Jedis e Padawans – Diferentes Tons de Cinza escrita por MarcosFLuder


Capítulo 10
O plano das Irmãs da Noite


Notas iniciais do capítulo

Esse é o capítulo que vai abrir outra linha do tempo, agora mostrando como Shin e sua Padawan se conheceram. Os capítulos em Peridea acabaram, mas tudo o que aconteceu lá ainda vão afetar a todos na história, como será possível ver logo no começo do capítulo. A história segue bem e creio eu que já entrei na reta final dela. Agora aproveitem quem está lendo.



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PLANETA DATHOMIR

UM ANO E OITO MESES ANTES DO TEMPO PRESENTE

 

As três Imãs da Noite tinham acabado de sair de seu estado meditativo. Em todas elas o que se via era uma angústia muito presente com o que tinham acabado de vislumbrar. As lembranças de uma época distante, tudo vinha à mente delas depois disso. O temor com a volta de Abeloth despertando amargas recordações, terrores antigos do qual esperavam ter se livrado. Tudo estava de volta agora. Em sua ligação com a Força elas viram que a criatura maligna, que já chegaram a adorar como uma deusa, tinha sido contida em sua tentativa de se libertar. Isso não as iludia, entretanto. Era visível para aquelas mulheres o quão mais frágil a nova prisão de Abeloth era. Uma mistura de raiva e tristeza tomava conta do trio. Os planos de acordar suas irmãs nos caixões tendo que ser adiados agora.

 

— O Grande Almirante Thrawn não gostará nada de saber que não poderemos ajudá-lo em sua luta – uma das Irmãs da Noite diz.

 

— Seria uma temeridade acordar nossas irmãs agora – diz outra Irmã da Noite – sabe-se lá quantas delas poderiam cair sob a influência de Abeltoh.

 

— O Grande Almirante Thrawn terá de aceitar o fato de que não podemos ajudá-lo nesse momento – a Irmã que era claramente a líder do trio tomou a palavra dessa vez – em verdade, talvez a derrota dele seja mais útil para nós agora.

 

— Você tem certeza, irmã? – a primeira das mulheres pergunta.

 

— Temos que garantir a volta das mulheres que mantém Abeloth presa na ligação delas com a Força – é a resposta da líder das Irmãs da Noite. Ela olha decidida para as outras duas – para que isso seja possível, uma de nós terá de fazer o sacrifício.

 

ÓRBITA DO PLANETA DATHOMIR

POUCAS HORAS DEPOIS

 

A batalha já se desenrolava a quase 1 hora. Hera observava tudo da ponte do principal cruzador da República, orientando as ações dos esquadrões e naves em luta. A ansiedade dela nem era pelo resultado em si. Anos de experiência, quase sempre estando do lado mais fraco do conflito, lhe davam a certeza de que a vitória viria. Ela só não sabia o custo que teria, se seria mesmo uma vitória completa. A visão rápida da nave Ghost deu-lhe uma sensação amarga, pois queria ela mesma pilotá-la, em vez de deixá-la nas mãos que sabia mais do que capazes de Ezra. No entanto, Hera Syndulla sabia muito bem que os seus tempos como rebelde ficaram para trás. Agora ela é que estava lutando contra rebeldes imperiais, contra o mais perigoso deles, de fato. Ela sabia muito bem que precisava focar toda a sua atenção nisso.

Os recursos que recebera estavam longe do que esperava, e entendia como necessário, para acabar com a ameaça de maneira definitiva. Mais uma vez a baixa política interferiu. Foi um alívio para Hera não ver maiores sinais de outros grupos imperiais envolvidos na luta. Felizmente a demora da República em agir não foi suficiente para que Thrawn conseguisse articular a unidade deles nessa batalha. Certamente a derrota recente de Moff Guideon tendo parte da responsabilidade nisso. Ezra estava certo ao dizer que os recursos de Thrawn tinham sido muito consumidos no exílio. Também não havia sinal de presença das Irmãs da Noite, que poderiam ser um fator de desequilíbrio, pois não houve tempo para articular o apoio de Jedis que ainda estivessem disponíveis. Com tudo isso, já era possível vislumbrar a vitória, com a maior preocupação de Hera sendo garantir que Thrawn não escapasse. No entanto, a visão do Olho de Sion também a lembrou de suas amigas presas em outra galáxia, como aquele nave de estranha formação era a única chance de trazê-las de volta.

