Jedis e Padawans – Diferentes Tons de Cinza escrita por MarcosFLuder


Capítulo 6
Três mulheres e o Jedi caído


Notas iniciais do capítulo

Antes de mais nada, um pedido de desculpas. Eu estive numa atividade em São Paulo no último fim de semana e isso me impediu de postar o capítulo no domingo, como tinha sido o meu compromisso. Achei que poderia ter feito isso de onde estava, mas não foi possível. Não é uma justificativa, mas uma explicação de porque só estou postando o capítulo nesta segunda. Só depois de constatar que iria atrasar a postagem é que me dei conta de que poderia ter usado um recurso que o Nyah oferece, que é programar a postagem, ou seja, não precisaria ter atrasado a postagem do capítulo. Que sirva de aprendizagem para uma próxima vez. Resolvido isto, aqui está o capítulo. Há algumas referências sutis a acontecimentos da primeira temporada de Ahsoka, quem teve o privilégio de ter visto essa série maravilhosa talvez consiga perceber. Mais uma vez me desculpando pelo atraso, mas espero que isso não impeça quem esteja acompanhando de continuar apreciando a história.



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PLANETA LOTHAL – TEMPO PRESENTE

 

Sabine acordou de seu sono com uma sensação angustiante. Ela já não lembrava mais o conteúdo do sonho, mas a sensação de angústia ainda permanecia nela. A jovem mandaloriana se colocou em posição de meditação em sua cama. Um sorriso surgindo em sua face, ao notar a facilidade cada vez maior em como conseguia entrar e se manter nesse estado. Foi uma meditação breve, apenas um recurso para acalmar sua mente e seus sentidos, tal como ensinado por sua Mestra. A alegria que sentia internamente, ao notar a facilidade cada vez maior em como conseguia se conectar com a Força, tornou-se nela a certeza de que devia se levantar de onde estava e seguir para fora da base. Ela se vestiu rápido, a mesma convicção dentro dela dizendo para levar o seu sabre de luz consigo. Nenhum temor havia de sua parte, mas apenas a confiança de que precisava fazer o que estava fazendo.

Sabine seguiu tranquila, e igualmente em silêncio. À medida que se aproximava da entrada, já podia ouvir sons de pedaços de madeira se chocando. A tranquilidade ainda se mantinha dentro dela e sua caminhada manteve o mesmo ritmo. O ar frio da noite beliscou sua pele exposta, mas sem incomodá-la de fato. O céu estrelado era como um tapete brilhante sobre um horizonte desértico que parecia infinito, mas Sabine só tinha olhos mesmo para o que via mais a frente. Eram duas pessoas envolvidas num duelo básico. A jovem mandaloriana se manteve num máximo silêncio, quase evitando respirar, tudo para não quebrar a concentração das duas figuras um pouco adiante dela. Um sorriso surgiu de novo em seu rosto, ao comparar o que via com o seu treinamento com Ahsoka. Era basicamente um treino de defesa, com Shin se movendo na direção da pequena figura à sua frente, indicando que movimentos esta devia fazer para barrar seus ataques. Num determinado momento, Shin desfere um ataque que é detido pela sua pequena oponente, mas que deixa esta vulnerável a um novo golpe, agora vindo por baixo.

Sabine vê o momento em que a pequena figura que duelava com Shin é derrubada por um movimento de pernas de antiga Jedi sombria. É um pequeno susto, dura apenas um segundo. Ela vê quando Shin levanta sua Padawan do chão, as duas começando uma conversa, cujo conteúdo a jovem mandaloriana tem dificuldade em entender. Não querendo parecer intrometida ela dá um grunhido, meio que anunciando sua presença, tudo isso enquanto caminha em direção às duas. Mestra e aprendiz olham em direção a Sabine. As expressões faciais de ambas não deixam a entender qualquer contrariedade com a sua presença. O rosto da aprendiz, ao contrário, abre-se num sorriso de boas vindas que aquece o coração da Padawan de Ahsoka Tano. O rosto de Shin, por sua vez, tem um aspecto de neutralidade, mas Sabine não vê nele qualquer tipo de contrariedade com a sua presença ali.

