar trocado com Ahsoka indicando que o melhor era deixar Shin ir embora mais uma vez.

 

PLANETA LOTHAL – TEMPO PRESENTE

 

Não havia muita gente na base, quando Shin acordou. A primeira coisa que notou foi a ausência de sua Padawan, embora não fosse algo que a assustasse, pois esta normalmente acordava antes. Ela fez sua higiene matinal, tomou um banho e tratou de circular pelo lugar. Sua estadia anterior foi bem breve, mal teve a chance de conhecer o lugar. Era basicamente uma gigantesca caverna, adaptada para ser uma base. Havia muita coisa nova, indicando que alguém estava investindo nesse grupo que Shin não sabia bem como definir. Ela continuou a sua caminhada até ver de longe sua Padawan, junta com Sabine. As duas estavam conversando, isso enquanto Sabine limpava suas armas habituais. Shin vê sua Padawan tentar tocar numa das armas, sendo delicadamente impedida pela mandaloriana.

 

— Eu só queria pegar para ver como é – a voz ainda tinha muito de infantil, principalmente na forma como parecia chateada.

 

— É só para ver, não para tocar, Padawan – a voz de Shin chamou a atenção das duas mulheres.

 

— Bom dia Mestra – Zara assumiu a mesma posição formal das vezes anteriores, algo que arrancou um sorriso de Sabine.

 

— Bom dia – Shin logo se volta para Sabine, ao mesmo tempo percebendo que o local tinha sido alargado desde a última vez que o viu – tem tão poucas pessoas por aqui.

 

— Só pessoal indispensável – responde Sabine, ainda limpando as armas – precisamos manter esse lugar o mais secreto possível.

 

— Por causa de Thrawn ou por causa da República?

 

— Mais por causa do Thrawn, mas um pouco também por causa da República – Sabine para de limpar as armas, acompanhando o olhar de Shin, agora voltado para 6 caças X-Wings estacionados ao fundo.

 

— Vocês estão montando uma frota? Com que recursos?

 

— Ficando por aqui, com certeza você vai descobrir – Sabine tem um sorriso astuto no rosto enquanto diz.

 

O barulho de uma nave chegando chama a atenção das três mulheres. Shin reconhece quase todo mundo que sai do veículo. Ezra com o seu habitual estilo descontraído, uma sempre séria Hera Syndulla e um menino que ela conheceu quando Ezra Bridges foi buscá-la, junto com sua Padawan, em Tespyn. O cabelo dele, em tons verdes, o deixando inconfundível. Apenas uma figura lhe era desconhecida. Um sujeito bem alto, bonito, a cor da pele com um tom ainda mais escuro que da sua Padawan. As quatro figuras se encaminharam para onde estavam Shin, Sabine e Zara. O homem que Shin não conhecia tomou a frente de todos, um grande sorriso nos lábios. Não foi preciso estar conectada à Força para perceber a ligeiro desconforto de Sabine, principalmente quando o sujeito a trouxe para junto dele, beijando-a com uma naturalidade que indicava não ter sido essa a primeira vez.

 

PLANETA PERIDEA

UM ANO E OITO MESES ANTES DO TEMPO PRESENTE

 

Já era o segundo dia que ela permanecia naquela pequena caverna. Tirando os últimos goles de água de sua reserva, que acabara de tomar, ela se mantinha em completo jejum. Seu corpo ainda tremia da noite fria em que passara, tendo apenas o seu bugio como apoio para se aquecer. Seus pensamentos estavam muito confusos, seus sentimentos variando da raiva para o medo, seguindo para uma profunda tristeza e um desejo de morte. Ela sentia Sabine tentando entrar em contato, mas tratou de cortar qualquer possibilidade, erguendo bloqueios em sua mente, muito mais habilidosa com a Força do que a mandaloriana. Saber que a presença de Abeloth se tornava mais intensa quando estava em contato com Sabine a deixava apavorada. Quanto mais presente a criatura maligna se fazia, mais era o ódio que subia por ela, como se fosse uma bílis em sua garganta. O dia lá fora estava chegando ao fim, ela podia notar pela diminuição da claridade vinda do lado de fora. Seria mais uma noite fria a ser enfrentada, mais a falta de sono e crescente angústia.