 

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A batalha terminou com a vitória que Hera esperava, mas como temia, houve um custo. Para salvar o Olho de Sion, Hera teve que deixar Thrawn escapar, uma jogada inteligente do desgraçado azul, ela reconheceu. A general da República já podia ouvir o senador Xiono, em sua retórica desdenhosa e cheia de segundas intenções, tirando o máximo proveito da fuga de Thrawn para desacreditá-la. Hera empurrou essa preocupação para o fundo de sua mente. Uma questão de cada vez, enquanto caminhava até uma das salas de interrogatório. Thrawn pode ter escapado, mas a tomada do Olho de Sion garantiu, pelo menos, um aprisionamento importante. Ela entrou na sala onde Ezra já estava, vislumbrando a figura aprisionada.

 

— Você pode escolher – Hera se dirigia à prisioneira, Ezra do seu lado – fale conosco agora ou lide com outros setores da República mais tarde. Posso te garantir que os métodos deles serão bem mais invasivos.

 

— Acha que eu tenho medo de tortura, dor e morte, general Syndulla? – a voz da Irmã da Noite tem um tom ao mesmo tempo tranquilo e macabro.

 

— Fale sobre Peridea – Ezra intervém – diga porque você e suas irmãs estavam com tanta pressa em deixar aquele mundo.

 

— Você viveu nele por anos, Ezra Bridger – a Irmã da Noite retrucou – você sabe tão bem quanto eu que Peridea é um mundo morto.

 

— Peridea já era daquele jeito quando eu e Thrawn chegamos – Ezra se inclinou na direção dela – o que aconteceu?

 

— Abeloth aconteceu – foi possível perceber uma quebra no tom de voz dela, uma mistura de tristeza e medo, mas também uma profunda raiva sendo notada – de início ela era nossa Grande Mãe, a fonte original de nossa ligação com a Força, nossa deusa.

 

— O que aconteceu que mudou isso? – foi Hera quem perguntou dessa vez.

 

— A fome de Abeloth só fez crescer com o tempo – a resposta veio num tom de voz que agora era pura melancolia – quanto mais de nossas irmãs eram sacrificadas para satisfazer essa fome, mais Abeloth exigia. Isso nos dividiu em facções, o grupo que se devotava cegamente a Abeloth e o que queria romper com esse ciclo. Houve também um terceiro grupo, que preferiu deixar Peridea, usado os Purgils para isso, se estabelecendo em Dathomir. A única solução encontrada para o resto de nós que ficou, e que não queria mais satisfazer a fome de Abeloth, foi induzir um feitiço de sono profundo em todas.

 

— Então Thrwan chegou e despertou você e outras duas de suas irmãs – era uma afirmativa de Ezra, não uma pergunta.

 

— Peridea era um mundo verde e exuberante quando nos colocamos em sono mágico – a Irmã da Noite mantinha o tom melancólico em sua voz – quando fomos despertadas e vimos aquele mundo morto, já sabíamos que era obra de Abeloth. Não havia nada mais para nós por lá.

 

— Vocês estão em outra galáxia agora, estão livres dessa Abeloth – Hera se inclina bem perto da Irmã da Noite – por que não despertaram suas outras irmãs para ajudar na batalha?

 

— Porque sabemos que não estamos livres de Abeloth – é a resposta da Irmã da Noite – ela escapou de sua prisão antiga. É verdade que está numa prisão nova, feita de carne e mentes, mas esta é muito mais frágil que a anterior. Despertar nossas irmãs só serviria para abrir o apetite de Abeloth. De sua frágil prisão, mesmo em outra galáxia, ela seria capaz de induzir muitas delas a satisfazer a sua fome. Isso poderia torná-la forte o suficiente para se libertar.