 

— Eu espero não ter atrapalhado o treinamento de vocês – a mandaloriana diz – é costume das duas treinar a essa hora?

 

— Minha Mestra teve um pesadelo e eu sugeri que um treino seria bom para relaxar – a voz da menina é acompanhando de um sorriso que deixa Sabine enternecida, pois é possível notar a preocupação no tom dela. Ao mesmo tempo, um breve olhar de Shin, acompanhando de um leve grunhido, a faz se calar, recuar um passo, abaixar a cabeça e colocar os braços para trás. Um franzir de sobrancelhas é o único sinal de Sabine sobre o que lhe parece agora um padrão no relacionamento entre Mestra e sua aprendiz.

 

— Eu também tive um pesadelo agora a pouco. É por isso que estou aqui – Sabine olha direto para Shin enquanto fala, para depois se voltar para a menina, um sorriso dirigido a ela – creio que você teve uma ótima ideia, Zara.

 

— Ela costuma ter ótimas ideias – Shin diz isso com sua habitual voz neutra, mas Sabine nota algo diferente no olhar dela para a menina. Ambas as mulheres também notando um tímido sorriso surgindo no rosto da jovem aprendiz – só precisa ajustar melhor o filtro entre o cérebro e a língua – o sorriso tímido da menina continuava, mesmo depois desse último comentário de Shin.

 

— Eu não consegui ouvir direito o que vocês falaram, mas imagino que você a estava instruindo sobre como evitar o golpe que a derrubou – o olhar de Shin mostrando concordância com o que Sabine falou – o que você acha de dar uma lição prática para ela?

 

— Do que você está falando? – a pergunta de Shin é logo seguida de Sabine sacando seu sabre de luz. Ambas as mulheres percebendo o olhar de admiração de Zara, para a luz verde emitida do sabre de Sabine. A sobrancelha de Shin se ergue em certa descrença – você está falando sério?

 

— Não se atreva a negar que você sentiu muita falta disso – o sorriso astuto de Sabine foi seguido de um grunhido de Shin, mas esta sacou seu sabre de imediato. Luz laranja e luz verde em contraste com o escuro da noite, ambos sob o olhar cheio de entusiasmo de uma menina.

 

— Vai ser apenas para ensinar a minha Padawan como evitar o golpe que eu dei nela – Shin devolve o sorriso astuto em direção à Sabine – isso se você for realmente capaz de evitar esse golpe e não acabar de bunda no chão.

 

— Tenta o seu melhor, Sith gostosa – é a resposta de uma cada vez mais sorridente Sabine.

 

— Eu já disse que não sou uma Sith – a voz de Shin começa forte e termina quase num grito, quando ela inicia o ataque.

 

Desde que se tornara Padawan de Shin Hati, a jovem Ath’Zarah Het nunca teve a oportunidade de ver a sua Mestra num duelo de sabres de luz. A única vez que a viu nessa condição foi quando a conheceu. A lembrança mais forte dela sobre aquele momento era de admirar a segurança, habilidades e concentração, misturada com a selvageria de sua Mestra na luta. O que ela nunca tinha visto antes era Shin enfrentando alguém num duelo de sabres de luz. E tudo isso enquanto a mantinha protegida às suas costas. O pouco que conhecia já era suficiente para se dar conta que sua Mestra estava num nível ligeiramente superior ao de Sabine, mas esta, ainda assim, era capaz de fazer uma boa luta.