 

— Shin, você está aí? – a voz de Sabine interrompe seus pensamentos – eu estou entrando.

 

— Vá embora – Shin grita em resposta, mas o som de passos mostra que seu grito caiu em ouvidos surdos. Shin se levanta, o sabre de luz já ligado – qual é o seu problema, mandaloriana?

 

— Você quer a lista completa deles? – a tentativa de humor de Sabine irritando Shin ainda mais – terei de ficar a noite toda lendo-a para você.

 

— Por que está aqui, mandaloriana? – Shin desliga o sabre de luz enquanto pergunta.

 

— Porque me impor… porque nos importamos com você – Sabine responde, um momento de silêncio surge, com Shin notando que Sabine tinha algo mais a dizer, com um gesto ela intimou a jovem mandaloriana a falar – preparamos um funeral para o Baylan. Vim te buscar para se despedir de seu antigo Mestre.

 

Elas cavalgaram juntas pouco mais de uma hora até chegar ao local do funeral, um pouco mais afastado de onde ocorrera a luta. O pôr do sol do planeta já podia ser visto, a luminosidade dando ao ambiente uma aparência perfeita para o que estava ocorrendo. Shin viu o corpo de Baylan sobre uma plataforma bem decorada. Ele parecia estar num sono bem profundo. O coração da antiga Padawan bateu forte e ela teve de suprimir uma vontade forte de chorar. Além de Sabine, Ahsoka e Huyang, haviam também várias das criaturinhas pedregosas presentes. Shin decidiu que não daria a nenhum deles a chance de vê-la aos prantos. O pesar por seu antigo Mestre seria reservado para um momento particular dela, sem ninguém por perto.

Uma visão mais geral do lugar permitiu a Shin notar um acampamento mais adiante. Ela também olhou para cada um ali, percebendo que todos pareciam ter um ar de respeito pela figura a ser velada, preste a ser enviada para ser Um com a Força. A antiga Padawan de Baylan Skoll não conseguiu evitar de dar uma boa olhada em Ahsoka. A Mestra de Sabine se mantinha contrita, como que voltada para um luto particular. Shin viu as chamas consumirem o corpo de Baylan Skoll, sendo tomada por uma sensação de perda muito opressiva, algo que nunca havia experimentado até então. Agora era definitivo, ela estava sem o seu antigo Mestre, não havia mais retorno. O universo parecia cheio de novidades, ao mesmo tempo em que se revelava repleto de inseguranças. Uma discreta lágrima deslisa por seu rosto. Esse era o máximo de emoção que se dispunha a mostrar para os presentes. Aos poucos, todos ali iam saindo, retornando ao acampamento, até só restarem ela e Sabine.

 

— Isso é para você – Sabine oferece a Shin equipamentos para dormir e mantimentos. Ela pode notar a hesitação da antiga inimiga – por favor Shin, a fome e o frio só vão te tornar mais vulnerável à influência de Abeloth – um suspiro de Shin é o que Sabine ouve, antes de ter tudo o que ofereceu arrancado de suas mãos por ela. A jovem mandaloriana sorri aliviada.

 

— Imagino que você também não vai me deixar em paz, não é mesmo?

 

— Vou dar o resto dessa noite e o dia seguinte para que você possa viver o seu luto pelo Baylan com privacidade, mas irei te ver sim, amanhã a noite. Você não ficará sozinha, Shin. Não deixaremos você sozinha – Shin revira os olhos, mas tem ao mesmo tempo um ar bem suavizado em sua face. A antiga Padawan de Baylan Skoll monta em se bugio para ir embora, mas só cavalga alguns metros antes de se virar.

 

— Obrigada… Sabine – Shin se vira de novo e vai embora, sem notar Sabine sorrindo tolamente para ela.


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Notas finais do capítulo

Capítulo 7 postado como prometido. O capítulo 8 está programado para o próximo domingo. Aguardem.



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