 

— Chega dessa conversa – é uma agora irritada Hera que intervém – você sabe para onde Thrawn e suas outras irmãs foram? Fizemos uma varredura completa em Dathomir e não encontramos nada.

 

— Nossa conversa terminou, general Syndulla – a Irmã da Noite responde, seu rosto ganhando um ar diferente, com ela chegando a sorrir. É um sorriso um tanto assustador, mas ainda um sorriso –– você devia se concentrar em resgatar suas amigas de Peridea. Minhas irmãs precisam delas aqui, junto com outra pessoa, para se livrar de vez da ameaça de Abeloth.

 

— O que você quer... – Ezra nem teve tempo de terminar a frase, pois a Irmã da Noite começou a se contorcer e convulsionar, sangue dela saindo por todos as aberturas, poros e orifícios. Um espetáculo horrível, mas curto, com a mulher desabando morta sobre a mesa de interrogatório.

 

LOCAL DESCONHECIDO NO PLANETA DATHOMIR

MESMO TEMPO

 

A dupla de Irmãs da Noite terminou o ritual, despertando mais uma delas de seu sono milenar. Era um local escondido por um feitiço poderoso, onde estavam os demais caixões, com outras Irmãs da Noite dentro deles. A nova Irmã da Noite desperta em seu caixão com um ar confuso, um tanto assustado, mas se tranquiliza ao vislumbrar a dupla diante delas. Um sentimento de fraternidade enche o trio de uma estranha alegria, provocando um sorriso nas três mulheres que só faz sentido entre elas. A mulher recém despertada tem dificuldade em se manter de pé, os músculos da perna ainda atrofiados pelo longo tempo no caixão. O amparo das outras duas irmãs, no entanto, junto com um leve feitiço, é suficiente para que possa se firmar.

 

— Quanto tempo fiquei dormindo? – a mulher pergunta.

 

— Difícil mensurar – é a resposta de um das outras mulheres – milhares de anos por certo, nem mais em Peridea estamos.

 

— Vocês despertaram as nossas outras irmãs? – a mulher recém despertada pergunta.

 

— Ainda não é possível – é a resposta da terceira Irmã da Noite – Abeloth ainda é uma ameaça, mesmo a uma galáxia de distância.

 

— Você foi despertada porque precisamos ser uma tríade para usar ao máximo a nossa conexão com a Força – foi a resposta da primeira Irmã da Noite.

 

— O que aconteceu com nossa outra irmã?

 

— Ela acabou de se sacrificar para nos ajudar a eliminar de vez a ameaça de Abeloth – a terceira Irmã da Noite responde – em breve as duas pessoas que estão contendo nossa antiga deusa estarão de volta para essa galáxia. Já temos o feitiço certo que nos ajudará a eliminá-las da existência, levando Abeloth junto com elas.

 

NAVE SION – DENTRO DO HIPERESPAÇO

UM ANO E QUATRO MESES ANTES DO TEMPO PRESENTE

 

— Quer dizer então que as Irmãs da Noite já sabem que Abeloth está presa agora na ligação que Sabine e Shin tem com a Força – a face de Ahsoka mostra a preocupação que vai dentro delas. Ela está dentro de sua nave, estacionada por sua vez, num dos deques do cruzador da República acoplado à nave Sion. Outras pessoas também estão presentes.

 

— Segundo a Irmã da Noite que capturamos, elas só não despertaram as outras Irmãs da Noite por temerem a influência de Abeloth sobre muitas delas – é Ezra quem responde. Seu olhar se voltando para os demais presentes, além dele e de Ahsoka.

 

— Posso presumir que a ausência das Irmãs da Noite na batalha foi determinante para vitória das forças republicanas, general Syndulla? – a voz de Huyang soando duramente objetiva.

 

— Pode ter certeza que sim, Huyang – é uma Hera com um tom de voz irritado quem responde – isso e o fato do Thrawn não ter tido tempo de articular o apoio de outras forças imperiais. Além do Quimera havia apenas mais um antigo cruzador imperial na luta, que nós destruímos.