Ath’Zarah Het desejava muito ter o seu próprio sabre de luz, mas Shin insistia que ela ainda era muito nova para isso. Os treinos com sabre de madeira são intensos, mas a jovem Padawan via agora, em primeira mão, que nada seria comparável a um autêntico duelo com sabres de luz. O desejo de ter em suas mãos, qualquer uma das armas que via diante dela, só fez crescer, com o que estava vislumbrando. O som que cortava o ar era inconfundível, as faíscas que saiam do contato dos dois sabres tinham um aspecto quase hipnótico para a menina. Impressionante também era o olhar que via nas duas mulheres, de uma intensidade que nunca vira em sua Mestra antes. A jovem Padawan acompanha o movimento delas quando vê um sinal de Shin para Sabine, a luta parando momentaneamente, com a sua Mestra se dirigindo a ela.

 

— Mantenha-se focada, Padawan. Isso é para o seu aprendizado, não divertimento – Shin diz isso com um tom de voz calmo, além de uma autoridade que para Sabine lembrava demais Ahsoka – o seu foco deve ser na luta e nos golpes, não em nós duas. Preste especial atenção aos golpes defensivos e nos movimentos de Sabine, entendeu. – a expressão determinada no rosto da menina fez surgir um leve sorriso em Shin, foi bem breve, mas Sabine sabia muito bem a profundidade do que aquilo representava. Ela não teve de pensar muito nisso, ao ver o olhar de Shin em sua direção – isso que eu disse vale para você também, mandaloriana. Coloque-se em posição de defesa.

 

Ter sido chamada por sua origem não passou despercebido por Sabine. Entendendo a implicação do que Shin tinha acabado de dizer, ela tirou uns segundos para se concentrar. Fechou seus olhos e procurou esvaziar sua mente de qualquer pensamento inapropriado para esse momento. Em épocas anteriores teria sido bem mais difícil, mas Sabine Wren evoluíra muito desde o reinício do seu treinamento. Todo esse tempo de aprendizado com Ahsoka sendo posto em prática. Ela abriu seus olhos cheia de determinação. Seu foco bem estabelecido. Uma troca de olhares com Shin foi o suficiente para as duas mulheres estarem em sintonia. Sabine se colocou em posição de defesa e se preparou. O ataque de Shin veio com a fúria e a determinação que a jovem mandaloriana já conhecia.

A emoção que tomava conta de Ath’Zarah Het não é algo que ela ainda seja capaz de compreender totalmente, tão jovem, tão sem experiência de vida ela é. A Padawan de Shin Hati seguiu fielmente as instruções de sua Mestra, focando sua atenção nos movimentos das duas oponentes, na forma como os sabres de luz se encontravam. Ela via sua Mestra toda no ataque, com uma Sabine Wren concentrada em se defender dos golpes cada vez mais intensos que sofria. Era possível notar como Shin repetia os mesmos golpes do treinamento anterior entre as duas. A diferença estava na intensidade com que os golpes eram aplicados, além de serem sabres de luz agora, em vez de bastões de madeira. Eram golpes que no lugar de Sabine, a jovem Padawan de Shin Hati nem poderia imaginar ser capaz de ter resistido.

A atenção da menina se tornou ainda maior, pois já vislumbrava o momento em que sua Mestre ia dar o golpe final. Como instruída, ela concentrou o seu foco nos golpes defensivos e movimentos de Sabine. Não foi sem surpresa que Ath’Zarah Het viu um movimento inesperado da Padawan de Ahsoka Tano, evitando com uma virada de corpo, o mesmo golpe que tinha derrubado a menina antes. Foi tão rápido que a Padawan de Shin Hati mal foi capaz de perceber. No segundo seguinte as duas duelistas estavam com seus sabres colados um no outro. Os olhares delas bem próximos, os respectivos rostos iluminados em verde e laranja, misturados aos tons escuros da noite estrelada acima delas.

 

— Incrível! – o tom de deslumbramento na voz de sua Padawan fez Shin voltar a realidade, desviar-se do olhar intenso que era dirigido a ela. Sabine também se recompõe, ambas as duelistas desligando seus sabres de luz.

 

— Você conseguiu entender como Sabine evitou o meu golpe? – a pergunta de Shin foi respondida por um balançar de cabeça da menina, o rosto expressando uma enorme expectativa e entusiasmo – vá pegar os bastões. Vamos ver se você entendeu mesmo.

 

— A Sabine não podia emprestar o sabre dela? – a excitação no rosto da Padawan de Shin é acompanhada por um olhar para a Padawan de Ahsoka.

 

— Nem pensar – olhar de Shin é dirigido para ambas, mas ela se volta especialmente para sua Padawan – você ainda não está pronta para um sabre de luz.

 

— E quando eu estarei pronta? – a voz de Ath’Zarah ganha um tom de frustração e desafio.

 

— Você estará pronta... quando eu disser que está pronta, nunca antes – Sabine nota o esforço de Shin em manter um tom de voz calmo, porém bem firme, para a menina. Ela se aproxima da jovem Padawan.

 

— Eu entendo a sua frustração, pequenina, mas aceite o conselho de uma Padawan mais experiente. Confie na sua Mestra, assim como eu confio na minha.

 

— Você não é velha demais para ser uma Padawan? – a pergunta provoca um suspiro de exasperação em Shin, mas Sabine reage com tranquilidade, se abaixando para ficar próximo em altura com Ath’Zarah.

 

— Ao contrário de você, eu comecei bem tarde nesse negócio de Jedi, pequenina – ela deu uma piscadela para a menina, deixando claro que não ficou ofendida.

 

— Vá logo pegar os bastões – a voz de Shin continuava num tom calmo, mas que não deixava espaço para contestação.

 

— Sim Mestra – a menina abaixa a cabeça e se dirige para onde os bastões estão jogados.

 

— Eu te avisei sobre o problema dela em ajustar o filtro – há uma tentativa de Shin em impor um tom de advertência na sua voz, mas ela tem um ligeiro sorriso no rosto que frustra esse objetivo. Sabine apenas responde com um dar de ombros, acompanhado de outro sorriso.

 

Foram precisos três tentativas para que Ath’Zarah Het conseguisse fazer o movimento de maneira correta. Na primeira vez ela tentou emular o movimento de Sabine, mas o fez de maneira muito desajeitada, sendo facilmente derrubada por Shin. A segunda tentativa frustrada quase a fez desistir, irritada consigo mesma. O incentivo de Sabine, mas principalmente o olhar firme de sua Mestra, as dicas que recebia dela, mantiveram a sua determinação. A jovem Padawan parou um momento e fechou os olhos, se concentrou na Força, exatamente como lhe foi ensinado. Ela abriu os olhos muito focada nos movimentos de sua Mestra, focada na forma como se defender de seus ataques, até que conseguiu finalmente fazer o movimento da maneira certa. Foi um tanto desajeitado, pelo menos em comparação com o que viu Sabine fazer, mas ela enfim evitou o golpe. O entusiasmo da jovem Padawan foi tanto que se viu gritando para as estrelas acima dela, até notar as duas mulheres vislumbrando-a. Sabine tinha um enorme sorriso no rosto. O sorriso de sua Mestra era bem mais discreto, ainda assim, cheio de significados.

 

— Creio que chega de lições por hoje – Shin tem seu olhar voltado para sua Padawan – vá tomar um banho antes de dormir – ela volta o seu olhar para Sabine – todas nós precisamos de um pouco de sono.

 

— Sim Mestra – é uma sorridente Ath’Zarah Het quem pega o bastão da mão de Shin. Ela se despede também de Sabine, indo correndo na frente das duas mulheres mais velhas. Sabine volta o seu olhar para Shin, esta vendo a expectativa contida nele.

 

— O que é? – a pergunta é feita de maneira bem direta, embora Shin já tenha uma ideia do que possa ser.