 

— Só que o Thrawn conseguiu escapar – é uma desanimada Sabine quem faz essa afirmação.

 

— Quando o desgraçado viu que a batalha estava perdida ele deu um jeito de “negociar” a sua fuga – as mãos de Hera são vistas se torcendo, mostrando o quão irritada estava – ele criou uma situação onde tivemos que escolher entre capturá-lo ou salvar a nave Sion.

 

— Eu não vou negar que estou muito feliz por vocês terem vindo nos buscar – Sabine olha para Hera e Ezra – eu só lamento que o preço tenha sido esse – ela e Ezra olham um para o outro por um instante, acabando por se abraçarem.

 

— Eu nunca vou me arrepender de ter pago esse preço – Ezra diz, ainda abraçado com Sabine.

 

— Nem eu – Hera reforça a declaração de Ezra – mas agora teremos que decidir como lidar com as consequências dessa decisão – ela volta o seu olhar para Shin, em silencio até então – tenho certeza que o Ezra já tinha decidido trazer os Noti conosco desde o início, mas nenhum de nós dois contávamos com você, minha cara.

 

— A Força nos queria em Peridea todo esse tempo, Hera – a voz de Ahsoka tem o tom habitual de serenidade – eu, Sabine e Shin, era para estarmos lá, para cumprir um papel. Agora a Força nos quer de volta em nossa galáxia – a togruta volta o seu olhar para Shin – principalmente você, Shin Hati. Você precisa estar livre para procurar o que quer que a Força tenha te reservado em nossa galáxia.

 

— Tem certeza que é a Força, Ahsoka? – a voz de Hera soa desconfiada ao perguntar – quem garante que isso não é uma manipulação dessa tal de Abeloth.

 

— Hera, por favor…

 

— Tudo bem Sabine – Shin toma a palavra pela primeira vez – é justo esse questionamento da general Syndulla. Eu mesma tenho dúvidas se esse sentimento de que tem algo me esperando no nosso retorno é a Força me guiando para algo, ou se é mesmo uma manipulação de Abeloth.

 

— Pois eu tenho certeza que é a Força te guiando para algo, Shin – a togruta se volta para todos os presentes – eu confio na Força, tudo o que peço é que todos aqui tentem confiar também.

 

PLANETA LOTHAL – TEMPO PRESENTE

 

— Esse tempo todo era mesmo a Zara que você sentia que precisava encontrar – Sabine se dirige a Shin, um discreto sorriso em seu rosto.

 

— Toda aquela sensação que me atormentava desde a nave Sion, desapareceu depois que eu a encontrei – foi a resposta de Shin.

 

— Por que você acha que ela está mentindo sobre ver o fantasma da Força do Baylan, Shin? – é Sabine quem pergunta.

 

— Ela queria que eu a aceitasse como minha Padawan, queria isso desesperadamente – é a resposta de Shin – eu não a culpo, talvez tivesse feito o mesmo com o Baylan se tivesse a oportunidade. A diferença é que eu nunca soube quem tinha sido o Mestre dele.

 

— Você nem mesmo cogita a ideia…

 

— É claro que não – Shin reage duramente para Sabine – ele era o meu Mestre. Se tivesse que aparecer como um fantasma da Força, teria que ser para mim – Shin vê Sabine se voltando para Ahsoka, fazendo o mesmo.

 

— O que você acha, Ahsoka?

 

— Eu não sei, Sabine – a togruta dá um suspiro antes de voltar a falar – tudo o que eu já ouvi falar sobre aparições de fantasmas da Força era sempre envolvendo um Mestre morto aparecendo para o seu aprendiz. Nunca tinha ouvido sobre algo diferente disso.

 

— Eu até concordo que a Zara poderia ter inventado isso num momento de desespero – Sabine afirma – mas não creio que ela manteria essa história se não fosse verdade. No mínimo ela acredita ser verdade.

 

— Você diz isso porque não estava lá quando eu a encontrei – é a resposta de Shin.

 

— Então nos conte, Shin – Sabine olha bem nos olhos de sua antiga inimiga – nos conte como foi que você encontrou a Zara.

 

SEGUNDA LUA DE PERKON

MENOS DE UM ANO ATRÁS

 

Aquela era a maior aglomeração urbana que existia na única das luas que era habitável, na órbita de um planeta impróprio para qualquer forma de vida. O termo habitável era certamente o melhor a se dizer de um buraco desértico, que fazia de lugares como Tatooine ou Jakku, uma maravilha civilizacional. Da mesa onde se encontrava, Shin podia ver por uma janela um ajuntamento mal feito de casas, poucos edifícios de aspecto desagradável, além de ruas irregulares e poeirentas. O bar onde se encontrava era fétido, a bebida era apenas tragável, a frequência era o habitual de lugares assim, mas ao menos não ocorreu nenhuma briga até o momento em que estava lá, a espera do seu contato. Era um trabalho para qual fora indicada pela Guilda dos Caçadores de Recompensas, trabalho esse que ninguém mais quis pegar, mas que ela aceitou por uma razão que pouco tinha a ver com o trabalho em si.

Já faz alguns meses que Shin Hati estava associada à Guilda. Ela chegou a isso indicada por Ahsoka Tano a um mandaloriano, que a levou para um Magistrado com antigas ligações com essa organização, com este indicando-a. Shin não podia dizer que estivesse desgostando desse trabalho, caçando bandidos, tendo a chance de afiar suas habilidades e recebendo por isso. Ela não tinha ilusões, sabia que estar na Guilda era mais uma forma de ser mantida sob vigilância por parte daqueles que a livraram de ter de cumprir pena numa prisão da República. A antiga Padawan de Baylan Skoll tratou de cumprir a sua parte nesse trato, já tendo fornecido pelo menos uma informação importante sobre as movimentações de Thrawn, e dos remanescentes imperiais. Frequentar certos lugares lhe permitia ouvir conversas de bêbados que não seriam ouvidas em outros locais, tal como a general Syndulla tinha dito.

Shin deixou esses pensamentos de lado, voltando a se focar nesse trabalho. Em verdade, ela só o aceitou porque a sensação persistente que atormentava seus dias tornou-se ainda mais forte, ao ouvir falar desse mundo esquecido, na orla mais externa da galáxia. Mais do que qualquer recompensa, era isso que a trouxera para este lugar. No entanto, ela já estava bem irritada pela demora em ser contatada. O desejo de ir embora já se insinuava em seus pensamentos quando a entrada de uma mulher chamou a sua atenção. Era bem visível o seu desconforto por estar naquele lugar. Ela foi direto no sujeito que servia no balcão, um alienígena de procedência desconhecida para Shin, mas que parecia ser da mesma espécie do sujeito que vira numa foto no quarto de Sabine. Ela logo viu os dedos pontudos do alienígena apontados em sua direção, sua mão indo direto para o seu sabre de luz. A mulher se aproximou dela.

 

— Você é a pessoa que trabalha para a Guilda?

 

— Quem quer saber? – Pergunta Shin.

 

— Meu nome é Abh’Mari Zot – ela estende a mão em cumprimento, mas tudo o que recebe de Shin é um gesto a convidando para se sentar, o que ela faz de pronto – é você que irá nos ajudar com os bandidos que estão assolando a nossa aldeia?

 

— Eu não estou aqui para ajudar – Shin responde – vocês é que contrataram a Guilda da qual faço parte com uma oferta de trabalho, em troca de um pagamento – se a jovem diante de Shin demonstrou algum abalo pelo que ouviu, soube disfarçar muito bem.

 

— É claro, vocês serão pagos – a mulher responde – nos livrem da extorsão desses bandidos e vocês receberão por isso.

 

— Por que não contataram as forças de segurança da República? – Shin fez essa pergunta, já tendo uma ideia de qual seria a resposta. Era uma forma de conhecer melhor a mulher diante dela.

 

— Você está brincando, não é? Olhe para esse lugar – havia uma raiva reprimida, bem perceptível, no tom de voz dela – para a Nova República nós somos o mesmo que nada. Por incrível que pareça a nossa vida aqui sob o império era até melhor. Não tínhamos nada mesmo que eles precisassem, então pelo menos nos deixavam em paz. E esses bandidos só começaram a nos atormentar depois que o império caiu.