 

— Você me permitiria ensinar algumas técnicas de luta mandalorianas para a Zara?

 

— Ela está sendo treinada na forma Jedi, não na forma mandaloriana – a resposta de Shin não demove Sabine, mas ela tenta uma nova abordagem.

 

— Eu sei disso. Você é a Mestra Jedi dela, isso não está em discussão – Sabine faz o seu melhor para ser persuasiva – o treinamento Jedi dela tem absoluta prioridade sobre tudo, não há dúvida sobre isso. Eu só quero dar outras opções de defesa para ela numa futura luta – Shin não conseguiu evitar um sorriso diante do olhar de cachorrinho que Sabine fez para ela.

 

— Técnicas de luta mandalorianas podem ser úteis para ela – Shin vê um enorme sorriso surgindo no rosto de Sabine – mas nada de ensiná-la a usar o blaster antes dela aprender a usar o sabre de luz – o abraço de Sabine pega a antiga Padawan de Baylan Skoll de surpresa. Ela volta a falar, mas agora num tom mais preocupado – podemos falar agora sobre o pesadelo que não deixou nenhuma de nós duas dormir? – é Sabine quem toma a iniciativa de interromper o abraço. Ela dá um suspiro antes de falar.

 

— Você sabe o causou isso tão bem quanto eu – o rosto de Sabine é uma máscara de preocupação agora – e sabe muito bem quando foi que começou.

 

PLANETA PERIDEA

UM ANO E OITO MESES ANTES DO TEMPO PRESENTE

 

A visão do templo antigo encheu as três mulheres de um temor que não conseguiam definir bem o que era. A paisagem diante delas não oferecia nada além de um horizonte extenso, um terreno infértil e nenhum sinal de vida à vista. Elas pararam diante da entrada do templo, saltando de suas respectivas montarias. Sabine e Shin ficaram mais atrás, enquanto viam Ahsoka se aproximar da entrada. A ligação surgida entre elas permitiu que as duas mulheres mais jovens notassem a sensação de angústia de Ahsoka Tano, assim que esta tocou na porta de entrada do templo, sua mão recuando de imediato, como se tivesse tocado em algo eletrizado.

 

— O que você sentiu? – a pergunta foi de Sabine, mas Shin estava igualmente curiosa.

 

— Um mau terrível – foi a resposta de Ahsoka.

 

— O que você vê como “mau”, eu vejo como equilíbrio, Ahsoka Tano – a voz de Baylan Skoll faz com que as três mulheres se virassem, todas as três já sacando seus respectivos sabres de luz – Baylan mantém um aspecto de tranquilidade em sua face, mas o seu olhar para Shin diz outra coisa – não era para você estar aqui, Shin. Você devia ter seguido o meu conselho e assumido um lugar junto a Thrawn e ao novo império – ela saca o seu sabre de luz – mas Abeloth tem razão afinal – é possível notar a tristeza em seu tom de voz ao falar isso – ninguém pode escapar do seu destino.

 

PLANETA LOTHAL – TEMPO PRESENTE

 

— Será que devemos falar com Ahsoka sobre isso? – a voz de Sabine traduz a preocupação evidente em seu rosto.

 

— Não vejo como poderemos esconder isso dela – é a resposta de Shin.

 

— Você acha que a nossa proximidade pode fortalecer a presença de Abeloth? – há uma expectativa cheia de significados na pergunta que Sabine faz.

 

— Eu não sei, Sabine – a voz de Shin tinha um tom de exasperação – o que eu sei é que ficamos separadas tanto tempo, e apesar disso, ainda sinto Abeloth dentro de mim mesmo assim. E você?

 

— A mesma coisa – é a resposta de Sabine. As duas ficam um tempo apenas olhando uma para a outra, até Sabine voltar a falar – podemos tentar uma coisa.

 

— Do que está falando?

 

— Vamos confrontá-la juntas – há uma firme determinação na voz de Sabine, expressada também em seu rosto.