 

Era tudo o que Shin precisava ouvir. Ela discretamente desligou o aparelho num de seus bolsos, a conversa gravada até ali seria suficiente para ser levada até Hera Syndulla. De início, o seu trato com Ahsoka Tano e a ex-general da República era apenas colher informações sobre as movimentações de Thrawn e os demais imperiais. No entanto, demorou muito pouco para Shin se dar conta de que era importante também mostrar o crescente ressentimento que pessoas como a mulher na sua frente já estavam desenvolvendo com a República recém-restaurada. Essa não é a primeira gravação a ser enviada para Hera, certamente não a última. Um lembrete sobre como que entender esse ressentimento era tão importante, quanto os informes sobre as ações de Thrawn, e os demais imperiais remanescentes. A conversa não demorou mais do que o tempo de Shin terminar com a sua bebida. Ela viu a mulher sair primeiro do bar e montar numa moto que estava estacionada na frente do estabelecimento. A antiga Padawan de Baylan Skoll tratou de segui-la com a sua nave.

 

PLANETA LOTHAL – TEMPO PRESENTE

 

— Você tinha razão, Shin – a voz de Ahsoka tem um ar de forte seriedade – ouvir a opinião como a dessa mulher é tão importante quando informações sobre Thrawn. A senadora Organa também está muito preocupada com esse crescente ressentimento contra a Nova República na Orla Exterior.

 

— E o que ela tem feito sobre isso? – a pergunta de Shin não esconde uma certa ironia em seu tom.

 

— Ela tem feito o possível dentro das suas possibilidades – é Hera quem chega para se juntar à conversa – mas creio que a senadora já se deu conta que muita coisa terá de ser feita por fora dos canais burocráticos da República.

 

— É por isso que ela está financiando tudo isso? – Shin faz um gesto, como que abarcando toda a base onde se encontravam.

 

— Não só ela, outras pessoas também estão por trás desse financiamento – é a resposta de Hera – a senadora Organa ainda acredita na possibilidade de fazer a República tomar um rumo certo, mas ela também está se preparando para o caso disso não acontecer.

 

— Esperando pelo melhor, mas se preparando para o pior – é vez de Sabine se pronunciar – me parece uma ótima filosofia de vida – Sabine vê a concordância nos olhares de Shin, Hera e Ahsoka.

 

— Pelo que entendi essa conversa é sobre como a Shin encontrou a sua Padawan – afirma Hera.

 

— Isso mesmo – é a resposta de Sabine, que se vira para Shin, uma clara ansiedade podendo ser vista em seu rosto – vá logo para a parte em que você encontra a Zara.

 

— Acalme-se, Padawan – é a voz de Ahsoka, naquele tom que sempre ajuda a manter Sabine no seu eixo – Shin deve contar tudo no tempo certo, até para entendermos melhor o problema dela com sua Padawan. Continue Shin.

 

SEGUNDA LUA DE PERKON

MENOS DE UM ANO ATRÁS

 

A viagem durou quase duas horas. Shin seguia a moto voadora da mulher que a contatou no bar com a sua nave, enquanto refletia sobre as razões da Guilda ter aceito esse trabalho. Não era típico deles aceitar um trabalho sem garantias prévias de pagamento. Seja quem for a mulher que estivesse seguindo, muito provavelmente deve ter cobrado um favor de alguém dentro da organização, para que Shin fosse mandada até aqui. Em outras circunstâncias ela teria recusado esse trabalho, mas a sensação que a perseguia desde que estava na nave Sion tornou-se mais forte quando ouviu falar desse lugar, como se algo aqui a chamasse. Muito mais do que uma possível recompensa, era acabar de vez com essa sensação de estar em busca de algo, que motivou a vinda dela. Os veículos de ambas pousaram na entrada de uma aldeia de aspecto miserável, com Shin saindo da sua nave para ir ao encontro da outra mulher. Ela deu alguns passos no lado de fora quando viu a mulher correndo em direção a um grupo de homens.

Eram três sujeitos. Mesmo de longe, Shin podia perceber que todos tinham um aspecto bem desagradável. Dois deles eram humanos, mas havia um sujeito cuja espécie parecia a mesma do barman que encaminhou Abh’Mari até ela. Mais uma vez Shin não conhecia, ou não lembrava de que espécie era, algo que pouco a incomodou. O corpo tinha um aspecto escamoso, as orelhas eram enormes, além dos dedos pontudos em cada mão. Os dois humanos também eram desagradáveis de olhar. A antiga Padawan de Baylan Skoll caminhava num passo normal, enquanto via a mulher correndo até chegar nas três figuras. Shin também notou uma menina sendo segurada por um deles, assim como o momento em que ela morde o sujeito que a segurava, conseguindo se livrar. Sua tentativa de fuga, no entanto, é logo interrompida, pois o alienígena escamoso saca um chicote de seu cinto e consegue laçá-la pelas pernas, jogando-a violentamente no chão.

 

— Soltem ela seus covardes – o grito de Abh’Mari Zot chama a atenção dos três sujeitos, um deles agarrando-a com força.

 

— Aqui está você – o sotaque dele soa bem estranho para Shin, mesmo ainda ouvindo de longe – o que vocês duas foram espionar na nossa caverna hein? Nunca te avisaram que esse tipo de curiosidade pode ser muito perigoso? Mostre para ela, Mog – o sujeito se dirigiu ao outro humano, este sacando uma arma e apontando para a menina.

 

— Não – Shin ouve o grito de Abh’Mari, mas algo a manteve em inércia. Ela estava a poucos metros, mas estranhamente apenas observava tudo, como se algo a dissesse que era melhor esperar um pouco, antes de tomar alguma atitude.

 

Tudo parecia se mover em câmera lenta diante do olhar de Shin. Ela viu o sujeito sacando a arma e apontando na direção da menina. A ideia de intervir para evitar o que parecia inevitável não estava muito clara em sua mente. Ela não conhecia ninguém ali. Em condições normais, nem mesmo estaria naquele amontoado de casebres fétidos. Essas pessoas não significavam nada para ela. Foi um segundo antes do tiro ser dado que a situação surgiu muito clara na sua mente. Era uma criança diante dela. O olhar assustado, as roupas que vestia sendo pouco mais que um amontoado de trapos. De repente, a imagem de outra criança surgiu na mente da antiga Jedi sombria, o mesmo medo na face, as vestimentas igualmente esfarrapadas, a mesma situação de desamparo. Foi tudo muito rápido, a mão de Shin indo direto até o seu sabre de luz, ao mesmo tempo em que ela percebia que seu gesto foi muito tardio. O tiro foi disparado na direção da menina antes que ela pudesse fazer algo a respeito.

O receio de Shin se confirmou. Ela mal deu o primeiro passo em direção aos três sujeitos, sabre de luz já ligado, e o tiro foi disparado. O coração de Shin deu um salto, seus ouvidos registrando o grito desesperado da outra mulher, ainda presa nos braços do sujeito que ordenou o tiro. O segundo seguinte pareceu congelado no tempo para todos ali, cada um reagindo ao que estavam vendo. Shin devia ser a única ali que sabia o que estava acontecendo, mas mesmo ela não conseguia evitar o espanto pelo que via. O projétil permanecia parado no ar, poucos metros na direção da menina. Uma das mãos dela estava entendida na direção de onde o tiro veio, claramente detendo a trajetória do objeto, que certamente a mataria se a atingisse.

Shin já tinha ouvido de Baylan, histórias sobre Jedis que eram capazes de tal feito, segurando o disparo de um projétil, até mesmo mudando sua trajetória. A curiosidade, além da típica arrogância adolescente, fez Shin querer testar se tinha essas habilidades. Caberia a Baylan, o adulto, convencê-la da tolice de sua ideia. Em vez disse ele disparou um tiro em sua direção. A arma estava regulada apenas para atordoar, mesmo assim foi um dia inteiro em que ela passou com dores. Nunca mais tentou novamente. Agora ela via uma criança fazer o que ela não foi capaz. Depois da surpresa inicial, Shin já podia perceber que tal feito estava custando caro à menina, suas feições demonstrando o esforço terrível que estava tendo para manter o projétil longe dela. De repente ela se joga para o lado, com o projétil retomando a sua trajetória, mas agora atingindo o chão, no mesmo lugar onde a menina estava.