 

— Já tentamos isso antes, lembra? Em Peridea, e ainda contando com a ajuda de sua Mestra. Foi quase um desastre.

 

— Estamos mais fortes agora. Eu progredi muito nos últimos meses. Me sinto mais forte com a Força agora – retruca Sabine – é estando juntas que devemos combater a influência dela, não separadas.

 

Quando é que você vai perder esse costume de fazer apostas arriscadas, Sabine? – há um ligeiro tom de exasperação em Shin, ao perguntar. O sorriso de Sabine só exacerbando isso.

 

Nunca, eu acho – ela mantém o seu sorriso provocativo – se eu não fosse dada a esse tipo de apostas é bem provável que nem estaríamos juntas aqui. Não finja que esta não é uma das razões que te faz gostar de mim.

 

As duas mulheres têm seus olhares fixos uma na outra. O silêncio na base cortado apenas por suas próprias respirações. Sua ligação com Zara permitindo Shin se dar conta de que esta já está quase dormindo agora. A antiga Padawan de Baylan Skoll dá um longo suspiro, ela e Sabine só precisando de um olhar trocado para se entenderem. Ambas se colocam em posição de meditação. Suas mãos unidas. Suas respirações estão em sincronia, o mesmo com seus pensamentos, voltados para a ligação que possuem juntas na Força. Ambas se concentram, se deixando levar até se verem unidas num único lugar indefinido. O sorriso das duas por se verem juntas ali, aos poucos se desvanece, pois percebem uma outra presença. A sensação de malignidade as envolvendo, como uma mortalha fúnebre, trazendo à tona, terríveis lembranças.

 

PLANETA PERIDEA

UM ANO E OITO MESES ANTES DO TEMPO PRESENTE

 

Shin olhou para o homem que conheceu ainda na infância, aquele que a acolheu e salvou, que a nutriu e treinou, deu-lhe um propósito. Todos os momentos de amparo e ensinamentos da parte dele vinham em ondas na sua mente. Os conselhos firmes, a disciplina rígida com que foi criada, tudo a fazia lembrar de um homem que ela mal reconhecia agora. O que via diante de si nesse momento era um envólucro vazio, uma casca sem substância. A voz era a de alguém sem o controle de suas vontades. Tudo exatamente o contrário do que ela aprendeu desde criança. Lágrimas vinham aos seus olhos, ao constatar tudo isso.

 

— Por que Mestre? Por que se entregar a tudo o que você sempre me ensinou ser errado?

 

— Você não entende, criança – a voz de Baylan tinha um tom de tristeza – você não viu o que eu vi, não perdeu o que eu perdi.

 

— Eu vi, Baylan – é Ahsoka quem intervem agora – eu vi o que você viu, eu também perdi o que você perdeu. Se entregar a Abeloth não é a resposta.

 

— Não se atreva a comparar-se comigo, Ahsoka Tano – um tom de raiva surge na voz de Bayla agora – você rejeitou a Ordem Jedi muito antes de sua queda. Você abandonou tudo, inclusive o seu Mestre, parte da culpa por tudo o que aconteceu é sua também.

 

— Eu já lidei com essa culpa, Baylan, já superei isso – Ahsoka procura manter um tom calmo em sua voz, mas não tem como disfarçar a preocupação com o que vê diante de si – tanto as escolhas dos que comandavam a Ordem Jedi, como as escolhas do meu Mestre, foram apenas deles, nem eu e nem ninguém teve nada a ver com isso.

 

— Isso não importa agora – Baylan saca o seu sabre de luz – você precisa morrer, Ahsoka Tano. É a única coisa que falta para Abeloth ser libertada de vez.

 

— A voz pode ser sua Baylan, mas é Abeloth falando em seu lugar – Ahsoka também saca o seu sabre – se o verdadeiro Baylan Skoll ainda estiver aí, trate de lutar contra essa influência.

 

A única resposta que Ahsoka recebe é o golpe dado pelo homem que Baylan Skoll já foi. O corpo e a mente dele podem estar sob a influência de Abeloth, mas suas habilidades Jedis estão bem intactas. Pelo menos é isso que a Mestra de Sabine sente num primeiro momento. No entanto, á medida que a luta entre eles se estende, um sinal bem fraco na Força chega até ela. É quase inaudível, como um suspiro no meio da tempestade. Ainda assim, ela consegue sentir de maneira longínqua esse sinal vindo. Ahsoka se lembra dos últimos confrontos que teve com Baylan, da forma como ele usava o seu enorme tamanho e força no combate. Ela sabe que não pode bater de frente com ele nesse ponto, que precisa usar sua agilidade, esperar por uma brecha. Ela precisa se concentrar nesse sinal.

Sabine Wren vive um misto de medo e admiração, tudo isso enquanto seus olhos não são capazes de desgrudar do duelo que vê à sua frente. São dois estilos de luta muito diferentes, mas ambos são muito bons em cada um dos seus. A admiração por sua Mestra só crescendo, ao ver como ela conseguia fazer frente a um monstruoso lutador como Baylan Skoll, contra quem a mandaloriana sabia, não teria a menor chance numa luta. Mesmo assim, cada fibra do seu ser arde por entrar no confronto também, por ajudar sua Mestra neste imenso desafio. É o que ela decide fazer, mas é detida assim que dá o primeiro passo. Sabine sente sua garganta sendo pressionada por mãos invisíveis. Ela já viveu essa situação e é com um terrível pressentimento que consegue se virar para ver o que mais temia, diante dela.

Shin Hati tinha sua visão nublada pelas lágrimas que caiam abundantes de seus olhos. Ver o homem que a criou ser transformado num mero fantoche de alguma criatura maligna era demais para ela. Ainda assim, sentia seu corpo e sua vontade paralisada. De início achou que era o choque de ter que se colocar contra seu antigo Mestre. Foi só aos poucos que começou a sentir a presença maligna dentro de si. Imagens surgiam para ela, lembranças de a muito esquecidas, dores que já tinha deixado bem enterradas em seu inconsciente. Um medo paralisante toma conta dela, ao sentir sua vontade sendo sufocada. Um ódio que nunca experimentara, mesmo em seus momentos mais terríveis, toma conta dela. Não é seu ódio, é o ódio de alguém que anseia por uma liberdade a muito perdida. Ela vê sua mão se erguer, sem que essa seja a sua vontade. Tudo agora parece ser uma visão distante para ela, como se tivesse sido jogada para fora de si, numa prisão de onde não conseguia escapar. Mas ela via tudo, e foi com horror que vislumbrou os olhos assustados de Sabine Wren, vendo a agonia estampada em seu rosto.

Ahsoka não demorou para notar um sentimento de agonia na Força. Era a sua ligação com Sabine avisando que o seu maior temor tinha se tornado realidade. Reunindo o máximo do seu poder com a Força, ela deslocou uma grande pedra para cima de Baylan, este sendo pego de surpresa com o golpe. Foi um momento que Ahsoka não podia desperdiçar. Ela se voltou para onde estavam as duas jovens, vendo com horror o que estava acontecendo. O rosto de Shin estava quase irreconhecível, boa parte dele tomado por uma horrenda fileira de dentes pontiagudos, indo de um lado a outro da sua face. O pior era ver Sabine, lutado pelo ar que era tirado dela a cada segundo.

 

— Solte-a, Shin – ela tenta usar o poder da Força contra a criatura que dominou o corpo da antiga Padawan de Baylan Skoll, mas sente esse poder sendo mandado de volta – não a deixe fazer isso, Shin.