 

— Mas que merda é esta – o homem que segurava Abh’Mari gritou – atira nela de novo, Mog.

 

O tal Mog voltou a apontar a arma para a menina, mas dessa vez Shin já estava junto. Tanto a arma como parte do braço de Mog caíram no chão. O sabre de luz de Shin cortando a carne com muita facilidade. O sujeito se vira em agonia, encontrando um olhar de fúria fria e implacável. Ele mal tem tempo de articular qualquer expressão, com Shin atravessando seu peitoral com o sabre de luz, basicamente dividindo o coração dele ao meio. Mog já estava morto antes mesmo de atingir o chão. A antiga Padawan de Baylan Skoll voltou-se para os dois restantes, exibindo um sorriso presunçoso no rosto. Esse mesmo sorriso era acompanhado de um olhar que não deixava dúvida do que ela pretendia fazer com ambos.

O sujeito de pele escamosa nem esperou qualquer ordem e começou a atirar em Shin. Ela desviou os tiros com seu sabre de luz, afetando um ar de quase indiferença. Com sua mão livre ela usou o poder da Força para jogar o homem que segurava Abh’Mari, contra uma parede, enquanto se aproximava do sujeito que ainda atirava nela. Shin usou seu sabre de luz para direcionar um dos tiros no sujeito. Um humano normal teria caído ao ser atingido, mas o corpo do alienígena parecia mais resistente, com ele ficando apenas atordoado. A antiga Padawan de Baylan Skoll decidiu terminar a luta logo, usando o sabre de luz para separar a cabeça do alienígena do resto de seu corpo. É justo nesse momento que o ronco de uma moto voadora se fez ouvir. Quando Shin olhou na direção do barulho, viu o último dos sujeitos fugindo em velocidade máxima. Era inútil tentar persegui-lo, então ela se voltou para a menina, que agora estava sendo examinada pela outra mulher.

 

— Você está bem Ath’Zarah? – Abh’Mari perguntou.

 

— Estou sim, eu…

 

— Quem é você? – Shin nem deu tempo da menina responder, agarrando-a com uma das mãos.

 

— Solta ela – Abh’Mari tenta intervir, mas Shin a mantém afastada usando a Força.

 

— Não se meta nisso – Shin responde e depois se volta para a menina – responda pirralha, como você fez aquilo com o projétil?

 

— Eu… eu não… eu não sei – a menina responde, visivelmente assustada – eu sempre fiz isso, mas não tenho ideia de onde vem.

 

— Algumas pessoas na aldeia gostam de dizer que a Ath’Zarah é uma bruxa – é uma Abh’Mari mais calma quem diz.

 

— Ela não é uma bruxa – Shin ainda segura a menina pela gola da roupa, mas seu tom de voz está mais calmo – ela é uma usuária da Força, como eu.

 

— Como assim, como você? – é uma espantada Abh’Mari quem pergunta.

 

— Você acha por acaso que eu aceitei vir até esse buraco fétido por causa de um trabalho que eu nem sei se vocês tem condições de pagar? – é uma Shin com um sorriso provocador quem responde – só aceitei te acompanhar porque alguma coisa estava me atraindo a esse lugar – ela se volta para a menina, o rosto exibindo uma expressão perigosa – a questão é saber o que me atraiu até aqui. Se foi a Força, ou se foi Abeloth.


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Notas finais do capítulo

Capítulo 10 postado como prometido. Estou firmemente convicto que essa fanfic terá 18 capítulos, sendo que já estou escrevendo a primeira versão do capítulo 16. Seguiremos com as postagens semanais, ou seja, capítulo 11 no próximo domingo.



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