 

— Shin Hati se foi minha cara – era uma voz cheia de malignidade quem fala – sou eu, Abeloth quem está aqui. Você quer que sua Padawan seja poupada, Ahsoka Tano? Deixe Baylan Skoll fazer o que deve ser feito e eu pouparei a vida dela.

 

PLANETA LOTHAL – TEMPO PRESENTE

 

As duas mulheres estavam sentadas, uma em frente a outra, ambas em posição de meditação. Estavam de mãos dadas, seus olhos fechados, mas de mentes ligadas, se conectando com a Força, abrindo-se juntas para a ligação que tinham entre elas. Ambas tiveram outros momentos assim, quando estavam juntas em Peridea, quase sempre com Ahsoka se juntando às duas. Mas houve momentos também em que faziam isso apenas elas. Uma comunhão, que descobriram juntas, tinha se dado desde o momento em que se conheceram. Haviam muitos sentimentos conflitantes entre elas, sempre houveram, desde o início. Começou com uma luta de morte, um desejo homicida que as levou a lutar de novo em Seatos, que as fizeram se evitar durante a viagem a Peridea, mas que foi mudando, à medida que se conheciam melhor, naquele mundo desértico onde foram deixadas.

Sabine Wren ainda lutava um pouco com essa ligação, como sempre lutou, ao longo de sua vida, contra qualquer ligação mais profunda com que se defrontou. O medo de perder estava sempre presente. Foi assim com sua família de sangue, com seu clã. O medo constante de também perder a família encontrada na Ghost. As ligações rápidas eram muito mais seguras, embora o sentimento do dia seguinte fosse um tanto acre dentro dela. A ligação com Shin era muito mais do que isso. Havia muito mais do que apenas desejo e atração. Os medos normais de Sabine já seriam uma dificuldade para lidar, nessa sua relação com Shin, mas havia também algo muito pior. Uma presença maligna que trouxeram juntas de Peridea, presa a elas pela ligação das duas na Força.

Shin Hati sentia em si uma miríade de sentimentos. Antes de Sabine nunca se imaginou ligada a alguém da forma como estava ligada a essa Padawan, inicialmente tão deficiente no que se refere a se conectar com a Força. Ainda que ela tenha melhorado bastante, a ligação entre as duas ainda deixava claro as dificuldades que ela enfrentava para estabelecer essa ligação. O que mudou com o tempo foi a forma como via essa dificuldade. O desprezo inicial tornou-se um profundo respeito, pelo seu emprenho e progresso. No meio de tudo que a afligia, havia também um outro sentimento. Um calor agradável em seu íntimo, a constatação do quanto sentiu falta da ligação que compartilhavam juntas. Apesar de tudo, Shin estava feliz por compartilharem esse momento. Uma pena que essa mesma fonte de felicidade tinha o seu canto podre. Escondido. Guardando aquela que permanecia espreitando, esperando.

As duas mulheres se viram juntas, num local indefinido, parecendo fora do tempo e do espaço. Para onde olhassem o horizonte parecia infinito. Elas pareciam sozinhas ali, mas ambas sabiam que algo mais estava à espreita, certamente observando-as. As duas estavam ombro a ombro, mãos entrelaçadas, seus olhares voltados para todos os lados, como se esperassem ser atacadas a qualquer momento. Elas caminhavam juntas a esmo. Nenhuma direção para onde olhavam indicando um caminho seguro a seguir. Havia algum medo nelas, mas ambas sentiam que podiam enfrentar qualquer coisa, desde que estivessem juntas. Esse sentimento não mudou, nem mesmo quando a voz horripilante foi ouvida.

 

— “Minhas crianças tolas estão de volta, e juntas mais uma vez” – a voz de Abeloth parecia vir de todos os lados – “será que uma de vocês já está finalmente pronta para me dar a liberdade que tanto almejo”?


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Notas finais do capítulo

Capítulo 6 postado, apesar do pequeno atraso. Neste próximo domingo não creio que haverá impedimento e postarei o capítulo 7. Aguardem.



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